segunda-feira, maio 06, 2013

Variante Pops

 A ULTIMA DA ÉPOCA FRIA 
VARIANTE POPS


 


Já o Inverno tinha entrado na Primavera e ainda não tinha chegado a ansiada encomenda especial.

Após os últimos dias de actividades de neve na Serra da Estrela, ainda esperávamos um fim-de-semana alargado extra para fechar a época. Esse fim-de-semana surgiu dos dias 13 a 16 de Abril, quando vimos uma aberta de bom tempo nos Pirinéus.
Já há algum tempo que tínhamos uma linha em vista nos Gabietos, um “3000” lá para as proximidades de Ordesa.


 A fantástica parede Noroeste dos Gabietos, nos Pirinéus.


No dia 12, um dia depois de, finalmente, recebermos a tal encomenda secreta, fizemo-nos à estrada com o objectivo de chegar a Madrid. Aí iríamos conhecer o representante da RAB Península Ibérica e o Pedro Cinfuentes que foi o primeiro escalador a fazer a travessia das Torres del Paine na Patagónia (também patrocinado pela RAB). Também se juntaria ao grupo, Mendieta, um simpático jornalista de montanha, ex-reporter da revista espanhola Desnivel, que acabou por nos entrevistar, algo que nem sequer tínhamos combinado previamente. 
Após uma noite de “chat chat” agradável, rumámos em busca de ambientes mais montanhosos.
No dia seguinte, com pouca paciência para a aproximação mais tradicional aos Gabietos (que consiste em carregar equipamento de pernoita e comida, para além do típico material técnico, e dormir relativamente perto da parede), decidimos pernoitar ao lado do carro e acumular a aproximação à escalada no dia seguinte. Afinal, seriam apenas mais duas horas e meia a juntar à festa para cima, e mais outro tanto para baixo.


Preparação para uma noite de luxo.


Entre as 5:30 e as 6 da manhã, começámos a aproximação à face Noroeste dos Gabietos, de início por um bonito trilho que estava transformado num verdadeiro ribeiro alimentado pelo degelo das neves e depois, por extensos e incómodos neveiros que apresentavam, ora passos de neve consistente, ora passos em que nos enterrávamos. Aqui e ali víamos vestígios de avalanches recentes, provocadas pela súbita subida de temperatura dos últimos dias... aliás, este ia ser supostamente um dia algo primaveril, seguido de um dia de Verão em que começávamos a suspeitar que não iríamos conseguir escalar coisa nenhuma nas montanhas!


 A caminho da montanha... e do vento!


Algures pelas 9, fustigados por um vento com o qual não contávamos, abrimos as hostes e estreamos as armas secretas. O verde das ferramentas sobressaía brilhante na brancura da neve. Finalmente, os novos piolets entravam em acção!
A face norte apresentava-se com um aspecto convidativo, excepto pelo persistente “spin-drift” que teimava em refrescar-nos o corpo. O Paulo encarou bem a coisa: “Serve de treino!” e eu... eu passava bem sem aquela neve em pó a tentar permanentemente entrar-me pela gola e mangas do casaco.


 "Aí vamos!"


Nas primeiras pendentes, após alguns passos precários mais abaixo... dúvidas... continuamos ou descemos?


Breve percebemos que o aspecto da parede não correspondia ao encontrado. De facto, a zona mais rochosa por onde queríamos abrir via tinha neve, mas como não estava solidificada, não aguentaria nem com um caracol!
Após dois largos de teimosia, com 60 metros cada e alguns passos precários, a decisão estava tomada (de inicio, a minha cabeça não estava para aquilo mas, lá fui), pelo menos sairíamos por cima! Uma grande rampa e uma travessia para a esquerda conduziu-nos inevitavelmente ao corredor da “Remi-Quintana”. Não queríamos coincidir com outra via estabelecida mas, as péssimas condições da neve não nos deixaram alternativa. Por alguns metros avançámos com rapidez, até atingirmos o fecho do dito corredor.


 "Bem, vamos a isso! É para cima!"


 A ideia inicial era escalar alguma linha mista mais ou menos a direito relativamente à minha posição na foto.


Cerca de 2/3 da parede estavam “no papo”, quando o Paulo investigava se a melhor saída seria à esquerda ou à direita.
À esquerda víamo-nos confrontados com uma zona mais exposta, à direita era o desconhecido... fomos pela direita.
Novamente, os novos brinquedos verdes mostraram o seu potencial para os gancheios. Avançamos num terreno misto entre neve podre e rocha... podre e, ao mesmo tempo, compacta e quase improtegivel. É nesta altura que a experiencia se mostra e encontra locais para colocar protecções onde elas supostamente não existem (boa Paulo!).


 A Daniela a chegar a uma reunião, já bem alto na parede e metidos em cheio no assunto.


 "Mmmm... vamos lá a ver se por aqui passamos!"


Uns metros para cima, uma travessia para a direita, uma secção exposta e delicada onde era proibido cair, mais uns metros na vertical e lá estávamos nós na última reunião onde fomos surpreendidos pela única peça de material que encontramos ao longo de 550m de via: um piton!
“Epá, já passaram por aqui! De onde terão vindo?”
A ânsia de estar a abrir via fazia-nos imaginar todos os caminhos possíveis para aceder àquele ponto. Se as condições dos que plantaram o piton fossem as que encontramos, só haveria duas maneiras de chegar ali. Se fossem muito melhores, outros horizontes poderiam ter existido. De facto, se há uma coisa interessante nas vias invernais, é que por mais que se repita uma via, esta será quase sempre um desafio diferente, mais ou menos dura consoante a muita ou pouca neve, podre ou consistente, muito ou pouco gelo... as variantes são infinitas. Foi o achado daquele pequeno artefacto que nos fez pensar que, com honestidade, não poderíamos chamar à “nossa” via: Via! Provavelmente, estávamos a inaugurar uma “Variante” mais.


Após ultrapassar o "crux" da via, constituido por um passo de misto precário, protegido por um piton psicológico.


Restava-nos um largo que terminava numa canaleta de neve vertical, mesmo por baixo de uma cornija intimidante! Rezando para que o calor não a fizesse cair naqueles breves momentos, lá foi o Paulo até à aresta, ultrapassando aquele trecho impossível de proteger.


 A iniciar o ultimo lance e mais do mesmo: neve muito má e protecções... raras.


“Podes viiiiiiiir!”, escutei minutos depois. “Se caires não faz mal, estou no outro lado da aresta!”. Com o coração mais tranquilo subi, bordeei a cornija e saí para a aresta. Atrás de mim, mais umas quantas cornijas, uma delas constituía uma enorme pala com aspecto verdadeiramente ameaçador, principalmente com o calor que se tinha instalado e com o sol a brilhar com toda a sua força. Bom, nós não sentimos grande calor, apenas porque o vento na aresta era tal, que o corpo não percepcionava a real temperatura. No entanto, o avistar de uma avalanche, deixava-nos conscientes de que ainda não estávamos totalmente livres de perigo.


A Daniela já na saída da nossa via, que veio da vertente do lado direito da foto. Aqui, conseguimos ter uma ideia do tamanho das cornijas formadas pelo vento. 


Teríamos de atravessar uma boa parte da aresta para escapulir pelo colo que existe entre os Gabietos e o Taillon.
Uma parte da travessia ainda me fez suar o cérebro “Não é nada bom cortar a neve assim! Vá, vai com cuidado e pisa exactamente onde o Paulo pisou, não cortes mais a neve...”. Mantínhamos a corda entre nós e foram colocadas algumas protecções intermédias “Just in case!”


 Lá ao fundo, a face noroeste do Taillón.


 A face norte do Taillón.


Horas depois, chegámos a terreno seguro. “UF!” Faltava apenas o laaaaaargoooooo pateio de regresso ao carro.
Na descida, pudemos observar como o terreno se tinha modificado ao longo daquelas horas. Os “Debris” de avalanches multiplicaram-se! Nessa altura, tivemos a certeza que aquela tinha sido a última actividade da época, assim nos despedíamos do excelente Inverno de 2013.


 "Check! Vamos ás lecas!"


Como invariavelmente nos ocorre nestas situações e nesta parte do mundo, o dia seguinte foi passado em Riglos!
Passamos das temperaturas baixas para uns agradáveis 24º, onde as cervejinhas numa esplanada virada aos famosos Mallos, nos sabiam a néctar dos deuses!
Se escalámos?
Sim, uns singelos 4 lances, pois os pés inchados de 15h de actividade e os dedos maçados de cerca de 3h de descida não toleraram o “(des)conforto” dos pés de gato!


DanielaTeixeira




Os topos





quarta-feira, abril 17, 2013

Serra da Estrela, Ice report

SERRA DA ESTRELA MIXED/ICE/GRASS REPORT 2012-2013


A Daniela a caminho do descanso, após um dia de aventura, naquela que se viria a tornar uma das melhores épocas de sempre na Serra da Estrela.



Preâmbulo


Depois de um Inverno extremamente seco e praticamente sem neve, a época de 2011/12 saldou-se com uma muito anorética actividade na Serra da Estrela. No campo das aberturas (assunto principal que trata esta report), a única via a assinalar foi uma isolada ascensão num sector bastante remoto (tendo em conta os parâmetros serranos), protagonizada pelos, António Ferra e Ricardo Belchior. Aproveitando uma curta lufada de ar frio, gentilmente oferecida pelas estepes siberianas, esta dupla viajou para a Estrela para inaugurar a “Interestrelar Overdrive (WI4)”, cerca de 15 metros de cascata perdida, num canto longínquo do Vale de Loriga (mais info e croquis a seguir, nesta report).
Da nossa parte (minha e Daniela Teixeira) nem sequer apontámos os piolets em direcção à serra.
Quanto a mim, foi a primeira temporada, em mais de duas décadas, que não realizei uma única visita invernal à Serra da Estrela. Uma verdadeira estreia pessoal no campo da “não actividade”.


A serra no inicio da época. A coisa prometia!



Época 2012/13


Numa das últimas visitas estivais de escalada, a Dona Maria do café-restaurante “Varanda da Estrela”, avisou-nos: “Neste Verão, as abelhas subiram à serra. Quando isso acontece, quer dizer que o Inverno seguinte vai ser rigoroso!”
Achámos graça à crença popular e, não voltámos a pensar no assunto… até ao mês de Dezembro.
Uma súbita semana de muito frio e tempestade polvilhou as partes altas da serra com a primeira nevada. Eu e a Daniela sabíamos que aquilo não devia representar grande coisa, no entanto, decidimos arriscar e metemo-nos a caminho, sempre com um olho desconfiado no termómetro.
O Cântaro Magro e todas as paredes superiores ficaram, de um momento para o outro, perfeitamente cobertas por uma colagem de neve congelada. A paisagem sofreu uma metamorfose espectacular. “Scottish conditions!” Hora de limpar a ferrugem dos piolets e aproveitar a bonança.
Após uma razoável batalha que envolveu vários gancheios mais ou menos duros e passos de tracção em tufos de erva congelada, lá conseguimos terminar um projecto iniciado há dois anos, na face oeste do Cântaro Magro. A “Unfinished business” aberta no dia 2 de Dezembro de 2012 possuí cinco lances e tem uma dificuldade máxima de M6, localizada no penúltimo lance, um pequeno tecto de difícil resolução em livre. Esta nova via cruza a antiga “Pepi te quiero (M5/5+)” - mais sobre a “Pepi…” no final desta report - e constitui um verdadeiro “must”, quando nas devidas condições, ou seja, após uma tempestade de neve, vento e temperaturas baixas.


No primeiro lance da "Unfinished business".



No incio do terceiro largo da "Unfinished business".


 



Quando tudo apontava para um início de estação prometedor, a temperatura voltou a galopar e, mais uma vez, o tão desejado lençol branco foi substituído pelo verde da vegetação serrana.
Seguiram-se quase dois meses de espera, colocando em causa a tal profecia das abelhas.
Eis que, nas últimas semanas de Janeiro, de novo, a neve fez a sua aparição e, a estação fria parecia retomar o ritmo normal.
No dia 26 de Janeiro a Daniela e eu atravessámos o planalto superior em direcção ao topo do “Corredor estreito”. Apesar das temperaturas altas, estávamos decididos a subir qualquer coisa que se deixasse escalar.
Mesmo à esquerda do “Corredor da selecção”, surgiu uma hipótese ligeiramente atractiva. Uma rampa de neve desembocava num diedro vertical de… musgo! Com muito frio, seria um claro objectivo. Mas o frio, tinha emigrado naquela manhã para outras paragens. Ainda assim, embrenhámo-nos na aventura e o resultado foi a concretização de uma linha húmida, à custa de um primeiro lance de gancheios em fissuras recheadas de lama e erva molhada e, um ultimo terceiro lance com uma curta passagem delicada de gelo podre. Nestas condições pouco ortodoxas completámos a “Sopa de legumes, 140m (M5+) ”, com um nome muito apropriado às dificuldades encontradas. Puxando a brasa à nossa sardinha, pensamos que pode ser uma linha válida, se escalada durante o clima invernal adequado.


A emergir do primeiro lance da verdadeira "Sopa de legumes"!





O “clima invernal adequado” surgiu finalmente, uma semana depois, o que animou o nosso fetiche especial pelas mistas.
O dia 2 de Fevereiro foi de vento, neve dispersa e intenso frio, características que nos motivaram para voltar ao sector superior do Covão do Ferro. Passando pela base da famosa “Cascata encaixada” (em clara formação) colocámo-nos por baixo de uma profunda chaminé, à esquerda da qual se desenhava uma linha óbvia de aspecto “comestível”.
Desta feita, encontrámos os tufos de erva perfeitamente congelados e a neve transformada, como manda o figurino. Uma das características mais curiosas foi uma passagem “espeleológica”, um túnel vertical, encontrado no final do segundo lance, que acabou por inspirar o nome para a nova via. “O buraco, prazeres invernais”, tem 70 metros e uma dificuldade máxima de M4.

 
O curioso túnel de saída do segundo lance da "O buraco... prazeres invernais". Uma via moderada e aconselhável.





Ainda não satisfeitos nesse dia, realizámos uma (im)provável primeira ascensão de um corredor que alcunhamos de “Chicken couloir (100m, M4+/55º)”, o qual revelou algumas passagens mistas e, um passo particular mais nervoso e exposto. Com mais neve, as passagens mistas referidas ficam soterradas e esta via transforma-se num simples corredor contínuo de neve.


A Daniela a iniciar a escalada da "Chicken couloir".





No seguinte dia, ainda no sector superior do Covão do Ferro, atacámos uma mole de granito aparentemente “virgem”. Nessa incursão, nasceu a sinuosa “Caixa de Pandora (130m, M5+/6)” Um primeiro largo intenso de gancheios em boas fissuras e protecções fiáveis que se transformou no “crux” de toda a via e, conduziu a dois lances sem historia, terminando numa fissura diagonal absolutamente despida de neve, escalada em dry-tooling puro.
As dificuldades descritas anteriormente foram as que encontrámos com o nível de neve baixo. Com mais neve, o panorama pode mudar radicalmente.


Dry, muito dry, na saída da "Caixa de Pandora".



 



Finalmente, durante as ultimas semanas de Fevereiro e a primeira semana de Março, o gelo fez a tão desejada aparição e o resultado foi a realização fora do comum de uma série de repetições de cascatas clássicas, e ainda, a ascensão de um número razoável de novas linhas.
No dia 16 de Fevereiro, O Rui Rosado, o António Ferra e o João Gaspar, desceram ao Vale de Loriga e encontraram as cascatas do sector “Loriga Ice” razoavelmente desenhadas na parede. Infelizmente, a escassa espessura do gelo não lhes permitiu realizar qualquer ascensão “à frente” e, tiveram de se contentar com a escalada em top-rope da “Megassíssíssíma”, uma cascata espectacular com 40 metros e, jamais escalada desde baixo, portanto, ainda sem qualquer primeira ascensão “oficial”.
O João Gaspar sofreu ainda o desconfortável (no mínimo) percalço de desintegrar por completo as suas velhas botas duplas de plástico, terminando o dia a subir o longo caminho de volta ao carro, calçado apenas com as botas interiores.


O "Team" constituido por João Gaspar, Rui Rosado e Antonio Ferra... "Vamos ao gelo!" Foto de João Gaspar.


"Loriga Ice". Um dos melhores sectores de gelo da Estrela, quando em condições, claro! Os dois pontos que se vêem no cimo da parede são os Rui e Antonio, a procurar o melhor local para montar a reunião de topo. Foto de João Gaspar.


O Antonio Ferra na "Grandissíssíssíma". Uma via jamais realizada "à frente". Foto de João Gaspar.


As botas do João Gaspar! Freaking-out! Foto de João Gaspar.


Quanto ao Rui e António, ainda se dirigiram ao “seu sector”, mais distante, aproveitando para repetir a “Míssil ar-terra”, uma coluna frágil com uns 7 metros, que em Fevereiro de 2011, obrigou o Rui Rosado a tirar umas cartas das mangas para concluir a primeira ascensão, com alguns parafusos “atarraxados”, que funcionaram mais para efeitos decorativos que propriamente como segurança efectiva. Mesmo ao lado direito da “Míssil ar-terra (WI5)” o Rui e o António ainda escalaram em top-rope um projecto que viriam a concluir no dia 23 de Fevereiro ultimo, depois de colocar uma plaquete intermédia de forma a reduzir o nível de exposição, e os suores frios. Com o “apoio” do expansivo, o Rui Rosado acabou por encadear a via, constituída por uns curtos, mas intensos 7 metros, com duas secções distintas. A primeira parte, uma placa extra-prumada escalada em dry-tooling, protegida pela plaquete referida e a segunda parte, uma magra coluna de gelo suspensa, que obrigou a alguns posicionamentos difíceis, sobretudo quando o Rui resolveu colocar um parafuso de segurança a meio da coluna. Após esse ponto, as luvas incómodas foram atiradas para o chão e, o compromisso de uma queda não muito bonita em caso de falhanço, junto ao topo, foi assumido. A nova via foi baptizada com o nome “Youtube” e a sua dificuldade pode estar perto do M7 (por confirmar, pois tanto o Rui como o Antonio confessam “não perceber nada da escala de graduação para o misto!”).





Ainda nesse dia, o António Ferra realizou a primeira ascensão da “Efémera (WI4)”, uma pequena coluna empoleirada e acedida através de uma plataforma. Para baixo, ficou por abrir um diedro, um possível lance de gelo ou dry-tooling.
Ainda na mesma área, a dupla escalou a “Polar Circus Tuga (WI4)”, com o Rui Rosado “à frente”, concluindo outra primeira ascensão e colocando o recente “Sector remoto”, definitivamente no mapa das áreas a visitar na Serra da Estrela.


Antonio Ferra na "Efémera". Foto de Rui Rosado.


Rui Rosado na "Polar circus Tuga". Foto de Antonio Ferra.










No dia seguinte (24 de Fevereiro), enquanto o Rui Rosado e o António, escalavam uma muito precária “Coluna Lafaille (WI5)” eu e a Daniela, realizámos uma nervosa repetição da excelente (e algo exposta) via “Canalito (WI5)”, localizada na cota mais alta do sector “Corredor largo”. Nesse dia ainda houve tempo para escalar uma pequena cascata quase vertical com uns 7 metros, que baptizámos de “Micro-coisa (WI3)”.


Daniela na "Micro-coisa".





Uma semana depois, todos os astros resolveram conjugar-se para formar o melhor fim-de-semana invernal dos últimos anos na Serra da Estrela (uma opinião obviamente pessoal e discutível).
Os múltiplos sites, blogs e demais meios de informação cibernáutica de previsão meteorológica, apontavam para dias de frio e pressões altas. A esperança era tanta que a Daniela não hesitou em tirar uma folga na sexta-feira, de forma a podermos desfrutar de três dias seguidos de acção.
A cobiçada “Cascata do Inferno”, voltou a dar o ar de sua graça (pela primeira e ultima vez, na temporada) e no dia 1 de Março, realizámos a sua ascensão. Para a Daniela, toda uma estreia, uma vez que suspirava há bastante tempo pela escalada desta via emblemática. No dia seguinte, a bela e mítica cascata, sofre uma espécie de assédio, sendo escalada pelos António Ferra “atado” ao Ricardo Belchior, seguidos pelos Rui Rosado e João Garcia.


A mais que célebre "Cascata do Inferno". Um "must" da Serra da Estrela!



A Daniela a terminar o primeiro lance da "Cascata do Inferno".



Ainda no interior do “Corredor do Inferno”, enquanto esperava pela sua vez de escalar a “Cascata do Inferno”, o Rui Rosado inaugurou uma nova via mista, após escalar uma coluna de gelo vertical, com uns 5 ou 6 metros, seguidos de mais uns 15 metros absolutamente secos, em Dry-tooling . A “Por favor, tente mais tarde! (WI5/M6+)”, foi escalada “à vista” (ou quase!) e com material “volante”, implicando duas quedas emocionantes, sem consequências, por parte do seu protagonista.


O Rui Rosado a içar-se pelas cordas após uma das duas quedas, durante a primeira ascensão da "Por favor, tente mais tarde!"






Da minha parte e da Daniela, dedicámos algum tempo a “conquistar” um velho projecto, fruto de uma ideia com uns 15 anos, situado à direita da “Cascata do Inferno”.
Utilizando a máquina para acrescentar algumas plaquetes numa placa demasiado compacta para aceitar outro tipo de material, fui escalando desde baixo, em técnica artificial, criando um primeiro lance que pode tornar-se num exigente problema de escalada livre em dry-tooling (um desafio para o próximo inverno!). Depois de um tecto pronunciado, erguia-se uma bela cascata vertical com uns 35 metros, a estrutura chave que inspirou, desde sempre, a ideia de escalar aquela linha. A abertura da “Grândola, Vila Morena (A1/WI5)”, representou para mim o culminar de um sonho antigo.
A primeira repetição da “Grândola…”, surgiu poucas horas depois da sua abertura, pelos piolets do Rui Rosado e João Garcia.


A terminar o tecto em A1 da "Grândola, Vila Morena". Um lance para realizar em livre...


A Daniela, divertida a sair do artificial do tecto da "Grândola, Vila Morena".


O segundo lance espectacular da "Grândola, Vila Morena".







Entretanto, no sector “Corredor Largo”, varias cordadas repetiram as já clássicas “Cascata das couves”, “Diedro de cristal”, “Dama oculta” e a sinuosa “Cavalo de gelo”.
Precisamente à direita da “Cavalo de gelo”, a 15 de Março, eu e o Francisco Sancho observamos a secção superior de uma linha escalada por mim e pela Daniela há 4 anos. Na altura, a Daniela e eu nomeamos aquela via: “Brr! Brr! (WI5)”. No entanto, uma chapa fina de gelo, impossível de se escalar “à frente”, prolongava-se por mais uns 15 ou 20 metros, o que despertava claramente a imaginação para uma futura extensão.
Desta feita, encontrando os níveis mínimos de espessura de gelo (entenda-se, parafusos curtos metidos até meio e alondrados!), consegui escalar a extensão total da linha, concluindo mais uma bonita via naquele sector prometedor.
O nome que escolhemos para os 40 delicados metros da nova linha foi: “Brr! Brr! Hot! Hot! (WI5)”. Um nome alusivo à diferença de temperaturas encontradas entre a altura da abertura da “Brr! Brr!” e o ultimo dia 15 de Março.
No final desse dia, o Francisco e eu ainda escalámos uma goulotte relativamente fácil e divertida, situada entre o “Corredor do Cavalo” e a cascata “Cavalo de gelo”. Com o nome inevitável de “Goulotte do Cavalinho (WI2/60º)”, esta via com uns 130m, pode constituir uma óptima opção de fim de dia, em contraposição com a saída pelo “monótono” “Corredor Largo”.




Dois momentos durante a abertura da espectacular "Brr!Brr! Hot! Hot!" Fotos de Francisco Sancho.





No dia 23 de Março, enfrentando um grau de humidade próximo dos 100%, a Daniela Teixeira e o António Ferra, realizam a aproximação a pé através do Covão da Ametade, para escalar uma nova linha lógica situada a uns metros abaixo do sector de cascatas conhecido como “Lafaille”. A ideia inicial consistia em escalar dois lances de Goulotte e misto mas, as terríveis condições da neve, podre e inconsistente no segundo lance, tornaram a escalada num exercício exposto e descompensado. A uns dez metros do final, foram equalizados um piton e um entalador e um rapel prudente, colocou a dupla no sopé do largo. No entanto, como o primeiro lance terminava num escape lógico, ficou decidido que merecia ser considerado como uma via independente. Desta forma, nasceu a “Cinco euros por metro (M5)”, mais uma bonita opção invernal, na área do “Corredor Largo”, constituída por um canal empinado de escalada mista, com uns 50 metros.


O Antonio Ferra na abertura da "Cinco euros por metro".





O remate final da época, surgiu nos dias 6 e 7 de Abril.
Um ultimo surto de frio e um oportuno intervalo nas chuvadas constantes da semana anterior, motivaram-nos para retornar à serra para uma última aventura de escalada mista. Voltámos as atenções para a face oeste do Cântaro Magro e encontrámos a parede bastante seca. No entanto, uma antiga linha mantinha uma aceitável aparência invernal, a “Pepi te quiero”. Esta via com quatro lances e cerca de 200 metros foi aberta em Fevereiro de 1999 por mim e pela Yolanda Traver e tinha (que eu saiba) apenas uma repetição. No dia 6 de Abril, realizámos a provável segunda repetição desta bela linha, encontrando alguns passos compostos por ressaltos que o nível da neve mais reduzido tornava consideravelmente mais duros. Para abrilhantar a festa, ainda nos enganámos no itinerário no terceiro lance, realizando uma nova variante que saiu muito mais exigente que o original. Após uma luta de hora e meia, com gancheios precários, pioladas em tufos de erva gelada e protecções em entaladores e pitons mais ou menos credíveis, lá saiu uma variante em M6 (com um provável + à frente!).
Nas condições ideais (temperaturas negativas e neve transformada) a “Pepi te quiero” torna-se numa “clássica” obrigatória.

 
No primeiro lance da excelente "Pepi te quiero". Foto de Alcino Sousa.


A Daniela nos primeiros passos da "Pepi te quiero".




Dois momentos na saída da goulotte do primeiro lance da "Pepi te quiero".



A enfrentar o crux da exigente "Variante" de terceiro lance da "Pepi te quiero".



A terminar o terceiro largo da "Pepi te quiero"


O ultimo lance de corredor da "Pepi te quiero".


No cimo do Cântaro Magro, depois de terminar a possivel segunda repetição da "Pepi te quiero". Foto de Alcino Sousa.






No dia seguinte, com o tempo a deteriorar-se cada vez mais e com as temperaturas a subir para níveis demasiado altos, escalámos uma nova pequena via, mesmo à esquerda da cascata (quase inexistente) “Estrela nocturna”. Trata-se de uma linha de goulotte de dificuldade moderada que se junta ao segundo lance da “Estrela nocturna”. A “Estrela de neve”, possui cerca de 60 metros e tem uma dificuldade máxima de M5, num único passo de entrada do segundo lance. Ficou por concretizar a saída directa e muito lógica desta ultima via. Uma escalada que já não nos apeteceu (!) realizar e que ficará seguramente como projecto para a próxima época.




Dois momentos no primeiro lance da "Estrela de neve".





Epilogo


No global, só neste inverno, entre vias de escalada mista e gelo puro, com mais ou menos qualidade, foram abertas 17 novas linhas na Serra da Estrela.
Para trás fica uma época extraordinária, como não se encontrava em muitos anos.


Paulo Roxo


Um agradecimento aos Antonio Ferra, Alcino Sousa, Francisco Sancho, João Gaspar e Rui Rosado pelas informações e fotos cedidas.