segunda-feira, março 03, 2014

Escalada mista, a Divina

 ESCALADA MISTA, A DIVINA







 No campo da escalada mista de grande qualidade a Serra da Estrela possui um manancial à espera de pretendentes.
Trata-se de um verdadeiro diamante em bruto, pronto a ser lapidado mas, aparentemente, sem muitos candidatos à vista para o fazer.
Todos os anos o vento, a neve e o gelo conspiram, deixando as paredes de granito, cobertas de branco, com uma “colagem” tal, que por vezes, torna difícil reconhecer a exacta localização dessas paredes. Portugal? Escócia? Cântaro Magro? Ben Nevis?


A Face Oeste do Cântaro Magro, um manancial para a escalada mista.


Como é evidente, por cá, as condições ideais nunca (ou muito raramente) chegam a atingir a longevidade temporal que nas latitudes mais elevadas do continente, contudo, é possível realizar escaladas bastante interessantes e satisfatórias.
As premissas a serem tidas em conta são as seguintes:
1ª Abolir os preconceitos.
2ª Alguma imaginação.
3ª Estar no local certo à hora certa.
A primeira premissa é a mais importante e, na verdade, é a que condiciona todas as actividades invernais na Serra da Estrela. Já perdi a conta às vezes que ouvi a frase: “Na Estrela não temos condições para o gelo!” Esta afirmação não é verdadeira nem tão pouco corresponde às provas surgidas (quase) todos os anos, com a abertura de novos itinerários, mesmo que inseridos em pleno “aquecimento global”.
A segunda premissa bem pode ser anexada à primeira. Uma vez abolidos os preconceitos, parte-se para a escolha do objectivo.
A escalada invernal na Serra da Estrela não se compadece com planos demasiado rígidos nem com ideias pré concebidas. Muitas vezes, quando todas as previsões apontam para a possibilidade de determinada cascata se encontrar nas condições ideais, eis que, “in situ”, apercebemo-nos que afinal essa cascata não se chegou a formar. No entanto, espreitando um pouco mais para o lado, descobrimos, assim de repente, uma outra linha de gelo em condições aceitáveis, contrariando todas as expectativas e previsões.
Na maioria das situações, rebuscando um pouco nos meandros da imaginação é possível encontrar um qualquer objectivo interessante para arranhar os piolets e os crampons.
A terceira premissa contém uma relação directa com o factor sorte, sobretudo para aqueles (a grande maioria) que apenas tenham disponibilidade aos fins-de-semana.
O “estar no local certo à hora certa” é um aspecto fundamental para a realização de algumas escaladas de formação mais rara. Neste aspecto, o advento das previsões meteorológicas “na hora” e localizadas, difundidas na Internet, encurtaram bastante as fronteiras entre a simples sorte e o bom planeamento.
Na Serra da Estrela, um dos melhores exemplos que corroboram este raciocínio foi a devida formação da famosa e rara “Cascata do Inferno” no Inverno 2012/2013, cuja rápida troca de informações baseadas nas previsões meteorológicas, possibilitaram estabelecer um verdadeiro recorde de ascensões no mesmo dia.
Seguidores assíduos das premissas descritas anteriormente, a Daniela e eu, já nos acostumámos a tentar adaptar-nos às condições existentes a cada momento na serra, ao invés de estarmos à espera do surgimento das condições ideais.


 A Daniela, num dos passos mais bonitos da nova via aberta no dia 23 de Fevereiro, a "Sofrer até doer!"



Desta vez viajámos com a esperança de realizar alguma coisa interessante no campo da escalada mista.
Ao longo dos anos acostumámo-nos a elevar o periscópio e a perscrutar as paredes da Serra da Estrela, cada vez que a neve e o gelo dão o ar de sua graça.
Existem certas linhas bem definidas que sempre vaguearam pela minha memória. Projectos adiados à espera das melhores condições físicas e psicologias para serem escalados. Geralmente, são vias que se adivinham mais duras, aquelas que julgamos constituírem o “passo seguinte”. Sectores como o “Powermix”, Face Oeste do Cântaro e certas paredes interiores com orientação norte, no Covão do Ferro, entre algumas outras, albergam ainda grandes quantidades de desafios apenas dependentes da decisão do escalador certo, no momento adequado.
Um desses “momentos adequados” surgiu no último dia 22 de Fevereiro.
Nos últimos tempos, temos adoptado um esquema de treinos mais virado para a escalada, focando-nos não apenas no sistema cardiovascular (a pensar na alta montanha) mas também na força e resistência. O pequeno muro montado num dos quartos da casa, até bem pouco tempo vocacionado apenas para pendurar roupa a arejar em cabides, começou finalmente a ter um uso mais honrado. Motivados pelos últimos progressos, decidimos tentar algo mais ambicioso ao nível da dificuldade técnica.
Por volta das onze da manhã, uma calmaria nas condições climatéricas permitiu abrir de novo a estrada da Torre e, minutos depois, estacionámos na famosa “Curva do Cântaro”. Descemos o habitual canal de acesso à Face Oeste do Cântaro encontrando uma neve espectacularmente transformada. As boas condições faziam antever um bom dia de aventura vertical.


 A descer o canal, em busca da "Big one".


Um rápido reconhecimento geral em busca da via que nos suscitasse a maior inspiração, colocou-nos na base de uma estreita goullote que dividia uma laje enorme da parede principal. Acabámos por encontrar a entrada mais lógica para a nova via de escalada mista. Uma espécie de “seat start” de aquecimento, para as dificuldades que se adivinhavam a seguir.


A Daniela no pequeno corredor "seat start", da nova via.



O segundo lance transformou-se num exercício duro de gerir, para mim impossível de encadear “à vista”, não tanto pela intensidade dos movimentos mas, mais pela dificuldade em colocar boas protecções ao mesmo tempo que tentava bloquear em gancheios bastante físicos e precários. Eventualmente, lá fui conseguindo colocar alguns friends e entaladores excêntricos (verdadeiras protecções “Yuupii!” quando as fissuras se encontram congeladas) mais ou menos decentes, numa fissura aberta e enganadora, algo atípico no granito perfeito da Serra da Estrela.




 Dois momentos no segundo lance, um dos mais duros da via, um potencial M7, à espera do respectivo encadeamento... quiçá no próximo ano...


Entre alguns descansos, os movimentos foram dissecados e o lance finalmente resolvido.
Uma Daniela bastante sorridente emergiu na reunião, após ter escalado todo o lance e descobrir, com satisfação, que os treinos adaptados à escalada estavam a dar os seus resultados e que estes eram muito positivos.


A Daniela a emergir do aéreo segundo lance, após confirmar os bons resultados dos ultimos treinos.


A Daniela a chegar à cómoda reunião do segundo lance da via, um dos mais duros do dia.


Uns lances sem muita história fizeram-nos ganhar terreno e altura na Face Oeste até darmos de cara com o muro superior intimidativo e vertical. Umas fissuras promissoras cortavam a parede de alto a baixo por isso, esperávamos encontrar boas possibilidades para gancheios potentes e – mais importante – boas possibilidades para proteger o lance convenientemente.


 A iniciar o terceiro lance, "sem história".



Seguiu-se uma escalada atlética de antologia, mais uma vez entrecortada por um ou dois pontos de descanso para análise do terreno superior. Passado algum tempo, dois braços cansados cravavam os piolets nos últimos tufos de erva e neve congelados, para erguerem um corpo arfante e o atirarem para dentro de um nicho confortável e perfeito para montar a reunião. Poucos minutos depois, respirava de alívio enquanto admirava o culminar de um lance magnífico ao mesmo tempo que assegurava a minha companheira.


 
 Dois momentos no penultimo lance da via, um dos mais duros. Aéreo e espectacular.


 Após ultrapassar o crux do penultimo lance, uma proposta de M7, com bons gancheios e a promessa de ante-braços inchados!


A Daniela dava o tudo por tudo para escalar o largo em livre e, no processo, evoluía o mais rápido que as suas forças o permitiam, tentando ultrapassar a sombra projectada pela vertente oposta, que escalava também, à medida que o Sol se punha no horizonte.
- Uau, que lance espectacular! – exclamou a Daniela imediatamente após os últimos passos difíceis.
A noite caía agora a trote acelerado.


A Daniela a ultrapassar os ultimos movimentos do penultimo lance da espectacular "Divina", com a noite a avançar em passos largos.

As lanternas frontais saltaram das mochilas para serem colocadas nos capacetes.
Faltava apenas um lance para o topo do Cântaro mas, a via teimava em não ceder aos nossos desejos:
- Uma escalada mais fácil agora, por favor!   
O que se seguiu, foi um episódio de pequenas trapalhadas fomentadas pela pressa de sair dali antes que a noite entrasse em pleno:
1 – Uma mesa marcada para o jantar no restaurante Varanda da Estrela, em Penhas da Saúde, colocava-nos fogo no rabo… “Vamos! Vamos!”
2 – Uma “cabeçada” com o capacete desligou o frontal e não o conseguia voltar a ligar com as luvas postas, isto a acontecer logo no passo mais delicado… “Argg! Que raiva!”
3 – O terreno seguia muito exigente e, num passo de oposição encostei a anca à rocha e nesse processo, a corda engatou-se acidentalmente num dos mosquetões porta-material do arnês. Ao tentar escalar, sentia o corpo a ser puxado para trás. Sem a luz do frontal, não conseguia compreender o que acontecia… “Merda! Arrgg! Que porcaria se passa agora?! Arrg!”
Inexoravelmente, a noite já se tinha imposto e, nada a iria abrandar, daí que, mais valia acalmar os ânimos e proceder calmamente. Uma queda mal dada desencadeada por uma parvoíce por causa da falta de concentração seria, no mínimo, ridícula.
Com o espírito mais tranquilo, terminámos o ultimo lance. Debaixo de um magnífico céu estrelado, celebrámos a conclusão de uma não menos magnífica aventura. Celebrámos também a inauguração da “Divina”, a via de escalada mista tecnicamente mais difícil que abrimos até àquele dia na Serra da Estrela. Uma via a repetir, sem qualquer dúvida, com o intuito de tentar realizar o respectivo encadeamento.


 A Daniela no dia seguinte, a ultrapassar um dos lances chaves da segunda via aberta no fim de semana. Os tufos de erva congelados, constituíam verdadeiros pontos de tracção, como se de uma cascata se tratassem.


Não satisfeitos, no dia seguinte, lançámo-nos a uma esquina atraente, mesmo à direita da parte superior da “Divina”. Apesar de a maior parte do gelo ter-se precipitado e as paredes mais expostas ao Sol apresentarem agora a rocha nua, a secção que escolhemos possuía ainda um aspecto invernal e, alguma “colagem” de neve gelada, o que prometia uma escalada mista mais “adequada”.
Com os músculos ainda doridos dos esforços do dia anterior, preparei-me para enfrentar a primeira passagem mais dura da via, constituída por um diedro extra-prumado. Uma breve vista de olhos revelou uns passos de aspecto impossível e aparentemente “improtegíveis”, pois a fissura que dividia o diedro era demasiado larga, inútil até para o maior friend pendurado no meu arnês. Contudo, surpreendentemente, uma fina fissura surgiu na parede contígua ao diedro, exactamente no local oportuno para permitir a protecção conveniente. Dois pequenos entaladores bem colocados protegeram a passagem e, uns gancheios “à bomba”, permitiram escalar todo o lance “em livre”. Seguiu-se a escalada da Daniela que, em boa performance, ultrapassou aquele obstáculo.


A caminho do crux do lance numero três da nova via.

O primeiro objectivo do lance seguinte foi alcançar uma chaminé, cuja entrada hiper incómoda estava constituída por uma passagem de “reptanço” que incluiu uma tracção delicada num bloco instável.


A tentar entrar na chaminé do terceiro lance. Passos duros e incómodos.



A última parte do lance, escalou uma estreita goullote, com uma bela e atlética saída para a plataforma da reunião constituída por uma passagem vertical em dry-tooling.
Após um último lance de ressaltos e passagens difíceis ganhámos o cimo do Cântaro Magro, terminando assim mais uma bonita via invernal.


 



Três momentos da Daniela a terminar o espectacular terceiro lance da nova via. Belos movimentos em gancheios perfeitos.


Com o vento a aumentar exponencialmente, abandonámos o “cume” da serra e fizemo-nos à estrada, com um sorriso de orelha a orelha.
Uma vez mais, a Serra da Estrela, não defraudou.


Paulo Roxo



A ultrapassar um dos vários ressaltos dificeis do ultimo lance da nova via.


Os ultimos movimentos de escalada mista do magnifico fim de semana.


Os topos:
(As fotos utilizadas para os croquis correspondem a outras temporadas)







quinta-feira, janeiro 09, 2014

A abertura da época Balnear

A ABERTURA DA ÉPOCA BALNEAR!
  E as sete inesperadas escaladas em gelo


 No final de um inesperado dia fantástico de escalada em gelo. "Vamos à janta!"
 


A escalada invernal na Serra da Estrela corresponde a jornadas húmidas, frias e incómodas. Depois de um dia de acção em vertentes de neve profunda, gelo precário ou misto molhado, sob um nevoeiro denso e vento intenso, o corpo sente-se encarquilhado, arrepiado, em suma: cansado. Quando acontece desta forma, os espíritos mais incautos ou alguns principiantes nestas lides, são convidados a debandar para paragens mais quentes, em busca de actividades mais confortáveis, menos adversas. Os teimosos, esses, retornam. Enchem as mochilas de equipamento afiado, de índole medieval, vestem as armaduras “Hi-tech”, maleáveis e impermeáveis e voltam a enfrentar os elementos, abraçando o frio e a dor. Mais que uma vez, foi assim que aconteceu e, decerto acontecerá de novo.
No entanto, por vezes… não é assim. Por vezes…


 O Covão Cimeiro, desde o topo do "Corredor Largo".


Como noutras ocasiões, viajamos para a Serra da Estrela sem grandes esperanças de concluir grandes actividades. A temperatura não conseguiu afundar muito na semana anterior e choveu torrencialmente no dia da nossa chegada, inclusivamente no cucuruto da montanha, ou seja, nos telhados dos “monstrengos” de betão que enxovalham o cume da serra.
Como costume, estacionamos em Penhas da Saúde, num local já adoptado para passar as noites. 


 Pequeno almoço de luxo no interior da nossa "micro-caravana", carinhosamente apelidada de: "Berlingota".


Pela manhã, a paisagem pinta-se de branco imaculado e a esperança de escalar qualquer coisa, nas condições invernais adequadas, retorna. Não alimentámos muitas expectativas de estrear os novos piolets em gelo puro mas, umas “cokinadas” valentes em rocha, coberta pela “colagem” de neve fresca, também iria servir para acalmar os nossos espíritos inquietos. No que toca às condições ideais, a Daniela e eu não somos muito picuinhas nem demasiado criteriosos. A ideia base é aproveitar aquilo que existe e adaptar-nos ao momento: neve, rocha, gelo… Gelo Verde! No Rules!
Tomamos café na “Varanda da Estrela”. É um café prolongado pois esperamos que abram a estrada que acede ao cimo, todo um clássico na nossa Serra da Estrela, cada vez que caem três ou quatro flocos de neve puxados a vento.

- Espreitamos as “Couves”? – sugiro, sem estar convencido e, na verdade, sem grande vontade de sair lá para fora.
À distância de um palmo, o vento violento dispara rajadas de neve dispersa, como que a tentar atravessar os vidros da carrinha.
- Ok. Vamos lá! – responde a Daniela, sem grande convicção.


 Um dia tipico na Serra da Estrela. "Escalamos?", "Mmmm... náá! Voltamos amanhã!"


O “Sector das Couves” é um dos mais acessíveis da Estrela. Encontra-se a uns meros cinco ou dez minutos da estrada e possui uma característica particular que o torna ainda mais interessante. Normalmente, este sector serve como bitola para aferir as condições para a maioria dos outros sectores. Muito embora a Serra da Estrela já nos tenha ensinado que a formação de gelo rege-se por ordens misteriosas e aparentes forças caóticas de previsões impossíveis, a existência do elemento água, sob forma sólida, no Sector das Couves, determina a existência do gelo noutros sectores. Abreviando, se ali não existisse gelo, não o iríamos encontrar em mais nenhum sítio.
Empurrados pelo vento forte, enxotados pelo granizo, analisámos a situação. As condições prometiam uma que outra aventura ao bom estilo “Scottish”. As “Couves” encontravam-se congeladas mas, sob uma camada fina e pouco prometedora. Nada que não estivesse já previsto, dadas as terríveis condições de humidade e calor dos dias anteriores. Não nos apeteceu viver um dia épico e húmido e decidimos pela debandada e pelo retorno no dia seguinte. E o dia seguinte amanheceu sem nuvens e mais tranquilo.


 Chão congelado a caminho de um belo dia.


 Da noite para o dia, com o cair brusco das temperaturas, o mundo transformou-se. A maravilhosa metamorfose da Natureza.


Metemo-nos de novo no “Corredor Largo”, convencidos que iríamos escalar uma via mista, sem depositar muitas esperanças no gelo puro.
Surprise, surprise! A Cascata das “Couves” encontrava-se em muito melhor estado que no dia anterior (de facto, até se tinha dividido em duas linhas distintas) e, mesmo à esquerda, no lugar onde no dia anterior escorria água, formou-se a clássica “Diedro de cristal”. Uma cascata formada assim de repente, literalmente, da noite para o dia!
- Boa! Vamos afinal estrear os piolets no gelo, yupii! – exclamou a Daniela, com os olhinhos a brilhar.


 "Não acredito, estamos a escalar gelo!" Via nº 1.


 Na "mais que clássica Cascata das Couves", desta vez, transformada em duas! Escalámos a versão da esquerda (na foto) e, pouco depois, escalámos a versão da direita (Via nº 2).


Algumas horas depois, tínhamos escalado três cascatas distintas, que aceitaram parafusos (curtos) como forma de protecção razoável.
Entretanto, os novos piolets passaram o teste, no seu terreno próprio! 


 O "Diedro de cristal" deu o ar de sua graça e recebeu as primeiras pioladas do ano. Via nº 3.


 A Daniela a escalar o "Diedro de cristal".


 Na saída do "Diedro de cristal".


Descemos um pouco mais na vertente de neve transformada. A chuva dos dias anteriores dera cabo de grande parte da neve que caíra até então mas, a que sobrou, transformou completamente, obrigando a um cuidado redobrado. Um escorregão inadvertido teria consequências pouco agradáveis.


 Pendentes do "Corredor Largo", bem transformadas.


Colocamo-nos por baixo da bela clássica “Dama oculta”. – Uau! – exclamámos entusiasmados. A parede encontrava-se totalmente coberta por neve congelada e gelo, entrecortada aqui e ali, por proeminências rochosas. A “Dama” estava transformada numa linha de aspecto técnico e que prometia experiências variadas, exactamente aquilo que buscamos numa escalada mista. O que se seguiu foi uma pequena aventura, onde não faltaram o gelo precário impossível de proteger, alguns passos mais técnicos e, bons gancheios em rocha, para os piolets. 


 A belíssima "Dama oculta", bem técnica e interessante. Via nº 4.


 A meio da "Dama oculta".


Depois das últimas dificuldades da via, em vez de retirar pela direita e destrepar, realizando a saída mais comum, continuámos para cima, encontrando uma reunião equipada e preparada para rapel, semi-escondida debaixo da capa de gelo. Eu equipei esta instalação, já lá vão uns bons anos e agora a sua existência tinha-se-me varrido da memória. Foi um bom reencontro. 


 A Daniela a iniciar a "Dama oculta"...


 ... e já no final a chegar à reunião.


Olhando para cima, descobrimos os últimos muros congelados. Um excelente convite para realizar um segundo lance lógico para a “Dama oculta”. Após uns 25 metros de escalada, com passos de cascata algo delicada mas, de desfrute, baptizámos o novo prolongamento como: “Dama longa”. Trata-se de uma bonita proposta, sobretudo quando a serra resolve reunir as condições ideais.


 "Ok, temos gelo, continuamos por aqui acima!"


 A negociar a bela variante de saída que prolonga a "Dama oculta".


 A daniela a sair da "Dama longa".


 Ainda na saída da "Dama longa".


 A chegar à reunião com um daqueles sorrisos de: "Espectáculo!"


No ano passado, quando a Daniela e eu escalámos a “Pepi te quiero”, uma misteriosa linha deu o ar de sua graça. Desde a “Pepi”, avista-se perfeitamente todo o sector que alberga, entre outras vias, a “Estrela nocturna”. Mesmo à direita desta clássica, formou-se uma via contínua de gelo, fina e estética, daquelas que sempre prometem um bom desafio psicológico. Naquela altura, já no final do Inverno, não nos foi possível realizar uma tentativa. No Inverno que agora nasce, um dia depois da escalada no sector das “Couves”, a memória da tal linha voltava a fazer um “clic” no cérebro. 


 As novas máquinas da DMM. Passaram a prova com distinção!


Estacionamos o carro na famosa “Curva do Cântaro” e, rapidamente descemos a rampa que acede ao sector da “Estrela nocturna”. E, quando dobramos a esquina… bingo! Ali estava um belo fio de gelo totalmente desenhado na parede de granito.


 Equipamo-nos na base da "Estrela nocturna", antes de iniciar a escalada da melhor via do fim de semana.


O primeiro lance percorreu uma fina canaleta de gelo, tipicamente difícil de proteger, terminando na plataforma da “Estrela…”. Mas, as maiores dificuldades encontravam-se no segundo lance. Um primeiro muro bastante atractivo, portador de algumas formações em couve-flor, tão características das cascatas na Serra da Estrela, conduziu ao muro superior, onde, aí sim, encontrámos o “sumo” do assunto. 


 O primeiro lance da nova "DMM - Delightful Mountain Madness". Via nº 5.


 Ainda no primeiro lance da nova via.


 A Daniela nas delicadas passagens do primeiro lance.


 A terminar o primeiro lance da nova via.


A parede de gelo perfeitamente vertical parecia demasiado frágil e, sobretudo, era muito fina para aceitar algum parafuso que pudesse oferecer a tranquilidade mental suficiente de forma a não tornar a empresa numa missão suicida. Em caso de falhanço, a queda numa plataforma estava garantida. Tento um pouco pela direita. Cravo o piolet num tufo de erva congelada… parecia sólido. “Mmmm…” Desconfiei. Dirijo-me para a esquerda, subo um ressalto de rocha e tento uma travessia horizontal de forma a apanhar a “chapa” de gelo. O piolet estava bem cravado mas, para os pés, não existia nada razoável. Os crampons raspavam o gelo precariamente. A exposição era demasiado grande, não aceitável. Finalmente, preparei-me para desistir. Um escape pela esquerda por terreno fácil levava-me directamente para a saída da “Estrela nocturna”. No entanto, uma ultima observação fugaz da parede de granito liso, marginal à cascata de gelo, revelou um pequeno detalhe. Ali estava, uma pequena fissura isolada, quiçá suficientemente profunda para albergar um friend razoável.
- Daniela, atenção! Vou fazer uma última tentativa!


 Nos primeiros passos do muro de gelo inicial, antes do crux.


 A Daniela observa atenta desde a primeira reunião, comum com a "Estrela nocturna".


 
 Quase a terminar o primeiro muro do segundo lance. O muro de gelo vertical e exposto que constituiu o crux da via está fora de vista e viria a seguir, provocando alguns suores frios e um desfrute proporcional.


A Daniela encontrava-se fora de visão. Não nos víamos mutuamente mas, a julgar pelo que eu tardava nesta secção da escalada, decerto já tinha adivinhado que a coisa não estaria fácil.
Um pequeno gancheio precário permitiu-me abrir as pernas e colocar-me numa posição equilibrada. Um pé num bloco, o outro crampon espetado num tufo congelado. Alcancei a pequena fissura e, imediatamente, um friend foi atirado lá para dentro. Uma rápida inspecção e um puxão decidido permitiram aprovar a peça. Boa! Estava aberto o caminho para resolver aquela secção delicada. Uma passagem lateral desequilibrante em “dry-tooling” permitiu esticar-me para cravar bem o piolet direito. Mas, faltava incorporar-me definitivamente na linha vertical da cascata. Meio corpo no gelo, meio corpo ainda em rocha. Troco as mãos no mesmo piolet e cravo o segundo piolet um pouco mais afastado. Respiro profundamente, uma, duas vezes, antes de me decidir a suspender nos braços e enfrentar os passos seguintes na cascata. Alguns metros depois, os meus olhos ainda passaram de relance pelo friend já lá em baixo. Em caso de queda, esta teria um efeito pendular pouco agradável e corria um certo risco de impacto. De todos modos eram considerações que já não importavam. Agora encontrava-me totalmente concentrado e as ferramentas bem colocadas, tudo iria correr como a água. Uns bonitos passos de misto, com bons gancheios (e boas protecções) ilustraram o final perfeito para a nova linha. A Daniela escalou tudo e, quando nos encontrámos na reunião exclamámos quase em uníssono: - Bela via!


 A Daniela nos ultimos passos de escalada mista da nova "DMM - Delightful Mountain Madness".


As escaladas anteriores chegavam para considerarmos estes dias como “ganhos”, no entanto, uma pequena cascata que nunca tínhamos visto formada, piscou-nos o olho e… não resistimos. Esta situava-se no sector da “Curva do Cântaro” e constituiu uma delicada linha de gelo que apresentou ainda um ou dois passos mais picantes, pois a única protecção decente estava constituída por um entalador excêntrico martelado numa fenda congelada… os pequenos prazeres da escalada invernal!



Dois momentos durante a abertura da "PI (Pequena Intensa)". Via nº 6.


Para terminar o dia, ainda escalámos a arqui-clássica cascata da “Curva do Cântaro”, imediatamente antes do novo período de chuva que viria a destruir mais uma vez as cristalinas obras de arquitectura invernal da Natureza, fenómeno que apenas confirma a particularidade extremamente efémera da escalada em gelo na nossa Serra da Estrela.


 Na hiper-clássica "Cascata da Curva do Cântaro", para terminar dois dias fabulosos de escalada em gelo. Via nº 7.


A escalada invernal na Serra da Estrela corresponde a jornadas húmidas, frias e incómodas.
No entanto, por vezes… não é assim. Por vezes, com alguma persistência e recorrendo um pouco à imaginação, é possível reunir os dias bons às condições excelentes e, esses momentos são os que inundam o espírito, deixando-o preenchido durante bastante tempo…
… pelo menos até à próxima oportunidade. 

Paulo Roxo


 "Yuupiii!"



E, claro... os Topos: