segunda-feira, maio 07, 2012

Liberdade 25

 LIBERDADE 25




A história desta via começou há muitos anos, ainda eu não era sequer um projecto...ou talvez já fosse na cabeça de um casal que ouvia os concertos do Zeca Afonso, Sérgio Godinho, entre outros, nos anfiteatros das universidades, na cabeça de um casal que de quando em vez era corrido das cantinas universitárias pela PIDE.
A história desta via começou num tempo em que era difícil escalar, muito menos em Espanha, já que sair do país era um privilégio ao alcance de muito poucos.


 
 Escalar. Um privilégio que podemos agradecer à "Revolução dos cravos".


A história desta via começou no seu nome, LIBERDADE 25. Começou precisamente à 38 anos, quando um golpe de estado militar depôs o regime ditatorial e iniciou um processo que levou à implantação da democracia com que hoje vivemos. 25 de Abril de 1974, a “Revolução dos cravos”, a busca da liberdade. Reza a nossa história bonita que uma florista em Lisboa, no dia da revolução, começou a distribuir cravos vermelhos pelos populares, que os ofereceram aos soldados. Estes colocaram-nos nos canos das suas espingardas.
Nessa altura, as forças do regime que se viram desprovidas de apoios militares não resistiram. A adesão da população ao golpe de estado foi maciça. O resultado foi uma revolução pacífica. Ainda assim, as balas da DGS (Direcção Geral e Segurança – ex-PIDE) ceifaram quatro vidas em Lisboa.
Na sequência desta revolução foi instituído em Portugal o feriado nacional 25 de Abril, "Dia da Liberdade".


 
 Um céu expressivo.


Trinta e oito anos depois, pela manhã de 25 de Abril, debaixo de um sol meigo, caminhámos pelo encaixado vale de El Chorro até à segunda garganta. Do lado direito, estava a parede que tínhamos decidido explorar. Mais de 200 verticais metros de calcário sem qualquer via. Pelo menos a avaliar por todas as investigações que fizemos, corroboradas pela falta de qualquer vestígio humano tanto na parede como na sua base.
Sim, é difícil acreditar que uma parede daquela dimensão num local tão conhecido como El Chorro, não tenha sido palco de qualquer escalada. Por outro lado, se pensarmos em El Chorro essencialmente como um palanque de desportiva e aproximações curtas, a coisa já se compreende.
Depois dos 40 minutos de aproximação, e após decidirmos que direcção tomar naquele mar de rocha, lá nos metemos em trabalhos...trabalhos bons, claro!!!
Optámos pelo caminho fácil, o que geralmente se chama “a clássica da parede”.
Seguimos uma fissura/diedro que visto de baixo não parecia mais que IV grau. De facto não nos enganamos muito, os 3 largos que escalamos no primeiro dia variaram entre um V e um...6a+! A rocha? Absolutamente excelente! Uma agradável surpresa.


 
 
 
 Dois instantes no primeiro lance da via. "Estão abertas as hostilidades"!


Atinginda a plataforma a que nos propusemos chegar nesse dia, decidimos fixar cordas e regressar no dia seguinte para completar a via. Esperávamos já que o dia seguinte fosse bastante mais longo. Não só porque nos faltava escalar cerca de 2/3 da parede, mas porque desta os largos já não se pareciam com IV’s graus! Lá em cima, os tectos que avistávamos faziam supor algo de...trabalhoso.


 
 
 
 No inicio e final do segundo lance.

 
Para retemperar forças fomos jantar com toda a calma à nossa cantina no El Chorro, o restaurante “El Kiosko”. Sim, este comedor merece toda a publicidade que lhe fazemos. Comida boa, preços acessíveis (mesmo com vinho incluído!), atendimento simpático e localização fantástica em frente à albufeira da barragem de Guadalhorce. Vale a pena conhecer este local nas traseiras das paredes.


 
 A parte mais dura da escalada. Estes passos vão ser dificeis... de digerir!


No dia seguinte o levantar foi doloroso, o desperta-a-dor tira-nos do sono pelas 5:30 mas a vontade de escalar apenas consegue vencer a de dormir pelas 6:00. Tarefas matinais, 40 minutos de aproximação e lá estávamos nós na grande jumareadela matinal! 


 Depois do vinhito da noite anterior nada como uma jumareadela para abrir o apetite matinal.


Tínhamos pela frente 5 largos para abrir.
O primeiro do dia, fácil e rápido. O segundo e o terceiro começaram a puxar pelo cabedal. Ainda assim, a presença sempre constante de fissuras e a fantástica qualidade da rocha, permitiu rápida progressão.


 
 Um lance curioso para iniciar o segundo dia de abertura. Linha mais óbvia é dificil!


 
 A Daniela a sair das sombras do quarto lance da via. Lá embaixo, a linha do comboio que atravessa os espantosos túneis da garganta de los Gaitanes.


 
 A chegar à quinta reunião.


 
 A sexta reunião, antes do parabolt!


Ao chegarmos ao fim do terceiro largo (sexta reunião da via), mesmo por cima das nossas cabeças desenhava-se um enorme tecto que fazia supor mais dificuldades. No entanto, ainda eram as 14:40, ou seja, tínhamos mais do que tempo para abrir os dois largos que faltavam, por isso, até fizemos uma pausa para trincar a “bela da sandocha”. Rapidamente nos apercebemos que podíamos contornar pela direita aquele grandioso extraprumo. Uns passitos de 6b e a coisa estava resolvida. Apenas um curto trecho neste largo apresentou rocha com “casquinha”, de resto, nada a reclamar. Ainda assim, pela dificuldade, pela casquinha, pelo investigar de que caminho seguir, este largo já foi mais demorado que os restantes.


 
 A caminho dos tectos.


 
 "Abre-te Sésamo!" A porta secreta para transpôr os grandes tectos.


 
 O Petate (o Porco!) a voar devagar, devagarinho em direcção ao cimo.


 
 A Daniela a iniciar o fantástico sétimo largo. Aos pés... o solitário parabolt a marcar a sexta reunião.


 
 Um pouco mais acima no sétimo lance. O ambiente é notável.


A um largo do fim, estávamos bastante animados. A certeza de sair de dia, com tempo para celebrar ao sabor de uma cerveja na esplanada do “El Kiosko” deixava-nos sorridentes.


 
 Passito aéreo para chegar à sétima reunião.


 
 Vistas sobre a parede adjacente. Dois dias depois estariamos ali encima a sacar umas fotografias fantásticas!


No entanto, com o passar dos minutos, das horas os sorrisos foram dando lugar a palavras que não vou escrever, a resmunganços, à progressão leeeentaaaaa. 30m de largo que nos levaram cerca de duas horas! Passos difíceis, ausência de fissuras, uma figueira chata onde se prendeu o cordino de içar a máquina de furar, tudo se conjugou para que o tempo passa-se e os metros fossem palmilhados vagarosamente. Pelo caminho, 4 plaquetes seguidas, um verdadeiro recorde ao longo de todos os largos!


 
 Quase, quase, a começar a artificialada equipada.


Às 19:00 estávamos finalmente os dois no topo da parede a saborear uma vista magnífica, mas...lá se foi a esperança da cerveja ao sol! Havia no entanto esperança de alcançar o carro de dia e apanhar a cozinha do restaurante aberta, a tempo de nos servir.


 
 Cuuume!


Rapeis atrás de rapeis depositaram-nos no chão pelas 20:50. 10 minutos a arrumar e lá vamos nós a correr pesadíssimos vale fora para chegar ao carro no lusco fusco, pelas 21:30. Sim, chegámos a tempo de jantar! Se no dia anterior montámos a tenda pelas 21:45, desta chegámos ao “El Kiosko pela mesma hora, agora sem pressas com a boa sensação de que podíamos jantar sem pressas, pois no dia seguinte não havia hora para levantar...tãããoooo booommmm.


 
 De novo, em "Terra Firma", a celebrar com os "amigos" inseparáveis!


A falta de stress do dia a seguir ainda nos deixou escalar uma via desfrutona numa parede logo ali no início do vale. Aproximação? 10 minutos!


 
 
 A Daniela a desfrutar de uma bonita via, no dia seguinte à grande aventura.


Seguiu-se um fim-de-semana turístico, a navegar pelas ruas molhadas cidade de Sevilha (OK, é certo que também já não dava para escalar!!!) e a sonhar com a próxima via em El Chorro...sim, porque os sonhos por ali ainda não acabaram!


 
 Sevilha!!


“Eles não sabem nem sonham...”


Daniela Teixeira



Descrição geral e topo:

A "Liberdade 25" é uma via de corte clássico e evidente.
Os primeiros lances seguem uma sucessão de diedros, fissuras e chaminés hiper-evidentes. Os lances seguintes seguem instintivamente a linha de maior fraqueza do extra-prumo pronunciado.
A rocha... perfeita!


 
 
 

 

 

 


domingo, abril 29, 2012

25 de abril

25 DE ABRIL


 
A jumarear as cordas fixas no segundo dia da abertura.

EL CHORRO.
Uma mega-parede tranquila.
Uma descoberta extraordinária. 
Uma homenagem à liberdade.

Next... 

terça-feira, abril 17, 2012

A Primeira Parede

A PRIMEIRA PAREDE



Em cada visita aos Pinheirinhos, lá estava aquela pequena linha lógica a clamar para receber as mãos de um qualquer que se propusesse a tentar. No passado Domingo, a Daniela e eu decidimos ser o “qualquer” e lá fomos divertidos, em amena cavaqueira, trilhando o caminho que já conhecemos perfeitamente.

Desta feita inaugurámos uma parede, situada à esquerda da “Parede Amarela”, que ainda não possuía uma única via!


A "Primeira Parede".


Não é que seja uma parede com o melhor aspecto do mundo mas, pelo menos existia aquela potencial via atractiva, constituída por uma fissura evidente que corta o contraforte em diagonal. Estava mesmo a pedir para ser escalada!

O primeiro lance revelou-se interessante... para coleccionadores. Honestamente, já escalámos coisinhas melhores. A rocha não é das mais sadias (leia-se medíocre) e as protecções são difíceis de colocar.


A escalar o primeiro lance... interessante!


A Daniela a terminar o primeiro lance.


A coisa “deu-se” e chegámos ao local de reunião, uns 20 metros depois. Apesar de parecer um lance curto, resolvemos montar ali uma reunião porque prosseguir iria com toda a certeza revelar uma vez mais o animal que existe em mim... animal de grunhidos, zurros e rosnadelas, tudo sons que me saem das goelas, cada vez que me entalo a escalar. Desta vez, o “entalo” seria o atrito da corda sinuosa na rocha, caso tivesse decidido continuar para cima.

O segundo largo, muito mais interessante – desta vez à séria! – apresentou uma rocha muito melhor e uns passos atléticos para desfrutar. Curiosamente, a tal fissura atractiva que motiva alguém a escalar esta linha marginal, só foi utilizada já na secção final, onde a parede perde dificuldade e o espirito retoma a tranquilidade.


O inicio do segundo largo.


A terminar a via.


A Daniela a colocar um friend no local onde equipámos o rapel.


A modos de conclusão final, a Sombra Soleada, estará longe de ser uma via extraordinária mas, em nossa opinião, pode valer pelo segundo largo, bonito. Quanto ao primeiro lance, o melhor será considerar aquilo como um acesso!


Gear...


Para descer existem duas opções:

1. A caminhar, descendo o canal situado entre a Parede Amarela e a parede que acabamos de escalar.

2. Em rapel através de uma plaquete de argola e cordeleta equipadas um pouco abaixo e à direita da ultima reunião, até ao solo, utilizando cordas duplas.

Com corda simples o acesso à reunião de baixo é difícil, devido ao extra-prumo.

E desta forma, ali fica uma nova adição ao mundo fantástico dos Pinheirinhos.


Paulo Roxo


Os croquis:




quarta-feira, abril 11, 2012

Perro Marrón

PERRO MARRÓN




El Lechêne? Más seco que en verano!”
Responde em Castellano o guarda do refugio Des Oulettes de Gaube, situado nos Pirinéus franceses.

Com o telefone na orelha, como descargo e adivinhando a resposta do outro lado, ainda pergunto sobre as condições do “Corredor de Gaube”: “El Gaube? Más seco que en verano! Si quieres sube hasta aquí, pero no vás a escalar!”

O aumento das temperaturas, as más condições das montanhas e o mau tempo, invalidaram os restantes objectivos do estágio “Ascensões míticas”.

Felizmente, já tínhamos realizado uma bonita actividade...

Depois da “Aresta Kuffner”, o Tiago faneca resolveu aceitar um novo desafio e juntos formámos cordada para levar a cabo o programa proposto para os Pirinéus.

Tivemos de adaptar os planos desde o inicio em função das condições climatéricas. Aproveitando uma curta janela de bom tempo e, com poucas horas de descanso, depois da viagem de carro desde Portugal, iniciámos a caminhada de aproximação à parede noroeste do Gabietos Ocidental, um bonito pico com 3034m situado no maciço do Taillón.

A proposta de programa original visava a ascensão da clássica face norte do Taillón. No entanto, o Gabieto ficava um pouco mais próximo do que o seu vizinho, tornando-o automaticamente num candidato mais apetecível, caso se confirmassem as piores previsões.

“Provavelmente teremos a oportunidade de abrir uma nova via, caso aches boa ideia.” A minha proposta, realizada dias antes da partida para os Pirinéus, suscitou uma resposta entusiasmada do Tiago, aumentando assim o leque de possibilidades.

Por volta das sete da manhã do dia 1 de Abril, através da penumbra da alvorada já se via a magnifica face noroeste do Gabieto.


A face Noroeste do Gabieto já à vista!


Como oportunistas, seguíamos um trilho recente na vertente nevada de acesso à base da parede. “Ali estão eles!” Com o dedo estendido apontei os autores da linha de pegadas que aproveitámos. Naquele momento, já se encontravam bastante alto e bem inseridos na “Noroeste Clásica”, um evidente corredor que corta a parede de neve e rocha pelo seu centro.


Os dois circulos vermelhos marcam os dois alpinistas na "Noroeste clásica".


Um primeiro lance mais empinado do que a primeira vista fazia supor, revelou uns passitos interessantes de escalada mista. Logo, continuou o Tiago “à frente”, percorrendo grande parte de um corredor largo e extenso.


O primeiro lance empinado.


O Tiago a emergir do primeiro lance da via.


"Queres seguir agora tu de primeiro? Vamos!"


Por detrás das nossas mochilas o sol iluminava já as montanhas mais altas, com as faces sul apenas manchadas de branco e castanho, com pouca neve para a época.

Íamos ganhando altura, sempre procurando o itinerário mais evidente.


Auto-foto com o precipicio.


O Tiago a chegar a uma reunião.


“Está aqui um piton! Isto não é uma via nova!” Anunciou o Tiago. A descoberta do artefacto instalou um travo de desilusão mas, por pouco tempo. No fundo, que importava? Abertura, repetição. Naquele momento estávamos mais concentrados na ascensão de uma via bonita do que propriamente em ligar para a importância abstracta de sermos os “primeiros”.


O Tiago a escalar o corredor intermédio.


O Tiago esmerou-se para proteger convenientemente uma curta passagem lateral de rocha, depois dedicou-se a arrastar a corda atascada num zigue-zague de atrito impossível de remediar e finalmente, esforçou-se para encontrar uma reunião aceitável num muro muito decomposto. Quando cheguei à reunião deparei com uma cinta passada à volta de uma pedra entalada. “Foi o melhor que se conseguiu arranjar!” Remata o Tiago com um sorriso, como resposta ao meu olhar desconfiado. De facto, não existia nenhuma outra alternativa naquele local. Felizmente, uma “chapa” de gelo aceitou um bom parafuso e, razoavelmente protegido, lá ultrapassei um curto muro gelado. Estávamos perto da aresta cimeira e do final da nossa via.


O Tiago a ultrpassar uma passagem mista mais delicada.


Eu, numa passagem de gelo fino.


O vazio!


O sol resolveu iluminar a vertente.

Um diedro empinado com uma fina linha de neve, uma secção de rocha e um muro de gelo muito fino prometiam alguma luta. Uma combinação duvidosa entre o “Dry-tooling”, “Wet-tooling” e “No-tooling”, permitiu superar em livre as ultimas dificuldades, o “crux” de toda a via.


O diedro final... e a seguir?


Dry!


O Tiago a terminar as ultimas dificuldades da via...


... e a chegar à reunião.


Em breve, montámos a afiada aresta que nos conduzia ao cume.

Não tivemos tempo para apreciar as vistas porque rapidamente nos tornamos testemunhos involuntários do famigerado hábito que possuem as montanhas para a mudança súbita de humores. Bem mais perto do que o desejaríamos, avistámos um compacto muro de nuvens negras que se aproximavam da nossa posição a passos largos. De repente, o estrondo de um trovão confirmou os piores receios. A aresta de uma montanha a escassos metros do seu cume é com toda a certeza o ultimo sítio para se estar durante uma tempestade eléctrica.

“Vamos, vamos, vamos!” Foram as únicas palavras proferidas durante os longos minutos de travessia final.


Na aresta final com a tempestade eléctrica a aproximar-se a bom ritmo. "Vamos, vamos, vamos!"


Um dos momentos da descida.


Toda a descida foi bem regada com neve, granizo e chuva, por esta ordem.

Ainda na fase da primeira parte da tempestade (a parte da neve!) tive a oportunidade de observar um raio a estourar no cimo do Taillón. Um bom lembrete para confirmar que o trio formado pelas electricidade, cume e alpinista nunca podem resultar em boa coisa.


E depois... a grande molha!


Na ultima parte da descida, sob chuva intensa, em passo acelerado por entre pedras e lama, fomos sempre acompanhados por um pequeno cão perdido do dono. Pouco depois constatámos que o cão pertencia a um dos escaladores que avistámos nessa manhã na parede do Gabietos. A recuperação do pequeno fiel amigo do Homem foi a gotinha que motivou o nome para a possível nova via.

Dias mais tarde, após pequena investigação cheguei à conclusão que o piton descoberto provinha provavelmente de uma repetição da via “Salaverría/García” pois foi encontrado precisamente na secção em que as vias se tocam. No entanto, a certeza absoluta destas coisas é algo que não existe. Dito isto, até indicações em contrário, fica o traçado invisível de uma nova linha numa bonita e sugestiva parede de gelo e rocha na incontornável cordilheira dos Pirinéus.

Uma ascensão divertida.


Paulo Roxo


Os topos


Foto de David García Gallardo

Foto de David García Gallardo

Foto de Tiago Faneca