segunda-feira, setembro 30, 2013

Expedição Nangma Valley 2013 - Primeira parte.

EXPEDIÇÃO NANGMA VALLEY 2013
Primeira parte

ATÉ AO CAMPO BASE


 
O nosso campo base. Impossivel pensar num local melhor!


Ao contrário do que nos é normal, desta arrumámos tudo um pouco à pressa e no último fim-de-semana antes da partida.
Com o cérebro inundado de insegurança por alguns acontecimentos recentes no Paquistão, na última semana antes do dia em que estava marcado o voo para Islamabad, 15 de Agosto, decidimos ir!
Tudo parecia estar contra nós, até a transferência bancária que tinha feito à última da hora deu buraco!
-Sim? Queria apenas saber acerca da transferência bancária efectuada no dia 9, já que até hoje (dia 14 de Agosto) o dinheiro não saiu da minha conta.
- Não temos registo de qualquer transferência! Para onde foi?
- Paquistão.
- E para que serve a transferência?
- Para pagar uma agencia relativa a uma expedição de alpinismo.
(Ouvi os pensamento do outro lado do telefone...”Paquistão? Terrorismo? Alpinismo? Cheira aqui a esturro!!!”)
- E pode enviar-me comprovativos de que é mesmo para esse fim?
Após muitas chatices e algumas trocas de galhardetes infantis do tipo “A culpa é tua! Vou fazer queixa!...” (mas de uma forma mais elegante), às 16:30, já o banco estava fechado, quando lá passei para levantar em mão o dinheiro que serviria para pagar a agência que contratámos para assegurar toda a logística até ao campo base...mais uma preocupação para os nossos neurónios stressados, em vez de pilim transferido, tínhamos de levar durante a viagem, todo o dinheiro do pagamento connosco!
Para não dar descanso ao nosso cérebro, a internet enfiou-nos mais uma notícia pelos olhos dentro: para o dia da partida, haveria greve da Groundforce! Ou seja, será que iríamos conseguir voar? E se voássemos, será que toda a bagagem voaria connosco?
Assim passámos a noite de dia 14 para 15 de Agosto, ansiosos e quase sem dormir.
No aeroporto, pelas três da tarde não parecia haver muita confusão. O placard indicava que o voo estava atrasado apenas 20 minutos e as indicações do check-in tranquilizaram-nos. À partida não se esperava qualquer problema.
Despedimo-nos dos meus pais e do Presidente e secretário da Fundação do Desporto (Luis Santos e Artur Madeira), que fizeram questão de nos ir desejar boa sorte, e encaminhámo-nos para o McDonald do aeroporto. Queríamos degustar um último gelado com topping de amêndoas antes de passarmos as próximas semanas sem este tipo de petiscos.


No Aeroporto, com (da esquerda para a direita), a mãe da Daniela (bem entretida à conversa), Luis Santos e Artur Madeira, respectivos presidente e secretário da Fundação do desporto, uma das entidades que apoiou monetáriamente a expedição. A segunda entidade que apoiou monetáriamente, está representada nas t-shirts que envergamos: o Clube de Montanhismo da Figueira da Foz.


Só sentimos algum alívio quando as rodas do avião se separaram em definitivo da cidade de Lisboa e vimos, a cada minuto, mais pequenas, as modernas habitações da velha Europa.
Na hora das refeições optei por vinho branco, despedindo-me também deste néctar, proibido em terras islâmicas. Grau a partir dali só mesmo o das escaladas!
Horas depois descansávamos 17 longas horas no riquíssimo aeroporto do Dubai, com aquela mesma sensação de quem passa por um aeroporto na Suíça...tudo caro!


 No Aeroporto do Dubai, 17 horas de espera para o voo que nos levaria a Islamabad!


Dia 17 perto das duas da manhã, as rodas do avião colaram-se ao chão quente de Islamabad e assim começou uma das maiores aventuras das nossas vidas.
Queríamos naquele mesmo dia de manhã voar para a pequena cidade de Skardu, capital do Baltistão que fica “a centímetros” da cordilheira do Karakorum.
Voar, porque de avião levaríamos pouco mais de uma hora entre as duas localidades, contra 25horas sem parar, no caso de irmos por terra.
Mas a sorte não estava do nosso lado e nesse dia não voámos. Nem nesse dia, nem no seguinte, pois os voos para Skardu foram cancelados. Os aviões para aquele povoado só levantam quando estão garantidas condições de bom tempo (isto é, céu sem nuvens), já que a aterragem no vale de “Skardu” é literalmente feita “à vista” (pois é, o aeroporto -ainda- não tem radares!) e o bom tempo, esse sim fez greve!


 À saída do hotel em Islamabad, numa das duas viagens de táxi até ao aeroporto, na esperança de apanhar o avião para Skardu.


Muito, muito reticentes, lá nos resignámos a ir por terra, percorrendo mais uma vez os longos e penosos 600km da Karakorum Highway, antiga Rota da Seda. Mas destas, entrámos na Van que nos estava destinada mais nervosos que da última vez (há alguns anos). Para além de termos um só condutor para todo o percurso, sabíamos da tensão que se vivia entre Besham e Chilas, terras que se encontram sob domínio não oficial de Talibans. No final, a situação mais nervosa prendeu-se mesmo foi com o condutor! Imagina-se que após 23h seguidas de condução, o cérebro já não esteja nas suas melhores condições, e assim foi! Algures pelas 3 da manhã, já perto de Skardu, os neurónios do condutor começaram a bater castanholas, ou melhor, as castanholas deixaram de bater e o tipo seguia meio a dormir num trecho de estrada cheio de curvas e precipícios. O rio, seguia bem acordado lá em baixo. A carrinha andava agora mais devagar do que era normal, por vezes quase a parar, por vezes com solavancos de velocidade. O Paulo, não tirava os seus olhos (àquela hora bem esbugalhados) do condutor, e após lhe dizer váááriiias vezes que seria melhor parar para descansar um bocado (não fossemos todos nós fazer uma visita às trutas lá em baixo!), o tipo lá parou de lutar contra o sono, e ali, no meio da escuridão, adormecemos todos uma hora.



 Dois momentos na Karakorum Highway.


Algures pelas 5 da manhã chegávamos, absolutamente desfeitos (mas vivos!), a Skardu.
Depois de poucas horas de sono no hotel, insistiam connosco que tínhamos de ir almoçar. E ai daquele que não corresponda à primeira chamada! Primeiro é o telefone a dizer que o almoço está pronto, depois é outra vez o telefone a dizer que o almoço está na mesa, depois ainda, estão a bater-nos à porta com se fossemos crianças “Please sir, come to luch, lunch is getting cold”...que chatos!
Só depois percebemos que a mesa não era só para nós! Esperava-nos uma simpática pandilha. Altaf, o cozinheiro que conhecemos de longa data e que nos recebeu alegre, sorridente e de braços estendidos. Tahir, um dos 3 irmãos donos da agência que contratámos, o mais novo, afável e simpático.
O dia passou demasiado depressa, entre as ultimas compras e as ultimas arrumações, não nos deu tempo para descansar.


Skardu e o hotel Masherbrum... todo um luxo!


No dia seguinte de manhã bem cedo, estávamos novamente enfiados na estrada, desta numa muito mais pequena viagem, 5 horas de jipe entre Skardu e a ultima aldeia, Kande, mesmo na boca do vale do Nangma, de onde são tanto o Altaf, como o trio de irmãos da agência.
E como são dali, ainda naquele dia tivemos um resto de dia familiar, partilhando chás e bolachas com a família do Altaf.


A aldeia de Kande mesmo às portas do vale do Nangma.


Montámos "campo base" no pátio da escola de Kande, sob o olhar curioso da miudagem local (e não só, pois na verdade, a chegada de estrangeiros é sempre um motivo de animação na aldeia). No dia seguinte iriamos iniciar a aproximação às montanhas.


No dia 22 de Agosto calçávamos pela primeira vez as botas de trekking para iniciarmos a caminhada de aproximação, que partimos em dois tranquilos dias. No primeiro, pernoitámos no “Mingulu Camp”, um prado relvado e com boas sombras, regado por regatinhos de água límpida e imaculada... um deleite para o nosso corpo cansado e para a nossa mente exausta. As vistas já nos permitiam sonhar. Já aqui percorríamos com o olhar, possíveis linhas nas enormes paredes de granito, possíveis aberturas, pequenos grandes sonhos que ficariam por concretizar (precisaríamos de pelo menos 6 meses...de bom tempo, para fazermos metade do que imaginámos). Vimos pela primeira vez a “Great Tower” um gigantesco massacote que nos levou a pensar “Esta é para os russos!”, a “Chingu Charpa” e outros enormes penedos graníticos.


 A caminho. Uma das pontes que atravessam o rio furioso. Mais acima estas desaparecem e algumas passagens "a vau" são obrigatórias.


 
 O "Mingulo camp", a poucas horas de Kande. Os carregadores gostam de parar nestes prados paradisíacos. Na verdade é um local agradável para passar o dia.


 
 A Daniela a engordar a cabra, dias antes do inevitável desfecho...


 Os prados verdes deste e de outros vales são os locais perfeitos para alimentar o gado pertencente à população de Kande.


 
 Acompanham-nos as vistas sobre torres e paredes impressionantes, muitas completamente virgens.


No segundo dia, o campo base deliciou-nos. Montámos as tendas numa espécie de areal. A oeste, uma verdejante vertente de onde escorria abundante água de nascente, levava a uma parede granítica com cerca de 1000m. A leste, uma imensa parede com os seus 700 ou 800m. Mais abaixo, para além de mais e mais paredes, chamavam a nossa atenção quatro agulhas de granito, quatro irmãs, quatro torres que se erguiam, como que nascidas de repente do chão glaciar, cada uma delas com cerca de 250 a 350m. 


 A torre mais pequena em primeiro plano chama-se "Zang Brakk" e já possui algumas vias. A maior atrás, continua por escalar. O famoso vale do "Amin Brakk", está à direita, fora da foto.


 Os colossos de granito, "Great tower" e "Chingu Charpa".


 Os cinco pilares de granito (sem nome) que nos maravilharam durante os nossos dias de campo base. Um mundo interminável de escaladas. Lá atrás, à direita da Daniela, a "Great tower".


 O campo base. Eramos a única expedição no vale, num local perfeito e de vistas largas. Lá ao fundo, o maciço do K6 (7200m) e à esquerda, junto à base da montanha pode-se observar o inicio do glaciar sem nome que conduz ao Kapura (6544m), a montanha para a qual dirigimos os nossos sonhos.


 Estas paredes sem nome, com uns 700m, erguiam-se mesmo à direita do nosso campo base, a 1h30 de distância...


 ... e estas, a 0h45 de caminhada, à esquerda do campo base. 1000 metros de granito. Duas vias! À direita, ali estava a "Parede das fissuras", baptizada por nós e caracterizada por dezenas de fissuras verticais de todos os tipos. Zero vias!


Um verdadeiro mundo de rocha por explorar, intocado por pés-de-gato. Mas, o nosso olhar e os nossos sonhos apontavam noutra direcção, para o fundo do vale, para os monumentais portadores das neves eternas. Ali passaríamos alguns dias das nossas vidas.


Daniela Teixeira


A expedição Nangma Valley 2013, foi patrocinada pela FUNDAÇÃO DO DESPORTO, pelo CLUBE DE MONTANHISMO DA FIGUEIRA DA FOZ e pelas marcas RAB, DMM e STERLING.



 Mapa do Baltistão (capturado na net).


sexta-feira, setembro 20, 2013

Kapura South

KAPURA SOUTH (6350m) 

First Ascent



"SONHOS INTERMINÁVEIS, 1300m, 70º/M4"

A aventura já aconteceu, agora... as histórias na forja!

quarta-feira, agosto 14, 2013

Sou eu

SOU EU


Nãããõoo! Não pensem isso! Eu ando um bocado abandonado pelos meus donos mas, ainda não morri, ainda não desapareci. Os meus donos desleixaram-se e deixaram-me um pouco por aqui à deriva sem rumo, no meu mundo invisivel dos bits, mega-bits e giga-bits. Sou um blog triste, olvidado, esquecido.
Mas, eis que surgem as boas noticias. Os meus donos estão de saída para outras paragens, outras terras lá para os lados do oriente. Irão concerteza viver aventuras, conhecer gentes e montanhas. No entanto, antes de partir disseram-me que, mal voltem, mal ponham os pés em terras lusitanas, irão de novo despertar-me, de novo pintar-me com figuras e caracteres, com cores e vida.
Afinal de contas ainda tenho para contar algumas historias passadas, algumas escaladas não reveladas, coisas inúteis, por isso importantes. E claro, para deleite dos meus circuitos, novas historias virão, fresquinhas, fresquinhas, como as sardinhas (por me ser físicamente impossivel nunca as provei mas, já aqui me escreveram como são deliciosas).
Bem, vou retirar-me de novo para o meu mundo de introspecção electrónica, mas com um olhinho à espreita e impaciente pelo retorno dos meus donos, à espera dos relatos das suas andanças. À espera da razão da minha própria existência.

O blog Rocha Podre e Pedra Dura.


A saída da Aresta Kuffner. Um desenho de Samivel? Foto Paulo Roxo


segunda-feira, junho 17, 2013

Os Escalões e as Escaladas

OS ESCALÕES E AS ESCALADAS  



 Uma reunião com estilo... antes das plaquetes!



Algumas pedras mais periclitantes foram atiradas ao vazio e um par de horas depois aterrei na varanda intermédia, na parte alta da parede, que permite escapar (ou aceder) comodamente. Uma oportuna criação da Natureza.
Na futura linha, reconhecida desde o cimo, deixei uma reunião e umas poucas plaquetes disseminadas em pontos mais expostos e difíceis de proteger.
O plano inicial era continuar por ali abaixo até à linha do mar. Mas, na plataforma, reconsiderei. Será que me apetecia manter o estilo “batota”, ao longo de toda a parede?


 A paisagem incansável desde a falésia dos Pinheirinhos.


Nos Pinheirinhos, até à data, convivem vários estilos de aberturas. As poucas vias desportivas, por definição, foram equipadas desde o cimo. Existem também algumas “clássicas” que foram semi-equipadas desde o cimo e posteriormente inauguradas mas, a maioria, foram abertas desde baixo, à vista e muitas das plaquetes foram colocadas à mão, recorrendo à energia “braçal”.
Após alguns minutos de reflexão, cheguei à conclusão que o melhor seria mesmo voltar para casa e retornar noutra altura, com a motivação para escalar a nova via desde baixo. Eticamente, indiscutivelmente, seria o caminho mais correcto.
Assim, num dia adequadamente fresco, a Daniela e eu arrumámos a “trouxa” e, lá fomos à conquista de uma nova linha.
Como noutras tantas vezes, descemos o trilho principal dos Pinheirinhos para nos posicionar por baixo da estética parede vertical do sector “Flanco esquerdo”.
Com os olhos e a imaginação traçámos um risco ao longo da falésia através do espaço aberto ainda existente entre a “Humidade relativa” e a “Quem vem aí?!”. Parecia uma linha tecnicamente exigente pois seguia por placas sem fissuras aparentes. Mais acima, avistava-se uma secção de calcário amarelo e extra-prumado, que adivinhámos complicado. Certamente um “osso duro de roer”.


 No primeiro lance da futura via.


 A iniciar o excelente segundo lance da via.


 A Daniela a sair do segundo lance de desfrute.


 O segundo lance com o mar por baixo dos pés.


Sentia-me satisfeito por não ter sucumbido à preguiça de reconhecer aquele troço de parede desde o cimo. Sendo perfeitamente honesto, considero que reconhecer, limpar e equipar desde o topo, constitui uma forma deselegante de escalada. Algo a ser relativamente menos valorizado. Se existisse uma escala de valores para o “estilo de abertura” – como as escalas que utilizamos para valorizar o grau de dificuldade – uma via reconhecida desde o cimo mereceria um valor muito inferior quando comparada com uma abertura realizada integralmente desde baixo.


 A iniciar o terceiro lance e o crux da via, uma placa intensa aberta de baixo com o apoio dos estribos. Mais tarde voltámos para a respectiva "liberação".


 No seguimento do espectacular terceiro lance da escalada, no dia da abertura.


Uma proposta para matizar o estilo adoptado aquando da preparação e primeira ascensão poderia ser, por exemplo: “Escalão A”, para vias inauguradas desde baixo “à vista” e “Escalão B”, para vias reconhecidas e equipadas desde o cimo. Seria no mínimo estranho mas, pelo menos, teríamos mais um elemento informativo acerca da história de uma escalada.
Exposto este palavreado sobre estilos perfeitos e imperfeitos devo dizer que, em algumas das aberturas nas quais participei ou realizei, adoptei o tal estilo preguiçoso de “Escalão B”. No entanto, também reconheço facilmente que me deu algum gozo suplementar escalar posteriormente essas vias, sem o stress habitual do desconhecido, dos blocos soltos e com o equipamento light e optimizado, calculado em antemão, graças às estratégias “pobres” da preparação prévia em rapel.
Na primeira intentona a Daniela e eu abrimos os dois primeiros lances da via. Passados alguns dias, retornámos para a terminar e, foi o terceiro lance que apresentou as dificuldades máximas. Utilizando a máquina e recorrendo ao artificial, ultrapassámos a secção mais dura da escalada, deixando para trás um muro compacto, equipado com o mínimo de expansivos. 


 O petate e a escaladora, no terceiro lance da via.


 O ultimo largo para relaxar e apreciar a exposição e o ambiente.

 
 A Daniela a terminar a via. "Check!"


Mais tarde retornámos, pois meti na cabeça que iria tentar forçar a nova via em livre (a Daniela dispensou o esforço e reduziu os passos de artificial com estribos a alguns puxões em A0) e lá saiu uma bonita sucessão de movimentos duros, com o crux obrigatório em travessia, protegido por um piton solitário – para dar ambiente à coisa!


Durante a repetição da via, a Daniela desfruta no ultimo lance.


Baptizámos a nova criação de “Invera”, que consiste na fusão entre as palavras Inverno e Primavera.
Nesse dia, aproveitámos ainda para sair pela nova via que esperava uma escalada, na parede superior, à esquerda das desportivas da “Cova das ovelhas”, depois da plataforma da “Varanda”, a tal com a qual comecei esta historia, a tal preparada desde o cimo… a tal de “Escalão B”.
Após algumas horas de luta, inaugurámos a "V.A.n.N." (nome de código **) que percorre um primeiro lance longo de formações grotescas e intimidativas e um segundo largo para escapar, muito menos intenso e mais curto. 


 
 Dois momentos na abertura da "V.A.n.N."


Ficam assim explanadas as considerações e reflexões relacionadas com as duas ultimas vias acrescentadas à colecção dos Pinheirinhos.
Vias de “Escalão A e B”.


Paulo Roxo


Summit again! E a respectiva foto-cume.



** "V.A.n.N.": iniciais para "Vão Apanhar nas… (!)".  


Os topos:




 


segunda-feira, maio 06, 2013

Variante Pops

 A ULTIMA DA ÉPOCA FRIA 
VARIANTE POPS


 


Já o Inverno tinha entrado na Primavera e ainda não tinha chegado a ansiada encomenda especial.

Após os últimos dias de actividades de neve na Serra da Estrela, ainda esperávamos um fim-de-semana alargado extra para fechar a época. Esse fim-de-semana surgiu dos dias 13 a 16 de Abril, quando vimos uma aberta de bom tempo nos Pirinéus.
Já há algum tempo que tínhamos uma linha em vista nos Gabietos, um “3000” lá para as proximidades de Ordesa.


 A fantástica parede Noroeste dos Gabietos, nos Pirinéus.


No dia 12, um dia depois de, finalmente, recebermos a tal encomenda secreta, fizemo-nos à estrada com o objectivo de chegar a Madrid. Aí iríamos conhecer o representante da RAB Península Ibérica e o Pedro Cinfuentes que foi o primeiro escalador a fazer a travessia das Torres del Paine na Patagónia (também patrocinado pela RAB). Também se juntaria ao grupo, Mendieta, um simpático jornalista de montanha, ex-reporter da revista espanhola Desnivel, que acabou por nos entrevistar, algo que nem sequer tínhamos combinado previamente. 
Após uma noite de “chat chat” agradável, rumámos em busca de ambientes mais montanhosos.
No dia seguinte, com pouca paciência para a aproximação mais tradicional aos Gabietos (que consiste em carregar equipamento de pernoita e comida, para além do típico material técnico, e dormir relativamente perto da parede), decidimos pernoitar ao lado do carro e acumular a aproximação à escalada no dia seguinte. Afinal, seriam apenas mais duas horas e meia a juntar à festa para cima, e mais outro tanto para baixo.


Preparação para uma noite de luxo.


Entre as 5:30 e as 6 da manhã, começámos a aproximação à face Noroeste dos Gabietos, de início por um bonito trilho que estava transformado num verdadeiro ribeiro alimentado pelo degelo das neves e depois, por extensos e incómodos neveiros que apresentavam, ora passos de neve consistente, ora passos em que nos enterrávamos. Aqui e ali víamos vestígios de avalanches recentes, provocadas pela súbita subida de temperatura dos últimos dias... aliás, este ia ser supostamente um dia algo primaveril, seguido de um dia de Verão em que começávamos a suspeitar que não iríamos conseguir escalar coisa nenhuma nas montanhas!


 A caminho da montanha... e do vento!


Algures pelas 9, fustigados por um vento com o qual não contávamos, abrimos as hostes e estreamos as armas secretas. O verde das ferramentas sobressaía brilhante na brancura da neve. Finalmente, os novos piolets entravam em acção!
A face norte apresentava-se com um aspecto convidativo, excepto pelo persistente “spin-drift” que teimava em refrescar-nos o corpo. O Paulo encarou bem a coisa: “Serve de treino!” e eu... eu passava bem sem aquela neve em pó a tentar permanentemente entrar-me pela gola e mangas do casaco.


 "Aí vamos!"


Nas primeiras pendentes, após alguns passos precários mais abaixo... dúvidas... continuamos ou descemos?


Breve percebemos que o aspecto da parede não correspondia ao encontrado. De facto, a zona mais rochosa por onde queríamos abrir via tinha neve, mas como não estava solidificada, não aguentaria nem com um caracol!
Após dois largos de teimosia, com 60 metros cada e alguns passos precários, a decisão estava tomada (de inicio, a minha cabeça não estava para aquilo mas, lá fui), pelo menos sairíamos por cima! Uma grande rampa e uma travessia para a esquerda conduziu-nos inevitavelmente ao corredor da “Remi-Quintana”. Não queríamos coincidir com outra via estabelecida mas, as péssimas condições da neve não nos deixaram alternativa. Por alguns metros avançámos com rapidez, até atingirmos o fecho do dito corredor.


 "Bem, vamos a isso! É para cima!"


 A ideia inicial era escalar alguma linha mista mais ou menos a direito relativamente à minha posição na foto.


Cerca de 2/3 da parede estavam “no papo”, quando o Paulo investigava se a melhor saída seria à esquerda ou à direita.
À esquerda víamo-nos confrontados com uma zona mais exposta, à direita era o desconhecido... fomos pela direita.
Novamente, os novos brinquedos verdes mostraram o seu potencial para os gancheios. Avançamos num terreno misto entre neve podre e rocha... podre e, ao mesmo tempo, compacta e quase improtegivel. É nesta altura que a experiencia se mostra e encontra locais para colocar protecções onde elas supostamente não existem (boa Paulo!).


 A Daniela a chegar a uma reunião, já bem alto na parede e metidos em cheio no assunto.


 "Mmmm... vamos lá a ver se por aqui passamos!"


Uns metros para cima, uma travessia para a direita, uma secção exposta e delicada onde era proibido cair, mais uns metros na vertical e lá estávamos nós na última reunião onde fomos surpreendidos pela única peça de material que encontramos ao longo de 550m de via: um piton!
“Epá, já passaram por aqui! De onde terão vindo?”
A ânsia de estar a abrir via fazia-nos imaginar todos os caminhos possíveis para aceder àquele ponto. Se as condições dos que plantaram o piton fossem as que encontramos, só haveria duas maneiras de chegar ali. Se fossem muito melhores, outros horizontes poderiam ter existido. De facto, se há uma coisa interessante nas vias invernais, é que por mais que se repita uma via, esta será quase sempre um desafio diferente, mais ou menos dura consoante a muita ou pouca neve, podre ou consistente, muito ou pouco gelo... as variantes são infinitas. Foi o achado daquele pequeno artefacto que nos fez pensar que, com honestidade, não poderíamos chamar à “nossa” via: Via! Provavelmente, estávamos a inaugurar uma “Variante” mais.


Após ultrapassar o "crux" da via, constituido por um passo de misto precário, protegido por um piton psicológico.


Restava-nos um largo que terminava numa canaleta de neve vertical, mesmo por baixo de uma cornija intimidante! Rezando para que o calor não a fizesse cair naqueles breves momentos, lá foi o Paulo até à aresta, ultrapassando aquele trecho impossível de proteger.


 A iniciar o ultimo lance e mais do mesmo: neve muito má e protecções... raras.


“Podes viiiiiiiir!”, escutei minutos depois. “Se caires não faz mal, estou no outro lado da aresta!”. Com o coração mais tranquilo subi, bordeei a cornija e saí para a aresta. Atrás de mim, mais umas quantas cornijas, uma delas constituía uma enorme pala com aspecto verdadeiramente ameaçador, principalmente com o calor que se tinha instalado e com o sol a brilhar com toda a sua força. Bom, nós não sentimos grande calor, apenas porque o vento na aresta era tal, que o corpo não percepcionava a real temperatura. No entanto, o avistar de uma avalanche, deixava-nos conscientes de que ainda não estávamos totalmente livres de perigo.


A Daniela já na saída da nossa via, que veio da vertente do lado direito da foto. Aqui, conseguimos ter uma ideia do tamanho das cornijas formadas pelo vento. 


Teríamos de atravessar uma boa parte da aresta para escapulir pelo colo que existe entre os Gabietos e o Taillon.
Uma parte da travessia ainda me fez suar o cérebro “Não é nada bom cortar a neve assim! Vá, vai com cuidado e pisa exactamente onde o Paulo pisou, não cortes mais a neve...”. Mantínhamos a corda entre nós e foram colocadas algumas protecções intermédias “Just in case!”


 Lá ao fundo, a face noroeste do Taillón.


 A face norte do Taillón.


Horas depois, chegámos a terreno seguro. “UF!” Faltava apenas o laaaaaargoooooo pateio de regresso ao carro.
Na descida, pudemos observar como o terreno se tinha modificado ao longo daquelas horas. Os “Debris” de avalanches multiplicaram-se! Nessa altura, tivemos a certeza que aquela tinha sido a última actividade da época, assim nos despedíamos do excelente Inverno de 2013.


 "Check! Vamos ás lecas!"


Como invariavelmente nos ocorre nestas situações e nesta parte do mundo, o dia seguinte foi passado em Riglos!
Passamos das temperaturas baixas para uns agradáveis 24º, onde as cervejinhas numa esplanada virada aos famosos Mallos, nos sabiam a néctar dos deuses!
Se escalámos?
Sim, uns singelos 4 lances, pois os pés inchados de 15h de actividade e os dedos maçados de cerca de 3h de descida não toleraram o “(des)conforto” dos pés de gato!


DanielaTeixeira




Os topos