segunda-feira, março 11, 2013

A alma e a memória

A ALMA E A MEMÓRIA




A mais desejada cascata da Serra da Estrela. A célebre "Cascata do Inferno", no dia 1 de Março de 2013.


- Olha, o teu projecto está em condições!
A mais de mil quilómetros de distância conseguia sentir a excitação na voz do Miguel Grillo ao telefone. Nem sequer era necessário dizer-me o nome, para eu adivinhar a que projecto se referia.
Estávamos em pleno inverno de 2002, e eu estava “plantado” em Benasque, no coração dos Pirinéus.
O Miguel, o João (Animado) e o Hélder Massano encontravam-se na Serra da Estrela. Naqueles dias, tinham-se formado quase todas as cascatas habituais, incluindo a rara e emblemática “Cascata do Inferno”. Mesmo à direita desta ultima “ex-libris”, existe um tecto pronunciado desde o qual se ergue de quando em quando, uma fantástica cascata de gelo inacessível, a quase 30 metros da base da parede. Esta inacessibilidade, esta aparente impossibilidade, foram talvez os verdadeiros motivos que despertaram a minha imaginação, que atraíram os meus sonhos de aventura. Aquele tecto provocador de granito, um tecto que cortava inexoravelmente o acesso à bela linha de gelo imaculado, representava um desafio irresistível.


Vistas para a face oeste do Cântaro Magro. Um bom terreno de aventura para a escalada mista.


A partir de meados dos anos 90 sentia-me altamente inspirado com a escalada em gelo e a “nossa serrinha”, revelara-se um excelente campo de exploração e aventura. Depois de escaladas várias linhas geladas, hoje clássicas frequentes (se é que os termos “clássica” e “frequente” podem ser aplicados ás características extremamente efémeras do gelo na Estrela), uma ocorrência iria modificar, para sempre, a minha forma de ver a escalada invernal. Essa ocorrência foi a visão de uma simples fotografia. 


O gelo e a rocha.


A foto em questão tinha sido publicada na capa da revista espanhola Desnível, em Janeiro de 1995 e eternizava o Jeff Lowe, suspenso num tecto perfeito, com um dos novíssimos (na época), piolets “pulsar”, gancheado numa fissura rochosa e o outro piolet, cravado numa impressionante estalactite de gelo suspensa no vazio. Era uma visão única, mesmo grotesca. Decididamente poderosa. A fotografia testemunhava a abertura da “Octpussy”, em Vail, nos Estados Unidos e tornou-se de imediato o símbolo de uma pequena revolução no mundo da escalada em gelo, o nascimento de uma disciplina tão estranha quanto inquietante: o “Dry-tooling”. Um novo conceito que permitia utilizar deliberadamente as ferramentas típicas para se escalar gelo, em rocha pura. A teoria original advogava que o objectivo principal seria “caçar” colunas e cortinas de gelo inacessíveis de outra forma. 


A fotografia que despoletou o sonho. Jeff Lowe, suspenso na sua "Octopussy", uma via revolucionária que se tornou na bandeira de nascimento do "Dry-tooling" mundial. Foto retirada da net.


Assim, de repente, diante dos meus olhos, novos mundos se iluminaram. Também a Serra da Estrela iria possuir algum representante dessa disciplina embrionária no mundo. Um dos mais importantes candidatos, o que mais se realçava pela sua estética e lógica, era aquela linha de cristal, a tal inacessível que se erguia do nada, à direita da Cascata do Inferno.
Um dia de Inverno de 1997, sozinho e absorto no meu próprio entusiasmo, desci desde o topo e, munido com uma máquina emprestada, equipei as reuniões e coloquei algumas plaquetes no tecto e na placa desprovida de fissuras do primeiro lance. Nascia assim, um projecto ambicioso. Depois, passei noites de olhos abertos, a sonhar acordado, imaginando os movimentos atléticos, que me iriam levar ao sucesso e ao máximo da satisfação pessoal, na minha muito particular “Octopussy”.
Entretanto, os anos foram passando e, a cada inverno lá ia surgindo na minha cabeça a imagem daquela linha por escalar, como um fantasma sazonal disposto a atormentar-me o espírito, cada vez que caíam os valores do termómetro acompanhados pelos primeiros flocos de neve.
Duas razões principais impediram a concretização de uma tentativa de ascensão digna desse nome: a via teimava em não se formar em condições ou quando se encontrava em condições, eu não estava por lá para tentar. 


Reunião "à bomba!" Dois "abalakovs" e um parafuso. Foto do dia 3 de Março de 2013, no topo da "Cavalo de gelo".


Um dos factores de sucesso para se escalar gelo na Estrela é, “estar no lugar certo, na altura certa”. Foi o reconhecimento desse factor importante que levou o Miguel a telefonar para Benasque, naquele dia de inverno, não fosse eu desaproveitar uma hipótese de poder finalmente inaugurar a via sonhada.
A minha estada pelos Pirinéus coincidiu com o surgimento da disciplina de “dry-tooling” em Espanha e, foi nessa altura que realizei o maior número de vias nesse estilo. Mais do que nunca, estava preparado para enfrentar as dificuldades da nova via na Serra da Estrela. Ironicamente, a distância imensa impedia-me aproveitar aquela oportunidade única. 


Nesta foto de Abril de 2003, o escalador Galego Juan Goyanes, escala a "Titán", em Ardonés, Benasque. Esta via, equipada por mim, constituiu um bom desafio de Dry-tooling e a sua dificuldade ficou assente em M9. Foto retirada da "Desnivel online", com a cortesia de Juan Goyanes.


A título de desabafo, respondi ao Miguel: - Epá! Se está em condições, vão lá! Não deixem escapar essa linha! - Secretamente, temia a resposta, do outro lado.
Cavalheiro, o Miguel declinou o convite e, irremediavelmente, a via acabou por derreter… literalmente.
Entretanto, passaram mais anos e o projecto desejado, a via ambicionada, a “Octopussy” lusitana da minha imaginação, ficaria relegada para segundo plano, destinada a um canto obscuro da memória. A situação de letargia foi apenas interrompida, em Março de 2010, por uma fugaz remexida em top-rope do primeiro lance, que permitiu chegar a duas conclusões capitais. A primeira, foi constatar que aquele primeiro lance era “duro que nem um corno!”. Um “M-Muito!” em termos de dificuldade. A segunda, foi confirmar que o equipamento fixo seria manifestamente insuficiente para manter uma potencial ascensão “à frente”, livre do sério risco de partir as pernas, em caso de queda.  
Uma vez mais, a escalada do eterno projecto fora adiado para futuras calendas.


A Daniela numa cómoda poltrona, depois de escalarmos a excelente "Cavalo de gelo", no sector do "Corredor largo".


28 de Fevereiro de 2013

- Se calhar levo a máquina. Não vá “o projecto” estar formado… - Anunciei, enquanto organizávamos o material para mais uma incursão à Serra da Estrela.
No fim-de-semana anterior, a Daniela e eu tínhamos andado a farejar o gelo no sector do Corredor Largo e, desse reconhecimento saiu uma repetição nervosa da comprometida “Canalito” e uma “primeira” de uma pequena cascata que baptizámos com o nome “Micro-coisa”.


 Dois momentos da Daniela na "Micro-coisa", uma semana depois da sua abertura.



Também tivemos notícias do Rui Rosado e do António Ferra que resolveram investigar o vale de Loriga, onde acabaram por abrir três novas linhas, das quais se destaca a “Youtube”, uma pequena, mas intensa via, com uma entrada em dry-tooling e uma coluna de gelo de saída – mais info sobre estas e outras aberturas na serra, no post seguinte.
A julgar pelas previsões do termómetro, os dias seguintes prometiam. A esperança de encontrar boas condições era tão forte que a Daniela resolveu meter uma folga de forma a aproveitarmos três dias plenos de escalada em gelo.
A Sexta-feira revelou-se um dia de tranquilidade absoluta, sem o rebuliço habitual de turistas que invadem a zona alta da serra, durante o fim-de-semana.
Abrindo uma trincheira na neve densa, descemos o arqui-clássico “Corredor do Inferno” e, imediatamente descobrimos as paredes que marginam a garganta, pejadas do tão desejado elemento congelado.


A descer o "Corredor do Inferno" e a confirmar as boas condições existentes.



Ao chegar ao fundo do corredor: Yes! Ali estava a mais desejada das cascatas. A “Cascata do Inferno”, formada e imaculada à espera das primeiras pioladas da época.
Os olhos da Daniela brilhavam de emoção. Era uma cascata que desejava muito escalar e agora, surgia a oportunidade, talvez única.


"Uau! Vamos lá!"



Quatro momentos da escalada da "Cascata do Inferno", no dia 1 de Março. Gelo imaculado!



Durante as horas seguintes, concentrámo-nos na ascensão dos 70 metros de gelo que constituem esta bela via de rara formação. O dia não podia ser mais perfeito. O azul intenso do céu contrastava com o manto branco pálido da neve. A total tranquilidade do ar frio era apenas interrompida pela respiração profunda, a cada passo vertical mais delicado.


"Yuupii!" Finalmente, a escalar a mais famosa das cascatas da Estrela.


 Dois momentos a terminar o primeiro lance.



Ao chegar ao topo, a satisfação era notória. Impossível ficar indiferente, perante o privilégio de completar uma via daquela qualidade. Sem dúvida alguma, uma das linhas de gelo mais estéticas da Península Ibérica, mesmo ao lado de casa.



Três momentos da escalada do segundo lance da "Cascata do Inferno". 


A Daniela a terminar os passitos delicados de saída da bela.





A descida em rapel, colocou-nos mesmo em cima do antigo “projecto”. Uns pontapés na coluna suspensa no lábio do grande tecto comprovaram as excelentes condições do gelo. Imediatamente, a sensação do “agora ou nunca” atravessou-me os neurónios, como um relâmpago imprevisto.
Era tarde para uma tentativa digna desse nome. “Talvez amanhã”. Pensei.


A Daniela feliz, junto à reunião de rapel. "Cascata do Inferno: Check!"


Mas, no dia seguinte aquele sector iria estar mais concorrido.
Tendo conhecimento das boas condições do gelo na “Cascata do Inferno”, um grupo de escaladores meteu-se imediatamente em fila para, também eles, espetarem ali, os seus piolets e crampons.
Recordei uma dolorosa pancada no nariz, fruto de um bloco de gelo lançado por um escalador acima da minha posição, numa cascata demasiado concorrida, durante uma recente actividade nos Pirinéus. Essa memória fez-me vacilar na decisão de retornar ao sector do Inferno no dia seguinte. A Daniela ajudou a quebrar as dúvidas: - Se achas que esta é uma oportunidade em mil, vamos lá! Afinal, vamos estar afastados uns dos outros o suficiente, para não haver perigo.


No Sabado, o Ricardo Belchior e o Antonio Ferra, "tiram a senha" para a "Cascata do Inferno"...


... logo a seguir, entram em cena o Rui Rosado e o João Garcia.

No dia seguinte, de máquina em riste, acrescentei, sem apelo nem agravo, uma série de novas plaquetes na placa exposta do eterno projecto. Escalava em artificial desde baixo e, ao mesmo tempo ia verificando que tal seria se, por um acaso, tivesse a estamina suficiente para realizar aquilo em livre. Fingia tentar os passos em livre, apenas para concluir (uma vez mais) que estava diante de uma via absolutamente futurista na Serra da Estrela.


A iniciar a secção de rocha do antigo projecto.


Artificial, em busca do gelo.



De certa forma, desiludido pela constatação da minha própria fraqueza, a minha cabeça decidiu que iria descer após a colocação do último expansivo, antes de ultrapassar o tecto e meter-me no gelo. Desistiria assim, de abrir a tão desejada via, naquele dia.


No tecto, ainda pouco convencido que "desta é que é!"


Coloquei a ultima plaquete mas, num impulso irresistível, estendi o corpo e cravei o piolet no alto da coluna. “Surprise!” O gelo continuava excelente. Era desconcertante. Agora, esgotavam-se as desculpas para não prosseguir.
- Atenção, rédea curta na corda porque vou tentar sair para cima! - Anunciei, ainda com algumas reservas.


"Rédea curta, rédea curta!"


Às primeiras “pioladas”, chegou a certeza imediata que iria conseguir. Relaxei, respirei… alguns minutos depois estava suspenso na reunião, a uns quatro metros do final do tecto. “Uau!”
A Daniela juntou-se a mim, após realizar a escalada do primeiro lance também em artificial.


Uma perspectiva da Daniela, na saída do tecto.



Ainda em artificial a Daniela prepara-se para entrar na cascata.


"Okis! Agora, já estamos melhor!"


No entanto, para considerar a via real e oficialmente aberta, faltava ainda escalar o segundo lance, integralmente em gelo. Esse facto não constituía qualquer problema, antes pelo contrário, dada a excelente aparência do “edifício” congelado que se erguia por cima dos nossos capacetes. O que se seguiu, foi a realização de uma das mais fantásticas cascatas jamais formadas pela natureza, na nossa Serra da Estrela. Uma estrutura com quase 40 metros, ligeiramente mais empinada que a própria “Cascata do Inferno”.


 
Quatro momentos na fantástica cascata do segundo lance. Quase quarenta metros de puro júbilo!



No topo, exultantes, celebrámos a primeira ascensão de uma via extraordinária, uma linha realmente singular na nossa geografia. Para mim, algo mais que uma simples escalada.
A Daniela e eu resolvemos baptizar a via com o nome “GRÂNDOLA, VILA MORENA”, como uma forma de protesto e contestação, neste período conturbado em que vivemos e, como homenagem singela e improvável ao poeta incontestável que criou esse hino “da malta”.


 
A cascata final e o final de 15 anos de "sonho morno".


Passado o período de relativa embriaguez pós-realização e, analisando objectivamente a concretização, ao nível técnico, a nova via não representa nenhuma grande novidade. A utilização da máquina reduziu bastante o nível de exposição e transformou o primeiro lance num mero exercício desportivo, com excepção para a primeira parte de cascata fácil e a saída do tecto, para a coluna e reunião. No entanto, em abono da verdade, não existiam outras opções de protecção (pelo menos no inverno, quando as pequenas fissuras de saída se encontram totalmente tapadas de gelo e, inutilizáveis). Por outro lado, nasceu uma via que pode ser escalada em artificial, para ganhar a bela cascata aérea e espectacular. Finalmente, no campo do dry-tooling ali fica um desafio para o futuro, com óbvias dificuldades técnicas e físicas.


 O rapel de celebração. De volta à base.
 

Para mim, abrir esta via representou o culminar de um sonho. Não um sonho impetuoso e fanático, mas sim um desejo em água morna, que ia e vinha ao longo de todos estes anos, por vezes com um pouco mais de intensidade, outras vezes, sob a forma de um breve pensamento, um ténue recordar. Este sonho, este desejo, este pensamento, acompanhou uma parte importante da historia da escalada invernal na Serra da Estrela e, acompanhou também os companheiros e amigos aos quais me encordei durante este longo período.
Uma velha ideia concretizada. Uma ideia com mais de 15 anos.
Para mim… uma escalada com alma.
Uma ascensão com memória.

Paulo Roxo


Contentes por um dos melhores fins de semana de escalada em gelo, na Serra da Estrela.

 


Os Topos:






segunda-feira, fevereiro 25, 2013

O buraco, a galinha e a caixa de pandora

O BURACO, A GALINHA E A CAIXA DE PANDORA




 Os seguintes relatos, topos e fotos, reportam aos dias 2 e 3 de Fevereiro, antes das últimas nevadas e “geladas”, quando a serra ainda tinha pouca neve. No presente momento, as condições das vias apresentadas, estarão muito diferentes do que as que encontrámos durante as ascensões.


 O Covão do Ferro.


Desta vez, o “gelo verde” - lembrando a imaginativa alcunha de um ilustre “facebookiano” da nossa praça - estava mesmo gelado.
As temperaturas negativas converteram o nosso pequeno mundo num jardim de júbilo. Os piolets divertiam-se com os tufos de musgo e erva, oportunamente duros e com as fissuras incrustadas de gelo.


Gelo verde!


Comparar estas condições com as que encontrámos aquando da abertura da “Sopa de legumes”, seria como comparar o vinho branco com o tinto. Ambos são vinhos, mas não podiam ser mais diferentes.
O nevoeiro denso e o vento fizeram notar a sua presença.
Alheios aos elementos e animados pelos valores em queda no termómetro, dirigimo-nos decididos ao sector superior do Covão do Ferro. Acedemos desde a Torre, através do planalto superior. Descemos o “Corredor do teleférico” e encontrámos a neve dura, como raras vezes nos laureia a “nossa” serra. Passámos na base de uma das mais célebres cascatas da serra, a “Cascata encaixada”. Ainda muito precária, esta cascata encontrava-se em rápida formação.


 Cascata encaixada, antes...

 ... e um dia depois!


Um sorriso esboçava-se nas nossas caras.
A existência de gelo por aqui e por ali, ainda por cima, de boa qualidade, vaticinava um bom dia de escalada mista.
O plano consistia em escalar uma nova via no flanco de granito à esquerda da “Cascata encaixada”.
O primeiro lance de “gelo verde” encontrava-se em óptimas condições. Uma travessia ascendente presenteou bons gancheios, tufos gelados e suficientes protecções. Logo a seguir, um diedro mais tombado de resolução difícil, conduziu-nos à primeira reunião. 


 O primeiro lance de "gelo verde" desta vez... duro!


 A meio do primeiro lance.


 A finalizar o primeiro lance já a espetar no gelo.
 
 
 Prestes a atingir a primeira reunião.

 
Contudo, foi o segundo lance o que nos reservou a melhor surpresa. Constituído por um corredor fácil na sua maior parte, terminou num curioso túnel rochoso, género: “portal misterioso”.
A Serra da Estrela e os seus detalhes naturais sempre a maravilhar!


 No incio do degundo lance antes de descobrir o segredo...


 O BURACO! Um curiosidade natural concedida pela "nossa" serrinha.

 
 Depois do buraco a chegar à reu. nº 2.


Detalhe da reu. nº 2. Bomber!


Uma vez no topo, celebrámos as excelentes condições encontradas na parede. Efusivos, comentámos a estranha curiosidade geológica da nova via acabadinha de escalar.
Com tão bela linha já no papo, considerámos o dia ganho mas, faltavam ainda algumas horas para o ocaso. 


 A terminar a bonita abertura.


Contrariando a vontade de descer a Penhas da Saúde para pedir algo quente ao simpático David, no café “Varanda da Estrela”, optámos por escalar mais qualquer coisa que nos piscasse o olho.
O piscar de olhos proveio de um pequeno corredor situado à esquerda da “Goullote dos curiosos”. Desde a sua base, parecia uma ascensão simples e sem muita história mas, as coisas não estavam destinadas a rolar conforme as expectativas.


 Nos primeiros passos do corredor "fácil".


 "Mmmm, aquilo não parece nada fácil!"


A meio da via, um estrangulamento vertical conferiu a respectiva “cor” ao assunto e, aquilo que parecia um curto passo de escalada mista, depressa se converteu num conjunto de movimentos relativamente difíceis e algo expostos, terminando numa excelente “goullote” de neve dura e empinada.


 Já depois do "crux", com uma pitada de exposição q.b.


Encontrámos o nível da neve bastante baixo e esse facto converteu o corredor numa via interessante.
Desta feita não estamos convencidos de ter realizado uma “primeira”. Diria até que existe uma grande probabilidade de já ter sido feita anteriormente (provavelmente mais que uma vez). No entanto, fica o registo de mais uma simpática possibilidade invernal. 
Aconselhável, portanto!


 Dia terminado. Felizes a caminho do quentinho. "Amanhã há mais!"


No dia seguinte, o sol deu ar de sua graça e a temperatura subiu um pouco, mantendo-se, no entanto, num valor muito satisfatório. Uma bonança para aproveitar.
Mais uma vez centrámos as nossas atenções no Covão do Ferro.
Uma mole de granito surge entre a parede do arqui-clássico “Corredor estreito” e a parede que alberga a “Cascata encaixada”, separada por dois corredores evidentes.
Uma linha improvável delineou-se diante dos nossos olhos e, claro está, lá fomos nós!


Gelo escasso nos primeiros passos do primeiro lance.


O primeiro lance mostrou os dentes e exigiu uma boa dose de dry-tooling delicado, com algumas passagens de entalamento de mãos (enluvadas) incluídas.


 Dry-tooling, com direito a entalamentos de mãos e gancheios de piolets de manual.


 A Daniela a provar a dose de gancheios.


 Idem.


Posteriormente, uma franca travessia muito fácil colocou-nos numa rampa de neve dura e “empurrou-nos” para uma travessia diagonal de misto fácil e divertido, com um passito final “espremido”.


 Misto fácil mas divertido.


 O passito "espremido".


A lógica do itinerário colocou-nos na face sul da formação e na base de uma última fissura totalmente seca. Noutra ocasião, daria para trocar as botas de montanha pelos pés de gato. Optámos, mais uma vez, pelo dry-tooling… muito dry e, escalámos o lance inteiro a ganchear os piolets na fenda. “É tudo treino!” Justificámos, a pensar nos potenciais objectivos mais longínquos.


 Hiper-dry!


 Piolets "a canhão!"


 Uma saída bonita... para pés de gato!


 A Daniela a "treinar" os gancheios.

 
Desta forma findámos mais uma actividade produtiva ao nível da escalada mista, em definitivo, um estilo de escalada invernal mais ou menos marginal, perfeitamente adaptado à Serra da Estrela.

Entretanto, nos últimos dias têm surgido algumas novidades no campo da escalada em gelo e dry-tooling, nomeadamente algumas aberturas levadas a cabo num recanto obscuro do Vale de Loriga, já conhecido como: Sector Remoto.

Para breve: SERRA DA ESTRELA ICE REPORT


Paulo Roxo



E, como não podia deixar de ser: OS TOPOS