quinta-feira, maio 08, 2014

El Chorro e o universo pequenino

EL CHORRO E O UNIVERSO... PEQUENINO!


 Vistas de El Chorro.

Avizinhavam-se 2 fins-de-semana de 3 dias com dois únicos objectivos: abrir uma via e... escalar muito!

Onde?
Algures por Espanha, onde a meteorologia o proporcionasse.
No nosso íntimo, queríamos abrir uma via em El Chorro e tínhamos por lá duas possibilidades.
Uma que queríamos abrir em 2 dias, outra com mais de 300m que talvez desse para abrir num único dia, daqueles longos, até porque há uns anos atrás já tínhamos inaugurado um largo e meio deste alinhamento.
Com perspectiva de 2 dias de bom tempo e um de chuva rumámos ao sul de Espanha, depois de mentalmente optar pela tal via de 2 dias.
Já há 2 anos que não andávamos por ali, mas tudo permanecia igual, agradável, bonito e as pessoas sempre afáveis. No restaurante “El Kiosko” ainda se lembravam de nós, sentimo-nos de imediato em casa, com tratamento VIP!


 Climbing life e o café da manhã obrigatório.


No primeiro dia o ritual foi recuperado: pequeno-almoço campestre seguido de arrumações. O Paulo arruma o material de escalada, eu encarrego-me da comida para o dia. Rumámos depois ao “El Kiosko” para uma “tostada con tomate y café con leche” e depois encaminhámo-nos para a parede.
Já a manhã ia avançada quando pousámos as mochilas na base da futura via.


 O famoso "Caminito del Rey". Entrámos pelo segundo canhão e maravilhamo-nos com a singularidade desta obra de outros tempos.


Estavam uns 30 graus de temperatura e a parede exposta ao Sol não fazia antever propriamente um dia agradável. Era uma bonita muralha para grandes escaladas… Invernais!
- Ui ui, não sei se com este calor vamos aguentar! Vamos fritar na parede! E amanhã o dia todo assim? Achas que dá?
O Paulo ficou com um olhar que já lhe conheço... desapontado. Receei que dissesse: “Vai dar!”


 Uma das passagens do "Caminito del Rey", pouco antes de sair dali para lugares mais frescos!


Já estava a imaginar os pés a assar dentro dos pés-de-gato, a t-shirt encharcada em suor, o sol a torrar-me o pescoço... quando veio a resposta... estávamos desta vez com o pensamento em sintonia. Com tristeza, virámos as costas e decidimo-nos por outra alternativa muito menos desafiante mas, muito mais interessante, dadas as circunstâncias: uma banhoca no “Embalse de Guadallorce”, assim, de cueca e sem vergonha nenhuma! 


 Vista das águas da barragem. Belas banhocas já tomamos por aqui.


No dia seguinte, decidimo-nos por um plano menos ambicioso e mais relaxado. Atirámo-nos a uma “desportex total” chamada “Apocalipsis” com mais de 200 metros. Uma via mais ou menos recente, no sector “Frontales Bajas”, seis lances desde o 6a ao 6c, um verdadeiro desfrute de boa rocha (a via foi limpa - e equipada - desde o cimo, até à exaustão!). E o melhor, para contrariar a norma das desportivas de El Chorro, nem sinal de polimento nem tão pouco marcas de magnésio.
O dia esteve perfeito, sol tapado por nuvens e uma temperatura agradável.


 A entrar na "Apocalipsis". Bela via desportiva com seis lances para desfrutar.


 
 Dois momentos na "Apocalipsis".


Ao terceiro dia, o do regresso, ainda queríamos cansar os bracinhos antes de rumarmos a “Poor”tugal, mas a chuvada que começou a cair quando o Paulo iniciava a primeira via do dia frustrou-nos os planos.
Passámos literalmente de 31 graus no primeiro dia, para 13 graus no último... brrrrr!!!!
Voltámos para casa com a sensação de que faltava algo. Esse “algo” fez-nos regressar no fim-de-semana do 25 de Abril.
No dia 24, “dejavu”. Sair de Portugal por volta das 15:00 rumo ao jantar, no “El Kiosko”.
Desta estávamos determinados a abrir a linha que ficara incompleta em 2009. Assim, levámos o material preparado ao pormenor para uma escalada rápida e ligeira... afinal tínhamos em mente escalar mais de 300 metros num só dia! Isso também implicava despertar com as galinhas. Nada como um acordar alpino e realizar a curta aproximação com o nascer do dia... sem o “café con leche”, ao qual já nos tínhamos acostumado.


 Material ordenado e preparado para o ataque! Vamos lá!


Entre a última tentativa de 2009 e o 25 de Abril do presente ano, 2 escaladores espanhóis tinham já aberto uma via com o alinhamento que havíamos antes imaginado. A primeira reunião era comum com a do nosso primeiro lance.
Tínhamos na lembrança um largo com uma escalada meia estranha, em rocha polida pelas águas do rio e algo delicada, descrevendo de outra forma, uma escalada nervosa!
Como a sentimos desta vez?


 O primeiro lance da nova via, delicado e um pouco exposto.


“Na altura dei IV+ a isto? Devia estar doido! É um bom V+... e exposto!” – concluiu o Paulo, já na segurança da reunião.
“Na altura pareceu-me bem mais difícil e muito mais decomposto! Afinal não é assim tão mau!” – rematei.


A escalar o primeiro lance do dia.


-Vamos lá! Up!
Assim se fez o Paulo à parede. Seguiu-se uma escalada de movimentos atípicos para a zona, entalamentos de mãos e presas laterais que obrigavam a algum repertório de equilibrismo. Acabou por sair um lance bonito totalmente protegido com friends e entaladores. Tínhamos mais dois lances pela frente que, pelo aspecto, não se iam deixar escalar com facilidade. 



 Dois momentos no segundo lance. Um 6b+ intenso. Check!

 
 
 A Daniela a escalar o segundo lance. Check!


Next: lá foi ele, determinado e mais forte do que na nossa primeira tentativa.
- Já se vê os resultados dos treinos! – berrava eu cá de baixo em jeito de incentivo.
Entretanto, o meu estômago avisou-me das horas. O sinal de fome não era bom presságio pois queria dizer que estávamos a demorar mais que o previsto. Talvez o perne colocado à mão na reunião, tivesse tardado mais tempo do que eu tinha imaginado.


A bela fissura do terceiro lance. Entalamentos "a canhão"!


Chegada a minha vez, tentei progredir o mais depressa que pude, usufruindo de algumas protecções para ganhar metros “speedados” à via. Nesta fase, o “livre” queria dizer pouco, interessava sim manter o espírito do “despacha-te e acelera!”. Em menos de nada estávamos novamente cara a cara numa reunião mais acima.


 A terminar o terceiro lance. A escalada mantêm o seu ambiente aéreo.


Faltava apenas um largo para atingir a plataforma.
Este lance teria um final comum com a “Andrés Ortega” (uma clássica antiga - e esquecida), constituído por uma espectacular fissura de mãos.
Lá foi o Paulo e desta... guinchou, berrou, praguejou... mas não colocou uma tão desejada plaquete antes de entrar na fissura, porque naquele calcário já não era o primeiro a passar! E se outros já tinham passado... respeita-se o equipamento presente... ou a falta dele! E com mais uns berros lá resolveu o passo e enfiou as mãos na fissura salvadora. 


 A iniciar o quarto lance da via, um pouco antes de colocar (à mão) uma plaquete tranquilizadora. Mais acima a via une com outra clássica já estabelecida. A partir daquele momento à que lidar com o equipamento original, não cedendo à tentação de acrescentar alguma coisa permanente. Felizmente o grau mantêm-se estável. Exigentemente estável!

 
 A reunião da antiga e esquecida "Andrés Ortega". Dois spits M8, com duas "caricas" penduradas. Yô!


 A saída da extraordinária fissura da "Andrés Ortega". Uma fissura de antologia e... "arranha mãos"!


- Bem! Grande fissurote! Devíamos ter trazido as luvas! As costas das mãos tem de ficar sempre viradas para a direita!!!!
Pouco depois eu confirmei! Num dos lados da fissura o calcário era amável, no outro... simplesmente cruel!


A Daniela a tentar a todo custo evitar arranhar as mãos. O ambiente é de passarinho!


Restava-nos a trepada final até encontrar a reunião equipada, comum com a via “Cuatro estaciones”.
Eram quase as quatro da tarde e já tinham decorrido sete horas de escalada. O tempo passara mais depressa do que o sentimos. Parecia que o relógio do mundo tinha desatado a correr.
O nosso plano inicial (e bonito) de terminarmos a linha no cimo de toda a formação rochosa acabava de ir por água abaixo.
Ainda ficámos ali um bocado na dúvida, a olhar para o ar sem saber muito bem o que decidir: “Para cima? Para baixo?”


 Vistas para o interior do canhão e para o "Caminito del Rey", neste momento em fase de reconstrução, portanto proibido.


Concluímos que seria impossível sair da secção superior da parede ainda de dia. Não possuíamos cordas (nem vontade) para fixar, descer e voltar no dia seguinte. Desta feita, a aventura terminava ali.
Embora fosse um local lógico para concluir uma via – afinal a clássica da esquerda terminava por ali também – ficou-nos uma espécie de sabor agri-doce.
No entanto, deixámos uma proposta constituída por uma via de fissuras, bastante mantida e lógica, com a possibilidade de ser combinada com a sua vizinha “Cuatro estaciones”.
Três rapeis colocaram-nos no interior do túnel do comboio, o que por si só, não deixava de ser um final com um toque de surrealismo. Assim de repente, ainda agarrados às cordas, saímos do mundo natural e selvagem para o ambiente artificial e, de certa forma… metropolitano. 


Daniela Teixeira


UNIVERSO PEQUENINO - O TOPO:








segunda-feira, março 03, 2014

Escalada mista, a Divina

 ESCALADA MISTA, A DIVINA







 No campo da escalada mista de grande qualidade a Serra da Estrela possui um manancial à espera de pretendentes.
Trata-se de um verdadeiro diamante em bruto, pronto a ser lapidado mas, aparentemente, sem muitos candidatos à vista para o fazer.
Todos os anos o vento, a neve e o gelo conspiram, deixando as paredes de granito, cobertas de branco, com uma “colagem” tal, que por vezes, torna difícil reconhecer a exacta localização dessas paredes. Portugal? Escócia? Cântaro Magro? Ben Nevis?


A Face Oeste do Cântaro Magro, um manancial para a escalada mista.


Como é evidente, por cá, as condições ideais nunca (ou muito raramente) chegam a atingir a longevidade temporal que nas latitudes mais elevadas do continente, contudo, é possível realizar escaladas bastante interessantes e satisfatórias.
As premissas a serem tidas em conta são as seguintes:
1ª Abolir os preconceitos.
2ª Alguma imaginação.
3ª Estar no local certo à hora certa.
A primeira premissa é a mais importante e, na verdade, é a que condiciona todas as actividades invernais na Serra da Estrela. Já perdi a conta às vezes que ouvi a frase: “Na Estrela não temos condições para o gelo!” Esta afirmação não é verdadeira nem tão pouco corresponde às provas surgidas (quase) todos os anos, com a abertura de novos itinerários, mesmo que inseridos em pleno “aquecimento global”.
A segunda premissa bem pode ser anexada à primeira. Uma vez abolidos os preconceitos, parte-se para a escolha do objectivo.
A escalada invernal na Serra da Estrela não se compadece com planos demasiado rígidos nem com ideias pré concebidas. Muitas vezes, quando todas as previsões apontam para a possibilidade de determinada cascata se encontrar nas condições ideais, eis que, “in situ”, apercebemo-nos que afinal essa cascata não se chegou a formar. No entanto, espreitando um pouco mais para o lado, descobrimos, assim de repente, uma outra linha de gelo em condições aceitáveis, contrariando todas as expectativas e previsões.
Na maioria das situações, rebuscando um pouco nos meandros da imaginação é possível encontrar um qualquer objectivo interessante para arranhar os piolets e os crampons.
A terceira premissa contém uma relação directa com o factor sorte, sobretudo para aqueles (a grande maioria) que apenas tenham disponibilidade aos fins-de-semana.
O “estar no local certo à hora certa” é um aspecto fundamental para a realização de algumas escaladas de formação mais rara. Neste aspecto, o advento das previsões meteorológicas “na hora” e localizadas, difundidas na Internet, encurtaram bastante as fronteiras entre a simples sorte e o bom planeamento.
Na Serra da Estrela, um dos melhores exemplos que corroboram este raciocínio foi a devida formação da famosa e rara “Cascata do Inferno” no Inverno 2012/2013, cuja rápida troca de informações baseadas nas previsões meteorológicas, possibilitaram estabelecer um verdadeiro recorde de ascensões no mesmo dia.
Seguidores assíduos das premissas descritas anteriormente, a Daniela e eu, já nos acostumámos a tentar adaptar-nos às condições existentes a cada momento na serra, ao invés de estarmos à espera do surgimento das condições ideais.


 A Daniela, num dos passos mais bonitos da nova via aberta no dia 23 de Fevereiro, a "Sofrer até doer!"



Desta vez viajámos com a esperança de realizar alguma coisa interessante no campo da escalada mista.
Ao longo dos anos acostumámo-nos a elevar o periscópio e a perscrutar as paredes da Serra da Estrela, cada vez que a neve e o gelo dão o ar de sua graça.
Existem certas linhas bem definidas que sempre vaguearam pela minha memória. Projectos adiados à espera das melhores condições físicas e psicologias para serem escalados. Geralmente, são vias que se adivinham mais duras, aquelas que julgamos constituírem o “passo seguinte”. Sectores como o “Powermix”, Face Oeste do Cântaro e certas paredes interiores com orientação norte, no Covão do Ferro, entre algumas outras, albergam ainda grandes quantidades de desafios apenas dependentes da decisão do escalador certo, no momento adequado.
Um desses “momentos adequados” surgiu no último dia 22 de Fevereiro.
Nos últimos tempos, temos adoptado um esquema de treinos mais virado para a escalada, focando-nos não apenas no sistema cardiovascular (a pensar na alta montanha) mas também na força e resistência. O pequeno muro montado num dos quartos da casa, até bem pouco tempo vocacionado apenas para pendurar roupa a arejar em cabides, começou finalmente a ter um uso mais honrado. Motivados pelos últimos progressos, decidimos tentar algo mais ambicioso ao nível da dificuldade técnica.
Por volta das onze da manhã, uma calmaria nas condições climatéricas permitiu abrir de novo a estrada da Torre e, minutos depois, estacionámos na famosa “Curva do Cântaro”. Descemos o habitual canal de acesso à Face Oeste do Cântaro encontrando uma neve espectacularmente transformada. As boas condições faziam antever um bom dia de aventura vertical.


 A descer o canal, em busca da "Big one".


Um rápido reconhecimento geral em busca da via que nos suscitasse a maior inspiração, colocou-nos na base de uma estreita goullote que dividia uma laje enorme da parede principal. Acabámos por encontrar a entrada mais lógica para a nova via de escalada mista. Uma espécie de “seat start” de aquecimento, para as dificuldades que se adivinhavam a seguir.


A Daniela no pequeno corredor "seat start", da nova via.



O segundo lance transformou-se num exercício duro de gerir, para mim impossível de encadear “à vista”, não tanto pela intensidade dos movimentos mas, mais pela dificuldade em colocar boas protecções ao mesmo tempo que tentava bloquear em gancheios bastante físicos e precários. Eventualmente, lá fui conseguindo colocar alguns friends e entaladores excêntricos (verdadeiras protecções “Yuupii!” quando as fissuras se encontram congeladas) mais ou menos decentes, numa fissura aberta e enganadora, algo atípico no granito perfeito da Serra da Estrela.




 Dois momentos no segundo lance, um dos mais duros da via, um potencial M7, à espera do respectivo encadeamento... quiçá no próximo ano...


Entre alguns descansos, os movimentos foram dissecados e o lance finalmente resolvido.
Uma Daniela bastante sorridente emergiu na reunião, após ter escalado todo o lance e descobrir, com satisfação, que os treinos adaptados à escalada estavam a dar os seus resultados e que estes eram muito positivos.


A Daniela a emergir do aéreo segundo lance, após confirmar os bons resultados dos ultimos treinos.


A Daniela a chegar à cómoda reunião do segundo lance da via, um dos mais duros do dia.


Uns lances sem muita história fizeram-nos ganhar terreno e altura na Face Oeste até darmos de cara com o muro superior intimidativo e vertical. Umas fissuras promissoras cortavam a parede de alto a baixo por isso, esperávamos encontrar boas possibilidades para gancheios potentes e – mais importante – boas possibilidades para proteger o lance convenientemente.


 A iniciar o terceiro lance, "sem história".



Seguiu-se uma escalada atlética de antologia, mais uma vez entrecortada por um ou dois pontos de descanso para análise do terreno superior. Passado algum tempo, dois braços cansados cravavam os piolets nos últimos tufos de erva e neve congelados, para erguerem um corpo arfante e o atirarem para dentro de um nicho confortável e perfeito para montar a reunião. Poucos minutos depois, respirava de alívio enquanto admirava o culminar de um lance magnífico ao mesmo tempo que assegurava a minha companheira.


 
 Dois momentos no penultimo lance da via, um dos mais duros. Aéreo e espectacular.


 Após ultrapassar o crux do penultimo lance, uma proposta de M7, com bons gancheios e a promessa de ante-braços inchados!


A Daniela dava o tudo por tudo para escalar o largo em livre e, no processo, evoluía o mais rápido que as suas forças o permitiam, tentando ultrapassar a sombra projectada pela vertente oposta, que escalava também, à medida que o Sol se punha no horizonte.
- Uau, que lance espectacular! – exclamou a Daniela imediatamente após os últimos passos difíceis.
A noite caía agora a trote acelerado.


A Daniela a ultrapassar os ultimos movimentos do penultimo lance da espectacular "Divina", com a noite a avançar em passos largos.

As lanternas frontais saltaram das mochilas para serem colocadas nos capacetes.
Faltava apenas um lance para o topo do Cântaro mas, a via teimava em não ceder aos nossos desejos:
- Uma escalada mais fácil agora, por favor!   
O que se seguiu, foi um episódio de pequenas trapalhadas fomentadas pela pressa de sair dali antes que a noite entrasse em pleno:
1 – Uma mesa marcada para o jantar no restaurante Varanda da Estrela, em Penhas da Saúde, colocava-nos fogo no rabo… “Vamos! Vamos!”
2 – Uma “cabeçada” com o capacete desligou o frontal e não o conseguia voltar a ligar com as luvas postas, isto a acontecer logo no passo mais delicado… “Argg! Que raiva!”
3 – O terreno seguia muito exigente e, num passo de oposição encostei a anca à rocha e nesse processo, a corda engatou-se acidentalmente num dos mosquetões porta-material do arnês. Ao tentar escalar, sentia o corpo a ser puxado para trás. Sem a luz do frontal, não conseguia compreender o que acontecia… “Merda! Arrgg! Que porcaria se passa agora?! Arrg!”
Inexoravelmente, a noite já se tinha imposto e, nada a iria abrandar, daí que, mais valia acalmar os ânimos e proceder calmamente. Uma queda mal dada desencadeada por uma parvoíce por causa da falta de concentração seria, no mínimo, ridícula.
Com o espírito mais tranquilo, terminámos o ultimo lance. Debaixo de um magnífico céu estrelado, celebrámos a conclusão de uma não menos magnífica aventura. Celebrámos também a inauguração da “Divina”, a via de escalada mista tecnicamente mais difícil que abrimos até àquele dia na Serra da Estrela. Uma via a repetir, sem qualquer dúvida, com o intuito de tentar realizar o respectivo encadeamento.


 A Daniela no dia seguinte, a ultrapassar um dos lances chaves da segunda via aberta no fim de semana. Os tufos de erva congelados, constituíam verdadeiros pontos de tracção, como se de uma cascata se tratassem.


Não satisfeitos, no dia seguinte, lançámo-nos a uma esquina atraente, mesmo à direita da parte superior da “Divina”. Apesar de a maior parte do gelo ter-se precipitado e as paredes mais expostas ao Sol apresentarem agora a rocha nua, a secção que escolhemos possuía ainda um aspecto invernal e, alguma “colagem” de neve gelada, o que prometia uma escalada mista mais “adequada”.
Com os músculos ainda doridos dos esforços do dia anterior, preparei-me para enfrentar a primeira passagem mais dura da via, constituída por um diedro extra-prumado. Uma breve vista de olhos revelou uns passos de aspecto impossível e aparentemente “improtegíveis”, pois a fissura que dividia o diedro era demasiado larga, inútil até para o maior friend pendurado no meu arnês. Contudo, surpreendentemente, uma fina fissura surgiu na parede contígua ao diedro, exactamente no local oportuno para permitir a protecção conveniente. Dois pequenos entaladores bem colocados protegeram a passagem e, uns gancheios “à bomba”, permitiram escalar todo o lance “em livre”. Seguiu-se a escalada da Daniela que, em boa performance, ultrapassou aquele obstáculo.


A caminho do crux do lance numero três da nova via.

O primeiro objectivo do lance seguinte foi alcançar uma chaminé, cuja entrada hiper incómoda estava constituída por uma passagem de “reptanço” que incluiu uma tracção delicada num bloco instável.


A tentar entrar na chaminé do terceiro lance. Passos duros e incómodos.



A última parte do lance, escalou uma estreita goullote, com uma bela e atlética saída para a plataforma da reunião constituída por uma passagem vertical em dry-tooling.
Após um último lance de ressaltos e passagens difíceis ganhámos o cimo do Cântaro Magro, terminando assim mais uma bonita via invernal.


 



Três momentos da Daniela a terminar o espectacular terceiro lance da nova via. Belos movimentos em gancheios perfeitos.


Com o vento a aumentar exponencialmente, abandonámos o “cume” da serra e fizemo-nos à estrada, com um sorriso de orelha a orelha.
Uma vez mais, a Serra da Estrela, não defraudou.


Paulo Roxo



A ultrapassar um dos vários ressaltos dificeis do ultimo lance da nova via.


Os ultimos movimentos de escalada mista do magnifico fim de semana.


Os topos:
(As fotos utilizadas para os croquis correspondem a outras temporadas)