quarta-feira, abril 11, 2012

Perro Marrón

PERRO MARRÓN




El Lechêne? Más seco que en verano!”
Responde em Castellano o guarda do refugio Des Oulettes de Gaube, situado nos Pirinéus franceses.

Com o telefone na orelha, como descargo e adivinhando a resposta do outro lado, ainda pergunto sobre as condições do “Corredor de Gaube”: “El Gaube? Más seco que en verano! Si quieres sube hasta aquí, pero no vás a escalar!”

O aumento das temperaturas, as más condições das montanhas e o mau tempo, invalidaram os restantes objectivos do estágio “Ascensões míticas”.

Felizmente, já tínhamos realizado uma bonita actividade...

Depois da “Aresta Kuffner”, o Tiago faneca resolveu aceitar um novo desafio e juntos formámos cordada para levar a cabo o programa proposto para os Pirinéus.

Tivemos de adaptar os planos desde o inicio em função das condições climatéricas. Aproveitando uma curta janela de bom tempo e, com poucas horas de descanso, depois da viagem de carro desde Portugal, iniciámos a caminhada de aproximação à parede noroeste do Gabietos Ocidental, um bonito pico com 3034m situado no maciço do Taillón.

A proposta de programa original visava a ascensão da clássica face norte do Taillón. No entanto, o Gabieto ficava um pouco mais próximo do que o seu vizinho, tornando-o automaticamente num candidato mais apetecível, caso se confirmassem as piores previsões.

“Provavelmente teremos a oportunidade de abrir uma nova via, caso aches boa ideia.” A minha proposta, realizada dias antes da partida para os Pirinéus, suscitou uma resposta entusiasmada do Tiago, aumentando assim o leque de possibilidades.

Por volta das sete da manhã do dia 1 de Abril, através da penumbra da alvorada já se via a magnifica face noroeste do Gabieto.


A face Noroeste do Gabieto já à vista!


Como oportunistas, seguíamos um trilho recente na vertente nevada de acesso à base da parede. “Ali estão eles!” Com o dedo estendido apontei os autores da linha de pegadas que aproveitámos. Naquele momento, já se encontravam bastante alto e bem inseridos na “Noroeste Clásica”, um evidente corredor que corta a parede de neve e rocha pelo seu centro.


Os dois circulos vermelhos marcam os dois alpinistas na "Noroeste clásica".


Um primeiro lance mais empinado do que a primeira vista fazia supor, revelou uns passitos interessantes de escalada mista. Logo, continuou o Tiago “à frente”, percorrendo grande parte de um corredor largo e extenso.


O primeiro lance empinado.


O Tiago a emergir do primeiro lance da via.


"Queres seguir agora tu de primeiro? Vamos!"


Por detrás das nossas mochilas o sol iluminava já as montanhas mais altas, com as faces sul apenas manchadas de branco e castanho, com pouca neve para a época.

Íamos ganhando altura, sempre procurando o itinerário mais evidente.


Auto-foto com o precipicio.


O Tiago a chegar a uma reunião.


“Está aqui um piton! Isto não é uma via nova!” Anunciou o Tiago. A descoberta do artefacto instalou um travo de desilusão mas, por pouco tempo. No fundo, que importava? Abertura, repetição. Naquele momento estávamos mais concentrados na ascensão de uma via bonita do que propriamente em ligar para a importância abstracta de sermos os “primeiros”.


O Tiago a escalar o corredor intermédio.


O Tiago esmerou-se para proteger convenientemente uma curta passagem lateral de rocha, depois dedicou-se a arrastar a corda atascada num zigue-zague de atrito impossível de remediar e finalmente, esforçou-se para encontrar uma reunião aceitável num muro muito decomposto. Quando cheguei à reunião deparei com uma cinta passada à volta de uma pedra entalada. “Foi o melhor que se conseguiu arranjar!” Remata o Tiago com um sorriso, como resposta ao meu olhar desconfiado. De facto, não existia nenhuma outra alternativa naquele local. Felizmente, uma “chapa” de gelo aceitou um bom parafuso e, razoavelmente protegido, lá ultrapassei um curto muro gelado. Estávamos perto da aresta cimeira e do final da nossa via.


O Tiago a ultrpassar uma passagem mista mais delicada.


Eu, numa passagem de gelo fino.


O vazio!


O sol resolveu iluminar a vertente.

Um diedro empinado com uma fina linha de neve, uma secção de rocha e um muro de gelo muito fino prometiam alguma luta. Uma combinação duvidosa entre o “Dry-tooling”, “Wet-tooling” e “No-tooling”, permitiu superar em livre as ultimas dificuldades, o “crux” de toda a via.


O diedro final... e a seguir?


Dry!


O Tiago a terminar as ultimas dificuldades da via...


... e a chegar à reunião.


Em breve, montámos a afiada aresta que nos conduzia ao cume.

Não tivemos tempo para apreciar as vistas porque rapidamente nos tornamos testemunhos involuntários do famigerado hábito que possuem as montanhas para a mudança súbita de humores. Bem mais perto do que o desejaríamos, avistámos um compacto muro de nuvens negras que se aproximavam da nossa posição a passos largos. De repente, o estrondo de um trovão confirmou os piores receios. A aresta de uma montanha a escassos metros do seu cume é com toda a certeza o ultimo sítio para se estar durante uma tempestade eléctrica.

“Vamos, vamos, vamos!” Foram as únicas palavras proferidas durante os longos minutos de travessia final.


Na aresta final com a tempestade eléctrica a aproximar-se a bom ritmo. "Vamos, vamos, vamos!"


Um dos momentos da descida.


Toda a descida foi bem regada com neve, granizo e chuva, por esta ordem.

Ainda na fase da primeira parte da tempestade (a parte da neve!) tive a oportunidade de observar um raio a estourar no cimo do Taillón. Um bom lembrete para confirmar que o trio formado pelas electricidade, cume e alpinista nunca podem resultar em boa coisa.


E depois... a grande molha!


Na ultima parte da descida, sob chuva intensa, em passo acelerado por entre pedras e lama, fomos sempre acompanhados por um pequeno cão perdido do dono. Pouco depois constatámos que o cão pertencia a um dos escaladores que avistámos nessa manhã na parede do Gabietos. A recuperação do pequeno fiel amigo do Homem foi a gotinha que motivou o nome para a possível nova via.

Dias mais tarde, após pequena investigação cheguei à conclusão que o piton descoberto provinha provavelmente de uma repetição da via “Salaverría/García” pois foi encontrado precisamente na secção em que as vias se tocam. No entanto, a certeza absoluta destas coisas é algo que não existe. Dito isto, até indicações em contrário, fica o traçado invisível de uma nova linha numa bonita e sugestiva parede de gelo e rocha na incontornável cordilheira dos Pirinéus.

Uma ascensão divertida.


Paulo Roxo


Os topos


Foto de David García Gallardo

Foto de David García Gallardo

Foto de Tiago Faneca


quinta-feira, fevereiro 23, 2012

Pineta

BARRIGADA DE GELO




Ainda no fim do primeiro dia de escalada, Domingo, dizia:
- Se amanhã escalarmos como hoje e na Terça fizermos uma via antes de irmos, o post vai chamar-se “Barrigada de Gelo”.

Sábado, algures pelas 14:00 entrávamos no vale de Pineta, com uma fome de gelo difícil de satisfazer. Este ano, até à data, as nossas mãos ansiosas ainda não tinham sentido o peso dos piolets.



Duas imagens do vale de Pineta. Dias gloriosos.



À medida que subíamos o vale à procura do camping onde iríamos ficar, começamos a avistar nas vertentes bonitos canyons absolutamente congelados.
À nossa esquerda, a primeira grande cascata que avistamos foi a estética “Cascada de La Sarra”. Os nossos olhos mediam a dimensão desta cascata encaixada no Barranco de Molins. Uáu! Tinha à vista bem mais de uma centena de metros para escalar!
Dois minutos mais à frente, também do lado esquerdo, ainda os nossos olhos não tinham largado a “La Sarra”, estava o camping.
Rapidamente descarregamos o carro, apreciamos a “tenda” onde iríamos passar algumas horas dos próximos dias (como a vida é dura!!) e prosseguimos o reconhecimento vale acima.


A nossa "tenda", um achado em conta com uma vista...


... para as montanhas.


Em várias linhas de água o tempo para as gotinhas de água tinha parado. O seu percurso até ao mar estava agora interrompido devido ao intenso frio dos últimos dias, para nosso deleite.
As cascatas sucediam-se vale acima, barranco sim, barranco sim. Apesar de muitas cascatas, o nível de neve estava muito acima e as vertentes estavam longe de mostrar a pintura branca que normalmente ilustra os Pirinéus nesta altura do ano. Queríamos lá saber disso! Havia gelo em quantidade e (viemos a saber um dia depois) em qualidade para saciar a nossa fome.
Regressamos ao camping a fim de planear o que seria o nosso primeiro dia de gelo da época. Estávamos indecisos, entre a “Cascada de la Sarra” e a “Nostalgia de lo Irlandês”. Ambas aparentavam ocupar umas boas horas. Decidimos pela “Nostalgia de lo Irlandês”, supostamente com 160m e que aparentava ser mais fácil.
Para aproveitar o dia integralmente e apanhar esta cascata sem ninguém, decidimos despertar pelas 5:30. Cerca das 7:15, parávamos o carro junto ao Refugio do vale de Pineta e desde aí, após uma dura aproximação de... 15 minutos, chegámos à base da cascata.
As condições do gelo?
SOBERBAS! Rapidamente os piolets ganharam vida e “piolada” atrás de “piolada”, “cramponada” atrás de “cramponada” ganhámos metros afastando-nos do chão.


Para nós, as primeiras pioladas do ano. Nada como iniciar as hostes com uma cascata de uns 250 metros! A "Nostalgia del Irlandês".


A Daniela a enroscar um parafuso...


... e a "chapar".


"Let`s go!"


Boa foi a ideia de começar cedo, pois ao terminar o primeiro largo, estava já uma cordada a iniciar esta mesma via.
A escalada decorreu entre cascatas e ressaltos por bem mais dos 160m anunciados, para terminar numa bonita coluna, o largo mais técnico. Apesar de pequeno, a verticalidade puxou pelos nossos braços já desabituados de fazer força! Quantos metros escalamos, não temos bem a certeza, mas foram seguramente um pouco mais de 250m.





Quatro fotos da Daniela numa das cascatas maiores da "Nostalgia del Irlandês".





Na ultima coluna vertical e "a puxar"!


A proximidade ao camping tornou-se num verdadeiro luxo! Fomos almoçar à “tenda” quentinha e pela tarde rumámos a mais uma cascata, desta vez mais "pequenina".
Perto da cabeceira do vale, avistámos uma via, um bonito largo com cerca de 40m. A decisão foi fácil, um larguinho grandote para rematar o dia... chega bem. A surpresa foi boa!



A bonita cascata da tarde. A "Amenaza subirana" parecia ter apenas um largo mas afinal...



No topo, recolhido dos olhares de quem está na base da cascata, encontrámos mais um largo. Os 40m esperados tornaram-se numa espectacular cascata de 80m, a terminar numa mega cova onde se inicia a mais dura via das redondezas (que não estava devidamente formada), a “Brutal Fang”, com o seu acesso por um mega tecto em artificial.



No segundo lance da "Amenaza subirana".


Mais acima, a mais dificil do vale: "Brutal Fang", em más condições.


Saldo do primeiro dia?
Corpo cansado, mente feliz.


Mente feliz!



A via "Nostalgia del Irlandês" é a garganta evidente. Não conseguimos evitar a porcaria do cabo nesta foto.


Saboreando o merecido jantar já no quente conforto, decidimos escalar a “Cascada de la Sarra” no dia seguinte. Decidimos também acordar meia hora mais cedo, para garantir novamente que éramos a primeira cordada a escalar e que não tínhamos ninguém na cola.
Pelas 7:15 estávamos já na base (após mais uma dura aproximação de 15 minutos!) a equiparmo-nos, quando apareceu mais uma cordada. UF! Ainda bem que chegámos cedo!
“Mierda” pensaram os espanhóis que também madrugaram para ser os primeiros.
O primeiro largo desta cascata é de encher os olhos... e os braços! Um “cachão” de gelo com cerca de 50 contínuos metros a 80/85º. Não podia começar melhor.


"La Sarra". A jóia do vale de Pineta. Para começar o dia temos uns 50 metros contínuos de gelo. Beeeeelo!


Seguiu-se mais uma cascata de 35m, uns ressaltos, mais duas cascatas e finalmente um estético e ultimo largo de 30m, bastante encaixado, a sair de uma marmita de gigante. Marmita perigosa, pois a água aí em estado liquido estava disfarçada por um tapete de folhas. Um espanhol mais distraído da cordada que nos seguia, aferiu o nível de água... até à cintura!



Segundo lance também espectacular.






A Daniela a desfrutar o segundo lance da "La Sarra"




A caminho do topo!


Mais uma via soberba! Depois de uns quantos rapeis até à base as nossas cordas estavam... inconsumíveis! Também não nos importámos muito, porque os 200m da “La Sarra” encheram-nos as medidas.


A nossa satisfação não aquece o suficiente para descongelar as cordas, transformadas em cabos de aço.


"La Sarra". 200m, 4+.



O resto do dia foi útil para fazer o reconhecimento do que poderíamos escalar no nosso último dia, a Terça de Carnaval. Dia em que teríamos de regressar a Portugal. Não queríamos fazer as 10 horas de viagem sem antes picar gelo, uma vez mais.
Decidimos espreitar as cascatas do túnel de Bielsa, que sabíamos ficarem perto da estrada. Uma (ainda mais) curta aproximação seria o ideal para o dia de regresso.
Entre as várias cascatas formadas, na boca sul do túnel, estava a eleita, uma das aconselhadas, “El sueño del agua”. Muitos metros de gelo a começarem a 5 minutos do estacionamento! Decidimos que no dia seguinte faríamos um ou dois larguitos daquela linha bonita antes de regressar a terras lusas...só mesmo para colmatar aquele niquinho de fome que ainda vingava.
Com o reconhecimento feito, achamo-nos no direito de, pela hora do lanche, saborear uma tapita bem acompanhada de “una botella de cerveja”, no bonito “pueblo” de Bielsa.



Bielsa.



Na terça-feira de Carnaval, mais uma vez o despertador toca cedo, desta pelas 5:10. Depois de tudo arrumado e um pequeno-almoço quente e aconchegante, saímos da “tenda” já com o arnês à cintura, rumando ao último “Sueño” desta visita relâmpago às cascatas dos Pirinéus.
Pelas 7:00 estacionávamos o carro e ás 7:20 estávamos já com os piolets a golpear o gelo.
Nada melhor para iniciar uma longa viagem de regresso, que uma cascata expresso de 220m! De facto, em vez de “um ou dois larguitos daquela linha bonita”, acabamos por fazer os 220m da cascata toda!




A ultima cascata da actividade carnavalesca: a "El sueño de agua". 200 metrinhos mais antes de rolar para casa.


"El sueño de agua", boca sul do tunel de Bielsa. Neve nem pitada!


Era meio-dia quando o motor do carro começou a trabalhar. Eram as 12:00 quando demos por terminada a nossa “Barrigada de gelo”. Eram as 12:00 quando iniciamos o rol de comentários acerca desta viagem expresso, da quantidade, da qualidade, das dores nas mãos, do luxo do Bungalow, do desejo de voltar. Eram as 12:00 mas podia ser oura hora qualquer. O que não podia ser era outra cordada qualquer!


Daniela Teixeira