quarta-feira, julho 18, 2018

Fui Enganad...

FUI ENGANAD... 
(a falta da última letra foi propositada!)



A Meadinha! Sempre magnífica!


Já não íamos à Peneda há uns anitos!
Apesar do calor que se previa para aqueles dias, a saudade provocou toda uma série de justificações para fundamentar a viagem. A Berlingo encontrava-se de novo “no activo” e isso servia como uma motivação extra. A anterior viagem a El Chorro motivou uma recuperação radical da viatura. Deixara de ser uma deprimente carrinha de trabalho para renascer como uma feliz micro-caravana! Com as pernoitas devidamente asseguradas, deixava de existir qualquer desculpa para não voltar a visitar a bela parede da Meadinha.
O calor fazia das suas. O plano era voltar a um velho projecto abandonado, situado no flanco direito da parede de granito, o sector “mais tuga” da muralha, já batizado por um reduzido grupo de adeptos como “O Legado”.


A Daniela a terminar o primeiro lance da nova via. Escovagem espartana!


Aquando da primeira tentativa de abertura da nova via, há uns anos atrás, tinha reparado num alinhamento de diedros relativamente escondido dos olhares gerais. Tratava-se de uma esquina obscura, de aspecto lúgubre e pouco convidativa… portanto, um lugar perfeito! Um outro aspecto ajudou à decisão de tentar aquela via em específico: encontrava-se numa secção da parede que recebia a tão desejada sombra mais cedo que os restantes sectores.


Os peculiares diedros finais, atípicos na parede da Meadinha. Morfologias rochosas mais comuns na Serra da Estrela


As placas iniciais foram “negociadas” rapidamente. O grau mantinha-se em valores baixos e o mal-amado musgo saía com facilidade. Durante a escalada dos primeiros lances estávamos expostos à insolação mas, as temperaturas não eram realmente altas. Desta forma, o nível de aderência mantinha-se numa razão de proporcionalidade inversa ao nível de sofrimento provocado pelo aperto dos pés-de-gato. Abreviando: boa aderência e pés pouco inchados apesar do calor!
Chegados a uma grande plataforma/jardim que permitiu o típico “lanche de meia-actividade”, iniciámos o tal sistema de diedros “lúgubres e pouco convidativos”.


Na saída do último lance. Não, não é um tepui na Venezuela!


A "negociar" o último diedro. Aqui, estou a tentar passar em livre... pouco depois, passei aos "pedais"!


O início molhado (tinha chovido no dia anterior) e a quantidade de musgo reinante (perfeitamente “escovável” por potenciais futuros candidatos) impediu uma completa realização em livre da escalada. Ali fica um projecto para quem queira escalar dois lances atípicos da Meadinha, constituídos por uma sucessão de diedros ligeiramente extra-prumados que permitem a protecção perfeita e “a la carte”. Só requerem "alguma" limpeza.


Mais uma perspectiva da Daniela no último lance. Uma salada curiosa.


No topo, uma vez mais, celebrámos o final de uma nova escalada a juntar à lista de vias já existentes no improvável sector “O Legado”.
Ali fica a “Manatim Enganado”, para deleite (veremos!) dos admiradores da espectacular e sempre impressionante parede da Meadinha.

Paulo Roxo


Os Topos






sexta-feira, outubro 12, 2012

Democraticamente f...

DEMOCRATICAMENTE F...

A T-shirt do momento! Um produto Cidade Tipográfica.


Mesmo antes de nos metermos a caminho, já o nome da via estava decidido.
Democraticamente f... dos! foi como nos sentimos ao escutar no dia 3 de Outubro a monocórdica e aborrecidíssima voz do Victor, a anunciar um “enorme aumento de impostos”.
Democraticamente f... fez-me pensar “Com tão brutal roubo, como vou conseguir dinheiro para renovar os friends? E como vou conseguir pagar gasolina e portagens para ir à Meadinha? O melhor é aproveitar já o próximo fim-de-semana e gozar ao máximo o último 5 de Outubro, antes que me tirem a guita dos bolsos...que são cada dia mais pequenos! Passar fome ainda vá que não vá, mas não ter dinheiro para escalar???”
Na manhã de sexta-feira estávamos decididos a escalar aquela fissura que nos atraía já há alguns anos. Democraticamente, optamos por seguir um dos dois caminhos que visualmente traçámos no granito da Meadinha já há algum tempo.
No flanco direito da Meadinha, os primeiros friends entraram no primeiro largo da bonita via “Puerta Sur de los Dioses” para poucos metros acima derivarem para uma fissura à direita. O Paulo seguiu depois entusiasmado até se deparar com uma placa... longa! 


 O primeiro lance da nova via. Uma placa delicada conduz á "Caravela Roxa" e depois desvia-se para a esquerda.


 Wally a caminho do final do lance.


Para manter a coisa o mais “clássica” possível, derivou para o terceiro largo da “Caravela Roxa” (recente via dos “Abismados” Sérgio e Natália e do Marco Cunha, que já se tornou numa referência naquele flanco da parede), contornando finalmente uma lastra para a esquerda, o que o posicionou numa reunião afável para se fazer à bonita fissura que atraiu os nossos olhares há tanto tempo. 50m de escalada separavam-nos agora da plataforma inicial.
Pouco depois, o Paulo caçava a dita fissura, primeiro em travessia fácil da esquerda para a direita para depois com um passo já mais duro com direito a entalamentos perfeitos entrar na porção vertical da fissura. Mal o vi desaparecer escuto um comentário tristonho e... algo estranho: “Está aqui um perne com argola! E este canto da fissura parece estar bastante escovado!”.


 A bela fissura horizontal. "Virgem?" Mmmm...


 Movimentos fantásticos numa morfologia fantástica.

 
De facto, já tínhamos percebido desde baixo uma mancha no canto da dita fissura, mas o musgo intocado tanto no acesso como em toda a continuidade da fenda deixou-nos baralhados! De facto não nos pareceu muito lógico alguém ter o trabalho de se pendurar para fazer uma pequena escovagem a meio da parede, até porque sempre pensámos que a filosofia de abertura na Meadinha era...desde baixo!


 Na saída da fissura horizontal, momentos antes de descobrir a plaquete isolada.


 A Daniela a chegar à reunião improvisada. Dúvidas: para cima, para baixo? Projecto de alguém? Escovagem aleatória? Marcação de território? Pouco depois desciamos...


Mas mudam-se os tempos e mudam-se as tendências, não só havia uma estranha escovagem perdida, como um perne ao lado da fissura, o que indiciava que o alinhamento poderia ser um projecto de alguém (mas então, porque não escovaram toda a fissura? E porque deixaram um perne num sitio de tão fácil colocação de um friend?). De inicio... para manter a coisa num nível “ético” aceitável, o Paulo protegeu num friend, mas com o cérebro baralhado pelo que encontrou, lá acabou por usar o perne, para me dar segurança e descermos novamente para a anterior reunião.
A incerteza acerca da possibilidade de a fissura ser já um projecto, levou-nos a outros caminhos. Ainda com bastantes horas de luz, o caminho tinha de ser... para cima! Decidido democraticamente, na nossa democracia a dois!
Assim, apontámos para um canal/chaminé que se pronunciava mais à esquerda e lá rumámos ao topo da parede. O largo revelou-se uma boa surpresa, meio em chaminé, com saída para placa onde o Paulo colocou um perne burilando elegantemente, equilibrado nos típicos cristais da Meadinha e a uma... já razoável distância da última protecção. 55m mais colocaram-nos à distância de um largo de saída da parede.


 No final do segundo lance aberto.


O último largo iniciou-se numa larga fissura situada à esquerda do último lance da “Caravela Roxa”. Após ponderar acerca da colocação de mais um perne, o Paulo decidiu proteger com um friend nº5 bem empurrado para o interior da fissura. O friend, ficou na fissura, mas o homem, entrou pela placa à sua esquerda onde, apesar de não ser muito duro, é proibido cair!


 Inicio do ultimo largo. Placa técnica para aceder à fissura.


De 50m mais acima veio um grito “REUNIÃÃÃÃOOOOOOO!”. E pouco depois começaram os problemas do segundo de cordada... eu! Enfiada no interior da fissura, os meus braços eram curtos demais para alcançar o friend. Tentei uma táctica espeleológica, pendurei a mochila no arnês e retirei o ar dos pulmões para me enfiar ainda mais. De braço esticado conseguia apenas tocar no mosquetão. Retirar o friend, nem pensar! Já a rosnar consegui colocar o estribo no mosquetão do friend, mas como o estribo ficava demasiado dentro da fissura a coisa também não foi eficaz. Após muito esforço, tentando subir um pouco entalada na fissura, lá consigo... ainda hoje não sei bem como... resgatar o camalot Nº5. Um conselho? Se não quiserem torturar o segundo de cordada, levem o Camalot Nº6 para que a colocação fique um pouco mais à face na fissura.
Entrando depois na placa da esquerda, o largo mostrou-se bonito e pouco depois reuni-me com o Paulo e com uma cordada que tinha acabado de repetir a “Caravela Roxa”. Mais uma opinião positiva!
Estava aberta a “Democraticamente f...” e ainda tínhamos 2 dias pela frente.


 "Democraticamente F..."


Sábado aproveitámos para repetir a “Toma lá bolachas”. Valeram-nos as duas repetições anteriores da via, que a deixaram mais limpa, para desta vez a repetirmos em livre. Fica a nota que o Topas tentou sacar o passo Alvarinho, à entrada do 3º largo. Ainda não saiu, mas a quem quiser a garrafa, aconselha-se vivamente ir lá com alguma rapidez!


 A Natália Pereira a desfrutar da sua nova via. Será mais uma para repetir. A Meadinha ao rubro!


No Domingo resolvemos dedicar a nossa atenção a outra via, uma que ainda não tem nome mas já conta com dois largos abertos! A ver se breve a vamos terminar e quem sabe, repetir a escalada da bonita fissura central que nos ficou na retina. Esperamos ansiosos por mais essa abertura!


 Na saída da nova via a completar próximamente. Next!


Daniela Teixeira


 Os topos:



 


segunda-feira, setembro 03, 2012

Petit climbing trip - Parte V - Meadinha

 OLHA! TOMA LÁ BOLACHAS!




 
Um espectáculo inusitado. Vários ribeiros de ocasião caíam em cascatas varrendo as linhas de fraqueza da parede de granito.
Encostados ao carro - de motor ainda quente devido à longa viagem – de braços cruzados, apreciávamos o fenómeno.


 À esquerda na foto pode-se apreciar uma cascata de água improvisada pelas chuvas recentes.


Cruzámos toda a Espanha sob intermitentes pancadas de chuva. Comentámos que o timing das actividades tinha sido perfeito, dadas as circunstâncias. De facto, desde a nossa partida de Portugal tínhamos aproveitado todos os dias de bom tempo para concretizar as escaladas. O mau tempo esteve reservado para os períodos de descanso e viagem, normalmente coincidentes.
As previsões ditavam que a chuva iria começar a cair ao fim do dia em que esperávamos terminar a nossa abertura em Ordesa. As previsões revelaram-se acertadas.
No dia seguinte, apontámos a viatura de novo para Portugal. Ainda com dias disponíveis iríamos re-visitar a parede da Meadinha, uma verdadeira jóia de granito em plena serra da Peneda.
O raios de sol abriam caminho por entre as nuvens e a parede negra pela húmidade começou a secar.


A Meadinha a secar.


Estávamos decididos a culminar a nossa viagem de escalada com uma nova via na Meadinha. Existiam no entanto algumas reservas. Em primeiro lugar havia que formatar de novo o cérebro para o granito especial da Peneda. Tinham sido vários dias a lutar contra a verticalidade exigente de Peña Montañesa e contra os cubos de calcário vertiginoso de Ordesa. Agora, a intenção era enfrentar de novo as fissuras de granito, confrontar as infames protuberâncias de cristal tão características da Peneda.
 Antes de nos lançarmos a uma nova linha, resolvemos “aquecer” numa via estabelecida. A via escolhida revelou-se um belo “aquecimento”. A “CaravelaRoxa” foi aberta por Natália Pereira, Sergio Sá e Marco Cunha em Outubro de 2011. Era a mais recente aquisição da parede da Meadinha. O alinhamento tinha sido muito bem visto e a coisa prometia dar luta. E deu luta! 


 A Daniela a iniciar a "Caravela Roxa".

 
 A Daniela na "Caravela Roxa". Passos bonitos em granito excepcional.


Todos os lances da via revelaram-se muito estéticos e o “crux” possuía alguns passos de placa ultra-técnica, seguidos de uma fissura de entalamento de mãos terminando numa escalada de cristal e aderência, tão típicos por estas bandas. 

 
 Dois momentos no "crux" intenso da "Caravela Roxa".


Chegámos ao cimo  da parede com a sensação de ter escalado uma clássica na verdadeira acepção da palavra. Uma linha lógica que bem merece ser colocada no panteão das melhores vias, a par com as hiper-clássicas locais.
De novo no solo, escolhemos a futura linha à qual nos iríamos dedicar nos dois dias seguintes.
Duas atractivas fissuras gémeas realçavam acima de toda a restante morfologia no topo do flanco direito da Meadinha. O problema seria interligar a metade inferior sem nos perdermos num mar de vegetação.
“Mas, olha! Ali, aquilo é uma fissura!” – anunciou efusiva a Daniela.
“Onde?!” – perguntei céptico.
“Naquele esporão, ali!”


 As fissuras gémeas no centro da foto, tirada após a abertura da via. Abaixo das fissuras e ligeiramente à esquerda pode-se apreciar uma linha ténue escovada. Por aí segue a "nossa" nova via na Meadinha.


Por mais que olhasse não conseguia identificar nenhuma fissura no local que a Daniela apontava. Uma observação mais atenta denunciou, finalmente, a dita fenda. Uma fina estria de ervas cortava verticalmente o compacto esporão.
“E, onde há erva há buraco!” Neste caso: fissura.
A Daniela acabara de descobrir o elo de ligação entre os lances inferiores e as chaminés superiores.
“Limpar aquilo, vai dar trabalho!” – concluí desalentado.
A receita para se abrir novas vias na Meadinha incluí: escova de aço, espigão de metal (um saca-entaladores também serve), piolet (não o usámos mas... na próxima vez...), muita paciência e um completo desleixo pelo vestuário.


A iniciar o primeiro lance da via.
 A curtir as vistas no incio do segundo lance, antes de me entalar!


Os primeiros lances foram escalados com relativa facilidade e a dita fenda foi literalmente conquistada. No entanto, o sacrifício foi recompensado com a revelação de uma fissura de antologia, perfeita para entalar as mãos e proteger convenientemente.


Um descanso de pés depois dos passos de artificial baptizados com o nome: "Passo Alvarinho". Segue a oferta de uma garrafa de Alvarinho a quem conseguir realizar em livre pela primeira vez o referido passo.


 Depois de umas limpezas, surgirá uma excelente fissura.

 
 A Daniela no processo de escalada...


 ...e limpeza!

 
O lance seguinte também reservou uma agradável surpresa. Desde o solo, o que parecia uma penosa chaminé de “arrastamento” de baixo acima, transformou-se numa escalada variada entre oposições, fissura de mãos e chaminé fácil.


 A entrada do espectacular penultimo lance. Uma das fissuras gémeas.

 

 Dois momentos da Daniela a sair da chaminé.



 E a chegar à reunião. Yô!


No final, ainda inspirados e com vontade de fazer mais, resolvemos evitar a trepada fácil comum com a via “Esperança”, concluindo a nova linha  com mais uns 40 metros de ressaltos interessantes.
 Foram dois sorrisos de orelha a orelha que emergiram no topo da Meadinha.


 Um ultimo largo só para terminar em beleza.


 No topo, a dar-lhe nas sandochas!


 
Na descida ainda podemos apreciar o Marco Cunha a trabalhar num novo projecto da autoria do próprio, do Sergio Sá e da Natália Pereira. Uma futura via para repetir!


Rumo a casa, reflectíamos sobre as ultimas três semanas. O plano inicial passava por escalar apenas nos Alpes mas, os humores da atmosfera condicionaram a viagem transformando-a num corrupio de escaladas e emoções variadas. Os resultados foram cinco aventuras de intensa exploração vertical, cinco novas vias distribuídas pelos Alpes, Pirinéus e Portugal.
No final, não queríamos que terminasse. Com a alma a transbordar resignamo-nos...
OVER!


 Over!


Paulo Roxo


Os Topos:





quarta-feira, junho 22, 2011

OS DIAS DE ESPERANÇA

OS DIAS DE ESPERANÇA



O granito é negro, com erupções de cristal a polvilhar a superfície rochosa. A inclinação da parede raramente atinge o angulo recto. Juntas, estas características intimidam bastante.

Placas de granito tombadas, impossíveis de proteger, cuja única forma de progredir consiste em confiar em minúsculas pedrinhas salientes. Movimentos que obrigam a um bom equilíbrio bio-mecânico e mental... sobretudo mental.

A queda está fora de questão. Dependendo do espaçamento entre protecções, uma queda muito dificilmente terá um desfecho terminal mas, a certeza de um esfoliante de pele gratuito e involuntário é suficiente para demover os espíritos mais afoitos, com atracção pelo “movimento limite”. A tão famosa atitude de escalada do “ir à morte!” tem aqui uma expressão muito mais humilde.


Texturas de cristal.


No entanto, cada ascensão é uma realização. Cada escalada significa o culminar de mais uma aventura bem sucedida, antecipada por sentimentos inquietantes e ansiosos.

É assim a escalada na Peneda.

Assim funcionam as coisas na parede da Meadinha.

Pelo menos para mim.


O novo "catrapázio" localizado antes do caminho "dos deuses".


Chegados de uma curta viagem de escalada por Espanha onde as ideias concretizadas ficaram aquém das actividades almejadas, confiámos as nossas almas cansadas ao conforto de um prado orlado pelo tupido da vegetação luxuriante, característica das terras húmidas do Gerês.

Minutos depois de desligar o motor do carro, estafado pelos muitos quilómetros rodados, adormecemos, isolados do frio da noite pelo fino tecido da pequena tenda.

O silêncio do local garantia um descanso tranquilo e reparador.


Tranquilidade...


Escalámos a via “S”.

Esta linha, aberta no ano de 1979 por Santiago Alonso, Bonifacio Lopez e Francisco Garcia, constitui uma obra prima ultra-lógica e intuitiva. É talvez, uma das vias mais escaladas da Meadinha mas, a sua repetição nunca cansa.


A Daniela a iniciar o super-clássico primeiro lance da super-clássica "S".


No mesmo largo.


Na saída do exigente segundo lance da "S".


O acrescento de algumas plaquetes ao numero de spits originais, tornou a linha mais acessível, no entanto, ultrapassar as belas lastras de granito do primeiro lance, lutar com os passos exigentes do diedro horizontal do segundo largo e evitar a placa “impossível” do terceiro lance, revelarão sempre sentimentos que descrevem sem a necessidade das palavras, as emoções repetidas por gerações de escaladores.


O fantástico terceiro lance da "S".


Passinhos precários ao terminar o terceiro lance da "S".


Iniciando o quarto e ultimo lance da "S".


O reino do cristal... e da humidade!

Um queda brusca das temperaturas devolveu-nos o Inverno. Uma chuva miudinha mas intensa arruinou-nos os planos de escalada seguintes.

Era o dia do aniversário da Daniela e o plano consistia em tentar inaugurar uma nova via nesta emblemática parede.


Ainda deu tempo para a Daniela escalar um primeiro largo antes da chuva nos mandar para os circuitos turisticos da região.


Em lugar de nos rendermos à depressão psíquica que a depressão atmosférica insistia impingir, obrigámos o bólide a cruzar a fronteira e rendemo-nos antes a uma deliciosa tapa de “pimientos padrón”, num simpático bar de estrada perdido na Galiza.

Depois, seguiram-se umas horas de turismo “à séria” que nos conduziram a uma centenária quinta vinícola, onde adquirimos uma garrafa de néctar verde alvarinho, após uma visita lúdica ao palácio da Brejoeira, em Monção.

A chuva, ou melhor dizendo, chuvinha, não ofereceu qualquer trégua mas, a jornada terminou com uma agradável sensação de “dia diferente”.

O ultimo dia disponível seria o dia “D”. “D” de Dúvida... “Escalamos simplesmente, ou tentamos abrir a tal via nova?”

“Escalamos ou abrimos?”

“Abrimos ou escalamos?”

Resolvemos tentar a sorte.

“Abrimos!”

Tratava-se de completar um projecto iniciado em 2010. Nessa altura, o dia terminou com a abertura de um primeiro lance e pouco mais.


O primeiro largo da "Esperança" emerge da floresta amazónica.


O estético esporão de saída do primeiro lance.


O alinhamento escolhido adivinhava a obrigação de abandonar um numero elevado de expansivos. Por esse motivo, a decisão de utilizar a “batota” não foi difícil de tomar.

A tática de utilizar a máquina elétrica, mesmo que seja para uma abertura integralmente realizada desde baixo, entrará sempre em conflito com as formas e estilos de escalar paredes. Trata-se de um conflito pessoal interno. Se a escalada escolhida, possui placas grandes desprovidas de fissuras, a colocação de expansivos à mão, consumirá muito tempo. No nosso caso em particular, o muito tempo seria muito mais que um dia de escalada. Esta era uma situação para a qual não dispúnhamos de dias, nem paciência.


O segundo lance começa com dois passos de artifo, passiveis de serem forçados em livre mas... estavamos com pressa...


O compromisso assumido consistiu em utilizar a máquina da forma mais moderada possível, colocando um mínimo de plaquetes.

Era o tudo ou nada. Ou saía no dia ou não sairia de todo, pelo menos nesta viagem.

Foi com este pensamento de urgência latente que enfrentei a placa enorme do segundo lance, armado com a artilharia pesada sob a forma de uma máquina suspensa à bandoleira com um gancho fi-fi, que permitia trabalhar com apenas uma mão disponível, enquanto a outra mão... e os dois pés... tentavam a todo o custo manter o equilíbrio do resto do corpo. Equipar desde baixo em equilibrios precários envolve um certo grau de aceitação ao risco de uma queda aparatosa. As cordeletas evitam que o material se despenhe no vazio mas, também aproximam de uma forma preocupante os tecidos moles do nosso corpo a um objecto pesado, portador de uma broca aguçada. A perspectiva de uma queda, arrastando utensílios desta natureza não ilustram uma imagem agradável no nosso cérebro.

Afastando os pensamentos trágicos, a escalada foi evoluindo de forma mais ou menos célere.


A abrir a grande placa do segundo largo. Os estribos serviram para a abertura. Não serão necessários para a repetição. Em livre? É possivel mas, será duro!



Um ponto vermelho no granito.


A Daniela aí vêm...


A grande placa foi ultrapassada e uma rápida fissura em diedro permitiu um respiro.

Pouco depois, enfrentámos um exigente terceiro lance de fissura... melhor dizendo, fissura-chaminé que, surpreendentemente, apenas obrigou a utilizar a técnica clássica (e incómoda) de escalada em oposição “rabo-costas-joelhos”, lá para o seu final.

Uma plaquete estrategicamente colocada protegeu o inicio do quarto largo, local onde se situam as maiores dificuldades deste ultimo lance. Daí para cima, restaram apenas metros de escalada amena, obviando convenientemente os tapetes de musgo e culminando no topo de longas vistas do flanco direito da Meadinha.

A foto da praxe precedeu a busca da ultima reunião da via “Puerta sur de los dioses”, por onde contávamos descer em rapel.


Foto-cume!


Um parêntesis para dizer que a “Puerta sur de los dioses” representa uma fantástica linha natural que bem merece um lugar de destaque no panteão das melhores vias da Meadinha.


Foto-tonta. Na linha de rapel.


Aberta em 2008 por Miguel Silva e Filipe Sequeira, esta é sem duvida uma escalada inteligente que vai em busca da grande fissura central mais que evidente.

Para mim, a surpresa desta via está no terceiro largo, onde uma travessia de aparência duvidosa, por baixo de um tecto, revela duas fissuras paralelas horizontais, uma para as mãos, a outra para os pés, que permitem a protecção perfeita e a progressão rápida e fácil. Por antagonismo, o lance seguinte é mais lento e difícil (dependendo, claro está, do nível do escalador) mas, de uma lógica espectacular.

Desta feita, a Daniela e eu realizámos a “Puerta sur de los dioses”... em sentido inverso. As reuniões perfeitamente equipadas conduziram-nos até ao solo, onde empacotando o material nas mochilas saboreámos uma nova via escalada na Meadinha.

Uma pequena consolação, para animar um pouco os espíritos cansados das decepções do ultimo mês... mas isso é outra historia!


Os Topos


Croquis emprestado do site www.meadinha.com, apenas utilizado para efeitos de referência da via proposta.





Ficha técnica:

A “Esperança” foi aberta desde baixo com a utilização da máquina para colocar os parabolts M10 existentes. Infelizmente, não possuíamos material em inox, por isso as únicas protecções em inox existentes foram as colocadas no ano passado, aquando da primeira tentativa de abertura em que foram inaugurados o primeiro e o inicio do segundo lance.

A via inicia uns 20 metros à direita do acesso para a via “Puerta sur de los dioses”, por um esporão de rocha que nasce praticamente no final do trilho de acesso. A visão do inicio está semi-coberto pela floresta e está constituída por uma fissura inicial em meia lua para a esquerda, logo seguida de uma quilha protegida por uma plaquete.

Apesar de se encontrar perfeitamente “repetível” com o presente nível de musgo, uma limpeza futura considerável irá permitir um maior desfrute desta linha e, a possibilidade de se forçar a escalada livre na totalidade do seu comprimento.

A descida realiza-se em rapel através das reuniões da “Puerta sur de los dioses”.



Paulo Roxo