segunda-feira, novembro 02, 2009

A DANÇA DOS ESTORNINHOS. PRIMEIRA REPETIÇÃO





No dia 3, do passado mês de Outubro, o Rui Rosado e a Ana Silva, repetiram a "Dança dos Estorninhos", no Douro Internacional. A via foi realizada em oito horas e o Rui Rosado encadeou o primeiro lance, cotado de 7a.

Mais uma vez, a escalada foi realizada fora da época de nidificação de aves e, da forma mais respeitosa possivel, de acordo com a tranquilidade do lugar.

O que se segue é o relato, pela pena de Rui Rosado. As fotos são de Ana Silva e Rui Rosado.


A fauna local.


A DANÇA DOS ESTORNINHOS


Em 2007 havia estado no Douro, um fim de semana, com a Ana para tentar repetir a Terra de Ninguém. Devido à falta de tempo para realizar a viagem de ida e regresso, fazer a aproximação e escalar a via, abandonámos a Terra de Ninguém no terceiro largo. Desistir é sempre amargo, mas analisando os nossos erros, podemos sempre tentar melhorar. E foi com esse espirito que rapelámos, olhando para cima para os restantes largos que não havíamos provado - Havemos de Voltar!


O personagem a descansar.

E infelizmente dois anos passaram num piscar de olhos e demos por nós já em 2009 com o tempo a correr demasiado depressa entre as nossas mãos! Era tempo de voltar! O que nos fez levar o mês de Setembro todo a sonhar com o regresso à dita via, mas como o calor ainda era muito, aguardámos pelo fim-de-semana prolongado de Outubro. Na véspera da partida, com os mantimentos já comprados e a lista de material já definida na mente, cai o Carmo e a Trindade porque o tempo previa piorar a meio do fim-de-semana. O plano tinha ido literalmente por água a baixo. Fustigando-me com o Camalot nº4 contra a cabeça para a aplacar a raiva que me consumia, comecei à procura de alternativas.

Surgiu o plano de tentar a Dança dos Estorninhos, mas esquecendo essa cena do bigwall e ir numa de ascensão no dia, nonstop até se acabarem as pilhas da tikka ou a pele nos dedos. Uns quantos telefonemas para o Roxo a pedir opinião e o plano parecia concretizável. "Pois pá, se começarem bem cedo deve dar!" Mais uns quantos telefonemas para acertar o tema do material necessário para escalar a via e estávamos a caminho do Douro.

Pelo caminho ainda me ligou o Bruno Gaspar a dar um flash completo e detalhado da via largo por largo rematando algo do estilo: "Apanhaste-me de surpresa e eu não estou a ver o croqui de momento, mas é mais ou menos isto!" e eu a pensar que não me lembrava dos passos da ultima via que escalei e, o Bruno aqui a puxar pelos miolos para nos ajudar a tentar lembrar-se de uma via de à 2 anos atrás. E assim foi, com a energia positiva do Bruno, do Roxo e da Galp lá fomos Portugal acima em direcção ao Douro.

Indo leves descemos a Floresta do Bornéu numa hora, o mesmo será dizer, enquanto o diabo esfrega um olho. Da última vez andámos muito à procura do caminho e desta vez sabíamos já que direcções tomar! Estávamos motivados!


A Ana na floresta do Bornéu.


Na base da parede, detectámos o mais elementar erro que um abridor de vias não pode cometer se pretende mesmo que a sua via seja repetida, não existia nenhuma pedra colada com o nome da respectiva e a cotação (ou decotação, em Portugal é costume acontecer).

Ana -"É melhor despachares-te!"

Rui- "É só mais um minuto, para ter a certeza que é mesmo aqui!"

É que no croqui dizia L1 Diedro Estético. E o conceito de estética varia muito de pessoa para pessoa quanto mais de escalador para escalador. E então, o que ao Roxo pode parecer apelativamente estético, a mim por vezes arrepia-me a espinha até ao arnês! E eu tentava avaliar se a estética daquele diedro que se me deparava em frente, seria a mesma a que se referia o croqui. Parecia ser, apertados os pés de gato, conferidos os friends e magnesiadas as mãos, era hora de começar.


O "diedro estético" (7a).


E pronto, eram 09.00h quando começámos o primeiro largo e 17.20H quando a Ana se juntou a mim na última reunião do oitavo largo. Não vos maço com os pormenores da via porque (é claro), quero-vos dar a hipótese de ir “à vista”. Para além de que, a descrição da abertura da via, por si só, diz tudo.


O terceiro lance, ainda mais "estético"!


No entanto, ressalvo que para além de se saber escalar é preciso também saber trepar, para bom entendedor meio punhado de terra e erva de uma daquelas fissuras, basta!

A escalada é maravilhosa e surpreendente por vezes em presas tipo ampulheta. Sim, ficas mesmo surpreendido quando metes o pé num socalco de terra existente na fissura e qual ampulheta a terra começa a desagregar-se e a escorrer, sabes que tens entre 10 a 30 segundos para encontrar uma boa presa de mão tipo reglete de mão cheia (piada) ou para escavar freneticamente a fissura, na esperança de conseguires enfiar um friend a canhão e, seguir para cima ou pelo menos entalar as mãos (mesmo que doa muito), antes que essa presa de pé desapareça.


Atrás do "Homem do circo", mais de 300 metros de vazio!


Agora sério, parabéns ao Roxo e ao Bruno pela abertura desta linha, de certeza que se divertiram bem mais do que eu, porque neste tipo de empreendimentos, numa repetição não se conseguem viver os mesmos momentos que se passaram na abertura. A escalada, a dúvida, o risco, a incerteza, as decisões, no fundo, a conquista (e claro os palavrões), não serão nunca os mesmos. Agradeço-vos do fundo do coração (e do resto do corpinho todo) todas as marteladas que tiveram de dar ao longo de 3 extenuantes dias para colocar todos aquelas reuniões, plaquetes e buris ao longo da via que nos permitiram fluir parede acima.


Rosado


Fuga (sem petates gigantes!)



Ficha técnica:

A Dança dos Estorninhos -Picon de La Carroçera - Douro Internacional

310 mts 6c/A1 Bruno Gaspar e Paulo Roxo 1-4 Novembro 2008

A via tem oito largos e foi repetida em 8 horas(09:00h-1700h) no dia 3 Outubro 2009.

Convém um nível mínimo de 6b em via desequipada e bastante habito em escalada arificial (até A1),bem como um cordada eficiente e rápido para tentar a via no dia.

Passar uma noite na parede e sair no segundo dia penso que também é uma experiência inolvidável.






Para os seguintes repetidores:


No L3 foram deixados 2 pitons no final do diedro antes da placa burilada (tecto). No L7 foi deixado outro piton (na fenda entre a vegetação).

Material aconselhado:

Conjunto de friends repetido até ao nº 2, um nº 3, dois nºs 4, incluir microfriends.

1 conjunto Nuts (incluindo micro nuts).

1 estribo pax (se forem num singlepush, senão, um par por pax).

2 pitons (universais pequenos, se forem habilidosos a colocar micronuts, os pitons são desnecessários)

a restante quinquilharia do costume.


Época aconselhável:


De Setembro a Principios de Dezembro.

Escalar sempre fora da época de nidificação de aves.



terça-feira, novembro 27, 2007

O Bigwall dos pobres


Vistas Lusitanas.


- Aaaagh!

O Bruno olhou-me detrás do seu frontal e, com voz pausada disse: -Calma... vamos tentar de novo!

Já déramos voltas e voltas para tentar montar a hamaca. A armação de alumínio recusava encaixar-se devidamente e, passados uns vinte minutos de esforço, suspenso pelo arnés e embrulhado nas ramadas de uma “sabina” ( espécie de arbusto, muito resistente) eu explodia de raiva. –Aaaagh!

De súbito, um ligeiro toque de graça e uma torcida mais suave provocou o “clack!” característico que anunciava, finalmente, o inicio de mais uma noite de descanso, a terceira desde que nos puséramos a escalar.

Adormecemos com as sombras do mar de granito que interrompia, lá em cima, o fluxo de estrelas da Via Láctea.

No dia seguinte: “Cucu!... Toiing!...Cucu!...Toiing!...”, o som do meu telemovel com pretensões a despertador revelou a dura realidade. Eram as cinco da matina!

Esperava-nos duas horas de ocupação, a tomar o pequeno almoço, a desmontar a hamaca e a arrumar tudo nos petates. Tudo, sem deixar cair nada ao vazio.


O nascer do Sol do primeiro dia.


"Carregados como burros!"

Existem vários locais do mundo onde praticar a muito particular disciplina de escalada conhecida como Bigwall: Yosemite, Patagonia, Torres do Trango, Paine, etc. Visitar qualquer um destes locais envolve um considerável volume de euros acumulados nos bolsos mais abastados ou, nas contas de rarissimas entidades patrocinadoras.

Para nós, lusitanos e Europeus de segunda, organizar e financiar uma visita a qualquer um destes sítios, resulta numa empresa com proporções expedicionárias, antes mesmo de pisar o solo do destino sonhado (Ok! Neste ultimo parágrafo é favor substituir parte da frase por: “Para mim, cidadão do sistema solar e europeu de terceira, organizar e... blá, blá, blá!...”).

Mas, eis que surge, mesmo aqui ao lado, um local com as características de Bigwall, em dimensões e emoções. Um local descaradamente escancarado e paradoxalmente esquecido. Um local de beleza e silêncio arrebatadores, pejado de vida e energia.

Pode não ter a qualidade dos seus primos maiores, anteriormente referidos mas, aqui também a palavra Aventura se escreve com um A proporcional ao tamanho.

Claro, um local também sensível, com uma ecologia única que convêm preservar. Mais uma vez, ali está a época de nidificação de aves que se deve respeitar (não escalando, de Janeiro a Agosto), não porque uma qualquer instituição (por vezes dúbia) assim o exija mas sim, porque dentro de nós, sabemos que devemos estimar estes encaixados territórios selvagens.


O rapel de acesso à Floresta!

No interior da Floresta do Bornéu.


Ainda lá dentro!

Desta vez, a aventura tocou-nos ao Bruno Gaspar e a mim.

Em duas horas e meia, carregados como burros, conseguimos realizar a primeira parte da “expedição”... a aproximação.

Constatámos surpreendidos que o acesso se encontra muito mais... humano.

Muitas da Silvas que tanto nos atormentaram ao Miguel Grillo e a mim na altura da exploração em 2004 e, na altura da abertura da “Terra de ninguém” (dois anos depois), tinham quase desaparecido.

Já na base da via pretendida pensava no porreiro que tinha sido reduzir a quantidade de aí`s, ui`s (!) e variado praguejar, durante a descida da luxuriante “Floresta do Bornéu”.


O primeiro lance vislumbra-se por entre o bosque.


A primeira noite ao nível do solo.

Na terceira reunião, o “relé dos bafos” (não me perguntem a origem do nome mas, acho que teve algo que ver com o facto do urinol ter ficado demasiado próximo da hamaca!), reorganizámos o material nos petates e arneses.

Eram as seis da manhã.

De súbito, um ruído grave e arrastado interrompeu o idílico silêncio habitual: “VruumMM!”. Olhámos para trás, ainda a tempo de avistar uma grande nuvem negra que, num segundo, emergiu de um pequeno bosque suspenso na vertente oposta. – Uau! Morcegos!- gritou o Bruno. – Morcegos?! A estas horas?! Não... são pássaros!

Um gigantesco bando de Estorninhos formava uma coluna negra que bailava graciosamente a escassas dezenas de metros da nossa posição. O espectáculo era magnifico e ficámos para ali boquiabertos, a observar o inédito fenómeno ondulante. A nuvem virou e rodopiou como um lenço ao vento e, tão rápido como emergiu, afundou-se com grande estrondo num novo manto de árvores.

O silêncio retornou ao local.

- Já temos nome para a via! A dança dos Estorninhos!


Uma feliz descoberta no terceiro lance: Fissura perfeita!


No mesmo lance.

Petates sobre o vazio.

Bruno na "Reunião dos bafos".

Calhou ao Bruno a abertura do sétimo lance.

- Já estou muito pesado. Chega de material. Tá a andar!

Meti a corda no Gri-gri e dei-lhe uma palmada nas costas.

Sem hesitar, o Bruno começou a escalar em livre as duas fissuras paralelas verticais. Quanto a mim, restava-me dar corda e observar, comodamente instalado na melhor reunião de toda a via. Uma pequena mas perfeita plataforma horizontal, com uma cadeira de encosto constituída por uma pequena árvore.

O Bruno colocou um friend, deu-lhe um esticão de confirmação e continuou a escalar. Pouco depois, um novo friend protegeu os passos seguintes... os muitos passos seguintes! As duas fissuras terminaram para dar lugar a uma pequena travessia que, visto desde baixo, parecia permitir aceder a um diedro evidente. Vi o Bruno a ignorar o “run-out” e a lançar-se decidido à travessia. As mãos agarraram umas presas mais ou menos francas e os pés descolaram da rocha para, num “swing”a 180 graus, voltar a “colar” muito mais à direita. Reposição e... imediata constatação que a parede era bem mais vertical que o calculado antes do movimento. Pequenas armadilhas de se escalar em livre e à vista. – Ei Roxo, atenção aí!- sempre que alguém me faz este pedido (ou quando sou eu a pedir!) vem-me à memória a célebre figura do Paulo Gorjão, com a voz irritantemente pausada e desde o solo a contestar a um determinado escalador mais apurado: -Tu é que tens de ter atenção!

Optei por não atirar com esta frase emblemática ao Bruno. Talvez não viesse muito a propósito, especialmente perante a interessante perspectiva de um vôo com mais de dez metros.

A única fissura da placa nem sequer era uma fissura. Tratava-se do intervalo produzido por uma pequena lastra “amovível” que aceitou um pequeno alien (o verde do “semáforo”).

Com a cara colada à rocha para se equilibrar, o Bruno decidiu por fim, agarrar-se ao friend duvidoso. Tentei adivinhar a trajectória da queda. A antevisão não foi das melhores. Seria um belo vôo em pêndulo que o colocaria seguramente abaixo da minha posição. Preparei-me para puxar corda no Gri.

O friend lá aguentou com o peso do Bruno. Foi a sua oportunidade para martelar um bom piton numa fissurinha que espreitava trocista.

Espirito renovado para continuar!


Ligeiro toque solar no terceiro lance.


Quinto lance de protecções "arbustivas" mas, de progressão razoável.


Em BigWal vale (quase) tudo!

"O que me espera?"

Situação peculiar.

O diedro era muito atractivo... não fosse a fissura estar completamente coberta por uma grossa camada de ervas agarradas por terra endurecida, resultado de anos e anos de acumulação de poeiras trazidas pelo vento. De “escavador” em riste (uma velha escova transformada em espigão) ia conquistando cada centímetro do diedro.

Verdadeiras cascatas de terra e erva ião caindo ao vazio... sobre o Bruno! O pobre do meu companheiro encontrava-se directamente por baixo, amarrado à reunião, apoiado nos petates e, sem possibilidade de se desviar. – Ei, Bruno. Não olhes agora para cima!

Uma nova enxurrada de detritos precipitou-se em sua direcção. – Desculpa, não dá para evitar!- disse eu, com voz sentida.

- Ok! É na boa!...- respondeu, ao mesmo tempo que fechava a gola do casaco de penas, numa tentativa de selar as possíveis entradas de terra.

Os momentos “retro-escavadora” sucederam-se.

Pensava na sorte dos possíveis repetidores: encontrar o largo todo limpinho.

Mais acima encontrei umas regletes perfeitas. Afastei-me do alinhamento lógico do diedro e coloquei-me em cheio na placa. Para grande alívio do meu assegurador constatei não necessitar de escavar mais. Á minha frente erguia-se uma placa lisa. Burilador! Duas plaquetes depois, a coisa parecia conduzir a mais um pêndulo (o segundo da via).

O Bruno desceu-me alguns metros. Suspenso na ultima plaquete comecei a iniciar o baloiço horizontal. Corri uma, duas vezes e, lá me agarrei a umas presas arredondadas e musgosas. Subi para cima das presas e voltei a respirar. “Mmmm...” analisei a minha situação. A corda encontrava-se agora numa linha perfeitamente horizontal a uns sete metros da ultima protecção. Para cima revelava-se um passo de aspecto difícil e desequilibrante, impossível de proteger.

Na eventualidade de falhar seria uma valente queda em pêndulo perfeito. Em principio não me iria matar mas, o cenário potencial não era propriamente apelativo.

Realizei dois curtos passos. A mão direita descobriu uma presa lateral razoável. O pé direito subiu para uma micro-reglete duvidosa. “Só tenho de realizar um pé/mão à esquerda e...”. Hesitei... hesitei... desisti! Voltei a destrepar. Voltei a olhar para a distância que me separava da ultima protecção. Lá embaixo, o Bruno incitava-me: - Vai lá!

Tentei duas vezes mais mas, o receio apoderou-se e não consegui realizar o passo que (ainda por cima!), calculei não passar do quinto grau. A mente tinha bloqueado.

Descobri uma pequena reglete horizontal. “E se?...” Para meu espanto o pequeno gancho agarrou-se à saliência. “Merda, isto aguenta! Agora tenho mesmo de subir. Que chatice!” Muito cautelosamente subi ao primeiro degrau do estribo. Mais uma vez observei o mega-pêndulo que me esperava se... –Ai que medo!- solucei ao vento, sem me atrever a respirar. Subi ao segundo degrau do estribo. – Ai que medo!- o gancho mantinha-se na posição e, lá consegui saltar para as presas avidamente desejadas.

O resto da escalada sem historia depositou-me no topo da via.

Dei um grito de satisfação.

Na reunião suspensa o Bruno batia palmas.

Finalmente, podíamos tomar um banho... na fonte publica do parque de merendas!


Paulo Roxo


A tranquilidade...

Bruno no rapel pêndular.

Ping! Ping! Ping!


"Vai lá Brunex! Vai lá!..."


Jumareando o ultimo lance.


É o fim!... Por fim!

Por ali anda a "Piu?!"


Adeus!

Até à vista!



sexta-feira, outubro 12, 2007

Piu?!

Um par de botas e um de pés de gato!

A via

Antes de passar ao texto da Daniela gostaria de referir que a visita ao Douro nesta altura particular do ano foi absolutamente intencional. É que este é o período em que os passarinhos se desinteressam pela procriação, estando muito mais preocupados em empaturrar-se com o que podem apanhar.

Bem, a questão é que estamos bem conscientes da importância de respeitar as épocas de nidificação e tentámos reduzir ao máximo o impacto produzido pela nossa fugaz presença, ao contrário dos caçadores que, com os seus estampidos, se fizeram notar com pompa e circunstância.

De todos modos, a via de escalada inaugurada é uma via de aventura (muita aventura!), com um grau de compromisso razoável e uma desdenhável quantidade de equipamento fixo (algumas plaquetes que mal se vêem!). Por este motivo estamos convencidos que esta jamais será uma via concorrida.

Paulo Roxo

Brumas matinais no Douro


"O Solitário" é o bloco em equilibrio que domina o segundo pilar.

Desde há algum tempo que os nossos olhares tinham descoberto a linha a escalar naquele enorme esporão que se avistava do lado de lá da fronteira, do lado de lá das águas do Douro. Um esporão repartido por três elegantes pilares.

A combinação entre a época de nidificação da passarada local, os quilómetros de distância à zona centro do país e os muitos metros de parede, atrasaram o primeiro assédio a mais uma fabulosa parede perdida em terras lusas.

Contávamos com três dias para tentar abrir uma via com um desnível aproximado de 380m.

Para a dita ascensão, optamos pelo método “semi-big-walleiro”, isto é, sem dormidas na parede (estimámos cerca de 1h30min para a aproximação), mas não dispensando um petate que arrastamos rocha acima com o material necessário para acelerar a trepada e torná-la relativamente confortável, furadeira, roupa extra, água, comida...É preciso não esquecer a tentação que representa a posta à mirandesa no final de um dia de escalada...valeu-nos o desgaste de uns belos centímetros de sola de sapato!

Guiados pelos “riscos topográficos do exército”...ok, e um pouco pela imaginação, iniciamos a caminhada de aproximação na sexta-feira (5/10) quando a manhã estava ainda a bocejar, prevendo começar a escalada por volta das 11...11:30. Nada mais longe da realidade. Entre o topo da falésia e o acesso que conseguimos descobrir para nos enfiarmos no esporão, derretemos incontáveis parcelas de tempo precioso. Por entre “Aus!” e “Uis!”, picados pelas silvas e outras plantas férteis em duras agulhas, andámos por ali às voltas e apenas à uma da tarde conseguimos acedemos a um ponto da parede. Estávamos entre o 2º e o 3º pilar, sensivelmente a 2/3 da altura do dito esporão, pelo que nos faltava ainda rapelar até à base...também rapeis exploratórios! Como já seria impossível chegar à base e escalar até aquele mesmo ponto antes de anoitecer, tivemos de nos resignar, deixar o material por ali e patear tuuuuuuudo para trás para voltar no dia seguinte.

"mmm... por onde seguir?"

Uma brecha natural entre blocos.

Tendo em conta as 2h para aceder à parede e os rapeis que ainda teríamos de realizar, achamos por bem no Sábado, abrir os olhinhos às 6 da manhã. Tal como previsto, os rapeis levaram o seu tempo e só pelas 13h iniciámos a escalada...pelo sítio errado!

Rapel exploratório!

O Paulo lançou-se com avidez à linha que inicialmente tínhamos estudado nas fotografias. Este pequeníssimo detalhe, consumiu-nos uma horita mais.

A falta de visibilidade dos lances (que com uma ou outra surpresa inesperada poderiam fazer o dia terminar em noite) e o avançar repentino das horas, levaram-nos a optar por outra linha. Uma que não fazia supor muitos problemas (novamente, nada mais longe da realidade!). Nessa altura ainda tínhamos em mente, que o 1º, seria o pilar mais complicado, mais vertical (pelo menos assim o parecia nas fotos! Mais um engano!).

Enquanto eu observava deliciada os peixes que saltavam da água abocanhando moscas desprevenidas e as dezenas de abutres que dançavam alguns metros acima de nós, o Paulo progredia como podia numa daquelas chaminés (des)elegantes. A certa altura, uns bons 6m acima da última protecção, decide-se a colocar um perninho para não prolongar o run-out (registe-se este momento, como o ponto de partida de uma verdadeira sequência de problemas).

O primeiro e eterno lance.

Máquina no cordino prontinha para ser içada e upa upa, lá vai ela, até que...fica presa num pequeno tecto! Naquela altura, nem a fúria do Paulo conseguiu fazer com que a máquina chegasse ao seu destino...bom...nem ao seu destino nem ao meu! É que nem para cima, nem para baixo! Ou seja, Paulo irritado, com um run-out considerável (uma árvore esperava-o lá em baixo, de ramos abertos), sem lugar para proteger e sem máquina. Dupla de trepadores sem cordino, para içar o petate que esperava cá em baixo!

Ok, a coisa assim ainda é passível de se resolver. Deixei uma das cordas duplas para o petate, encordando-me apenas na outra. O Paulo, lá se resignou e continuou mais uns metros sem proteger, entalado em formato “daqui eu não caio, daqui ninguém me tira”.

Quando o largo parecia terminado, os escassos 2m de corda que ainda estavam por passar no meu reverso, revelaram-se insuficientes para os 5 que faltavam até à reunião. “Daniela, tens de subir um bocaaaaadooo”. Mas...se bem se lembram, comigo tinha o petate já à espera de ser içado numa das cordas. “Paulo, consegues içar um pouco o petate de onde estás? Tem de ser içado do chão antes de eu começar a subir, para que não se prenda em naaaaaada”. E assim foi, Paulo numa posição precária a içar petate (num micro-friend bastante duvidoso), para depois subirmos uns metros “en samble”. Escusado será dizer, que com a sorte que nos bafejava, tanto o petate como a máquina se prenderam em todos os sítios possíveis, tornando assim, a minha chegada à primeira reunião, lenta e extenuante.

BigWall à séria no lado Espanhol. A "Terra de ninguém"anda por aí!

O dia já ia avançado e nós ali, ainda na primeira reunião. Mas a esperança estava viva “Vamos sair no fim do 1º pilar e amanhã voltamos”. Pois sim! Depois dos restantes dois largos, mais duritos do que aparentavam ser pelas fotos, pelas 17:20 aterrávamos no topo do 1º pilar, apenas para constatar que...por ali não sairíamos de certeza! A floresta que se observava na inclinada vertente adjacente era absolutamente intransponível.

Solução? Escalar o 2º pilar, tão longo como o primeiro. Havia a crença de que este pilar seria tecnicamente mais fácil que o anterior, já que a inclinação parecia menos acentuada...mais uma ilusão!

Entre as 17:30 e as 19:30 (talvez com um ligeiro sopro de sorte dentro de tanto azar?!), conseguimos transpor cerca de 120 m, repartidos por 3 trabalhosos largos. Em jeito de pequeno resumo, posso dizer que o Paulo, parecia o Dean Poter a correr pelo El Capitan acima, para além de estar preparado para trepar com um reduzido número de protecções (Eu vi! Eu vi! Fez mais de 10m em placas de pelo menos 6a, sem meter nada! Sim, daquelas em que não há mãos e em que os pés têm de ser muuuuuuitooooo bem aplicadinhos). “He’s got the balls baby”! Eu, fiquei perita em “comer” metros subindo por uma das cordas que se fixava! Os “meus” largos decorreram entre este novíssimo estilo, escalar os poucos passos em que não dava para agarrar nada, e desbloquear o petate que teimava em prender-se a tudo, a cada meia dúzia de metros à medida que subia.

Quando a noite me deu a primeira dentada nos calcanhares, pisei o topo do 2º pilar. Uf! Tínhamos conseguido chegar ao único escape da via num tempo...absolutamente record! Faltava-nos apenas arrumar tudo (sim, porque já não havia ânimo para voltar no Domingo!) e rumar ao carro carregados que nem burros. 2 horas de desgaste de botinha, com um início bastante desagradável para fazer à noite “Au...Ui...acabei de engolir uma borboleta nocturna...”! O dia terminou às 21:30 (longo, não?). Estávamos decididos, o terceiro pilar ficaria para outra ocasião. Debatíamos no jantar se a via terminaria ali, ou se um dia haveríamos de voltar para abrir o ultimo pilar. Ainda a pensar nisso adormecemos, cansados mas felizes por esta nova abertura.

Reservamos o Domingo para a Serra da Estrela, mas durante o pequeno-almoço (lá pelas 8:30) acabamos por decidir tentar a nossa sorte...no 3º pilar “...já que aqui estamos!”.

Os abutres, curiosos.

Novamente, carregados que nem burros, com o material que resolvemos rebocar até ao carro na noite anterior, fizemos toda a caminhada de acesso até à base do terceiro pilar (nesta fase já as meias teimavam em mostrar o seu padrão, através das translúcidas solas das botas).

A diferença crucial para o dia anterior, foi planearmos a coisa de forma a não haver desta vez petate para arrastar (valioso rasgo de inteligência!).

O largo de acesso ao terceiro pilar. O "solitário" espreita à direita.

Assim, no terceiro dia de aventura, pelas 11:30 estávamos novamente metidos no esporão. Desta vez, esperava-nos o pilar supostamente menos inclinado, mas a parede não deixava de nos surpreender. Dos quatro largos que escalamos com (finalmente) tranquilidade, os dois do meio foram os mais complicados da via!

No inicio do lance mais dificil. "Aqui ainda é fácil".

Pelas 14:30 estávamos no topo da falésia com um sorriso do tamanho da linha. 400 longos metros conquistados com esforço, não só físico como muito mental!

Faltava-nos apenas...mais 1h de caminhada, cansados e carregados até ao “bólide”. Uma hora de conversa sobre este e aquele e mais aquele percalço. Uma hora em que o sol nos acompanhou, assim como os comentários sobre a vontade de voltar aquele lugar onde as sensações intensas estão sempre garantidas.

Voltamos felizes deixando para trás a dança com que os abutres nos brindaram durante três longos, intensos e deliciosos dias.

Piu?!

Daniela Teixeira

Mapa de acesso

Topo


Primeiro pilar.


Segundo pilar.

Terceiro pilar.