quarta-feira, janeiro 28, 2015

Um dia que não vou esquecer

UM DIA QUE NÃO VOU ESQUECER


"Teresa, como é? Vamos a Sesimbra beber uma caipirinha e trincar uma tosta mista? Epá está um sol que não podemos desaproveitar! E esperamos lá por eles (os nossos maridos, Paulo Roxo e João Gaspar), se calhar até de despacham cedo!”
Era o último Domingo antes do Natal, um dia pleno de Inverno com um céu azul de meter inveja a qualquer dia de verão. Nessa manhã, o sol aqueceu-me durante duas prazenteiras horas de corrida bem acompanhada por uma amiga do coração. O treino dessa manhã tinha-me saído melhor do que o imaginado, sentia-me feliz e cheia de energia, mesmo depois de mais de 20km percorridos.
Com o meu polegar esquerdo ainda a recuperar de uma cirurgia, as escaladas estavam adiadas ainda por muitos dias. O Paulo decidiu aproveitar a companhia do João Gaspar e do Fernando Pereira e juntos lançaram-se à abertura de novas vias numa pequena falésia nas proximidades de Sesimbra.


João Gaspar a realizar a primeira ascensão da "Torre do sino", alguns momentos antes do acidente (21/12/2014).


Com o “sim” da Teresa, quase voei até sua casa para juntas irmos desfrutar de uma bela tarde de sol.
O meu telemóvel toca mal estaciono o carro e no visor surge o nome do João Gaspar. Imediatamente pensei que os rapazes já poderiam estar despachados e veio-me à ideia uma caipirinha a 4.
À primeira palavra que proferiu, logo percebi pelo tom de voz que algo de muito mau tinha acontecido. “ Daniela, vais ter de ter muita calma”, “Estás sentada?” Não me recordo das palavras exactas com que começou a conversa, mas algumas fixaram-se no meu cérebro: “O Paulo caiu ao chão!” Recordo-me do medo que aquele tom de voz me incutiu. “O Paulo vai falar contigo.” Imediatamente, percebi-lhe as dores, o medo, e a vontade de me tranquilizar, algo que inevitavelmente já não era possível.
A Teresa apareceu logo de seguida, estava ainda a falar para o 112, o alarme estava dado, os bombeiros seguiam para o lugar ao mesmo tempo que nós. As lágrimas molhavam-me já a face. Tinha medo, muito medo do que iria encontrar. Percebi que havia o receio de um dano permanente na coluna, estava assustada, muito assustada. Num segundo, aquele dia de sol, toda aquela felicidade se transformou em algo que ainda hoje não consigo descrever com precisão. A mistura entre o medo do que iria encontrar, o medo do futuro, do futuro do Paulo, do meu futuro, uma profunda tristeza e um amor gigante que nada consegue derrubar e que me fazia conduzir depressa e focada.
Chegadas ao local onde se inicia o carreiro que acede à dita falésia, encontrámos o Fernando, que veio à estrada esperar os bombeiros, e estes, que tinham acabado de chegar.
Segui o mais depressa que pude até ao local onde estava o Paulo e o João, a cerca de 300m do lugar onde estacionei o carro. “Joããããoooo! Grita para eu perceber onde estão!”.
Quando acedi à base da parede e os vi no chão inclinado de pedra irregular, o meu coração tornou-se numa frágil peça de cristal que se partiu... numa infinidade de estilhaços. Mordi os lábios de dor ao aproximar-me, tentando controlar as emoções para não piorar uma situação que de imediato percebi ser muito grave. O Paulo estava ali, deitado de lado, pernas semi-encolhidas a tremer, e a gemer. O João, de tronco nu, abraçava-o com um tremendo carinho, amizade... transpirava emoção. Tinha-lhe colocado em cima toda a roupa disponível, inclusivamente a sua t-shirt. Estava ali em pleno dia de Inverno em tronco nu, dando tudo de si ao Paulo.
Não me recordo das palavras, apenas das emoções. Cheguei perto dos dois, beijei o Paulo com cuidado tentei dar-lhe uma força que não tinha. O João tentou transmitir-me alguma calma... tentaram os dois, mas o visualizar da situação apenas veio avivar os meus medos. Ainda assim, tentei não vacilar, tinha de manter a calma. O Paulo tremia, cada vez com mais frio. Tirei o casaco e a camisola que coloquei por cima das suas pernas e pés. Os bombeiros tardavam em chegar ao local e se pelo meu lado irracional não percebia porque – porque o carreiro era mesmo fácil de percorrer – os seus quilos extra trouxeram-me à realidade.
“Como é que o vamos tirar daqui?” Não me espantou a pergunta, mas frustrou-me e por dentro feriu-me, arranhou-me, cortou-me... dilacerou-me. Ele ali deitado, a escutar cada palavra, “Como é que o vamos tirar daqui?”. Estávamos num local de muito fácil acesso, no que respeita a locais de escalada. Um simples carreiro de 300m levava à estrada.
Pediram reforços a uma equipa de resgate “que tem mais de 30 anos de experiência”. Confesso, o primeiro pensamento que me assaltou foi: “Merda, queres ver que agora vem a brigada de terceira idade? Estamos fodidos!”. O tempo passava como imagino que se passe sempre nestas situações, lento, muito lento, com os minutos a quererem possuir muito mais que 60 segundos.
Chega a brigada de resgate, os quilos a menos que tinham em relação aos primeiros bombeiros estavam transformados em mais anos de vida. Os meus anseios, a minha angústia não diminuiu. Era notório que tudo iria ainda demorar. Liguei para uma médica amiga do Paulo que trabalha no Hospital de Setúbal, imaginando que quando saíssemos dali, seria para esse que o levariam. “Diz-lhes que a máquina de fazer TAC’s aqui está avariada! Que o levem directamente para o Garcia da Horta (Almada)”. Confirmada pelo INEM a avaria, o plano passou de imediato para o transporte até ao Garcia da Horta. Mas primeiro tinham de o tirar dali.
Após as avaliações de rotina nestes casos (“sente formigueiro...”, “dói-lhe onde...”), o Paulo foi transferido para a maca rígida e imobilizado. Cada gemido, cada grito de dor gelava-me por dentro e transferia todo o meu pensar para um futuro negro. Tinha deixado algures no tempo toda a minha capacidade de ser positiva. Por dentro o negativismo era total, por fora, não o transmitia em frente ao Paulo. Toda eu era naquele momento uma edificação do sentimento medo. Era tudo realidade e se nos filmes o terror vem acompanhado da noite e mau tempo, na vida real pode acompanhar um dia de sol e de perfeito céu azul.
Duas horas depois conduzia de Sesimbra para o Hospital de Almada. A Teresa ao meu lado a dar-me força, conforto, carinho. A escutar-me dizer vezes sem conta “...tenho tanto medo...”. Não imagino todo este pesadelo sem o apoio dela e do João Gaspar, chamar-lhes amigos soa-me agora a muito pouco.




Os amigos João Gaspar e Teresa Leal sempre presentes. Assim foi a passagem de ano (31/12/2014 – 01/01/2015)


Do hospital lembro-o ali, deitado numa maca num corredor cheio de gente, alheia ao sofrimento de outros, de todos. O Paulo era o centro do meu universo. Sabia que não lhe conseguia evitar toda aquela dor que lhe saía do corpo, do olhar. Por breves instantes, quase desfaleci. Senti o meu corpo a abandonar-me, fui forçada a afastar-me para não cair no chão frio das urgências. Busquei algo com açúcar para me recuperar, enfiei umas moedas numa máquina e engoli um sumo. Para que o Paulo não se apercebesse, levei uma água para ele. Apesar de não lhe poder dar de beber, podia molhar-lhe os lábios que estavam secos e dar-lhe a chupar uma compressa embebida em água.
A ansiedade consumia-me, quebrava-me. Aquela espera pelos resultados do TAC, dos raios X era infindável. As primeiras notícias fizeram-me chorar por dentro, dilaceraram-me. Ao Paulo, não queria mostrar uma lágrima “...duas vértebras lombares fracturadas, uma fissura na anca, metatarso do dedo mindinho do pé esquerdo...”, e a única coisa que se fixou no meu cérebro foi: “duas vértebras lombares fracturadas”. Todo o meu mundo desabou. A ansiedade que pensei estar no auge aumentou ainda mais. Saía e entrava nas Urgências para dar as notícias à Teresa, ao João e aos meus pais que entretanto tinham chegado. Aproveitava as saídas para deixar escorregar as lágrimas antes de voltar para perto do meu amor, do meu cordada que agora estava ali, longe, muito longe dos nossos sonhos.
Só horas mais tarde chegaram as palavras que todos queríamos ouvir “não há danos ao nível da medula, são fracturas simples”. Respirei de alívio, sabia que a partir daqui a nossa jornada iria ser longa, dura, mas com o tempo, muito tempo, tudo regressaria à tão desejada rotina, tudo voltaria ao normal. Tínhamos agora pela frente a maior montanha de todas. Teríamos que a escalar juntos. Esta era uma montanha que iria necessitar acima de tudo muita paciência, muita união, muito amor.
O dia, nesta altura já de noite, ainda não tinha terminado. Entre confusões havia nesta altura duas perspectivas, ou o acompanhamento no Hospital Garcia da Horta (que não me agradava por completo porque os médicos que o atenderam me pareciam inexperientes), ou a transferência para o Hospital do Barreiro. A conselho de uma médica amiga, que garantiu que o serviço de ortopedia era melhor no Hospital do Barreiro, esperámos até às 23:00 para a transferência para este hospital.
No Hospital do Barreiro tudo correu bem, o atendimento foi rápido e os 2 ortopedistas que estavam nessa noite nas urgências deixaram-me uma excelente impressão.


À espera para uma consulta de neurocirurgia no Hospital Garcia da Horta...ainda na primeira fase da recuperação (29/12/2014).


O veredicto do Paulo no final da noite foi o seguinte, 3 semanas de cama (sem se levantar para nada!) seguidas de 3 meses com colete de reforço para as costas, com passagem pela cadeira de rodas e por um par de canadianas (à conta das fracturas no metatarso do dedo mindinho do pé esquerdo!). O veredicto para mim foi de pelo menos 3 semanas de enfermeira a acompanhá-lo!
“E vai hoje para casa, como lhe disseram no Hospital de Almada?”, indaguei. “Nem pensar! Com sorte sai daqui a 2 dias e ainda vai a casa comer uma rabanada pelo Natal.”... tendo em conta o estado em que ficou, pareceu-me uma resposta coerente.
Cerca das duas da manhã dirigi-me para casa. A cama pareceu-me grande demais, vazia demais. Podia ter ido sozinha, mas a Teresa acompanhou-me, quis estar, quis acarinhar-me, fazer-me sentir o conforto, o aconchego da verdadeira amizade... amizade soa-me agora a coisa pouca, comparado com esse enorme sentimento que por dentro tenho pela Teresa Leal e João Gaspar.
Destes dias tão acres, retenho também boas memórias, são as que estão com estes dois amigos de coração grande, e as que estão com os meus queridos pais, que tanto e tanto nos apoiaram e apoiam. Se calhar há situações que nos surgem na vida, para fortalecer uniões.
De algo triste, retenho o que de mais belo existe na vida, o amor e a amizade.



O meu cordada na segunda fase de recuperação – cadeira de rodas. E viva os amigos, sempre disponíveis para dar uma ajuda :). Aqui a Joana a fazer um servicinho ao domicílio.


A nossa primeira grande aventura pós-acidente – a primeira saída à rua num belíssimo dia de sol!!!! Cadeira de rodas nas ruas do nosso país é uma verdadeira aventura...e bem à nossa maneira...sempre à descoberta :) (24/01/2015).


 Início da terceira fase de recuperação – a passagem da cadeira de rodas para as canadianas. Os primeiros passos (24/01/2015).


 E daqui para a frente...É SEMPRE A MELHORAR!!!...YEAHHHH!!!!


Daniela Teixeira

quarta-feira, dezembro 10, 2014

Indian Crack

INDIAN CRACK


Natureza em estado puro.


Mmm, vamos lá a ver. Por aqui, ou por ali?”
Por cima das nossas cabeças, erguia-se uma abóboda de calcário, caoticamente desenhada por um rebuliço de formas geológicas inquietantes.
A corda estática pendia à nossa esquerda mas, não necessitávamos de estar “atados” a nada. A plataforma era bastante horizontal e suficientemente larga para possibilitar movimentar-nos livremente. Apenas teríamos que ter o cuidado de evitar debruçarmo-nos demasiado para o abismo de uns 80 metros que terminava nos rochedos batidos pelas ondas do Atlântico.
Sem ser extremo, o local era intimidante.


"Gear for fear!"


“Paulo, vamos a isso! Estou nessa!” Respondeu-me o Tony Chee, no dia anterior, entusiasmado com o convite para ir escalar num sector onde ainda não existiam quaisquer vias de escalada.
Apesar de se tratar de um sector relativamente pequeno, com uns 60 metros de altura e outros tantos de largura, a logística de “ataque” não é das mais simples. É necessário ir prevenido com algo mais que uma simples corda e um rack de friends e entaladores. Diria mesmo que a peça mais importante a levar é a “mentalização”.
O trilho de acesso ao topo do novo sector é bastante cómodo e intuitivo mas, aceder à base da parede em questão requer algum trabalho e preparação, uma vez que não é possível andar simplesmente até lá.
Na primeira incursão levámos uma corda estática e algum material para fixar uma linha de rapel ou escape (jumareando), caso a coisa se torna-se mais complicada que o previsto. 

 
A única vista geral da falésia desde um ponto lateral. O "Sector dos Amigos" é a parede mais próxima do observador.


Iriamos tentar escalar uma linha que eu tinha avistado há algum tempo desde a margem da falésia. Tratava-se de uma fissura muito atractiva que cortava na vertical a parede lateral de um diedro. No entanto, como era uma linha que não partia desde a base lógica (junto ao mar), abandonei momentaneamente a ideia. Outros projectos desafiantes, dentro do mesmo género de aventura mas… de maior comprimento, alimentavam o meu imaginário.
Entretanto, entrepôs-se uma expedição aos Himalaias e com esta, uma bela tareia para os dedos dos pés, consequência directa do usufruto dos prazeres da escalada em altitude e das botas duplas de alpinismo. 


 
 Mar e rocha.


De volta à ponta oeste da Europa, chegara a hora de pensar em aventuras mais humildes, porém, não necessariamente isentas de emoção e compromisso. Decidi inaugurar a nova temporada de escalada em rocha com uma aventura inédita, numa parede ainda desconhecida e de rocha… questionável. Teria que ser uma “reentré” em estilo e desde baixo, sem reconhecimento e limpeza prévias. Contudo, a habitual degradação da performance que se segue após as incursões nas grandes montanhas, obrigava a um objectivo de longitude comedida. A fissura avistada alguns meses antes figurava nos primeiros lugares de pretendentes perfeitos.
No entanto… recordam-se da referência anterior aos dedos dos pés?


Em busca da melhor entrada.


Desde baixo, era impossível detectar a tal fissura atractiva, escondida por extra-prumos insondáveis de calcário. Calculei o ponto de entrada que, com alguma sorte, iria colocar-nos na plataforma de base da fissura e, fiz-me à via. Imediatamente senti a dor nas pontas dos dedos dos pés, agora apertados nuns claustrofóbicos pés-de-gato, confirmando o velho ditado que afirma “não existir bela sem senão”. As altas montanhas cobravam agora o seu preço, no meu caso, na forma de umas dores quase insuportáveis nas extremidades inferiores. “Agora, aguenta-te!” Pensei em voz alta. O Tony, observava-me atentamente fornecendo corda à medida que eu escalava lentamente, contornando a custo os extra-prumos mais pronunciados. Seguia a linha mais lógica de ascensão, a linha de fraqueza da complexa morfologia rochosa. 


 
 Primeiro lance da "Indian Crack". Um "desfrute" para os meus pés doridos!


Procurava proteger de uma forma eficiente e segura. Apesar de nos termos prevenido com um pequeno “kit” de pernes e plaquetes, este nunca chegou a ser usado pois, a estrutura permitia encontrar pontos razoáveis para a colocação de friends ou entaladores.
Algum tempo depois, alcancei a plataforma de reunião, depois de “conquistar” o primeiro lance sem realizar o desejável encadeamento em livre do mesmo. Com os pés num lamentável estado e progredindo “à vista”, escalar tudo em livre estava fora de questão. Esse encadeamento estava destinado a acontecer alguns dias depois.


 
 A assediar a fissura prometida.


Assegurei o Tony e pouco depois iniciei a escalada do objectivo principal, a bela fissura que clamava para ser explorada. A meio da mesma, ali estava uma atractiva “fuga”, uma travessia lógica e bonita para a esquerda, que conduziu a uma nova fissura vertical e consequentemente à longa secção final mais fácil mas, difícil de gerir ao nível do atrito criado pela linha sinuosa seguida pela corda. Já não recordo bem a quantidade de vezes em que fui obrigado a descalçar-me. A última parte da escalada foi realizada com os calcanhares fora dos pés-de-gato, uma técnica eficiente para aliviar a dor nos dedos mas, com um nível de risco a roçar o inaceitável. Abracei o risco de bom grado porque finalmente podia escalar e pensar ao mesmo tempo, algo que não acontecia há algum tempo, na verdade, desde que iniciara a via. 


 Prestes a abandonar a fissura principal realizando uma travessia para a esquerda até alcançar uma nova fissura de saída. A restante porção de fissura vertical ficaria para depois.


Apesar dos percalços, o novo sector estava inaugurado.
Pessoalmente tinha pena de não ter podido desfrutar convenientemente, por causa da malfadada dor de pés.
Com o acordo do meu companheiro de cordada, a nova via foi baptizada com o nome “Indian Crack”, como uma alusão indirecta aos Himalaias Indianos, o local da nossa (minha e da Daniela Teixeira) mais recente expedição.
A bela fissura contínua que constitui o segundo lance da via, trata-se de uma formação rara neste tipo de falésia e, a sua escalada representa uma experiência inédita.
No entanto, o desvio para a esquerda aquando da escalada original, afastou-nos da linha natural da fissura que se prolonga até alcançar um tecto de aspecto desafiante.
O Fernando Pereira entusiasmou-se com a ideia de visitar novo território e juntos repetimos a “Indian Crack”. 


 
O Fernando a chegar à primeira reunião da "Indian Crack".


Os meus dedos dos pés recusavam-se a aliviar os níveis de dor. Mesmo assim, o primeiro lance saiu totalmente em livre e “sem espinhas”. O Fernando encarregou-se de repetir a fissura do segundo lance e a linha original para a esquerda obteve a sua primeira repetição, em poucos dias.
Horas antes, o Fernando e eu, inaugurámos também a segunda via aberta no sector.


 
 
Dois momentos do Fernando a escalar o primeiro lance da "Unhas retorcidas".


A “Unhas retorcidas” (vá-se lá saber a origem do nome), terminou com dois lances de fissuras, percorrendo um itinerário sinuoso mas, bastante lógico e bonito (esta ultima percepção, dependendo da sensibilidade de cada um). Mais uma vez, não foi necessário recorrer aos expansivos e a aventura resolveu-se com a utilização exclusiva de equipamento volante.


 
 O Fernando prestes a terminar o bonito primeiro lance da "Unhas retorcidas".

 
 
 A sair da primeira reunião da "Unhas retorcidas" e a iniciar o segundo lance. Aqui, a via converge francamente para a direita em busca de um diedro/fissura lógico.


Entretanto, o Tony “deixou-se enganar” de novo e, no dia 4 de Dezembro, retornámos à “Indian” com o intuito de “endireitar” definitivamente a via.
Desta vez, rejeitámos empiricamente o primeiro lance e rapelámos directamente para o local da primeira reunião. Algumas horas depois, a escalada integral da fissura estava concluída e com ela, culminou a abertura da via mais óbvia do sector. A “Indian Crack” revela agora o seu verdadeiro carácter de 6c (sujeito à futura decotação) mas, sobretudo, representa um pequeno mas intenso desafio mental de escalada tradicional.

  
 

 
 Dois momentos da escalada integral da fissura da "Indian Crack".


 
O Tony a terminar o lance crucial da "Indian Integral".


No dia 8 de Dezembro, o Fernando Pereira retornou à falésia e, em técnica de escalada em solitário, inaugurou um novo itinerário que baptizou com o nome: “Granada”. A inspiração para o nome não está propriamente relacionada com a qualidade da rocha (embora se pudesse adequar) mas sim com um “encontro imediato” acontecido no final da sua ascensão. Ao desembocar no topo da falésia, o Fernando deu de caras com uma granada real, decerto um “fruto” perdido (e por explodir!) de antigos exercícios militares que os fuzileiros frequentemente realizavam na Serra da Arrábida.


 
 Uma pequena lembrança de antigos exercícios militares na Serra da Arrábida. "Granaaaadaaaa!"


 
 O Fernando, no topo da falésia.

O “Sector dos Amigos” encontra-se à esquerda (de costas para o mar) da “Parede dos figos” – parede que alberga a grande via desportiva “Figos para os amigos” e conta já com quatro linhas “bolt free” e potencial para mais umas quantas, seguindo o mesmo estilo.

Apesar das humildes proporções da parede, as suas características particulares, localização e verticalidade dão-lhe um ambiente aéreo e impressionante.


 
O Tony a escalar a "Indian Crack".


Os potências candidatos à repetição destas vias devem ter em conta que estas foram aberturas realizadas desde baixo, cuja respectiva limpeza se resumiu a atirar aos peixinhos apenas os blocos e pedras mais precários, estacionados no caminho directo do escalador. Desta forma, é de todo muito recomendável que se proceda com cautela e com uma boa dose de bom senso.

Um capacete extremamente homologado é obrigatório, bem como uma boa dose de experiência neste tipo de terrenos – aqui convêm “bater à porta antes de agarrar”. Ainda a  propósito, existe outra prática que ajuda a garantir a boa integridade física do escalador que consiste em traccionar as presas “para baixo” e não “para fora”.

Não é nada mal pensado carregar uma corda a mais (60m!) para fixar no topo da falésia e uns punhos bloqueadores, para facilitar uma retirada imprevista (o único escape possível é para cima!).

Reunidas todas as condições e sacudindo o nervoso miudinho, a satisfação final de ter vivido uma boa aventura numa parede em “estado selvagem” está garantida.


Paulo Roxo


Os topos


 

quinta-feira, setembro 11, 2014

Existimos?



 EXISTIMOS?



Deixamos cair as mochilas junto à base da parede, um muro compacto, espectacular e alto.
Olho para cima e imagino as várias hipóteses. Linhas imaginárias cruzam o granito negro e iluminam-se, como fios delicados de néon. Os olhos perdem-se na morfologia, na inquietação das formas rochosas que a Natureza desenhou.
“Por ali?”
“Mmm, talvez.”
“E que tal aquela, que te parece?”
Embora o sítio tenha sido visitado anteriormente e, sabendo que existirá pelo menos um par de vias abertas, mesmo assim, quase tudo está por escalar.
Encontramo-nos junto a uma parede remota, numa qualquer cordilheira perdida… ou então, talvez não seja bem assim… 




Na verdade, encontramo-nos na “nossa” Serra da Estrela.
O Cântaro Raso apresenta uma face norte sugestiva e, separam-na da estrada pouco mais que dez minutos de caminhada.




 

O primeiro lance da “Vertical ao Raso” ultrapassa uma espécie de lastra de fissura fina.
Os micro-friends e entaladores mais pequenos são aqui imprescindíveis. Esta secção inicial constitui o “crux” da via. A segunda parte deste lance cruza uma evidente diagonal em fissura, por baixo de um tecto musgoso.



A Serra da Estrela possui um manancial enorme de vias de grande qualidade. Sobejam as escaladas de vários lances de auto-protecção e a escolha cobre todo o espectro de níveis de dificuldade e exposição. Ou seja, existem opções para todos os gostos e feitios.
Fazendo justiça às pessoas que escalaram no Cântaro Raso anteriormente, deixo uma breve referência aos factos conhecidos.
Provavelmente, o primeiro escalador a aventurar-se nesta parede foi o Paulo Alves, autor de vias espalhadas pelos quatro cantos do país, abertas sobretudo nas décadas de 80 e 90, do séc. XX. O Paulo não deixou qualquer registo escrito dessa misteriosa incursão, nem é conhecida a linha percorrida pela sua via.
Por volta do ano 2002, a cordada formada pelos Américo Santos, Pedro Pimentel e Luis Pinheiro, decidiu-se a visitar o Cântaro Raso e dessa incursão nasceu uma via chamada “Bichos ao nascer dos faróis”.


O segundo largo escala uma “pseudo-fissura” com tiques de “Off-widht”. São passos estranhos que apenas servem para aceder ao verdadeiro “sumo” da via.

 

O terceiro e último lance ultrapassa uns bons 30 metros verticais formados por diedros paralelos e termina com uma fissura que possui tanto de difícil como de grotesco. De todos modos, é um lance espectacular que bem merecia uma boa escovagem para ficar ainda mais “desfrutón”.




Salvo algumas excepções honrosas, a escalada na Serra da Estrela parece estar destinada ao ostracismo e a ser eternamente considerada como “campo de treinos” para voos mais altos. Curiosamente, alguns desses “voos mais altos” não passam da Serra de Gredos, ou Galayos, na vizinha Espanha, cujas características (sob todos os aspectos) são muito semelhantes à Estrela. A escalada na nossa serra, poucas vezes foi tida como um fim em si, demasiadas vezes foi considerada como uma actividade secundária, como um meio para algo mais grandioso. Talvez por estes motivos, seja muito raro encontrar alguém a repetir qualquer das vias que a serra oferece.
Muitas vezes penso que não sabemos dar o devido valor às nossas melhores qualidades, mesmo quando estas se encontram escarrapachadas diante dos nossos olhos. 





O resultado do abandono está à vista (para quem quiser ver): muitas vias já se encontram bastante sujas e, o malfadado musgo, ganha terreno novamente, a passos largos.
Tomar consciência deste desleixo aparente, provoca-me alguma melancolia, quase tristeza. É como se o esforço de uns poucos escaladores, provenientes de diferentes gerações, que se entregaram com dedicação e carinho, a abrir, limpar e equipar vias neste cantinho, estivesse destinado a um inevitável esquecimento. É como se, com o passar dos anos, todos os entusiasmos, os medos, as alegrias e as emoções, que conduziram ao nascimento daquelas vias, se desvanecessem lentamente no espaço e no tempo. No futuro próximo, as memórias das aventuras passadas estarão definitivamente desaparecidas e, a partir desse momento, será como se nunca tivessem existido. 




 
 
O primeiro lance da “A Apertadinha” começa com uma escalada relativamente acessível e “normal”, para logo entrar no mundo misterioso das trevas… e das chaminés apertadas e impossíveis de proteger!

Depois de alguns momentos divertidos (leia-se: angustiantes), coloridos com um nível refinado de impropérios, escalámos uma vez mais o segundo lance da “Vertical ao Raso” e, após a a saída final, atravessámos para a esquerda até alcançar as cordeletas da reunião de rapel.



O terceiro lance, de fissuras evidentes e perfeitas, constitui o “ex-libris” da via e, ilustra bem algumas das razões pelas quais escalamos.

O último lance, mais curto, transpõe um pequeno diedro evidente, uma fenda vertical de escalada delicada e uma fissura mais fina e mais exigente, que pode ser evitada, contornando pela esquerda, por terreno bem mais fácil.




Há muito pouco tempo ouvi alguém dizer: “Sem uma perspectiva histórica, a actividade respectiva não existe.”
Por vezes pergunto-me: será que a Escalada e o Alpinismo realmente existem em Portugal? Não estaremos eternamente a reinventar as origens da nossa actividade? Onde está a história da escalada portuguesa? Quem foram os seus protagonistas? Quem importou? Quem marcou? Quem inspirou?
“Eu não me queixo muito! Já viste que podemos andar por aqui tranquilamente e escolher qualquer via ou parede, sabendo que não iremos encontrar ninguém? Hoje em dia, no mundo, é muito raro encontrar um sítio assim!” – a ironia da Daniela reflectiu, sem querer, uma lógica implacável e com um fundo de verdade.
Analisando friamente a situação, considerando seriamente a outra cara da moeda, realmente, ao nível estritamente pessoal não tenho razões para reclamar. Encontrar um tesouro destes, praticamente por explorar, à porta de casa, é um luxo raro que – estou convencido – faria a inveja de muitos bons escaladores.
A um nível mais lato, de registo, de restauração e preservação da memória, temo que temos muito a perder. Considerar o passado, permite-nos encarar o presente a pensar no futuro.

A Escalada realmente existe neste país?


 

Foram equipadas duas reuniões de fortuna para possibilitar a descida em rapel. A primeira reunião possui dois Pernes M8 e a segunda, duas cordeletas à volta de uns blocos sólidos.

Salvo o equipamento existente nas reuniões de rapel, nas vias apresentadas não existe qualquer outro tipo de equipamento fixo.

Caso se opte pela descida em rapel, é muito conveniente estar prevenido com algumas cordeletas para substituir as existentes.




Afastando estes pensamentos melancólicos, escolhemos a linha que iriamos tentar escalar. Esperavam-nos algumas horas de incertezas, de medos, de riscos, de alegrias e entusiasmos. No calor da acção é muito fácil esquecer os sentimentos negativos, os pensamentos existenciais e, simplesmente… ser, desfrutar.
Os dois dias passaram e, o resultado foi a escalada de duas novas vias na face norte do Cântaro Raso. Anunciamos como “novas vias” mas, sem certezas absolutas pois, podem bem já ter sido escaladas. Alguém pode ter já percorrido estes mesmos itinerários antes de nós. E, antes desse alguém, outro alguém, pode também ter percorrido esses mesmos itinerários. Não o sabemos. Porque, sem qualquer referência, sem conhecer sequer uma linha da história, sem conhecer algumas das incertezas, dos medos, dos riscos, das alegrias e entusiasmos vividos pelos nossos antecessores, é como se estes, simplesmente… nunca tivessem existido.


Paulo Roxo


Os croquis (para que existam!)