segunda-feira, setembro 26, 2016

Pirinéus - acto II

PIRINÉUS - RESPIRAR!

Acto II - A SAUDADE



Ordesa vertical.


Estávamos cansados. Um dia para recuperar da ida e volta ao Circo de Perramó não foi suficiente. Os quadríceps ainda doíam, os gémeos também, mas a avidez de usar todo o pouco tempo disponível para escalar, fugir para lugares bonitos era maior que todas as dores do corpo, essas mesmas que se instalaram para mascarar a dor que se instalou na minha alma. Dias antes perdi a minha avó Zita, com os seus 101 anos. Segura de que olha agora por mim de uma forma diferente, decidi mostrar-lhe as paredes de Ordesa.
Dias antes, eu e o Paulo tínhamos falado em abrir uma via em Ordesa. Como ultimamente as escaladas tem sido escassas, a pouca rodagem parecia limitar os nossos desejos a uma parede já nossa conhecida, o Abismo de Carriata (vizinha do famoso Tozal del Mallo), onde em 2012 escalámos uma nova via. No entanto, desta vez, era a parede da Fraucata que cativava os nossos sentidos.


A imensa parede da Fraucata.


Cruzar a Fraucata era um sonho que vagueava nos nossos cérebros desde 2012. A parede intimidante, a menos concorrida, onde escaladores de renome, como Jesus Galvez e Christian Ravier deixaram traços ainda hoje pouco (ou nunca) repetidos. Essa mesma parede onde não nos sentiríamos confortáveis. “A Fraucata é a menos desejada das paredes de Ordesa. É austera, o sol chega tarde”, foi o que lemos no novo guia de Christian Ravier e Rémi Thivel. Essa frase exercia sobre nós um misto de medo e atracção.
De alguma forma, entre as saudades da Zita e a melancolia perdeu-se o medo, e deixámo-nos levar pelo sonho. Porque a Zita sempre me fez sentir o coração leve, livre, achei que tinha chegado a altura de enfrentar a Fraucata sem pensar demasiado. Libertar-me, tentar alcançar um esboço de alegria. Senti-me livre do medo de falhar, de não ser aceite por esta parede… “Que se lixe o que acontecer!” Neste enredo confuso, abrimos o livro de Ravier e escolhemos um espaço no papel sem linhas desenhadas. Após um dia de descanso acercámo-nos da parede.


A terminar o segundo lance de escalada. 


Cerca de 300m de calcário vertical olhavam-nos de soslaio. Buscámos o traçado que nos pareceu mais fácil. Brincávamos tentando adivinhar as dificuldades. “Em busca do V grau!” Porque não tínhamos muita corda para fixar, a aventura teria de se desenrolar em tão só dois dias. A rapidez seria algo imperioso para terminar a via no segundo dia. No primeiro não poderíamos fixar mais que 60 a 80m (80 metros... com truque!), no segundo, ou chegávamos au topo ou regressaríamos de mãos a abanar. De qualquer modo, decidimos que aquela via sairia de uma forma ou de outra. Tínhamos tempo, não íamos desistir!
No dia 26 de Agosto, perto da 9 da manhã, apanhamos o autocarro que nos depositou no parque de estacionamento de Ordesa. Uma hora e quarenta depois estávamos à sombra dessa enorme parede. A Fraucata parecia olhar-nos com um sorriso traquinas.


O Paulo inicia o terceiro lance da nova via.


Após um primeiro lance de trepada (70m, um passo de IV grau, o resto: jardinagem), atámos as cordas a um pinheirito isolado e, olhando para cima, descobrimos um lance de aparência… fácil.
- Queres ir tu? Não parece difícil! – propõe o Paulo.
- Estou cansada. Não estou muito motivada. Olha vai tu!
... passada uma hora e cerca de quarenta metros escalados juntámo-nos novamente, na nova reunião.
- Chiça! V grau? Achas mesmo? A mim custou-me! – declarei decepcionada.
- Eu não disse que era V grau! – retorquiu o Paulo.
Tínhamos acabado de escalar o lance que nos parecera mais fácil, um 6b! O nosso “em busca do V grau” desvaneceu-se e mentalmente preparámo-nos para uma via mais dura, bem mais dura.


Todos os lances são mais duros que o esperado.


No quarto lance. A aventura continua.


O dia de escalada parecia estar quase a terminar, pois a corda estática não dava para muito mais, mas lá nos lembrámos que poderíamos fixar uns 30m extra usando uma das cordas duplas (não aconselhável, mas lá o fizemos!). Assim, o primeiro dia rendeu-nos uns bons 80m de escalada.
Como em corpo não recuperado uma nova dose física não ajuda, achámos por bem descansar um dia para regressar em força.


Finalmente um respiro! O quinto largo "aligeira" um pouco.



"Mmm, como será o resto?"


No dia do regresso, despertámos às 4h30 e às seis da manhã apanhámos o primeiro autocarro que parte para o estacionamento de Ordesa.
Antes do nascer do Sol, escondemos uma mochila no meio de um denso matagal no início do caminho que nos levaria à parede. No interior dessa mochila colocámos algum equipamento de pernoita, caso não conseguíssemos apanhar o último autocarro para Torla, o das 22h00. Mentalmente, preparámo-nos para um dia épico.
Algures pelas 8h30 estávamos a tomar o pequeno-almoço, constituído por uma dose de 80 metros de jumar!


Uma reunião típica.


Num momento de travessia nervosa para aceder ao último muro da via.


Escalámos e escalamos e pelas 14h00 tínhamos já atingido uma pequena plataforma que corta a parede. Por onde ir?
Sem grandes hesitações, decidimos seguir a linha que parecia mais fácil – agora já sabíamos que a aparência de facilidade era aqui uma mera ilusão.
- Merda! Está aqui um piton! Este diedro já foi escalado! – a voz do Paulo denotava frustração.
- Queres tentar mais à esquerda? Ainda temos tempo! – berrei com convicção.
Estávamos determinados a abrir uma linha que fosse só nossa. O Paulo destrepou um pouco e escalou em direcção ao diedro da esquerda, aquele que queríamos evitar por nos parecer mais difícil. A vantagem é que terminaríamos a via por uma saída mais elegante.


Escalada exigente já no último muro da via.


Dois lances de escalada levaram-nos ao diedro final. Seria o último lance, lógico e inevitável.
- Merda! Um piton! – silêncio…
- Já andaram por aqui! Epá, agora vou seguir!
Esse último lance seria comum com outra via misteriosa que provinha de qualquer um dos múltiplos diedros ou fissuras. O guia não indicava qualquer via por ali. Foram os únicos vestígios de outros escaladores que encontrámos no nosso alinhamento.


Perto do final. Trezentos metros de escalada debaixo dos pés.


Após sofrer mais uns 35m de escalada, penduranço, “A1zanço” e tal, algures pelas 17h30 estávamos finalmente os dois no topo da Fraucata. Do outro lado do vale, olhávamos a parede do “Gallinero” com orgulho, felizes por ter cruzado toda a “Fraucata austera”, felizes por quase terminar o sonho (faltava a descida) que nos perseguia desde 2012. Felizes por deixarmos o nosso medo 345m mais abaixo. Deleitámo-nos com a paisagem, a vista era imensa, no horizonte de cristas de montanhas reconhecia-se o Taillón, o Cilindro de Marboré, a Falsa Brecha de Rolando, nomes famosos...


"Yeeeeaaaaahhhhhhhh! The end!... opss, ainda não! Falta a descida!"


Vistas largas para o belíssimo circo de Cotatuero. Descida esgotante mas, muito compensadora.


Faltava-nos agora regressar ao ponto de partida. Com alguma sorte e celeridade talvez conseguíssemos evitar dormir por ali. Agora o sonho mais apetecido era jantar num dos restaurantes de Torla. O guia de Ordesa indicava algo como 1h30 para descer... “Hummmm” - estranhámos e contámos no nosso intimo com 2h00. Fizemos contas para apanhar o “bus” das 20h00.
Andámos, andámos, e andámos muito, e em jeito de recompensa a natureza decidiu oferecer-nos a visão de enormes flores Edelweiss, rebecos que corriam pelo vale, marmotas empoleiradas em pequenas pedras. Andámos e corremos, porque o tempo passava e sentíamo-nos cada vez mais longe daquele jantar apetecido.
Perto de três horas depois, a esperança era agora apanhar o autocarro das 21h00.
Novamente no escuro, os arbustos que serviam de esconderijo para a mochila do depósito pareciam ter desaparecido! Os minutos passavam, víamos o jantar cada vez mais longe. Pouco depois os arbustos familiares apareceram. Com o pouco tempo que nos restava, colocámos a mochila às costas atabalhoadamente e corremos para o autocarro, ainda com o arnês à cintura e os friends a tilintar.
Eram 20h55 quando saltámos para dentro do autocarro. Nessa noite, os nossos liofilizados transformaram-se em dois excelentes “menus” e a água de rio ganhou o sabor de um vinho branco fresquinho nascido na mesma região da Fraucata, nos Pirineus!


Daniela Teixeira


A seguir: PIRINÉUS - RESPIRAR! Acto III


Topo da via "SAUDADE":







terça-feira, setembro 20, 2016

Pirinéus - Acto I

PIRINÉUS - RESPIRAR!

Acto I - Circo de Perramó



Vista do Circo de Perramó e Vale de Estós, desde o cimo da via "Momentos".


Ordesa! Sinónimo de vertigem, de aéreo, de lastras imensas empilhadas formando o verdadeiro arquétipo de lego para gigantes.
A visão do mundo vertical do Parque Nacional de Ordesa revela receios ocultos mas também sentimentos profundos. Não é fácil evitar as exclamações sonoras em cada recanto do caminho, em cada brecha na folhagem da floresta quando, como uma aparição fantasmagórica, surgem as muralhas avermelhadas pela luz quente do final da tarde.
Já em 2012 a Daniela e eu tivemos a oportunidade de explorar uma nova via nestas paredes e, não sei bem, mas a distância temporal talvez tenha entorpecido a memória do medo visceral provocado pela verticalidade perturbadora da escalada em Ordesa. Por isso… voltámos!


A grandiosa parede do Galliñero no Parque Nacional de Ordesa.


Nos últimos tempos, por razões diversas e uma perda familiar imensa, os nossos níveis de ansiedade aumentaram muito. Resolvemos escapar para as montanhas. Ansiávamos pelas grandes paisagens, pela natureza selvagem, pela pureza crua dos montes, pela frescura dos bosques. Ansiávamos pela indiferença dos elementos. Uma indiferença sem questões, sem juízos, no fundo, acolhedora.

Pirinéus: a mais bonita cordilheira do mundo.
Duas semanas: pouco tempo mas, uma lufada de ar. AR!

Ordesa consistia no objectivo principal mas, queríamos em primeiro lugar subir a um lugar isolado, deserto e bonito. Lembrámo-nos de um vale espectacular que havíamos visitado há uns anos. Mas seria necessário andar. Andar e carregar!


As muito desejadas sombras do bosque num dia de caminhada dura sob um calor intenso!


Com as mochilas apetrechadas com tudo, incluindo equipamento de escalada suficiente para abrir uma nova via, iniciámos a caminhada para o Vale de Estós. Hora e meia depois, saímos do caminho principal e embicámos para o trilho da esquerda, empinado e sinuoso em direcção ao Circo de Perramó. 
O calor acompanhou toda a jornada, apenas aliviada pela visão sublime das paisagens de aspecto “Canadiano”, das montanhas, dos bosques e das lagoas de água translúcida.


Uma visão do paraíso.


A Daniela já mais animada: "Estamos quase!"


Uma penosa subida de três horas e meia depositou-nos num dos lagos superiores do Vale. Um mergulho rápido nas águas gélidas para lavar os litros de suor perdido precedeu a montagem rápida da pequena tenda. À nossa direita, a Torre de Perramó evidenciava-se. Em 2012 Escalámos por ali uma nova via. Já naquela altura pensámos que os 75 metros de escalada não justificavam a aproximação dura e demorada. Desta vez já se adivinhava uma repetição desse cálculo matemático. Mas quem disse que a montanha é feita de cálculos matemáticos? Nunca é, e naquele lugar, para prova-lo bastava levantar o olhar e apreciar o horizonte num giro lento de 360 graus.
Delimitando a cumeada do vale que acabáramos de subir, avistava-se o pico Perdiguero. Das suas vertentes escorregavam prados de um verde intenso até desaparecerem escondidos por um bosque magnifico. As pequenas lagoas encontravam-se salpicadas por ali e acolá. Em sentido oposto, ali estava o cordão de granito formado pelas Tucas de Ixeya, Agulha del Chinebró e Tuca de Corbets.



O nosso pequeno refúgio isolado do resto do mundo.


Estas paredes surgiam como uma carta aberta, disponível para colmatar os nossos desejos de escalada. É um lugar bastante remoto e bastava escolher uma parede ou um esporão ao azar e a probabilidade de se abrir um novo itinerário era grande.
Ligámos o fogão para aquecer a água para a refeição. Não fossem os mosquitos, a perfeição teria ali uma verdadeira expressão física. No entanto, o tão desejado isolamento, esse, tínhamo-lo encontrado. 
Às duas e trinta da madrugada a fisiologia obrigou a uma saída da tenda. De olhos entorpecidos admirámos o céu limpo e a via láctea em versão total. A ténue luz combinada das estrelas era suficiente para iluminar a muralha de granito e a lagoa que agora revelava uma tez negra. Paz e silêncio absoluto. PAZ! Ficámos ali um bocado a olhar o infinito, a admirar o momento. MOMENTOS!


A preparar o material para iniciar uma nova via na face norte da Tuca de Xinebró... num lugar descrito pela Daniela como: "Onde o Diabo perdeu as botas!"


Na Tuca de Xinebró (de raríssima visita), a uma hora do “campo base”, inaugurámos uma nova via. Cerca de 150 metros de granito, com a cereja no topo do bolo situada no segundo lance, um diedro estético e belo.

A Daniela a emergir do primeiro lance fácil.


A iniciar o estético segundo lance da escalada.


Atipicamente, a nossa via não terminou no cume da torre mas sim no cimo de uma crista. Para cima, ficou a faltar uma secção de parede tombada de trepada fácil. “Parece demasiado tombado mas, não para descer!” – considerámos. Decidimos não continuar para não ter que abandonar muito material nas inevitáveis instalações de rapel. O chip da poupança prevaleceu à lógica alpinística.
Visto a frio, caminhámos umas quatro horas para escalar uma via de sabor incompleto e com um único lance de boa qualidade. Errado! Caminhámos quatro horas para viver e respirar e ainda se aproveitou para subir um pedaço de muralha com vistas largas.


As vistas compensaram todo o esforço.


“Como será isto no pino do Inverno?” – questionava-se a Daniela, com os olhos metidos nas sombrias paredes vizinhas, voltadas a norte. Naquele momento, nasceu uma nova ideia. Talvez um novo sonho…
Quase esquecemos que após uma subida daquele calibre, inevitavelmente, viria uma descida igualmente extenuante. Os joelhos e os tornozelos - especialmente os meus tornozelos, já bastante desgastados por percalços e acidentes vários, ao longo de uma vida de aventuras - viriam a queixar-se lá em baixo, na civilização. O dia terminou com uma tareia magnífica. Algo que por aquelas bandas é conhecido como “Una menuda paliza!” 
Que mais se podia desejar?


Entretanto, Ordesa sussurrava… 


Paulo Roxo


A seguir: PIRINÉUS - RESPIRAR! Acto II


Topo da via "Momentos":





segunda-feira, maio 06, 2013

Variante Pops

 A ULTIMA DA ÉPOCA FRIA 
VARIANTE POPS


 


Já o Inverno tinha entrado na Primavera e ainda não tinha chegado a ansiada encomenda especial.

Após os últimos dias de actividades de neve na Serra da Estrela, ainda esperávamos um fim-de-semana alargado extra para fechar a época. Esse fim-de-semana surgiu dos dias 13 a 16 de Abril, quando vimos uma aberta de bom tempo nos Pirinéus.
Já há algum tempo que tínhamos uma linha em vista nos Gabietos, um “3000” lá para as proximidades de Ordesa.


 A fantástica parede Noroeste dos Gabietos, nos Pirinéus.


No dia 12, um dia depois de, finalmente, recebermos a tal encomenda secreta, fizemo-nos à estrada com o objectivo de chegar a Madrid. Aí iríamos conhecer o representante da RAB Península Ibérica e o Pedro Cinfuentes que foi o primeiro escalador a fazer a travessia das Torres del Paine na Patagónia (também patrocinado pela RAB). Também se juntaria ao grupo, Mendieta, um simpático jornalista de montanha, ex-reporter da revista espanhola Desnivel, que acabou por nos entrevistar, algo que nem sequer tínhamos combinado previamente. 
Após uma noite de “chat chat” agradável, rumámos em busca de ambientes mais montanhosos.
No dia seguinte, com pouca paciência para a aproximação mais tradicional aos Gabietos (que consiste em carregar equipamento de pernoita e comida, para além do típico material técnico, e dormir relativamente perto da parede), decidimos pernoitar ao lado do carro e acumular a aproximação à escalada no dia seguinte. Afinal, seriam apenas mais duas horas e meia a juntar à festa para cima, e mais outro tanto para baixo.


Preparação para uma noite de luxo.


Entre as 5:30 e as 6 da manhã, começámos a aproximação à face Noroeste dos Gabietos, de início por um bonito trilho que estava transformado num verdadeiro ribeiro alimentado pelo degelo das neves e depois, por extensos e incómodos neveiros que apresentavam, ora passos de neve consistente, ora passos em que nos enterrávamos. Aqui e ali víamos vestígios de avalanches recentes, provocadas pela súbita subida de temperatura dos últimos dias... aliás, este ia ser supostamente um dia algo primaveril, seguido de um dia de Verão em que começávamos a suspeitar que não iríamos conseguir escalar coisa nenhuma nas montanhas!


 A caminho da montanha... e do vento!


Algures pelas 9, fustigados por um vento com o qual não contávamos, abrimos as hostes e estreamos as armas secretas. O verde das ferramentas sobressaía brilhante na brancura da neve. Finalmente, os novos piolets entravam em acção!
A face norte apresentava-se com um aspecto convidativo, excepto pelo persistente “spin-drift” que teimava em refrescar-nos o corpo. O Paulo encarou bem a coisa: “Serve de treino!” e eu... eu passava bem sem aquela neve em pó a tentar permanentemente entrar-me pela gola e mangas do casaco.


 "Aí vamos!"


Nas primeiras pendentes, após alguns passos precários mais abaixo... dúvidas... continuamos ou descemos?


Breve percebemos que o aspecto da parede não correspondia ao encontrado. De facto, a zona mais rochosa por onde queríamos abrir via tinha neve, mas como não estava solidificada, não aguentaria nem com um caracol!
Após dois largos de teimosia, com 60 metros cada e alguns passos precários, a decisão estava tomada (de inicio, a minha cabeça não estava para aquilo mas, lá fui), pelo menos sairíamos por cima! Uma grande rampa e uma travessia para a esquerda conduziu-nos inevitavelmente ao corredor da “Remi-Quintana”. Não queríamos coincidir com outra via estabelecida mas, as péssimas condições da neve não nos deixaram alternativa. Por alguns metros avançámos com rapidez, até atingirmos o fecho do dito corredor.


 "Bem, vamos a isso! É para cima!"


 A ideia inicial era escalar alguma linha mista mais ou menos a direito relativamente à minha posição na foto.


Cerca de 2/3 da parede estavam “no papo”, quando o Paulo investigava se a melhor saída seria à esquerda ou à direita.
À esquerda víamo-nos confrontados com uma zona mais exposta, à direita era o desconhecido... fomos pela direita.
Novamente, os novos brinquedos verdes mostraram o seu potencial para os gancheios. Avançamos num terreno misto entre neve podre e rocha... podre e, ao mesmo tempo, compacta e quase improtegivel. É nesta altura que a experiencia se mostra e encontra locais para colocar protecções onde elas supostamente não existem (boa Paulo!).


 A Daniela a chegar a uma reunião, já bem alto na parede e metidos em cheio no assunto.


 "Mmmm... vamos lá a ver se por aqui passamos!"


Uns metros para cima, uma travessia para a direita, uma secção exposta e delicada onde era proibido cair, mais uns metros na vertical e lá estávamos nós na última reunião onde fomos surpreendidos pela única peça de material que encontramos ao longo de 550m de via: um piton!
“Epá, já passaram por aqui! De onde terão vindo?”
A ânsia de estar a abrir via fazia-nos imaginar todos os caminhos possíveis para aceder àquele ponto. Se as condições dos que plantaram o piton fossem as que encontramos, só haveria duas maneiras de chegar ali. Se fossem muito melhores, outros horizontes poderiam ter existido. De facto, se há uma coisa interessante nas vias invernais, é que por mais que se repita uma via, esta será quase sempre um desafio diferente, mais ou menos dura consoante a muita ou pouca neve, podre ou consistente, muito ou pouco gelo... as variantes são infinitas. Foi o achado daquele pequeno artefacto que nos fez pensar que, com honestidade, não poderíamos chamar à “nossa” via: Via! Provavelmente, estávamos a inaugurar uma “Variante” mais.


Após ultrapassar o "crux" da via, constituido por um passo de misto precário, protegido por um piton psicológico.


Restava-nos um largo que terminava numa canaleta de neve vertical, mesmo por baixo de uma cornija intimidante! Rezando para que o calor não a fizesse cair naqueles breves momentos, lá foi o Paulo até à aresta, ultrapassando aquele trecho impossível de proteger.


 A iniciar o ultimo lance e mais do mesmo: neve muito má e protecções... raras.


“Podes viiiiiiiir!”, escutei minutos depois. “Se caires não faz mal, estou no outro lado da aresta!”. Com o coração mais tranquilo subi, bordeei a cornija e saí para a aresta. Atrás de mim, mais umas quantas cornijas, uma delas constituía uma enorme pala com aspecto verdadeiramente ameaçador, principalmente com o calor que se tinha instalado e com o sol a brilhar com toda a sua força. Bom, nós não sentimos grande calor, apenas porque o vento na aresta era tal, que o corpo não percepcionava a real temperatura. No entanto, o avistar de uma avalanche, deixava-nos conscientes de que ainda não estávamos totalmente livres de perigo.


A Daniela já na saída da nossa via, que veio da vertente do lado direito da foto. Aqui, conseguimos ter uma ideia do tamanho das cornijas formadas pelo vento. 


Teríamos de atravessar uma boa parte da aresta para escapulir pelo colo que existe entre os Gabietos e o Taillon.
Uma parte da travessia ainda me fez suar o cérebro “Não é nada bom cortar a neve assim! Vá, vai com cuidado e pisa exactamente onde o Paulo pisou, não cortes mais a neve...”. Mantínhamos a corda entre nós e foram colocadas algumas protecções intermédias “Just in case!”


 Lá ao fundo, a face noroeste do Taillón.


 A face norte do Taillón.


Horas depois, chegámos a terreno seguro. “UF!” Faltava apenas o laaaaaargoooooo pateio de regresso ao carro.
Na descida, pudemos observar como o terreno se tinha modificado ao longo daquelas horas. Os “Debris” de avalanches multiplicaram-se! Nessa altura, tivemos a certeza que aquela tinha sido a última actividade da época, assim nos despedíamos do excelente Inverno de 2013.


 "Check! Vamos ás lecas!"


Como invariavelmente nos ocorre nestas situações e nesta parte do mundo, o dia seguinte foi passado em Riglos!
Passamos das temperaturas baixas para uns agradáveis 24º, onde as cervejinhas numa esplanada virada aos famosos Mallos, nos sabiam a néctar dos deuses!
Se escalámos?
Sim, uns singelos 4 lances, pois os pés inchados de 15h de actividade e os dedos maçados de cerca de 3h de descida não toleraram o “(des)conforto” dos pés de gato!


DanielaTeixeira




Os topos





quinta-feira, agosto 09, 2012

Petit climbing trip - Parte IV - Ordesa

 ANIVERSÁRIO COM... GUINDILLA!





À  que confessar que estávamos satisfeitos após 3 aberturas (“Ai que Saralho, pas de condition” nos Alpes, “Ilógica metrológica” nas cercanias de Benasque e “Matilde” em Peña Montañesa) e desgastados física e psicologicamente pela “Matilde”. Chegara a hora de parar de abrir, mudar de local e desfrutar de umas escaladas bonitas por aí.


 Rumo a outras paredes, outras aventuras.


Depois de terminada a via em Peña Montañesa ainda tínhamos uma semana e meia para dar asas à imaginação, com perspectiva de alguns dias de bom tempo pelas paredes dos Pirinéus. Com Ordesa mesmo ali ao lado por conhecer e estimulados pelo novo guia de Christian Ravier e Rémi Thivel, decidimos pela repetição de uma via no magnífico cenário do parque natural, já considerado Património da Humanidade. 


 "Ora vejamos... a qual via iremos? A qual?..."


 Ordesa, o expoente máximo da escalada de aventura. Aqui o esporão característico da famosa "Rabada-Navarro".

 
Para conhecer a escalada naquelas enormes paredes, escolhemos uma via mais acessível, apelidada de “Bonita clássica”, com cerca de 300/350m (dependendo do croquis), “Grand Diedro 73” na parede do Gallinero. Uma via para desfrutar!


 A linha marca a nossa via de aquecimento. Mais de 300 metros para aquecer!

 
 "Deve ser por aqui..."
 

 "Não vejo nada de material e isto parece dificil... mas deve ser por aqui... (atrás, a espectacular e intimidante muralha da "Fraucata". Já lá está marcado um projecto para o futuro! Yéé!)


 ...Bingo!


Assim, dia 15 de Agosto, as nossas mãos tocaram pela primeira vez o típico calcário de Ordesa. Largo após largo ganhámos verticalidade, e a cada reunião, os nossos olhos pousavam na imensidão das restantes paredes. É de facto como dizem, as vias em Ordesa são... arejadas. Conhecemos as típicas reuniões montadas num quadradinho de rocha acima do ar, as tão afamadas presas geométricas e desfrutámos muito de uma via decididamente 5 estrelas, com estéticos largos (especialmente o antepenúltimo e penúltimo... Uáu!).


 Ar e mais ar na saída da via "Grand diedro 73".


 A escalada dos cubos.


 "Estamos quase!"


 A saída da via para os prados de altitude. Lá embaixo, o belíssimo bosque. "Canadá ambiance"!


Lá em cima, algures pelas 18:00, a prioridade deixou de ser descer quando a beleza da paisagem literalmente nos invadiu. Paredes gigantes a talharem vales a perder de vista, o verde intenso da vegetação, as cabras selvagens, as marmotas atrevidas... tudo nos convidava a ficar ali, simplesmente a apreciar a vista e a vida. 


 A natureza...


 Jogos de luz...


 No circulo pode-se apreciar uma cordada a sair da via "Rabada-Navarro". Pontinhos perdidos no mineral.


As marmotas normalmente tão tímidas, são aqui mais fáceis de observar. Já sabem que não constituimos nenhuma ameaça.

 
Uma hora mais tarde, lá nos convencemos que ainda tínhamos muito que andar até chegar ao carro e se queríamos chegar de dia, o melhor era pôr as pernas a mexer. Por essa altura, já nos parecia difícil deixar Ordesa sem antes desenhar uma nova via numa das suas paredes. Na verdade, Ordesa para escaladores, é como uma interminável loja de doces para crianças.


 "Não apetece nada mas, está na hora de descer!"...


 ... rumo ao vale.


 Feliz!


Com previsão de bom tempo para os próximos 3 dias... ou 2 dias e meio, decidimos não nos entusiasmar demasiado e fazer primeiro um reconhecimento à parede “Abismo de Carriata”, a parede da direita do Circo de Salaron, mesmo ao lado do arqui-famoso “Tozal del Mallo”. A escolha prendeu-se com um simples facto, os 300m dessa parede contavam apenas com duas vias, ou seja, aquele quadro tinha espaço para se pintarem muitas mais linhas. Uma caminhada de cerca de hora e meia deixou-nos na base e com alguma rapidez traçamos mentalmente uma linha que nos levaria ao topo da parede. Estava decidido, nos dias 17 e 18 iríamos tentar abrir a nossa via em Ordesa.


 O Tozal del Mallo espreita por entre as árvores.


 O Circo de Salarón, uma deliciosa mistura de rocha e verde.


Mas dia 17, para além de escalar, queríamos desfrutar de um fim de tarde tranquilo e um jantar numa preciosa esplanada de Broto. Afinal estávamos de férias e... eram os meus anos!
Para que tal fosse possível, não nos restava outra solução a não ser acordar novamente com os passarinhos, a horas que seguramente se fosse para trabalhar... não me levantava!


 "PARABÉNS A VOCÊ......PARABÉNS A VOCÊ........"


Pelas 9:30 começamos a escalar. A mim, tocou-me de presente o primeiro largo. Pintei exactamente a linha que tinha imaginado no dia anterior, apenas com mais alguma dificuldade do que o previsto. Passei depois os pincéis ao Paulo que esboçou mais dois largos nesse dia. A coisa correu-nos de feição, a linha foi ganhando um cariz de “Clássica”, com dificuldades amenas e sem a necessidade de colocação de qualquer espécie de protecção fixa, nem nas reuniões!


 A Daniela a iniciar as hostilidades... o presente de aniversário.
 

 Mais dificil do que a primeira vista fazia parecer.


 Os primeiros passos da nova via... yuupiiii!


 O segundo lance da nova via. À cautela, até nos habituarmos a escalar tijolos e lego.


Chegando à altura máxima para o dia, dentro do comprimento de corda que tínhamos para fixar, descemos a boas horas para curtir o nosso final de tarde tranquilo, tal qual como previsto... algo que raramente acontece nestas lides! Aproveitámos para espreitar um bonito vale que fica mesmo ali ao lado, o vale de Bujaruelo, cujas paredes também têm um aspecto promissor... para outra altura!


 Um jantarito no camping, como manda o figurino.


No dia seguinte, tínhamos pela frente mais de metade da parede, pelo que novamente nos forçámos a acordar com os passarinhos, com o objectivo de terminar a via... ou deixá-la por terminar! As previsões meteorológicas não eram animadoras para a tarde, mas como se diz por cá: “Quem não arrisca...”!


 Jumares para pequeno almoço.

 A coisa rola! Graças ás abundantes fissuras a escalada revelou-se bem mais flúida que na Peña Montañesa.

 
 Bombproof!


 A terminar a primeira parte da via.


Os largos sucederam-se com fluidez e a abundância de fissuras para proteger fez com que o tempo gasto fosse o mínimo por largo e reunião. Para o final, o cansaço já se fazia sentir, no entanto o bom horário que mantínhamos deu-nos a certeza de que iríamos sair da via por cima, como tínhamos imaginado dois dias antes.


 60 metros de rampa de ervas. O chão lá embaixo é ilusório. Na verdade, depois da rampa existe um precipicio absolutamente vertical com cerca de 200 metros. Encordamento obrigatório!


 A iniciar o penultimo lance, o maior e o mais exigente da via... aqui ainda não sabia!


 Climb! Climb!

 
"Parece-me que este tijolinho não faz parte da via... fora!"


Pelas 18:30 chegamos ao topo da parede, já com umas nuvens ameaçadoras a preencherem o céu. Ainda assim, desfrutamos do fim da via a apreciar uma vista deliciosa, sentados num tapete de relva verdejante, a degustar uma sandes de pão duro que nos soube a refeição de luxo.


 O ultimo diedro dificil.
 

 A Daniela montada no quadrado da penultima reunião.

 
 "Cheira-me a cume!"


 Sandocha mais dura que uma pedra de calcário... deliciosa!!


 "Tá-se bem!"


Após uma looooonga descida, perto das 9 da noite chegávamos sorridentes (sim, com um sorriso de orelha a orelha!) ao camping onde estávamos instalados, cheios de vontade de fazer um jantar ligeiro, acompanhado de um bom vinho português e... de uma potente guindilha espanhola a servir de aperitivo. 


 "Para a esquerda temos uma... ferrata! Para a direita temos uma... ferrata! Moeda ao ar!"


 A descer o trilho de vertigem. Em frente, lá ao fundo temos a parede do "Abismo de Carriata", um nome apropriado para o palco da nossa nova via. Deste angulo pode-se apreciar a verticalidade perturbante. Uma constante em Ordesa.


 Os corços cruzam tranquilamente a estrada.


Mas a chuva que estava prevista para a tarde, acabou por chegar ao camping mais ou menos ao mesmo tempo que nós! Nada como uma carga de água à séria para nos empurrar para um belíssimo jantar num restaurante em Broto!
E assim, com a chegada do mau tempo que se ia instalar no vale por alguns dias, e ainda com meia semana pela frente, decidimos mudar de poiso, aproximarmo-nos vagarosamente de casa e mudar de rocha.

Apontámos a viatura para o granito...


Daniela Teixeira


 Os topos: