sexta-feira, maio 15, 2009

EDELWEISS UP-DATED... E OUTRAS COISAS!



A Meadinha.


Em Outubro de 2008, a Daniela e eu abrimos uma nova via na parede da Meadinha.

A Edelweiss foi aberta desde baixo, com a utilização da máquina para colocar os poucos pernes existentes. Estes foram colocados “à frente” içando a máquina com uma cordeleta de apoio.

Pouco tempo depois, soubemos que algumas semanas antes da nossa abertura, tinha sido inaugurada uma via que coincidia com a Edelweiss no final do terceiro lance. Tratava-se de um antigo projecto do Pedro Pacheco com o nome de “Via Norte” e ainda não referida nos croquis da Meadinha.

Por ignorância, acrescentámos dois pernes na Via Norte. Um, numa pequena placa final do terceiro largo e o outro na terceira reunião.


A aldeia de Sra da Peneda, lá embaixo!


A manhã do dia 1 de Maio viu-nos a subir a fantástica escadaria de pedra que, por entre o denso bosque permite aceder à base da parede da Meadinha.

Pretendíamos repetir a Edelweiss, com um triplo objectivo: retirar as plaquetes “invasoras”, forçar a via em livre rectificando o grau de dificuldade e (sobretudo) desfrutar uma vez mais desta magnifica parede.


A Daniela a iniciar a via S.


Após a nossa abertura, a Edelweiss foi repetida por escaladores galegos que a realizaram integralmente em livre e... decotaram a via, “a pique”!

Dizem que as placas técnicas são a coisa mais difícil de cotar no mundo da escalada em rocha. A nossa percepção inicial conduziu-nos a propor um determinado grau à Edelweiss. Para além de ser uma via de características tipicamente “a la Peneda”, com as sempre presentes trepadas nervosas por cristais salientes, estávamos a abrir via, o que pressupõe uma maior dificuldade de análise e conclusão das dificuldades. Por outro lado, o grau está longe de ser uma estrutura rígida e a sua consolidação resulta de um consenso de opiniões dos repetidores.


Vistas sobre o "Pequeno half-dome".


Sabemos que alguns escaladores de Vigo e outra malta do norte de Portugal estão muito acostumados a este tipo muito particular de escalada. Daí, nem sequer constituir uma surpresa por aí além o facto de terem decotado tanto a via (num dos largos, do 6b para V+/6a!). Para mim é perfeitamente compreensível. Estes tipos, são de facto os locais e estão mesmo à vontade no reino do cristal!


Uma cordada na via "Meadinha".


Como era de esperar, a nova ascensão da Edelweiss correu-nos de uma forma muito mais fluida e a via foi totalmente encadeada em livre.

Na curta placa final do terceiro lance, comum com a Via Norte, onde por desconhecimento tinha colocado uma plaquete, realizei os passos sem proteger na chapa e, posteriormente desequipamos a secção. A plaquete da reunião também foi retirada. É possivel montar esta reunião com friends ou utilizando uma cinta à volta de um grande arbusto oportuno.


Daniela antes de iniciar a via "Meadinha".


No ultimo largo, apenas interessante para quem queira muito realizar “toda” a Edelweiss foi equipada a reunião com uma (!) plaquete de argola.

A linha de rapel a adoptar coincide com a via “Aplaudeme Nena”, com a possibilidade de se apanhar outras reuniões, de outras vias.

A Edelweiss é uma via de grau mais ou menos acessível mas, exposta. No segundo lance encontramos um “run-out” considerável num esporão de escalada relativamente fácil mas desprotegida, não só para o primeiro, como para o segundo da cordada que, no caso de queda se arrisca a rebolar pela esquerda ou direita da aresta. Assim, é de todo conveniente afrontar esta via com o nível psíquico consolidado no granito da Peneda.


Daniela na via "Meadinha".


Por outro lado, no fim de semana de 1 de Maio, a Meadinha recebeu a visita de alguns ilustres “mouros” da nossa comunidade, que se deleitaram com a “escalada do cristal”, resultando na repetição de algumas vias emblemáticas, como a “Autopista”, a “KK deluxe”, a “Come-cocos” e alguns outros largos, mais... alternativos! Alguns enganos conduziram à repetição de alguns lances raramente escalados.

O Nuno Pinheiro, avança para o que pensava ser o segundo lance da KK deluxe, realizando, na verdade, a via “Cálice do Porto”, recentemente escovada e aberta pelo Alberto Teixeira e o Paulo Pereira, em 1987. Esta é uma das vias da Peneda com fama de comer poucas protecções e “run-outs” tremendos. O Nuno descreve a façanha como uma escalada exposta de escassas peças e com uma placa final que “pode chegar ao 6b+” (da Peneda!!).

Os recentes croquis da Meadinha não apresentam ainda o grau para esta via.


Sergio "abismado" na "Come-cocos".


No dia seguinte, o “Bau-bau” ainda bastante cru na arte de lidar com a quinquilharia (era a primeira vez que escalava “à frente” com friends!), resolve atacar o primeiro lance da “Come-cocos” mas, após ultrapassar a arvore (!) inicial desvia-se da fenda de entalamentos de mãos e entra de chofre (absolutamente equivocado!) no “Off-width” da via “Roy”. A fenda revela-se larga o bastante para um cenário de esfoliante de pele. As protecções transformam-se de súbito NA protecção protagonizada por um singular friend dos grandotes a ser arrastado, de uma forma já clássica, fissura acima. Terminus na reunião com um cheiro a suor fora do normal. O cheiro do medo!

Um BRAVO para o “Bau-bau”!


Eu, na "Dias de lluvia", sem utilizar qualquer das plaquetes instaladas... excepto o top, claro!


Entretanto, a Ana Silva e a Isabel Boavida, partilharam a liderança na espectacular Autopista, com o sr. Emilio a dar o seu melhor “20 anos depois” da sua ultima visita à Meadinha, num tempo em que os friends eram mais valiosos que diamantes e as plaquetes eram caricas de coca-cola.

Inspirado pelo retorno, o Emilio contou para aí umas cinco ou seis vezes a sua longínqua aventura na “Directa dos tectos”, em que subiu o primeiro largo da via, todo borradinho. Como segundo de cordada o Paulo Gorjão escalou o lance em livre... de preconceitos e exclamou: -Olha Emilio! Só vim aqui para te dizer que se quiseres continuar, vai sozinho! Eu... vou para baixo!







Paulo Roxo

segunda-feira, março 16, 2009

TERRA DO NUNCA



Placa da Nédia.


Gigantesca lastra, tombada numa vertente da Peneda, entre o Soajo e a Nossa Senhora da Peneda.

Antes da aldeia de Tibo, numa curva acentuada da estrada, desde um esplendido mirador é possível observar a maior parede de granito do nosso país.

Desde esse ponto, o acesso parece bastante razoável, básico até. No entanto, um erro de perspectiva não permite avaliar a real distância a que nos encontramos da parede. Quando nos metemos a caminho, apercebemo-nos dolorosamente que as inofensivas ervas que avistáramos desde o mirador se transformam em grandes arbustos, entrecortados pelas sempre simpáticas, silvas.

Dependendo do nível de orientação e capacidade de corta-mato, em duas ou três horas estaremos na base da parede.

Foi o que se passou no mês de Junho do ano de 1997 ao Ricardo Nogueira e a mim.

O nosso objectivo era abrir uma via nova na Nédia.

As características morfológicas obrigaram ao uso de uma técnica mista de escalada. As placas tombadas são a tónica geral na Nédia. O içar de petates tornar-se-ia muito penoso devido ao atrito e à possibilidade de estraçalhar os próprios sacos de içagem. Assim, o primeiro escalava sem a mochila e o segundo subia com os jumares transportando a mochila da cordada.

A “Terra do nunca”, sobe a torre que se ergue à direita da placa principal da Nédia.

Para aceder à sua base escalámos um primeiro lance de terceiro grau de elevado nível botânico, que nos colocou no inicio de uma fissura muito vertical.

Todas as protecções fixas existentes foram colocadas à mão e tratam-se sobretudo de spits de 8 mm.

Após cinco lances resolvemos instalar o bivaque, ou melhor... instalar-nos num bivaque.

Recordo-me de um nicho entre blocos muito apertado até para uma pessoa. Passámos a noite em posições opostas, bem torcidos. Até me lembro de ter dormido alguma coisa, despertando de vez em quando com os pontapés do meu companheiro.

No cimo da torre, abandonámos uma cinta à volta de uma árvore e rapelámos uns vinte metros, para o interior de um enorme canal de arbustos (e árvores). Queríamos aceder ás fissuras e lastras que formam uma evidente meia lua, visível desde a estrada.




Dois largos depois, encontrei-me numa posição de contorcionista tentando colocar um piton. Duas marteladas e este soltou-se, caindo vertente abaixo. Voltei a tentar colocar um novo piton e... este seguiu o anterior, saltitando pela parede. Finalmente, à terceira, lá consegui colocar a desejada protecção. Mas, ao me ajeitar para tomar uma posição mais cómoda encostei o arnés à rocha e, por acidente, soltou-se um mosquetão recheado de pitons. Não queria acreditar. De uma assentada perdera-mos uns 7 pitons de rocha.

Alguns metros mais acima descobri um artefacto. Uma plaquete caseira. Desilusão! Lá se fora a “via nova”. Apesar de não figurar nos croquis que possuíamos acabámos por descobrir que desde o corredor de arbustos alguém tinha acedido à linha onde nos encontrávamos. Pelo aspecto do buril, parecia que já se tinham passado muitos anos desde aquela misteriosa ascensão (anos 70, talvez). Mais tarde fomos encontrando ocasionalmente mais alguns buris, bastante corroídos.

O bivaque seguinte seria realizado já quase no final da via, em hamacas de rede, num diedro que precedia uma fenda larga em “off-width”.

Não sabíamos estar tão perto do final.

No dia seguinte, “conquistámos” a duras penas a ultima fissura da via, culminando a aventura. Ou quase, porque ainda nos faltava uma difícil tarefa... descer!





Nédia. Ficha técnica.


Aproximação: Desde a aldeia de Tibo, duas opções.

  1. Descer até ao rio, no sentido oposto ao da Nédia. Cruzar a ponte e tomar o trilho na margem esquerda do rio, do lado da parede. O trilho vai-se desvanecendo e a vegetação vai ganhando terreno. A partir daí, continuar de forma instintiva procurando o melhor percurso possível por entre o verde. Entre duas a três horas (ou mais!), consoante a via e o nível de orientação e... resistência!
  2. Desde Tibo, descer por bons trilhos por entre as culturas, na margem oposta à da Nédia. Chegando ao rio, cruzar a vau (quiçá saltitando pedras) e, procurar o melhor caminho em linha perpendicular ao rio e direito à parede. O mesmo horário que o anterior. Nível de vegetação mais reduzido que o anterior.

Descida: A descida, tal como a aproximação, é um aspecto fundamental (até decisivo) a ter em conta, quando se planeia uma qualquer escalada na parede da Nédia.

Existem duas opções de descida, nenhuma delas rápida.

  1. Descer a vertente de vegetação da esquerda para quem está voltado para a parede. O caminho... não existe! Necessário buscar o melhor percurso “zigue-zagueando”, contemplando a possibilidade de ter de realizar algum curto rapel em árvores, de forma a saltar algum bloco mais alto. Esta foi a opção que adoptámos depois da abertura da “Terra do nunca”. É uma opção morosa que requer uma boa dose de aceitação e paciência.
  2. Chegando ao topo da Nédia, cruzar toda a linha de cumeada até encontrar um colo, desde o qual se avista a parede da Meadinha e a aldeia de Nossa Senhora da Peneda. Não cair no erro de tentar descer a linha de água que parte desse colo para a esquerda. Muita vegetação e forte possibilidade de um tipo se perder. Passar o dito colo e, pouco depois, encontrar o trilho que desce para a aldeia. Esta opção requer uma viatura em Nossa Senhora da Peneda ou, uma boleia para Tibo mas, é talvez a opção mais cómoda e com o atractivo de se obter umas vistas esplêndidas da Serra da Peneda.

Para qualquer das opções contar com um mínimo de duas horas.



Terra do nunca.



Estratégia de ascensão:

Para a “Terra do nunca” contar com dois dias (cordada normal!). Ou um dia muito longo, com a certeza de um final nocturno.

Uma boa estratégia pode ser, realizar a aproximação no inicio do primeiro dia, escalar o primeiro lance de III vegetal e instalar o bivaque numas plataformas situadas uns quarenta metros à direita da via. Escalar mais dois lances e fixar as duas cordas.

Na madrugada do dia seguinte, jumarear as cordas fixas e continuar a escalada com horas de luz suficientes para realizar a descida ainda de dia.

Esta opção implica transportar o material de bivaque ao longo da escalada e adicionar os jumares ao material necessário.

Futuro.

Uma bonita actividade pode ser a tentativa de ascensão “em livre” integral da “Terra do nunca”.

Sem uma única repetição, o grau de artificial da via tem a ver com o facto de termos sido obrigados a suspender-nos para colocar a maioria dos pontos fixos. Como o segundo de cordada subia pela corda com os jumares, para ser mais rápido, não chegámos a descobrir o grau “em livre” de muitos dos passos.

Há alguns anos voltei com o Ricardo Nogueira e abrimos três lances de uma nova via, que entra mais ou menos pelo centro da parede. Esta linha encontra-se em projecto e conto voltar para a completar.

A Nédia encerra possibilidades óbvias mas, a sua complicada logística de preparação, aproximação e retirada, em conjunto com o perfil de placa tombada, conspiram contra o apelo a novas aberturas ( e mesmo repetições!).

Todas as condicionantes fazem desta parede uma das mais remotas da nossa geografia.

No fundo, esses são os factores que transformam a escalada da Nédia numa memória indelével.


Paulo Roxo

quinta-feira, junho 19, 2008

Escontro de Escalada na MEADINHA 28 & 29 de Junho!

"Olá a todos!
Como andais de sonhos, de imaginação, de respeito, de segurança!?
Bem...A verdade é que vos sinto positivos e com um equilíbrio crescente! Porém vou-vos pedir para que continueis a esforçar-vos, porque como sabeis daí sai aquilo que cada um É.Está na hora de dizer quem sou, porém para que vos possais aproximar de mim, tereis que ser imaginativos!!!
O meu nome é “Meadinha”, e sou uma parede com uns 170 Metros de altura de sólido granito fissurado pelo ténue passar do tempo; encontro-me no maravilhoso Parque Nacional da Peneda-Gerês.

Nos anexos podeis encontrar toda a informação necessária para continuar a descobrir quem sou e o que vos posso oferecer...mas para isso tereis que assistir à minha “apresentação final”!

Com a minha mais sincera honestidade vos espero.

Atentamente,
Meadinha"

quinta-feira, janeiro 18, 2007

MEADINHA

Algures no ano passado, num caricato texto acerca da via “Terra de Ninguém” e da imponente parede que ela percorre (Picón La Carrocera), situada em território Espanhol mas a escassos metros da fronteira com o nosso país, o Paulo referia-se como sendo a “A maior parede Portuguesa…em território Espanhol”.

Seguindo a mesma lógica de raciocínio, perdoem-me os mais cépticos mas não hesito em afirmar que a Fraga da Meadinha é incontestavelmente a “Melhor parede Espanhola…em território Português!”

Localizada em pleno coração da Serra da Peneda, a Fraga da Meadinha eleva-se provocatoriamente no alto daquela encosta, não deixando indiferente qualquer peregrino que por ali passe em visita ao Santuário da Nossa Sra. da Peneda. Mas, desde há mais de três décadas que também não deixa nada indiferente a outros devotos destas paragens. Peregrinos sem profeta, transformaram esta bela parede de característico e pardo granito num santuário de escalada em rocha.

Escaladores Galegos criaram e desenvolveram este pequeno paraíso onde apenas fugazmente algum escalador luso sobressaiu na sua vertical história. Ainda hoje são eles, os nossos vizinhos que na maioria, bem ou mal continuam a deixar o seus esforços nesta Fraga, abrindo, equipando reequipando, escovando…mantendo viva esta pequena grande pérola e onde cordadas Galegas, Lusitanas e porque não Luso-Galegas desfrutam horas a fio da peculiaridade desta maravilha.

Nos passados dias 13 e 14 podemos desfrutar de mais um grande fim-de-semana a trepar grandes vias nesta grande e belíssima parede. Entre todos (éramos 5, em duas cordadas) escalámos as clássicas vias “S”, “Autopista”, “K.K. de Luxe” e “Come – Cocos”, enquanto outras cordadas percorriam inúmeras vias mais.

M.Grillo

Sra. da Peneda

Fraga da Meadinha
Via «Come-cocos» e «S»

1º largo da «S»

1º largo da «S»

2º largo


2º largo



3º largo da «S»



4º largo da «S»

Cordada na «Autopista»

Ainda 4º lance da «S»


1º largo da «Come-cocos»

3º lance

Cruzando o tecto do 3º lance (A1 equipado, 2 passos) da «Come-cocos»

Tremenda placa do 4º lance


Bruno Gaspar, Chus Lago, Daniela Teixeira, Paulo Roxo e Miguel Grillo

segunda-feira, setembro 04, 2006

A toponímia desta mole granitica tem por vezes gerado uma fugaz controversia. Uns defendem que o seu nome é Fraga de Anamão, outros Fraga de Numão.

De facto, o nome mais generalizado e comum é Fraga de Anamão. Também a carta topografica do Serviço Cartográfico do Exército faz referencia ao cruzeiro de Anamão e à hermida de Anamão ambos nas imediações deste monolito.

Mas, também já foi encontrada alguma referência como sendo Penedos de Numão.

Fica à consideração de cada um investigar o nome mais correcto ou simplesmente apelidar esta belissima fraga da forma que considerem mais acertada.

sexta-feira, setembro 01, 2006

NUMÃO na mão!

A primeira vez que procurei a Fraga de numão não a consegui encontrar. Já lá vão bastantes anos mas, eu já estava algo acostumado a procurar paredes ignoradas. No entanto, a Numão não a avistei.
Quem não conhece o local, pelo que digo pode pensar que esta fraga se encontra refundida num vale encaixado e inacessível ou, a uma distância descomunal... mas não! A Fraga de Numão ergue-se altiva e orgulhosa, ás vistas de toda a gente num dos montes mais altos da Serra da Peneda, na região de Castro Laboreiro. De facto, não encontrar esta torre é realmente uma proeza apenas ao alcance de um distraído incorrigível.
Um belo dia, quando finalmente a descobri, a sua majestosidade e morfologia estranha cativaram-me por completo.
Durante meses sonhei em escalar este magnifico monolito. Abrir por ali uma via tornara-se numa espécie de obssessão.
Mais tarde tive a minha oportunidade. Acompanhado por um escalador da Alemanha de leste, Bidji (em férias no nosso país) lá partimos à aventura.
Uma tempestade repentina gorou a tentativa. A fuga em rapel, à beira da hipotermia, a um lance do final, resultou no desfecho desta incursão. Ficou prometido o retorno para terminar a via.
Pouco tempo depois, também o Miguel Grillo e o João Ferreira (“Animado”) fizeram uma tentativa à Numão.
A sua linha, mais audaciosa, visava uma parede de fissuras no flanco esquerdo da torre, conduzindo a um extra-prumo pronunciado.
Também esta investida não obteve o resultado desejado. Uma grande placa demasiado lisa (e demasiado musgosa) impediu-os de continuar. Desta feita, também ficou prometido o regresso.
Antes destas cordadas, a Fraga de Numão já tinha sido visitada por escaladores. Entusiastas do outro lado da fronteira, acostumados ás fissuras e placas da vizinha Meadinha, abriram uma via que cruza mais ou menos o centro da parede.
Esta via Galega era a única “conhecida” da Numão. Infelizmente, está semi-soterrada pelo musgo e a sua linha exacta roça o limbo do esquecimento.
Em jeito de salvação e, no meio destas histórias de fracassos e inundações de musgo, eis que surge uma via “realizável” nesta bela fraga.
Mês de Junho de 1998.
Vitor Viana e João Dinis divisam uma possibilidade no lado direito da parede.
A linha escolhida parecia apresentar um grau de “musgosidade” aceitável. O facto constítuia uma nova fonte de motivação.
Na verdade, a “Marca do Pastor” representa um verdadeiro golpe de mestre.
Uma observação sagaz e cuidadosa permitiu aos seus autores interligar uma série de fissuras e diedros de tal modo que, para a concretização deste itinerário com 120 metros apenas foram colocados três spits, em reuniões.
A utilização da escova foi espartana. Apenas foram limpos os pontos exactos para a colocação dos pés. Esses pontos ainda podem ser observados (e utilizados!) hoje em dia, oito anos após esta aventura.
A Daniela Teixeira e eu resolvemos repetir a via.
Secretamente, levava na esperança realizar o ultimo largo em livre, uma vez que o croquis dizia A1.
No segundo lance a coisa arrebita pois os passos são técnicos e a fissura existente é demasiado larga. A colocação de um camalot nº4 traz alguma paz de espirito. Sem o camalot nº4, bem... digamos que a emoção está garantida!
Com a elegância de um paquiderme (bêbedo) lá saquei em livre o ultimo lance.
A Daniela testemunhou divertida os meus grotescos esforços, sempre sonorizados com grunhidos incompreensíveis.
Este é um largo de fissura (muito larga) diagonal, na qual um tipo têm de se entalar de forma a proteger e... aproveitando o entalamento... reptar... em livre! Soa bem, não? Felizmente existe a opção mais confortável dos estribos.
Escoriações aparte, lá chegámos ao cimo da Fraga de Numão.
A vista desde aqui é simplesmente magnifica. No entanto, para estragar o ambiente e, para nos relembrar de como é um típico Verão Português, também avistamos ao longe a coluna de fumo de um incêndio de grandes proporções.
Quanto à via, sinceramente, de se lhe tirar o chapéu!

No ar ficou a ideia de retornar para escovar toda a via e reequipar as reuniões (os spits já começam a ter um aspecto arcaico!).

Paulo Roxo

(fotos nos 2 posts anteriores)




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O lance elegante!!
O que avistamos lá de cima... Posted by Picasa