domingo, junho 10, 2018

El Chorro

retornamos a EL CHORRO!


El Chorro. Sinónimo de grandes paredes


El Chorro foi um lugar que aprendemos a acarinhar. Lugar histórico para a escalada em Espanha mas, que representa também muito para os Portugueses que, ao longo de várias décadas foram visitando as suas paredes.
Durante os anos de revolução da escalada, com o nascimento da escalada desportiva, o El Chorro teve um papel fundamental, tornando-se num dos locais mais emblemáticos da Europa. As suas longas vias equipadas ganharam projecção internacional e, tendo um clima benigno como cúmplice, cedo se transformou numa meca mundial para o emergente “Free climbing spirit”.



No terceiro lance da "Tuga Tuguinhas". Aventura total, com alguns blocos precários à mistura



O segundo largo da "Tuga Tuguinhas", pequeno mas, delicado: "Cuidado com os blocos!"


Já na década de 2000, um ressurgimento da escalada tradicional (Trad), veio relembrar que o El Chorro não era “só desportiva”. Com efeito, as suas paredes enormes (algumas com 300 metros) constituíam um terreno de jogo ideal para aqueles que, com alguma imaginação, procurassem algo que fosse para além das plaquetes e das vias equipadas desde o topo.
Não sem surpresa, descobrimos ali várias linhas virgens, aptas para aberturas desde baixo. Adoptando uma filosofia de escalada de aventura, seguimos linhas lógicas e intuitivas de fissura, onde as protecções móveis foram abundantes e nas quais o equipamento fixo se tornou residual.


A Daniela a emergir no topo da "Aniversário Gitano", uma aresta fácil e bonita para finalizar



No extraordinário terceiro lance da "Tuga Tuguinhas"


Hoje em dia, o El Chorro está muito diferente dos tempos idealistas e utópicos que marcaram os anos 80 e 90. O refúgio de escaladores, verdadeiro antro de “espíritos livres”, desapareceu. O “bar da estação” tornou-se num lugar “cool” da moda, perdendo muito da sua autenticidade original. O golpe final, o verdadeiro canto do cisne, surgiu com a “requalificação” do famoso “Caminito del Rey” que foi transformado num passadiço turístico, atraindo milhares de pessoas que se acumulam ao longo de um vale belíssimo, com as suas gargantas profundas e, outrora, tranquilas. Antes, apenas alguns aventureiros e escaladores cruzavam aqueles passadiços degradados. Hoje, está acessível a qualquer um e tornou-se num fenómeno de turismo de massas. Visitar o vale de Abdalajís transformou-se num acto circense, diário e com uma audiência a abarrotar. Para o negócio local, a curto prazo, é excelente, com o aumento exponencial de hotelaria e restauração, entre outros serviços. Ao nível ecológico ainda estará por provar o seu impacto negativo, mas adivinha-se enorme. Sob o ponto de vista dos escaladores é trágico. Todos os sectores existentes por cima do “Caminito” estão agora proibidos e, com eles, perdeu-se um legado histórico inestimável.



A iniciar o segundo lance da "Aniversário Gitano". Trata-se do largo mais difícil e atlético da via



A Daniela a entrar na secção de saída do primeiro lance na "Aniversário Gitano"



O segundo lance da "Aniversário Gitano". Atlético e fabuloso!


A Daniela e eu, ainda tivemos a sorte de conhecer o El Chorro autêntico, o El Chorro “pré-caminito-comercial”. Tivemos a sorte de poder escalar e inclusivamente abrir algumas vias que agora fazem parte do grande grupo das proibidas, pois cruzam paredes que partem do carreiro das “formigas humanas” que agora assolam todos os dias as gargantas de calcário.
Porque testemunhámos ao vivo a tranquilidade do passado, a mudança radical caiu-nos como um soco no estômago.
Então, decidimos nunca mais voltar ao El Chorro!



A sair da "Tuga Tuguinhas". Por detrás, as paredes tranquilas do Sector Suizo, El Chorro



A Daniela a desfrutar da "Tuga Tuguinhas"



Climbing Life!


Após alguns anos de reflexão, chegámos à conclusão que, quiçá, ainda pudesse existir um El Chorro sereno. Uma espécie de último reduto, longe da multidão. Um local onde ainda fosse possível dormir sem ruídos artificiais, apenas acompanhados pelo vento quebrado nas ramadas dos pinheiros e pelo cantar dos pássaros nas madrugadas tranquilas.



...o vento quebrado nas ramadas dos pinheiros, convida ao descanso...


Buscando uma nova utopia, resolvemos voltar ao El Chorro!

E descobrimos o nosso recanto, à vista de todos, mas estranhamente isolado…



Paulo Roxo


TOPOS


Vias abertas em 4 e 5 de Junho de 2018






sexta-feira, janeiro 15, 2016

Todos os caminhos vão dar a...

TODOS OS CAMINHOS VÃO DAR A...
EL CHORRO!




Rumámos para leste com a cabeça cheia de possibilidades.
Apesar de já ter passado um ano desde o meu acidente de escalada, ainda me encontro em fase de recuperação. Esta actividade iria funcionar como teste: “O teste!”
Quanto ao clima, nas semanas anteriores à nossa partida tinha-se portado de uma forma demasiado benevolente. O que era um mau presságio para as seguintes semanas, justamente as “nossas” semanas.
Tendo em conta as minhas limitações e a imprevisibilidade climática, a Daniela e eu carregámos a Berlingo com… tudo! Piolets, botas de montanha, pés-de-gato, múltiplas cordas: simples, duplas de gelo, duplas de rocha e toda a parafernália e quinquilharia necessária.
Com o olho piscado às montanhas de neve e gelo, iríamos, no entanto, preparados para qualquer outra coisa.
Tal como esperado, mal saímos de Portugal, as previsões começaram a apontar para uma degradação do tempo em montanha.
Uma fugaz passagem pelos - sempre fantásticos - Mallos de Riglos e, aproveitando uma “aberta” de dois dias, preparámos tudo para tentar uma nova via na face noroeste dos Gabietos (3035m), nos Pirinéus. Aquela montanha já não nos é uma estranha. Em 2013 eu e a Daniela abrimos ali uma nova via, a “Variante Pops” e no ano anterior eu tinha já aberto uma outra via, a “Perro Marrón”, encordado ao Tiago Faneca.


A face Noroeste do Gabietos. 500 metros de parede e gloriosa. Desta vez... não se deixou dominar!


A Face noroeste do Gabietos é uma parede impressionante, com cerca de 500 metros, raiada por numerosos corredores, estrias geladas e esporões de rocha friável. Este aspecto ostenta uma verdadeira parede com ambiente de alta montanha.
Passámos a noite num pequeno refugio degradado e, na madrugada seguinte, lá fomos a caminho da parede. No entanto, à medida que nos aproximávamos, a neve que julgámos perfeitamente transformada e dura, deixou muito a desejar. Ao chegar à base da via escolhida, confirmámos aquilo que suspeitávamos durante a hora e meia de aproximação: neve inconsistente e inexistência absoluta de gelo. Hesitamos na decisão durante alguns minutos e, finalmente, metemo-nos vale abaixo.
Cheguei ao estacionamento a coxear como um deficiente. Apesar do fracasso, tinha sido um bom teste para os meus tornozelos. “Hora de meter mais um “Voltaren”!”


"Eu levo mais peso para te poupar os pézinhos!" - Não era uma novidade. Na cordada, geralmente, a Daniela leva sempre o mesmo peso (ou mais!) que o seu par!


Nos dias seguintes, as previsões apontavam para tempo mau e temperaturas altas nos Pirinéus. Mau para alpinismo, mau para escalada em rocha. “Que fazer?”
“E se fossemos a Culla?” – sugeri.
Culla é um pequeno povoado bonito, localizado a norte da província de Valência. Marginando a povoação existem numerosas paredes selvagens e isoladas, terreno ideal para colmatar o nosso espírito de exploração e novas aventuras.


As fantásticas e selvagens paredes de Culla. Um bom lugar para escutar o silêncio absoluto.


Há doze anos, vagueei por ali e tive a sorte de abrir cinco vias de aventura, com alturas até aos 260 metros. Três delas foram abertas em solitário, uma encordado com o Miguel Grillo - em três dias de "fun" - e a última com a Yolanda Traver. 
Já passou muito tempo e a minha memória apagou muitos “detalhes”, como o tempo de aproximação, o acesso exacto, etc. O cérebro deve ter feito uma selecção das memórias mais importantes, conservando as de maior impacto. Naquela altura, o “maior impacto” não estaria com certeza na mera aproximação. Essa era secundária. Hoje porém, não é bem assim. Para já, com as minhas mais recentes limitações físicas, as aproximações e retiradas têm um papel crucial e decisivo.


"Será por aqui?"


Escalámos quatro lances de uma nova via mas o céu resolveu brindar-nos com alguma chuva. A chuva suficiente para nos obrigar a “rapelar”. Quando tocámos o solo, a chuva entretanto, parou. “Típico!” Tarde demais para retomar a escalada, resolvemos retirar com a promessa de voltar para terminar o assunto. Nessa noite instalámo-nos num simpático apartamento barato em Culla. Urgia um duche quente.


O terceiro lance da nova via em Culla. Pouco depois descíamos. Ficaria o projecto para voltar um dia.


O despertador tocou à hora imprópria das quatro da manhã. Atirámos as mochilas para o interior da carrinha decididos a atacar a parede interrompida e… madrugada escura como breu, o vento gelado uivava… rodei a chave e o motor começou a ronronar. “Vamos?”… adivinhava-se um dia frio, desagradável e sem garantias que a chuva não iria cair, portanto, sem garantias de sucesso… hesitação. “E se fossemos para o El Chorro?”
Por volta das duas da tarde tínhamos as grandes paredes frontais, imagem de marca do El Chorro, mesmo à nossa frente.


A imagem de marca de El Chorro. As paredes frontais!


A decisão de retornar a El Chorro foi tomada rapidamente mas, com alguma apreensão. Basicamente, tínhamos receio de nos sentirmos desiludidos. A razão tem que ver com a nova “reabilitação” do histórico “Caminito del Rey”, que se prolonga pelo interior das gargantas naturais do lugar. Essa restauração consistiu na construção de um passadiço enorme que permitiu a entrada de centenas de pessoas em massa. A consequência foi a proibição da escalada nos sectores por onde passa o caminho.
Em El Chorro, a escalada possui uma tradição muito grande e uma história consistente. De um dia para o outro, por razões puramente económicas, foram impostas duras restrições a uma actividade de natureza e aventura e promovida uma actividade de “multidão”. Como é evidente, a curto prazo e economicamente a região terá a ganhar, tal qual qualquer outro lugar turístico muito famoso. A longo prazo e relativamente ao ambiente de tranquilidade que sempre imaginamos existir num local natural, isso já é outro falar.
Surpreendentemente, com grande excepção para o “Caminito del Rey” e imediações directas, tudo nos pareceu semelhante às anteriores visitas. Nem nos esforçámos para tentar entrar no vale entre as gargantas, apenas para não desfazer a ilusão de serenidade.


"Serenidade"


Imediatamente, imaginámos linhas em secções de paredes onde ainda existem possibilidades para albergar novas vias. As linhas que escolhemos seguiam itinerários lógicos e intuitivos. “Será que aquilo ainda não foi escalado?” Depois dos “baldes de água fria”, nos Pirinéus e Culla, desejávamos ardentemente realizar (completar) alguma escalada.
No dia 6 de Janeiro, o nascer do Sol viu-nos a encordar na base do sector “Austria”, mesmo à direita de uma via equipada, muito repetida, chamada “Valentinis day”. O vento fazia sentir a sua presença e insinuava-se para todo o dia. Apesar do incómodo, desta feita estávamos decididos a não baixar os braços.


A iniciar o fantástico segundo lance da nova via.


A Daniela a emergir do primeiro largo. O vento obrigava a escalar com o blusão de penas posto.


Nos últimos anos temos visitado o El Chorro porque, paradoxalmente, este é maioritariamente conhecido para a escalada desportiva. O facto de quase toda a gente visitar estas paredes para desfrutar das vias desportivas, faz com que a escalada tradicional esteja relegada para segundo plano. Curiosamente, estas paredes possuem excelentes condições para a escalada de aventura. A rocha é generosa em possibilidades para protecções volantes e existem linhas capazes de satisfazer os apetites por vias longas mais vorazes – como os nossos!
A escalada desenrolou-se por diedros e placas cinzentas muito evidentes e de dificuldade moderada. Apesar de termos escolhido uma secção de parede sem qualquer via desportiva por baixo, íamos com cuidado para evitar deslocar alguma pedra. Aqui, a limpeza “a fundo”, é de todo desaconselhada.
Quatro longos lances depois, alcançamos o “jardim” de rampas que precede a parede final, vertical e pejada de fissuras que tornam difícil a decisão de por qual subir.


A entrar no terceiro lance da via.


A desfrutar dos últimos diedros fáceis da primeira parte da escalada. 


Um pontinho avermelhado avista-se no alto do quarto lance. fantástica rocha cinzenta e aderente.


A Daniela avistou a linha mais apelativa e lógica. Uma fissura diagonal para a esquerda que logo terminava numa secção mais difusa e difícil de analisar desde baixo.
Um mega-lance com quase 55 metros revelou-se o mais difícil e demorado. A fissura inicial deixou-se conquistar sem grandes histórias mas, uma pequena chaminé central teimava em querer empurrar para fora o corpo do escalador. Foi um pequeno osso duro de roer, que se complicou ainda mais um pouco mais acima. A rocha deteriorou-se e uma passagem obrigatória em terreno extra-prumado e decomposto travou o meu progresso. Após longos minutos de luta e indecisão, resolvi finalmente colocar um perne de 8mm, suspenso num piton de rocha muito duvidoso. “Desde que não respire com muita intensidade…” Agarrando sem pudor a expresse colocada na novíssima plaquete, alcancei uma boa fenda e coloquei um sólido camalot 0,75. “Já está!”



Dois momentos no difícil quinto lance, o "crux" de toda a via.


Um último largo colocou-nos no cimo da parede. O Sol já tinha desaparecido e o lusco-fusco adivinhava apenas uma restante meia hora de luz. À pressa, realizámos a habitual “foto-cume” e “corremos” para a árvore mais próxima com a intenção de abandonar uma cordeleta para rapelar por um canal evidente. Aqui não existiam reuniões equipadas e a nossa ideia era descer em dois rapeis até às rampas para depois alcançar as reuniões da “Valentinis day”. Tínhamos que ser rápidos pois os frontais estavam no final das rampas, no interior das pequenas mochilas abandonadas no sopé dos dois últimos lances.
Quando acendemos os frontais, abaixo de nós, perto do topo da “Valentinis”, uma série de pequenos olhitos reflectiam as luzes das lanternas. Eram as cabras selvagens de El Chorro, que seguramente estariam curiosas com as nossas estranhas movimentações nocturnas. Restava-nos utilizar as reuniões perfeitamente equipadas, descendo em direcção a um bom jantar no bar “El Kiosko”. Terminámos em beleza um longo dia com doze horas de acção.
Como não encontrámos quaisquer vestígios de anteriores passagens, supomos que os seis lances de escalada que perfizeram uns 260 metros de escalada correspondam a uma nova via. Com a “Clássica do vento” expurgámos a impressão de não conseguir concluir uma ascensão, durante esta viagem.

No dia seguinte acordámos meio emperrados. Os dedos estavam inchados e o corpo um pouco amassado. Os meus tornozelos, curiosamente, não se queixavam muito.
Animados pelas previsões de subida da temperatura, resolvemos tentar outra linha que tínhamos avistado dois dias antes. Estacionamos a carrinha a poucos minutos da base da via em questão. Em contraste com outras paredes, por aqui as aproximações são praticamente inexistentes. Genial!
O objectivo desenhava-se ao longo de um esporão com uma lógica impressionante. Mais uma vez nos interrogámos se a linha teria sido escalada. Naquele preciso momento pouco importava. A decisão estava tomada.
A temperatura estava ligeiramente mais alta que no dia anterior mas, uma capa de nuvens cobria o céu, mesmo por cima da serrania do Chorro. O tempo teimava em não nos deixar despir qualquer forro. Seria mais um dia de escalada invernal.
Logo no início do segundo lance, um passo exposto travou o progresso da escalada. “Lá se foi a ideia de subir rapidamente e sem muitas paragens.” Tardei bastante em resolver aquela passagem, ao ponto de considerarmos o abandono da via naquele dia. No entanto, tal como no dia anterior, lá topei uma pequena fissura que albergou um piton muito precário, inaceitável para arriscar a progressão, mas suficiente para descarregar o meu peso e poder libertar as mãos para martelar um expansivo de 8mm. Alguns minutos depois, restaurada a confiança (e realizada a passagem) a decisão de continuar retornou aos nossos espíritos.



Logo no segundo lance, surgiu um osso duro de roer. As dificuldades obrigaram à colocação de um expansivo. O único de toda a via.


Ultrapassámos o terceiro lance longo (50 metros) através de um diedro muito lógico, com alguns blocos encaixados que requereram atenção especial, desembocando numa curta fissura diagonal que constituiu o “crux” da tirada.



Dois momentos da Daniela a escalar o aéreo terceiro largo da via.


A emergir no esporão do penúltimo lance.


Uma trepada fácil colocou-nos no pequeno colo entre a parede principal e a torre destacada onde termina a via “Navegador”. Neste ponto, dado o cansaço acumulado do dia anterior ainda considerámos terminar por ali a nova via e descer em rapel através da “Navegador”. Contudo, escalávamos uma linha muito natural e óbvia que pedia para continuar até ao cimo de toda a parede.
Por vezes, ao longo da nossa vida, escalamos vias que valem pela sua beleza de movimentos, ou pela suprema qualidade da rocha, mesmo que sigam itinerários não tão óbvios e quiçá algo forçados. Outras vezes, é a própria rocha que nos indica qual o caminho a seguir. Nesses momentos, quando é a parede a decidir, a escalada torna-se numa actividade perfeita.
Três lances depois, incluindo uma aresta fácil mas muito estética, alcançámos o topo da parede.


A aresta final, fácil mas estética.


Cume!

E a obrigatória... foto-cume!


Mais uma vez, ao longo de seis largos, não descobrimos nada de nada no tocante a artefactos de escalada abandonados, o que nos faz supor que também esta se trata de uma nova via. Devido às características particulares do itinerário, resolvemos baptizar a linha com o nome de “El Chorro Alpino”.
Em contraposição com o dia anterior, desta vez iriamos descer a pé, utilizando um cómodo trilho tranquilo e sem história, com tempo ainda para saborear duas belas “bocatas” bem recheadas, com vista diurna para as paredes preciosas de “El Chorro”.


Paulo Roxo


Os topos:








quinta-feira, maio 08, 2014

El Chorro e o universo pequenino

EL CHORRO E O UNIVERSO... PEQUENINO!


 Vistas de El Chorro.

Avizinhavam-se 2 fins-de-semana de 3 dias com dois únicos objectivos: abrir uma via e... escalar muito!

Onde?
Algures por Espanha, onde a meteorologia o proporcionasse.
No nosso íntimo, queríamos abrir uma via em El Chorro e tínhamos por lá duas possibilidades.
Uma que queríamos abrir em 2 dias, outra com mais de 300m que talvez desse para abrir num único dia, daqueles longos, até porque há uns anos atrás já tínhamos inaugurado um largo e meio deste alinhamento.
Com perspectiva de 2 dias de bom tempo e um de chuva rumámos ao sul de Espanha, depois de mentalmente optar pela tal via de 2 dias.
Já há 2 anos que não andávamos por ali, mas tudo permanecia igual, agradável, bonito e as pessoas sempre afáveis. No restaurante “El Kiosko” ainda se lembravam de nós, sentimo-nos de imediato em casa, com tratamento VIP!


 Climbing life e o café da manhã obrigatório.


No primeiro dia o ritual foi recuperado: pequeno-almoço campestre seguido de arrumações. O Paulo arruma o material de escalada, eu encarrego-me da comida para o dia. Rumámos depois ao “El Kiosko” para uma “tostada con tomate y café con leche” e depois encaminhámo-nos para a parede.
Já a manhã ia avançada quando pousámos as mochilas na base da futura via.


 O famoso "Caminito del Rey". Entrámos pelo segundo canhão e maravilhamo-nos com a singularidade desta obra de outros tempos.


Estavam uns 30 graus de temperatura e a parede exposta ao Sol não fazia antever propriamente um dia agradável. Era uma bonita muralha para grandes escaladas… Invernais!
- Ui ui, não sei se com este calor vamos aguentar! Vamos fritar na parede! E amanhã o dia todo assim? Achas que dá?
O Paulo ficou com um olhar que já lhe conheço... desapontado. Receei que dissesse: “Vai dar!”


 Uma das passagens do "Caminito del Rey", pouco antes de sair dali para lugares mais frescos!


Já estava a imaginar os pés a assar dentro dos pés-de-gato, a t-shirt encharcada em suor, o sol a torrar-me o pescoço... quando veio a resposta... estávamos desta vez com o pensamento em sintonia. Com tristeza, virámos as costas e decidimo-nos por outra alternativa muito menos desafiante mas, muito mais interessante, dadas as circunstâncias: uma banhoca no “Embalse de Guadallorce”, assim, de cueca e sem vergonha nenhuma! 


 Vista das águas da barragem. Belas banhocas já tomamos por aqui.


No dia seguinte, decidimo-nos por um plano menos ambicioso e mais relaxado. Atirámo-nos a uma “desportex total” chamada “Apocalipsis” com mais de 200 metros. Uma via mais ou menos recente, no sector “Frontales Bajas”, seis lances desde o 6a ao 6c, um verdadeiro desfrute de boa rocha (a via foi limpa - e equipada - desde o cimo, até à exaustão!). E o melhor, para contrariar a norma das desportivas de El Chorro, nem sinal de polimento nem tão pouco marcas de magnésio.
O dia esteve perfeito, sol tapado por nuvens e uma temperatura agradável.


 A entrar na "Apocalipsis". Bela via desportiva com seis lances para desfrutar.


 
 Dois momentos na "Apocalipsis".


Ao terceiro dia, o do regresso, ainda queríamos cansar os bracinhos antes de rumarmos a “Poor”tugal, mas a chuvada que começou a cair quando o Paulo iniciava a primeira via do dia frustrou-nos os planos.
Passámos literalmente de 31 graus no primeiro dia, para 13 graus no último... brrrrr!!!!
Voltámos para casa com a sensação de que faltava algo. Esse “algo” fez-nos regressar no fim-de-semana do 25 de Abril.
No dia 24, “dejavu”. Sair de Portugal por volta das 15:00 rumo ao jantar, no “El Kiosko”.
Desta estávamos determinados a abrir a linha que ficara incompleta em 2009. Assim, levámos o material preparado ao pormenor para uma escalada rápida e ligeira... afinal tínhamos em mente escalar mais de 300 metros num só dia! Isso também implicava despertar com as galinhas. Nada como um acordar alpino e realizar a curta aproximação com o nascer do dia... sem o “café con leche”, ao qual já nos tínhamos acostumado.


 Material ordenado e preparado para o ataque! Vamos lá!


Entre a última tentativa de 2009 e o 25 de Abril do presente ano, 2 escaladores espanhóis tinham já aberto uma via com o alinhamento que havíamos antes imaginado. A primeira reunião era comum com a do nosso primeiro lance.
Tínhamos na lembrança um largo com uma escalada meia estranha, em rocha polida pelas águas do rio e algo delicada, descrevendo de outra forma, uma escalada nervosa!
Como a sentimos desta vez?


 O primeiro lance da nova via, delicado e um pouco exposto.


“Na altura dei IV+ a isto? Devia estar doido! É um bom V+... e exposto!” – concluiu o Paulo, já na segurança da reunião.
“Na altura pareceu-me bem mais difícil e muito mais decomposto! Afinal não é assim tão mau!” – rematei.


A escalar o primeiro lance do dia.


-Vamos lá! Up!
Assim se fez o Paulo à parede. Seguiu-se uma escalada de movimentos atípicos para a zona, entalamentos de mãos e presas laterais que obrigavam a algum repertório de equilibrismo. Acabou por sair um lance bonito totalmente protegido com friends e entaladores. Tínhamos mais dois lances pela frente que, pelo aspecto, não se iam deixar escalar com facilidade. 



 Dois momentos no segundo lance. Um 6b+ intenso. Check!

 
 
 A Daniela a escalar o segundo lance. Check!


Next: lá foi ele, determinado e mais forte do que na nossa primeira tentativa.
- Já se vê os resultados dos treinos! – berrava eu cá de baixo em jeito de incentivo.
Entretanto, o meu estômago avisou-me das horas. O sinal de fome não era bom presságio pois queria dizer que estávamos a demorar mais que o previsto. Talvez o perne colocado à mão na reunião, tivesse tardado mais tempo do que eu tinha imaginado.


A bela fissura do terceiro lance. Entalamentos "a canhão"!


Chegada a minha vez, tentei progredir o mais depressa que pude, usufruindo de algumas protecções para ganhar metros “speedados” à via. Nesta fase, o “livre” queria dizer pouco, interessava sim manter o espírito do “despacha-te e acelera!”. Em menos de nada estávamos novamente cara a cara numa reunião mais acima.


 A terminar o terceiro lance. A escalada mantêm o seu ambiente aéreo.


Faltava apenas um largo para atingir a plataforma.
Este lance teria um final comum com a “Andrés Ortega” (uma clássica antiga - e esquecida), constituído por uma espectacular fissura de mãos.
Lá foi o Paulo e desta... guinchou, berrou, praguejou... mas não colocou uma tão desejada plaquete antes de entrar na fissura, porque naquele calcário já não era o primeiro a passar! E se outros já tinham passado... respeita-se o equipamento presente... ou a falta dele! E com mais uns berros lá resolveu o passo e enfiou as mãos na fissura salvadora. 


 A iniciar o quarto lance da via, um pouco antes de colocar (à mão) uma plaquete tranquilizadora. Mais acima a via une com outra clássica já estabelecida. A partir daquele momento à que lidar com o equipamento original, não cedendo à tentação de acrescentar alguma coisa permanente. Felizmente o grau mantêm-se estável. Exigentemente estável!

 
 A reunião da antiga e esquecida "Andrés Ortega". Dois spits M8, com duas "caricas" penduradas. Yô!


 A saída da extraordinária fissura da "Andrés Ortega". Uma fissura de antologia e... "arranha mãos"!


- Bem! Grande fissurote! Devíamos ter trazido as luvas! As costas das mãos tem de ficar sempre viradas para a direita!!!!
Pouco depois eu confirmei! Num dos lados da fissura o calcário era amável, no outro... simplesmente cruel!


A Daniela a tentar a todo custo evitar arranhar as mãos. O ambiente é de passarinho!


Restava-nos a trepada final até encontrar a reunião equipada, comum com a via “Cuatro estaciones”.
Eram quase as quatro da tarde e já tinham decorrido sete horas de escalada. O tempo passara mais depressa do que o sentimos. Parecia que o relógio do mundo tinha desatado a correr.
O nosso plano inicial (e bonito) de terminarmos a linha no cimo de toda a formação rochosa acabava de ir por água abaixo.
Ainda ficámos ali um bocado na dúvida, a olhar para o ar sem saber muito bem o que decidir: “Para cima? Para baixo?”


 Vistas para o interior do canhão e para o "Caminito del Rey", neste momento em fase de reconstrução, portanto proibido.


Concluímos que seria impossível sair da secção superior da parede ainda de dia. Não possuíamos cordas (nem vontade) para fixar, descer e voltar no dia seguinte. Desta feita, a aventura terminava ali.
Embora fosse um local lógico para concluir uma via – afinal a clássica da esquerda terminava por ali também – ficou-nos uma espécie de sabor agri-doce.
No entanto, deixámos uma proposta constituída por uma via de fissuras, bastante mantida e lógica, com a possibilidade de ser combinada com a sua vizinha “Cuatro estaciones”.
Três rapeis colocaram-nos no interior do túnel do comboio, o que por si só, não deixava de ser um final com um toque de surrealismo. Assim de repente, ainda agarrados às cordas, saímos do mundo natural e selvagem para o ambiente artificial e, de certa forma… metropolitano. 


Daniela Teixeira


UNIVERSO PEQUENINO - O TOPO: