quarta-feira, outubro 09, 2013

Nangma Valley - Segunda parte

EXPEDIÇÃO NANGMA VALLEY 2013
SEGUNDA PARTE 

ACLIMATAÇÃO 


 
O campo base foi colocado aos 4200 metros, na esplanada de areia mesmo à esquerda da moreia. As vistas para o gigante K6, com 7200 metros são tremendas. A aproximação á nossa montanha fez-se pela vertente de prados da esquerda, até encontrar o glaciar que mal se vê. O impressionante circo do Kapura não se avista desde esta perspectiva.


Com previsão de bom tempo para os dias seguintes, a vontade de ficar no campo base não era muita. Ainda assim, para favorecer uma aclimatação “by the book”, forçamo-nos a passar por ali dois dias antes da nossa primeira incursão aos fundilhos do vale. A curiosidade espicaçava-nos o espírito, já que as nossas passeatas nos tinham levado a espreitar o que haveria por ali, ou seja...já tínhamos avistado o terço superior do Kapura.


Momentos de "relax" no campo base. Por cima da Daniela, as magnificas paredes de granito dominam. Neste caso, trata-se da suposta "Changui Tower" - existem muitas dúvidas relativamente à localização exacta da Changui Tower -, um bigwall com cerca de 1000 metros, por onde passam apenas duas vias.


Numa das incursões de reconhecimento, avistámos o cume e o ultimo terço do Kapura (6544m). Os sonhos começavam a tomar forma. A exploração tinha começado oficialmente!


Assim, ao segundo dia, carregámos as mochilas com o necessário para passar 2 ou 3 dias em terreno desconhecido... e que bem carregadas estavam, 27kg para cada um, quando saímos do campo base! A experiencia é sempre a mesma, na primeira vez, levamos tudo em excesso, ou seja, alguma roupa a mais e...muita comida a mais!


Transportando a mochila com 27 quilos a Daniela sobe a vertente de erva, sob o olhar vigilante de um "Dzo", um híbrido entre uma vaca e um Yak. Esta vertente é utilizada desde há muitos anos, pelos habitantes de Kande, como pastagem natural para o seu gado, que inclui vacas comuns, Yaks e os Dzos.


Obviamente, a marcha de aproximação ao glaciar foi lenta, não diria penosa porque as vistas roubavam a nossa atenção e enquanto os nossos olhos repousavam nas maravilhosas paisagens cada vez mais nevadas, o nosso corpo não sentia o cansaço.


Com a mochila bem atestada, paro um momento para descansar. As muralhas de rocha dominam o horizonte. No canto superior esquerdo, a "Changui Tower", ao centro o "outro lado" da "AminBrakk", um bigwall com mais de 1000 metros, imaculado e sem vias. À direita, a "Parede das fissuras", baptizada por nós e... virgem. 


Quando chegámos ao branco gelado declarado do glaciar, vimos pela primeira vez o fecho do vale, todo um circo glaciar de aspecto agreste e selvagem.
- UAU!!! Espectáculo! Olha para aquela face! Daniela, aquela é a linha! - Exclamava o Paulo, esbaforido.


A Daniela a colocar os crampons. Atrás, a cordilheira vai crescendo, à medida que vamos subindo.

A caminho do local onde plantámos a pequena tenda, que nos serviu como "Campo base avançado". O K6 impõe a sua presença mas, em breve, a nossa atenção irá estar totalmente concentrada na montanha que começa a surgir à esquerda. O elegante Kapura.


Lançámos a âncora e montámos a nova tenda da RAB, analisando bem a quantos metros teríamos de estar da vertente adjacente, para que os calhaus que rolavam frequentemente daí, não abrissem o primeiro buraco no tecido do nosso refúgio amarelo. Mais importantes que o tecido da tenda eram, obviamente, as nossas cabeças. Já perfeitamente instalados apreciámos o lugar idílico onde nos encontrávamos. Pouco depois… “zrrruuuuuummmm!”
- Hummmm, como vês não estamos assim tão longe da vertente! - Dizia o Paulo. Ambos avaliámos a distância a que os calhaus paravam de nós - Será de mudar para mais longe?
- Os calhaus que vê-mos mais perto ainda devem estar a uns bons 30 ou 40m! - respondi.
Entre dúvidas, optámos pela opção mais preguiçosa: deixar a tenda onde estava. Escusado será dizer que várias vezes fomos obrigados a espreitar o exterior, sempre que o rolar de pedras provocava rugidos maiores.


O nosso pequeno refugio de tecido é erguido e o circo misterioso abre-se finalmente perante os nossos olhos. Neste cantinho do planeta ainda ninguém realizou nenhuma exploração e todas as paredes encontram-se por escalar. O Kapura revela-se e imediatamente escolhemos a via que iremos tentar. Observando as montanhas em redor, não existem dúvidas nem alternativas. A "Dream Line" é inconfundível.


O mau aspecto das vertentes laterais faz justiça às ocorrencias. A queda de pedras de todos os tamanhos e feitios é uma constante.


Passámos a primeira tarde na tenda a hidratar e a observar as imediações. Procurávamos algum objectivo mais “humano” para a aclimatação. No entanto, grande parte das montanhas estava demasiado seca e as “rolling stones” eram mais que muitas.
Após (des)ponderadas algumas opções de aclimatação, percebemos que a nossa melhor opção seria aclimatar na própria via, subindo a um óbvio colo que estaria a cerca de 5700m. Como imaginámos que o colo poderia ser demasiado apertado para dormir, e como os dias de bom tempo eram muitos, decidimos no dia seguinte reconhecer apenas o glaciar até à base da via e só no outro dia fazer um “toca e foge” ao colo, regressando directamente ao campo base. Ou seja, passaríamos no total duas noites no glaciar a cerca de 5000m e roçaríamos por uns breves instantes os 5700m.


 Avistam-se montanhas "estranhas", desde o Campo base avançado.


Cumprindo o plano à risca, no dia seguinte iniciámos a nossa incursão pelo glaciar aos primeiros sinais da luz da manhã. Seguindo o instinto, rapidamente chegámos à base do Kapura. Aí tomámos o nosso tempo para observar como chegar ao colo. A opção imaginada inicialmente estava decididamente excluída, uma rampa de gelo empinada que parecia dar acesso directo ao colo, terminava com um bom largo de rocha/chaminé com aspecto difícil. Para ajudar à decisão, não fossem ainda existir algumas dúvidas, reparámos que essa chaminé era ponto de passagem das pedras que frequentemente se desprendiam de zonas mais cimeiras da vertente.
À esquerda, surgiu a segunda opção, uma rampa inclinada de cascalheira levava a uns neveiros que se adivinhavam bem gelados. Não tendo a mínima ideia das dificuldades que iríamos encontrar, esta era a única opção que nos sobrava.


 Pousado numa pedra no glaciar, o equipamento aguarda pacientemente pela hora da acção.


No dia seguinte, muito perto das quatro da manhã, já tínhamos cruzado o glaciar e estávamos plantados na base da montanha, dispostos a fazer uma tentativa de chegar ao colo.
Ainda na escuridão, encontramos um fácil acesso para iniciar a subida da primeira vertente. Surpresa. O terreno não era tão empinado quanto parecia desde baixo o que nos permitiu um avanço relativamente rápido. 


Antes do sol nascer, iniciamos as hostilidades. A rampa/cascalheira inicial com uns 200 metros, conduziu a passos mais dificeis e perigosos, como viriamos a constatar mais tarde.


Entretanto, o dia clareou e foi fácil intuir qual a melhor linha de acesso ao colo. Depois da cascalheira, seguiram-se largos de gelo duro, e algumas zonas de terreno misto fácil mas, nalgumas passagens, aéreo e exposto. Com a inclinação de gelo que encontrámos, a técnica piolet-tracção foi quase sempre obrigatória, o que para aclimatar e a cerca dos 5500 metros me fez arfar e pensar bastante. 
 

A Daniela sorri no esporão de xisto. A rocha não era das melhores (leia-se péssima) e, apesar da baixa dificuldade técnica, a progressão com crampons era incómoda. A atenção tinha de ser uma constante. 


“Se assim, de mochila quase vazia vou a arfar desta maneira, como vou escalar isto de mochila carregada, quando tentarmos o cume?”. Tentei colocar de lado as reflexões pessimistas e concentrar-me apenas na progressão. “Endireita as costas que respiras melhor, controla a respiração, não queiras ir demasiado rápido, deixa o piolet fluir...” Uns 4 largos mais acima, já com o sol a tocar na vertente, estávamos bastante perto do colo. Faltava um largo em travessia e outro de gelo.


Um aspecto, desde a base, da face sudoeste do Kapura. Uma impressionante muralha perfeitamente vertical de 1000 metros. Seguramente, as delicias de qualquer "Basejumper", ou "Bigwalleiro"... Russo!


Entretanto, desde as sete da manhã começamos a ouvir o típico rolar das pedras que se soltavam. Na reunião, quando olhámos para cima, percebemos que do nosso lado esquerdo se empilhavam literalmente toneladas de rocha degradada. Torres enormes que pareciam estar ali num precário estado de equilíbrio. Na travessia que iríamos de seguida realizar teríamos de ser rápidos. Rápidos e com o “timing” certo para não sermos apanhados por um qualquer pedregulho que decidisse abandonar as alturas e rolar para cotas mais baixas. Sessenta metros depois, estávamos a um escasso lance do colo. Pelo avançado da hora, para acelerar a descida, decidimos que só o Paulo subiria a espreitar e o mais rápido que conseguíssemos, desceríamos até ao glaciar.


 A três lances do colo, antes da ultima travessia exposta à queda de pedras.

 

Assim foi, e as notícias do colo foram: “Creio que vai dar para dormir...isto é, para bivacar! O colo é super apertado, mas pode ser que consigamos montar uma mini plataforma que dê para descansar. Com sorte, ainda pode ser que dê para montar a tenda pequena, senão olha, embrulhamo-nos nela!”.
A pensar no desconforto da noite que antecederia a tentativa de cume, começámos a descer, rapeis após rapeis até que chegámos a um ponto crítico que não tínhamos notado durante a subida. Num encaixado diedro, o sol derretia um enorme torreão de gelo que aglomerava pedras dos tamanhos mais diversos, desde televisores a frigoríficos. O último rapel antes da cascalheira conduziu-nos directamente para um canal por debaixo desse torreão e, as pedras rolavam com violência e a uma frequência medonha. Seria uma verdadeira roleta russa passar por ali! No entanto, não tínhamos outra solução senão arriscar. Corria também água. Aquilo que, durante a noite estava congelado, estava transformado num regato, arrastando pedras. Reconhecemos que aquele era o único caminho e, a perspectiva deixava-nos com os nervos literalmente à flor da pele. 


A montanha apresentava-se calma às primeiras horas da manhã. Escalámos tranquilos sem nos apercebermos da aventura que o futuro próximo nos reservava.


Preparámos o rapel e o Paulo desceu primeiro.
- Boa sorte! - Disse-lhe.
- Se vires cair algum calhau grita alto. Lá em baixo, posso não ouvir.
Ele desceu. Eu tinha os olhos presos no torreão e o coração batia com uma força que há muito não lhe conhecia. Lá em baixo, quase no fim do rapel as cordas enrolam-se “F…s, é a lei de Murphy!” Pensei.
- PEDRAAAAAA! - Gritei o mais alto que as minhas cordas vocais me deixaram.
Os calhaus que caiam arrancavam outros e o número de pedras multiplicava-se à medida que se aproximava do local onde estava o Paulo. Vi-o ali muito encostado, encolhido, imóvel, numa tentativa vã de se fundir com a própria vertente e, não sei se o meu coração bateu ainda mais forte ou se simplesmente parou. Passou o momento de tensão e, uma vez mais, tudo estava bem.
- VAI VAI VAI! - Gritei novamente, quando a montanha voltou ao silêncio.
Pouco depois, colocava eu a corda no descensor. O Paulo ainda não estava em sítio totalmente seguro.
- SAI DAÍÍÍÍÍÍÍ! - gritava eu.
- DEEESCE! - Respondeu-me.
O seu gostar não o demoveu de me esperar no final das cordas. Sem hesitar, iniciei o que creio ter sido o mais rápido rapel da minha vida. Concentrada na descida, com a respiração ofegante, invadia-me o medo de que o silêncio da montanha se quebrasse. Rapelei aqueles 60m quase sem me dar conta das dificuldades impostas pela altitude. Cheguei perto do Paulo, puxámos rapidamente as cordas e fugimos daquele lugar para um esporão muito mais protegido das pedras. Só aí percebi o quanto ofegava. Estávamos já em porto seguro! 


A segunda travessia perigosa, aqui calma e pacífica, às primeiras horas da manhã... antes do sol dar o ar de sua graça (desgraça?).


- Está visto, tanto para subir, como para descer, da próxima vez, é obrigatório passar aqui sempre de noite! - Concluiu o Paulo. Promessa feita. Sorrimos. Abraçamo-nos.
Faltava apenas descer a inconstante cascalheira para chegar ao glaciar. Só nos tocava ser rápidos para nos afastarmos das vertentes que, devido à acção do sol, ganhavam vida.
Já no glaciar, a uma boa distância de segurança das paredes, voltámos a abraçar-nos e a sorrir, desta, não só por estarmos ali, mas também por termos descortinado o acesso àquela face bonita que constituía a parte superior do Kapura. Estava descoberto o portal para a nossa linha de sonho.


 Já na base da montanha. Após o "aventuroso" reconhecimento. "-Para cima, na próxima vez, só de noite!"

 
Croquis da primeira parte da via. O "portal" para a "Dream line" estava descoberto!


Algumas horas depois, chegávamos cansados e felizes ao campo base, onde nos esperava o aconchego de uma tenda grande num local confortável, onde nos esperava uma fresca garrafa de coca-cola, uma pizza de cabra (típica na zona do Karakorum!) e “potato chips”, as normais e correntes batatas fritas, um dos menus favoritos do Paulo, que nestes locais, se transformam em verdadeiros pitéus!


Daniela Teixeira



De novo no Campo base (Home sweet home), com o nosso cozinheiro e amigo de outras aventuras, Altaf e o seu filho Alam, que aguentou sem birras nem queixumes, 20 dias na montanha.






segunda-feira, setembro 30, 2013

Expedição Nangma Valley 2013 - Primeira parte.

EXPEDIÇÃO NANGMA VALLEY 2013
Primeira parte

ATÉ AO CAMPO BASE


 
O nosso campo base. Impossivel pensar num local melhor!


Ao contrário do que nos é normal, desta arrumámos tudo um pouco à pressa e no último fim-de-semana antes da partida.
Com o cérebro inundado de insegurança por alguns acontecimentos recentes no Paquistão, na última semana antes do dia em que estava marcado o voo para Islamabad, 15 de Agosto, decidimos ir!
Tudo parecia estar contra nós, até a transferência bancária que tinha feito à última da hora deu buraco!
-Sim? Queria apenas saber acerca da transferência bancária efectuada no dia 9, já que até hoje (dia 14 de Agosto) o dinheiro não saiu da minha conta.
- Não temos registo de qualquer transferência! Para onde foi?
- Paquistão.
- E para que serve a transferência?
- Para pagar uma agencia relativa a uma expedição de alpinismo.
(Ouvi os pensamento do outro lado do telefone...”Paquistão? Terrorismo? Alpinismo? Cheira aqui a esturro!!!”)
- E pode enviar-me comprovativos de que é mesmo para esse fim?
Após muitas chatices e algumas trocas de galhardetes infantis do tipo “A culpa é tua! Vou fazer queixa!...” (mas de uma forma mais elegante), às 16:30, já o banco estava fechado, quando lá passei para levantar em mão o dinheiro que serviria para pagar a agência que contratámos para assegurar toda a logística até ao campo base...mais uma preocupação para os nossos neurónios stressados, em vez de pilim transferido, tínhamos de levar durante a viagem, todo o dinheiro do pagamento connosco!
Para não dar descanso ao nosso cérebro, a internet enfiou-nos mais uma notícia pelos olhos dentro: para o dia da partida, haveria greve da Groundforce! Ou seja, será que iríamos conseguir voar? E se voássemos, será que toda a bagagem voaria connosco?
Assim passámos a noite de dia 14 para 15 de Agosto, ansiosos e quase sem dormir.
No aeroporto, pelas três da tarde não parecia haver muita confusão. O placard indicava que o voo estava atrasado apenas 20 minutos e as indicações do check-in tranquilizaram-nos. À partida não se esperava qualquer problema.
Despedimo-nos dos meus pais e do Presidente e secretário da Fundação do Desporto (Luis Santos e Artur Madeira), que fizeram questão de nos ir desejar boa sorte, e encaminhámo-nos para o McDonald do aeroporto. Queríamos degustar um último gelado com topping de amêndoas antes de passarmos as próximas semanas sem este tipo de petiscos.


No Aeroporto, com (da esquerda para a direita), a mãe da Daniela (bem entretida à conversa), Luis Santos e Artur Madeira, respectivos presidente e secretário da Fundação do desporto, uma das entidades que apoiou monetáriamente a expedição. A segunda entidade que apoiou monetáriamente, está representada nas t-shirts que envergamos: o Clube de Montanhismo da Figueira da Foz.


Só sentimos algum alívio quando as rodas do avião se separaram em definitivo da cidade de Lisboa e vimos, a cada minuto, mais pequenas, as modernas habitações da velha Europa.
Na hora das refeições optei por vinho branco, despedindo-me também deste néctar, proibido em terras islâmicas. Grau a partir dali só mesmo o das escaladas!
Horas depois descansávamos 17 longas horas no riquíssimo aeroporto do Dubai, com aquela mesma sensação de quem passa por um aeroporto na Suíça...tudo caro!


 No Aeroporto do Dubai, 17 horas de espera para o voo que nos levaria a Islamabad!


Dia 17 perto das duas da manhã, as rodas do avião colaram-se ao chão quente de Islamabad e assim começou uma das maiores aventuras das nossas vidas.
Queríamos naquele mesmo dia de manhã voar para a pequena cidade de Skardu, capital do Baltistão que fica “a centímetros” da cordilheira do Karakorum.
Voar, porque de avião levaríamos pouco mais de uma hora entre as duas localidades, contra 25horas sem parar, no caso de irmos por terra.
Mas a sorte não estava do nosso lado e nesse dia não voámos. Nem nesse dia, nem no seguinte, pois os voos para Skardu foram cancelados. Os aviões para aquele povoado só levantam quando estão garantidas condições de bom tempo (isto é, céu sem nuvens), já que a aterragem no vale de “Skardu” é literalmente feita “à vista” (pois é, o aeroporto -ainda- não tem radares!) e o bom tempo, esse sim fez greve!


 À saída do hotel em Islamabad, numa das duas viagens de táxi até ao aeroporto, na esperança de apanhar o avião para Skardu.


Muito, muito reticentes, lá nos resignámos a ir por terra, percorrendo mais uma vez os longos e penosos 600km da Karakorum Highway, antiga Rota da Seda. Mas destas, entrámos na Van que nos estava destinada mais nervosos que da última vez (há alguns anos). Para além de termos um só condutor para todo o percurso, sabíamos da tensão que se vivia entre Besham e Chilas, terras que se encontram sob domínio não oficial de Talibans. No final, a situação mais nervosa prendeu-se mesmo foi com o condutor! Imagina-se que após 23h seguidas de condução, o cérebro já não esteja nas suas melhores condições, e assim foi! Algures pelas 3 da manhã, já perto de Skardu, os neurónios do condutor começaram a bater castanholas, ou melhor, as castanholas deixaram de bater e o tipo seguia meio a dormir num trecho de estrada cheio de curvas e precipícios. O rio, seguia bem acordado lá em baixo. A carrinha andava agora mais devagar do que era normal, por vezes quase a parar, por vezes com solavancos de velocidade. O Paulo, não tirava os seus olhos (àquela hora bem esbugalhados) do condutor, e após lhe dizer váááriiias vezes que seria melhor parar para descansar um bocado (não fossemos todos nós fazer uma visita às trutas lá em baixo!), o tipo lá parou de lutar contra o sono, e ali, no meio da escuridão, adormecemos todos uma hora.



 Dois momentos na Karakorum Highway.


Algures pelas 5 da manhã chegávamos, absolutamente desfeitos (mas vivos!), a Skardu.
Depois de poucas horas de sono no hotel, insistiam connosco que tínhamos de ir almoçar. E ai daquele que não corresponda à primeira chamada! Primeiro é o telefone a dizer que o almoço está pronto, depois é outra vez o telefone a dizer que o almoço está na mesa, depois ainda, estão a bater-nos à porta com se fossemos crianças “Please sir, come to luch, lunch is getting cold”...que chatos!
Só depois percebemos que a mesa não era só para nós! Esperava-nos uma simpática pandilha. Altaf, o cozinheiro que conhecemos de longa data e que nos recebeu alegre, sorridente e de braços estendidos. Tahir, um dos 3 irmãos donos da agência que contratámos, o mais novo, afável e simpático.
O dia passou demasiado depressa, entre as ultimas compras e as ultimas arrumações, não nos deu tempo para descansar.


Skardu e o hotel Masherbrum... todo um luxo!


No dia seguinte de manhã bem cedo, estávamos novamente enfiados na estrada, desta numa muito mais pequena viagem, 5 horas de jipe entre Skardu e a ultima aldeia, Kande, mesmo na boca do vale do Nangma, de onde são tanto o Altaf, como o trio de irmãos da agência.
E como são dali, ainda naquele dia tivemos um resto de dia familiar, partilhando chás e bolachas com a família do Altaf.


A aldeia de Kande mesmo às portas do vale do Nangma.


Montámos "campo base" no pátio da escola de Kande, sob o olhar curioso da miudagem local (e não só, pois na verdade, a chegada de estrangeiros é sempre um motivo de animação na aldeia). No dia seguinte iriamos iniciar a aproximação às montanhas.


No dia 22 de Agosto calçávamos pela primeira vez as botas de trekking para iniciarmos a caminhada de aproximação, que partimos em dois tranquilos dias. No primeiro, pernoitámos no “Mingulu Camp”, um prado relvado e com boas sombras, regado por regatinhos de água límpida e imaculada... um deleite para o nosso corpo cansado e para a nossa mente exausta. As vistas já nos permitiam sonhar. Já aqui percorríamos com o olhar, possíveis linhas nas enormes paredes de granito, possíveis aberturas, pequenos grandes sonhos que ficariam por concretizar (precisaríamos de pelo menos 6 meses...de bom tempo, para fazermos metade do que imaginámos). Vimos pela primeira vez a “Great Tower” um gigantesco massacote que nos levou a pensar “Esta é para os russos!”, a “Chingu Charpa” e outros enormes penedos graníticos.


 A caminho. Uma das pontes que atravessam o rio furioso. Mais acima estas desaparecem e algumas passagens "a vau" são obrigatórias.


 
 O "Mingulo camp", a poucas horas de Kande. Os carregadores gostam de parar nestes prados paradisíacos. Na verdade é um local agradável para passar o dia.


 
 A Daniela a engordar a cabra, dias antes do inevitável desfecho...


 Os prados verdes deste e de outros vales são os locais perfeitos para alimentar o gado pertencente à população de Kande.


 
 Acompanham-nos as vistas sobre torres e paredes impressionantes, muitas completamente virgens.


No segundo dia, o campo base deliciou-nos. Montámos as tendas numa espécie de areal. A oeste, uma verdejante vertente de onde escorria abundante água de nascente, levava a uma parede granítica com cerca de 1000m. A leste, uma imensa parede com os seus 700 ou 800m. Mais abaixo, para além de mais e mais paredes, chamavam a nossa atenção quatro agulhas de granito, quatro irmãs, quatro torres que se erguiam, como que nascidas de repente do chão glaciar, cada uma delas com cerca de 250 a 350m. 


 A torre mais pequena em primeiro plano chama-se "Zang Brakk" e já possui algumas vias. A maior atrás, continua por escalar. O famoso vale do "Amin Brakk", está à direita, fora da foto.


 Os colossos de granito, "Great tower" e "Chingu Charpa".


 Os cinco pilares de granito (sem nome) que nos maravilharam durante os nossos dias de campo base. Um mundo interminável de escaladas. Lá atrás, à direita da Daniela, a "Great tower".


 O campo base. Eramos a única expedição no vale, num local perfeito e de vistas largas. Lá ao fundo, o maciço do K6 (7200m) e à esquerda, junto à base da montanha pode-se observar o inicio do glaciar sem nome que conduz ao Kapura (6544m), a montanha para a qual dirigimos os nossos sonhos.


 Estas paredes sem nome, com uns 700m, erguiam-se mesmo à direita do nosso campo base, a 1h30 de distância...


 ... e estas, a 0h45 de caminhada, à esquerda do campo base. 1000 metros de granito. Duas vias! À direita, ali estava a "Parede das fissuras", baptizada por nós e caracterizada por dezenas de fissuras verticais de todos os tipos. Zero vias!


Um verdadeiro mundo de rocha por explorar, intocado por pés-de-gato. Mas, o nosso olhar e os nossos sonhos apontavam noutra direcção, para o fundo do vale, para os monumentais portadores das neves eternas. Ali passaríamos alguns dias das nossas vidas.


Daniela Teixeira


A expedição Nangma Valley 2013, foi patrocinada pela FUNDAÇÃO DO DESPORTO, pelo CLUBE DE MONTANHISMO DA FIGUEIRA DA FOZ e pelas marcas RAB, DMM e STERLING.



 Mapa do Baltistão (capturado na net).


sexta-feira, setembro 20, 2013

Kapura South

KAPURA SOUTH (6350m) 

First Ascent



"SONHOS INTERMINÁVEIS, 1300m, 70º/M4"

A aventura já aconteceu, agora... as histórias na forja!

quarta-feira, agosto 14, 2013

Sou eu

SOU EU


Nãããõoo! Não pensem isso! Eu ando um bocado abandonado pelos meus donos mas, ainda não morri, ainda não desapareci. Os meus donos desleixaram-se e deixaram-me um pouco por aqui à deriva sem rumo, no meu mundo invisivel dos bits, mega-bits e giga-bits. Sou um blog triste, olvidado, esquecido.
Mas, eis que surgem as boas noticias. Os meus donos estão de saída para outras paragens, outras terras lá para os lados do oriente. Irão concerteza viver aventuras, conhecer gentes e montanhas. No entanto, antes de partir disseram-me que, mal voltem, mal ponham os pés em terras lusitanas, irão de novo despertar-me, de novo pintar-me com figuras e caracteres, com cores e vida.
Afinal de contas ainda tenho para contar algumas historias passadas, algumas escaladas não reveladas, coisas inúteis, por isso importantes. E claro, para deleite dos meus circuitos, novas historias virão, fresquinhas, fresquinhas, como as sardinhas (por me ser físicamente impossivel nunca as provei mas, já aqui me escreveram como são deliciosas).
Bem, vou retirar-me de novo para o meu mundo de introspecção electrónica, mas com um olhinho à espreita e impaciente pelo retorno dos meus donos, à espera dos relatos das suas andanças. À espera da razão da minha própria existência.

O blog Rocha Podre e Pedra Dura.


A saída da Aresta Kuffner. Um desenho de Samivel? Foto Paulo Roxo


segunda-feira, junho 17, 2013

Os Escalões e as Escaladas

OS ESCALÕES E AS ESCALADAS  



 Uma reunião com estilo... antes das plaquetes!



Algumas pedras mais periclitantes foram atiradas ao vazio e um par de horas depois aterrei na varanda intermédia, na parte alta da parede, que permite escapar (ou aceder) comodamente. Uma oportuna criação da Natureza.
Na futura linha, reconhecida desde o cimo, deixei uma reunião e umas poucas plaquetes disseminadas em pontos mais expostos e difíceis de proteger.
O plano inicial era continuar por ali abaixo até à linha do mar. Mas, na plataforma, reconsiderei. Será que me apetecia manter o estilo “batota”, ao longo de toda a parede?


 A paisagem incansável desde a falésia dos Pinheirinhos.


Nos Pinheirinhos, até à data, convivem vários estilos de aberturas. As poucas vias desportivas, por definição, foram equipadas desde o cimo. Existem também algumas “clássicas” que foram semi-equipadas desde o cimo e posteriormente inauguradas mas, a maioria, foram abertas desde baixo, à vista e muitas das plaquetes foram colocadas à mão, recorrendo à energia “braçal”.
Após alguns minutos de reflexão, cheguei à conclusão que o melhor seria mesmo voltar para casa e retornar noutra altura, com a motivação para escalar a nova via desde baixo. Eticamente, indiscutivelmente, seria o caminho mais correcto.
Assim, num dia adequadamente fresco, a Daniela e eu arrumámos a “trouxa” e, lá fomos à conquista de uma nova linha.
Como noutras tantas vezes, descemos o trilho principal dos Pinheirinhos para nos posicionar por baixo da estética parede vertical do sector “Flanco esquerdo”.
Com os olhos e a imaginação traçámos um risco ao longo da falésia através do espaço aberto ainda existente entre a “Humidade relativa” e a “Quem vem aí?!”. Parecia uma linha tecnicamente exigente pois seguia por placas sem fissuras aparentes. Mais acima, avistava-se uma secção de calcário amarelo e extra-prumado, que adivinhámos complicado. Certamente um “osso duro de roer”.


 No primeiro lance da futura via.


 A iniciar o excelente segundo lance da via.


 A Daniela a sair do segundo lance de desfrute.


 O segundo lance com o mar por baixo dos pés.


Sentia-me satisfeito por não ter sucumbido à preguiça de reconhecer aquele troço de parede desde o cimo. Sendo perfeitamente honesto, considero que reconhecer, limpar e equipar desde o topo, constitui uma forma deselegante de escalada. Algo a ser relativamente menos valorizado. Se existisse uma escala de valores para o “estilo de abertura” – como as escalas que utilizamos para valorizar o grau de dificuldade – uma via reconhecida desde o cimo mereceria um valor muito inferior quando comparada com uma abertura realizada integralmente desde baixo.


 A iniciar o terceiro lance e o crux da via, uma placa intensa aberta de baixo com o apoio dos estribos. Mais tarde voltámos para a respectiva "liberação".


 No seguimento do espectacular terceiro lance da escalada, no dia da abertura.


Uma proposta para matizar o estilo adoptado aquando da preparação e primeira ascensão poderia ser, por exemplo: “Escalão A”, para vias inauguradas desde baixo “à vista” e “Escalão B”, para vias reconhecidas e equipadas desde o cimo. Seria no mínimo estranho mas, pelo menos, teríamos mais um elemento informativo acerca da história de uma escalada.
Exposto este palavreado sobre estilos perfeitos e imperfeitos devo dizer que, em algumas das aberturas nas quais participei ou realizei, adoptei o tal estilo preguiçoso de “Escalão B”. No entanto, também reconheço facilmente que me deu algum gozo suplementar escalar posteriormente essas vias, sem o stress habitual do desconhecido, dos blocos soltos e com o equipamento light e optimizado, calculado em antemão, graças às estratégias “pobres” da preparação prévia em rapel.
Na primeira intentona a Daniela e eu abrimos os dois primeiros lances da via. Passados alguns dias, retornámos para a terminar e, foi o terceiro lance que apresentou as dificuldades máximas. Utilizando a máquina e recorrendo ao artificial, ultrapassámos a secção mais dura da escalada, deixando para trás um muro compacto, equipado com o mínimo de expansivos. 


 O petate e a escaladora, no terceiro lance da via.


 O ultimo largo para relaxar e apreciar a exposição e o ambiente.

 
 A Daniela a terminar a via. "Check!"


Mais tarde retornámos, pois meti na cabeça que iria tentar forçar a nova via em livre (a Daniela dispensou o esforço e reduziu os passos de artificial com estribos a alguns puxões em A0) e lá saiu uma bonita sucessão de movimentos duros, com o crux obrigatório em travessia, protegido por um piton solitário – para dar ambiente à coisa!


Durante a repetição da via, a Daniela desfruta no ultimo lance.


Baptizámos a nova criação de “Invera”, que consiste na fusão entre as palavras Inverno e Primavera.
Nesse dia, aproveitámos ainda para sair pela nova via que esperava uma escalada, na parede superior, à esquerda das desportivas da “Cova das ovelhas”, depois da plataforma da “Varanda”, a tal com a qual comecei esta historia, a tal preparada desde o cimo… a tal de “Escalão B”.
Após algumas horas de luta, inaugurámos a "V.A.n.N." (nome de código **) que percorre um primeiro lance longo de formações grotescas e intimidativas e um segundo largo para escapar, muito menos intenso e mais curto. 


 
 Dois momentos na abertura da "V.A.n.N."


Ficam assim explanadas as considerações e reflexões relacionadas com as duas ultimas vias acrescentadas à colecção dos Pinheirinhos.
Vias de “Escalão A e B”.


Paulo Roxo


Summit again! E a respectiva foto-cume.



** "V.A.n.N.": iniciais para "Vão Apanhar nas… (!)".  


Os topos: