segunda-feira, julho 23, 2012

Petit climbing trip - Pirinéus - parte II


DESACLIMATAÇÃO E A AGULHA
 


Uma vez aclimatados, estávamos preparados para tentar o verdadeiro objectivo da nossa viagem aos Alpes.
Entre chuvadas, realizámos eternas idas e vindas à famosa montra da farmácia no centro de Chamonix, onde tradicionalmente surge o folheto com as previsões actualizadas. Para contrastar e, na esperança de um milagre qualquer, consultávamos vários sites da internet, de uma forma quase obsessiva. Todas as informações convergiam num único sentido: mau tempo generalizado até ao final da semana.
Chamonix não é propriamente o local mais adequado para carteiras modestas. Cada “café au lait” custava-nos um olho da cara apenas porque a versão mais barata, o “café expresso”, era simplesmente intragável. Tantos dias sem subir à montanha constituía uma perspectiva economicamente... insustentável, utilizando o termo da moda. Para além disso, o nosso projecto principal (de cariz privado!), mais ambicioso e fonte das nossas motivações para os Alpes, necessitaria pelo menos de três dias estáveis.
Compreendemos que zarpar dali, rumo a outro porto, seria o mais sensato.


Um tecto ameaçador de nuvens atirou-nos para outras montanhas.


Assim, aclimatados para altitudes superiores eis que... baixámos de cota!
Servia-nos de consolo a nova via que escalámos ao “tropeçar” na face sul da Point Lachenal, com os bónus anexos de uma tempestade de vento e neve nocturnos e algumas horas muito mal dormidas no interior de uma tenda prestes a desintegrar-se.
Deixámos temporariamente o Alpinismo para nos convertermos em Pirineístas.


 Pirineístas a secar!


 O nosso novo objectivo, a bela torre de Perramó.


Um belo dia de Primavera viu-nos subir o Vale de Estós em direcção ao Pico Perramó, nas montanhas sobranceiras a Benasque. A paisagem imaculada atraía-nos de uma forma poderosa. A cada curva do caminho, depois de cada árvore mais frondosa, as exclamações de maravilha sucediam-se.


O Vale de Estós, famoso e concorrido mas, uma saída para a esquerda e...


 ... entramos num vale bem mais isolado...


 ... onde se avistam belas montanhas agrestes e...


 ... prados como estes!


 À direita a Torre de Perramó.


A primeira tarde terminou após hora e meia de caminhada, numa pequena lata de sardinhas apontada no mapa do livro de escalada da região e apelidada de “refugio”. Não fossem os mosquitos, sob a forma de praga (os inconvenientes da estação das flores), teríamos optado de bom grado por um bivaque à luz das estrelas.


 Pontes naturais.


 O "refugio" claustrofobico.


 Um bivaque (Tupek da Ortik), ideal para situações de fortuna em alta montanha... e também como resguardo anti-mosquitos... dentro do refugio claustrofobico!



 Perramó visto da janela (!) da cabana.


No dia seguinte retomámos a direcção da bela agulha de granito de Perramó, subindo um trilho sinuoso de uma beleza extraordinária.
Desde as montanhas que dominam a linha do horizonte, passando pelos prados verdejantes que as ladeiam, escorregando até à floresta densa e fresca, a paisagem era simplesmente magnífica. 


  Vistas magnificas desde o trilho de aproximação.

 A Daniela numa passagem da aproximação.


 A torre de Perramó sempre presente.


A dado momento deparamo-nos com a cascata de Perramó. Ficamos ali um bom bocado a admirar as toneladas de água debitadas desde uma altura de mais de 100 metros. Imediatamente me veio à memória a escalada desta cascata, já lá vão mais de dez anos, levada a cabo naquela temporada em que o general Inverno toma o poder e consegue lenta e inexoravelmente congelar cada gota de agua do cachão imenso.


 A bela cascata de Perramó. No inverno uma boa escalada.


Quadro.


Ganhando desnível continuamos a subir, ora por trilho evidente e cómodo, ora por troços de cascalheira e blocos.
As vistas alargavam cada vez mais e, quanto mais subíamos mais lagos e pequenas lagoas de montanha iam surgindo.


As vistas alargam à medida que subimos.


 As lagoas sucedem-se. Idílico!

 
Passo a passo íamos adentrando num mundo cada vez mais rude e selvagem. De súbito, surgiu de novo a “nossa” torre altiva e orgulhosa, defendida por muralhas de granito e circos minerais alpinos de aspecto austero. Olhando para baixo, em direcção ao vale desde o qual subíramos até ali, conseguíamos verificar que cada covão albergava uma pequena lagoa de agua límpida e cristalina.
 


 Contrafortes de granito.


 "Mais perto!"



Pequenas lagoas no paraíso.


Um caos de grandes blocos de transposição penosa precedeu a parede escolhida para a nossa escalada.
Um bonito diedro estimulava a nossa imaginação desde o inicio. Cedo concluímos que, apesar de não vir representada no guia da região, essa linha já tinha sido escalada. Uma cordeleta e um piton abandonados denunciavam os predecessores.
- A linha parece gira. Continuamos? – perguntei sem muita convicção.
- Depois de toda a caminhada para chegar até aqui?! Por mim tentaria abrir uma nova via! – rematou a Daniela.
Ok, stick to the plan!


 A primeira tentativa. Um diedro estético.


Mesmo à esquerda de um outro diedro evidente dissimulava-se uma tímida fissura que cortava uma grande placa a direito. A “nossa” linha!


 A "nossa" via!


 A Daniela no primeiro lance.


 Uma caminhada de hora e meia, um bivaque numa cabana metálica claustrofobica e cercada por mosquitos, um despertar madrugador, uma segunda marcha de duas horas, acabaram por se resumir numa escalada técnica de pézinhos com três singelos lances e um comprimento total relativamente modesto, não chegando aos 80 metros.


No inicio do segundo lance.


 
 Já no final do segundo lance. Passinhos técnicos.


 A Daniela a escalar o segundo lance.


 Vistas!


 A iniciar o terceiro lance da nova via.


A primeira analise levou-nos a considerar que seria injustificável tão longa aproximação para tão curta escalada. Contudo, contrair um conjunto de vivências e emoções numa mera consideração tecnicista, baseada apenas no gesto da escalada seria algo, no mínimo, redutor.
O alpinismo, a escalada, a exploração, são conceitos inspirados pelo deslumbramento que certos locais isolados e selvagens potenciam. Neste caso, a floresta, os rios, as lagoas, as montanhas, conjugaram-se de forma sublime justificando plenamente a caminhada relativamente longa.
A nova via, a “Ilógica metrológica”, ficou-se pela cereja no topo do bolo.

Paulo Roxo


Os topos:






domingo, julho 01, 2012

Alpes - parte I

 
No passado mês de Junho a Daniela e eu concluímos um périplo de aberturas que começou nos Alpes, percorreu alguns dos lugares mais bonitos dos Pirinéus e terminou na emblemática parede de granito da Meadinha na serra da Peneda.
Decidimos contar a historia em episódios pois o resultado final de três semanas de acção traduziu-se em cinco novas vias, entre algumas outras repetições com características bem diferenciadas entre si, quer ao nível técnico, quer em vivências e emoções.
Os dois pontos em comum fundamentais a todas as aventuras: a beleza natural e a tranquilidade dos locais.
Este é o primeiro relato da Daniela acerca da nossa pequena e muito particular "Climbing Trip".

 

ACLIMATAÇÃO



 A caminho da Goulotte Modica-Noury. "Pas du condition!"


Tínhamos pressa de sair. Por razões variadas o cérebro acusava cansaço e só uma boa tareia física a fazer tudo o que gostamos poderia solucionar esta questão.
A decisão de partir foi tomada quatro dias antes de nos enfiarmos no carro e rumarmos aos Alpes. O destino foi escolhido em cima do joelho, o material para gelo e rocha (o que viesse!) foi empacotado às pressas e dia 2 de Junho, o nosso carrito atolado de tralha já rumava para terras mais frescas. Queríamos mexer nos piolets, passar frio, ter dias de longas actividades, viver aventuras. Precisávamos de acção, de muita acção!
Chegámos aos Alpes com visibilidade zero de montanhas, debaixo de uma chuva intensa, daquelas que deixam qualquer condutor absolutamente desgastado. Fomos obrigados a um dia de descanso pela continuidade do excesso de humidade e com um prognóstico de... um dia de bom tempo, decidimos ir a cotas mais altas e aproveitar para fazer a primeira actividade, a aclimatação!


 A Daniela no Vallée Blanche de neve recente e imaculada.


Escolhemos para isso escalar a goullote  Modica-Noury, uma super-clássica situada no Mont Blanc du Tacul acedendo pela Aiguille du Midi. Já desabituados das andanças mecanizadas, chegámos ao teleférico respectivo cerca de 10 minutos antes da primeira cabine do dia, cerca da 8:10 (horários de época baixa!) e perante as dezenas (centenas?) de alpinistas que já lá estavam, fui assaltada por um pensamento: “Isto parece a fila de desempregados na Segurança Social! Aqui também tem de se chegar horas mais cedo para marcar lugar?!”.
Em pouco tempo, fomos empacotados e espremidos, como se estivéssemos no metro em hora de ponta! Todos os pensamentos me atiravam para um sentimento puramente citadino... alpinismo desportivo? Sem dúvida!
Para mim, que nunca tinha saído no teleférico na Aiguille do Midi, tudo era estranho. Calçar os crampons num túnel de betão e sair para a afiada aresta tendo de esperar em fila indiana... onde estão as longas e solitárias aproximações a que estou habituada??


 Ao fundo as Grand Jorasses, de cabeça coberta com um chapéu de nuvens de mau tempo.


Pouco depois deixávamos o material de pernoita no plateu do colo du midi (fomos os únicos a acampar...onde anda a crise?) e descemos pelo glaciar do Vallé Blanche até ao inicio da goullote que tínhamos elegido.
Não foi com enorme surpresa que percebemos que a via não estava em condições. Pequenos rios de neve húmida passavam por nós, o gelo mostrava-se translúcido e troços gelados caiam continuamente. Encolhemos os ombros e resolvemos espreitar uma delicada linha na Point Lachenal mesmo à direita do Tacul. Também esta estava a desfazer-se.


 Uma tentativa de entrada na "Modica-Noury". Pouco depois as condições impossiveis fizeram-nos retirar.


Para não voltarmos para trás pelo mesmo tedioso caminho, já perto das 14:00 decidimos entrar pela face sul da Point Lachenal, buscando um neveiro de aspecto fácil que víamos desde  baixo... e assim começou a abertura de uma nova via, assim mesmo por um acaso do destino.


A entrada de misto fácil na nova via.


 Nas rampas iniciais.


Afinal o neveiro ficava mais longe do que os nossos olhos faziam supor, a uns largos de escalada mista e outro de pura rocha... rocha de excelente qualidade, porém... molhada. Fica na memória o largo de V+/6a feito com os crampons pendurados no arnés, com uns entalamentos numa fissura perfeita onde jorrava água que empapava as luvas, o verdadeiro deleite! 


 A parte final do magnifico lance de rocha.

 
Após o neveiro sucederam-se ainda uns quantos largos empinados (perfeito se fosse inverno e a neve estivesse dura!), do qual o mais bonito foi um de escalada mista (“No Rules”) num diedro com uma entrada delicada e que ofereceu gancheios de piolets que nos encheram a alma.
 


A entrada intensa do lance de "dry-tooling". 

Mais acima no mesmo lance. "Gancheios a canhão!"
 

 A Daniela a terminar os passinhos atléticos do lance de escalada mista.


Foi curioso a certa altura não saber exactamente onde iríamos parar, não perceber quantos largos faltavam, nem ter ideia das dificuldades que nos separavam do fim da via, já que íamos avançando literalmente “à vista”. De baixo não tivemos a percepção da parede e a coisa acabou por sair bem mais difícil e longa que o esperado. Ainda assim, terminamos a via “Ai que Saralho, pas de condicion” no momento certo, ou seja, com o tempo à justa para regressar e montar a tenda ainda com luz.


 Os ultimos passitos técnicos.


 Cume...


 ... e a foto-cume!


Nesta altura já o vento anunciado começara a soprar, o mau tempo chegou um pouco mais cedo que o previsto. Dormir? Noite dentro, as rajadas de vento (de cerca de 80 a 90km/h!) fustigaram a tenda. Com um pouco de claridade, vi a parede da tenda ser empurrada várias vezes até quase tocar na cara do Paulo que estava deitado. 


 A observar a entrada da frente de mau tempo.


  O vento forte já se fazia sentir.



 "Agarra a tenda!"


Começamos a pensar que a tenda poderia não aguentar e decidimos equipar-nos. De repente, o vento abrandou e começou a nevar. Vimos a nossa oportunidade para desmontar a tenda e sair dali, o teleférico do Midi estava a “apenas” meia hora de distância... estava, mas com o nevoeiro que se instalou e uma visibilidade de cerca de 5m, a coisa foi mais demorada!

Sem trilho, sem bússola, apenas a farejar, lá encontrámos a afiada aresta que desemboca na Aiguille do Midi. Chegou a ser irritante ouvir o ruído das máquinas e não conseguir perceber exactamente que rumo tomar. Ao fim de pouco mais de uma hora entrávamos novamente no sorumbático túnel de betão de acesso ao teleférico. 


O túnel "dos alpinistas" na Aiguille du midi. Um local sorumbático desde o qual se iniciaram muitas historias e aventuras épicas.
 

Pelas 11:30, chegávamos a Chamonix numa cabine que levava apenas trabalhadores e carga, debaixo de uma copiosa chuva que teimava em pôr à prova os nossos impermeáveis. 

Estávamos aclimatados!

Daniela Teixeira

 Os Topos






domingo, junho 24, 2012

Never stop having fun


NEVER STOP HAVING FUN



As ultimas "sandochas" na nossa ultima abertura na Meadinha, o culminar da "Climbing trip peninsular... e arrabaldes - Alpes!"
Para trás, muitos metros de aproximações galgados, uma boa dose de metros verticais inaugurados e quilómetros de diversão conquistados.

Breeeevemente, os relatos e claro, os topos.