quarta-feira, abril 17, 2013

Serra da Estrela, Ice report

SERRA DA ESTRELA MIXED/ICE/GRASS REPORT 2012-2013


A Daniela a caminho do descanso, após um dia de aventura, naquela que se viria a tornar uma das melhores épocas de sempre na Serra da Estrela.



Preâmbulo


Depois de um Inverno extremamente seco e praticamente sem neve, a época de 2011/12 saldou-se com uma muito anorética actividade na Serra da Estrela. No campo das aberturas (assunto principal que trata esta report), a única via a assinalar foi uma isolada ascensão num sector bastante remoto (tendo em conta os parâmetros serranos), protagonizada pelos, António Ferra e Ricardo Belchior. Aproveitando uma curta lufada de ar frio, gentilmente oferecida pelas estepes siberianas, esta dupla viajou para a Estrela para inaugurar a “Interestrelar Overdrive (WI4)”, cerca de 15 metros de cascata perdida, num canto longínquo do Vale de Loriga (mais info e croquis a seguir, nesta report).
Da nossa parte (minha e Daniela Teixeira) nem sequer apontámos os piolets em direcção à serra.
Quanto a mim, foi a primeira temporada, em mais de duas décadas, que não realizei uma única visita invernal à Serra da Estrela. Uma verdadeira estreia pessoal no campo da “não actividade”.


A serra no inicio da época. A coisa prometia!



Época 2012/13


Numa das últimas visitas estivais de escalada, a Dona Maria do café-restaurante “Varanda da Estrela”, avisou-nos: “Neste Verão, as abelhas subiram à serra. Quando isso acontece, quer dizer que o Inverno seguinte vai ser rigoroso!”
Achámos graça à crença popular e, não voltámos a pensar no assunto… até ao mês de Dezembro.
Uma súbita semana de muito frio e tempestade polvilhou as partes altas da serra com a primeira nevada. Eu e a Daniela sabíamos que aquilo não devia representar grande coisa, no entanto, decidimos arriscar e metemo-nos a caminho, sempre com um olho desconfiado no termómetro.
O Cântaro Magro e todas as paredes superiores ficaram, de um momento para o outro, perfeitamente cobertas por uma colagem de neve congelada. A paisagem sofreu uma metamorfose espectacular. “Scottish conditions!” Hora de limpar a ferrugem dos piolets e aproveitar a bonança.
Após uma razoável batalha que envolveu vários gancheios mais ou menos duros e passos de tracção em tufos de erva congelada, lá conseguimos terminar um projecto iniciado há dois anos, na face oeste do Cântaro Magro. A “Unfinished business” aberta no dia 2 de Dezembro de 2012 possuí cinco lances e tem uma dificuldade máxima de M6, localizada no penúltimo lance, um pequeno tecto de difícil resolução em livre. Esta nova via cruza a antiga “Pepi te quiero (M5/5+)” - mais sobre a “Pepi…” no final desta report - e constitui um verdadeiro “must”, quando nas devidas condições, ou seja, após uma tempestade de neve, vento e temperaturas baixas.


No primeiro lance da "Unfinished business".



No incio do terceiro largo da "Unfinished business".


 



Quando tudo apontava para um início de estação prometedor, a temperatura voltou a galopar e, mais uma vez, o tão desejado lençol branco foi substituído pelo verde da vegetação serrana.
Seguiram-se quase dois meses de espera, colocando em causa a tal profecia das abelhas.
Eis que, nas últimas semanas de Janeiro, de novo, a neve fez a sua aparição e, a estação fria parecia retomar o ritmo normal.
No dia 26 de Janeiro a Daniela e eu atravessámos o planalto superior em direcção ao topo do “Corredor estreito”. Apesar das temperaturas altas, estávamos decididos a subir qualquer coisa que se deixasse escalar.
Mesmo à esquerda do “Corredor da selecção”, surgiu uma hipótese ligeiramente atractiva. Uma rampa de neve desembocava num diedro vertical de… musgo! Com muito frio, seria um claro objectivo. Mas o frio, tinha emigrado naquela manhã para outras paragens. Ainda assim, embrenhámo-nos na aventura e o resultado foi a concretização de uma linha húmida, à custa de um primeiro lance de gancheios em fissuras recheadas de lama e erva molhada e, um ultimo terceiro lance com uma curta passagem delicada de gelo podre. Nestas condições pouco ortodoxas completámos a “Sopa de legumes, 140m (M5+) ”, com um nome muito apropriado às dificuldades encontradas. Puxando a brasa à nossa sardinha, pensamos que pode ser uma linha válida, se escalada durante o clima invernal adequado.


A emergir do primeiro lance da verdadeira "Sopa de legumes"!





O “clima invernal adequado” surgiu finalmente, uma semana depois, o que animou o nosso fetiche especial pelas mistas.
O dia 2 de Fevereiro foi de vento, neve dispersa e intenso frio, características que nos motivaram para voltar ao sector superior do Covão do Ferro. Passando pela base da famosa “Cascata encaixada” (em clara formação) colocámo-nos por baixo de uma profunda chaminé, à esquerda da qual se desenhava uma linha óbvia de aspecto “comestível”.
Desta feita, encontrámos os tufos de erva perfeitamente congelados e a neve transformada, como manda o figurino. Uma das características mais curiosas foi uma passagem “espeleológica”, um túnel vertical, encontrado no final do segundo lance, que acabou por inspirar o nome para a nova via. “O buraco, prazeres invernais”, tem 70 metros e uma dificuldade máxima de M4.

 
O curioso túnel de saída do segundo lance da "O buraco... prazeres invernais". Uma via moderada e aconselhável.





Ainda não satisfeitos nesse dia, realizámos uma (im)provável primeira ascensão de um corredor que alcunhamos de “Chicken couloir (100m, M4+/55º)”, o qual revelou algumas passagens mistas e, um passo particular mais nervoso e exposto. Com mais neve, as passagens mistas referidas ficam soterradas e esta via transforma-se num simples corredor contínuo de neve.


A Daniela a iniciar a escalada da "Chicken couloir".





No seguinte dia, ainda no sector superior do Covão do Ferro, atacámos uma mole de granito aparentemente “virgem”. Nessa incursão, nasceu a sinuosa “Caixa de Pandora (130m, M5+/6)” Um primeiro largo intenso de gancheios em boas fissuras e protecções fiáveis que se transformou no “crux” de toda a via e, conduziu a dois lances sem historia, terminando numa fissura diagonal absolutamente despida de neve, escalada em dry-tooling puro.
As dificuldades descritas anteriormente foram as que encontrámos com o nível de neve baixo. Com mais neve, o panorama pode mudar radicalmente.


Dry, muito dry, na saída da "Caixa de Pandora".



 



Finalmente, durante as ultimas semanas de Fevereiro e a primeira semana de Março, o gelo fez a tão desejada aparição e o resultado foi a realização fora do comum de uma série de repetições de cascatas clássicas, e ainda, a ascensão de um número razoável de novas linhas.
No dia 16 de Fevereiro, O Rui Rosado, o António Ferra e o João Gaspar, desceram ao Vale de Loriga e encontraram as cascatas do sector “Loriga Ice” razoavelmente desenhadas na parede. Infelizmente, a escassa espessura do gelo não lhes permitiu realizar qualquer ascensão “à frente” e, tiveram de se contentar com a escalada em top-rope da “Megassíssíssíma”, uma cascata espectacular com 40 metros e, jamais escalada desde baixo, portanto, ainda sem qualquer primeira ascensão “oficial”.
O João Gaspar sofreu ainda o desconfortável (no mínimo) percalço de desintegrar por completo as suas velhas botas duplas de plástico, terminando o dia a subir o longo caminho de volta ao carro, calçado apenas com as botas interiores.


O "Team" constituido por João Gaspar, Rui Rosado e Antonio Ferra... "Vamos ao gelo!" Foto de João Gaspar.


"Loriga Ice". Um dos melhores sectores de gelo da Estrela, quando em condições, claro! Os dois pontos que se vêem no cimo da parede são os Rui e Antonio, a procurar o melhor local para montar a reunião de topo. Foto de João Gaspar.


O Antonio Ferra na "Grandissíssíssíma". Uma via jamais realizada "à frente". Foto de João Gaspar.


As botas do João Gaspar! Freaking-out! Foto de João Gaspar.


Quanto ao Rui e António, ainda se dirigiram ao “seu sector”, mais distante, aproveitando para repetir a “Míssil ar-terra”, uma coluna frágil com uns 7 metros, que em Fevereiro de 2011, obrigou o Rui Rosado a tirar umas cartas das mangas para concluir a primeira ascensão, com alguns parafusos “atarraxados”, que funcionaram mais para efeitos decorativos que propriamente como segurança efectiva. Mesmo ao lado direito da “Míssil ar-terra (WI5)” o Rui e o António ainda escalaram em top-rope um projecto que viriam a concluir no dia 23 de Fevereiro ultimo, depois de colocar uma plaquete intermédia de forma a reduzir o nível de exposição, e os suores frios. Com o “apoio” do expansivo, o Rui Rosado acabou por encadear a via, constituída por uns curtos, mas intensos 7 metros, com duas secções distintas. A primeira parte, uma placa extra-prumada escalada em dry-tooling, protegida pela plaquete referida e a segunda parte, uma magra coluna de gelo suspensa, que obrigou a alguns posicionamentos difíceis, sobretudo quando o Rui resolveu colocar um parafuso de segurança a meio da coluna. Após esse ponto, as luvas incómodas foram atiradas para o chão e, o compromisso de uma queda não muito bonita em caso de falhanço, junto ao topo, foi assumido. A nova via foi baptizada com o nome “Youtube” e a sua dificuldade pode estar perto do M7 (por confirmar, pois tanto o Rui como o Antonio confessam “não perceber nada da escala de graduação para o misto!”).





Ainda nesse dia, o António Ferra realizou a primeira ascensão da “Efémera (WI4)”, uma pequena coluna empoleirada e acedida através de uma plataforma. Para baixo, ficou por abrir um diedro, um possível lance de gelo ou dry-tooling.
Ainda na mesma área, a dupla escalou a “Polar Circus Tuga (WI4)”, com o Rui Rosado “à frente”, concluindo outra primeira ascensão e colocando o recente “Sector remoto”, definitivamente no mapa das áreas a visitar na Serra da Estrela.


Antonio Ferra na "Efémera". Foto de Rui Rosado.


Rui Rosado na "Polar circus Tuga". Foto de Antonio Ferra.










No dia seguinte (24 de Fevereiro), enquanto o Rui Rosado e o António, escalavam uma muito precária “Coluna Lafaille (WI5)” eu e a Daniela, realizámos uma nervosa repetição da excelente (e algo exposta) via “Canalito (WI5)”, localizada na cota mais alta do sector “Corredor largo”. Nesse dia ainda houve tempo para escalar uma pequena cascata quase vertical com uns 7 metros, que baptizámos de “Micro-coisa (WI3)”.


Daniela na "Micro-coisa".





Uma semana depois, todos os astros resolveram conjugar-se para formar o melhor fim-de-semana invernal dos últimos anos na Serra da Estrela (uma opinião obviamente pessoal e discutível).
Os múltiplos sites, blogs e demais meios de informação cibernáutica de previsão meteorológica, apontavam para dias de frio e pressões altas. A esperança era tanta que a Daniela não hesitou em tirar uma folga na sexta-feira, de forma a podermos desfrutar de três dias seguidos de acção.
A cobiçada “Cascata do Inferno”, voltou a dar o ar de sua graça (pela primeira e ultima vez, na temporada) e no dia 1 de Março, realizámos a sua ascensão. Para a Daniela, toda uma estreia, uma vez que suspirava há bastante tempo pela escalada desta via emblemática. No dia seguinte, a bela e mítica cascata, sofre uma espécie de assédio, sendo escalada pelos António Ferra “atado” ao Ricardo Belchior, seguidos pelos Rui Rosado e João Garcia.


A mais que célebre "Cascata do Inferno". Um "must" da Serra da Estrela!



A Daniela a terminar o primeiro lance da "Cascata do Inferno".



Ainda no interior do “Corredor do Inferno”, enquanto esperava pela sua vez de escalar a “Cascata do Inferno”, o Rui Rosado inaugurou uma nova via mista, após escalar uma coluna de gelo vertical, com uns 5 ou 6 metros, seguidos de mais uns 15 metros absolutamente secos, em Dry-tooling . A “Por favor, tente mais tarde! (WI5/M6+)”, foi escalada “à vista” (ou quase!) e com material “volante”, implicando duas quedas emocionantes, sem consequências, por parte do seu protagonista.


O Rui Rosado a içar-se pelas cordas após uma das duas quedas, durante a primeira ascensão da "Por favor, tente mais tarde!"






Da minha parte e da Daniela, dedicámos algum tempo a “conquistar” um velho projecto, fruto de uma ideia com uns 15 anos, situado à direita da “Cascata do Inferno”.
Utilizando a máquina para acrescentar algumas plaquetes numa placa demasiado compacta para aceitar outro tipo de material, fui escalando desde baixo, em técnica artificial, criando um primeiro lance que pode tornar-se num exigente problema de escalada livre em dry-tooling (um desafio para o próximo inverno!). Depois de um tecto pronunciado, erguia-se uma bela cascata vertical com uns 35 metros, a estrutura chave que inspirou, desde sempre, a ideia de escalar aquela linha. A abertura da “Grândola, Vila Morena (A1/WI5)”, representou para mim o culminar de um sonho antigo.
A primeira repetição da “Grândola…”, surgiu poucas horas depois da sua abertura, pelos piolets do Rui Rosado e João Garcia.


A terminar o tecto em A1 da "Grândola, Vila Morena". Um lance para realizar em livre...


A Daniela, divertida a sair do artificial do tecto da "Grândola, Vila Morena".


O segundo lance espectacular da "Grândola, Vila Morena".







Entretanto, no sector “Corredor Largo”, varias cordadas repetiram as já clássicas “Cascata das couves”, “Diedro de cristal”, “Dama oculta” e a sinuosa “Cavalo de gelo”.
Precisamente à direita da “Cavalo de gelo”, a 15 de Março, eu e o Francisco Sancho observamos a secção superior de uma linha escalada por mim e pela Daniela há 4 anos. Na altura, a Daniela e eu nomeamos aquela via: “Brr! Brr! (WI5)”. No entanto, uma chapa fina de gelo, impossível de se escalar “à frente”, prolongava-se por mais uns 15 ou 20 metros, o que despertava claramente a imaginação para uma futura extensão.
Desta feita, encontrando os níveis mínimos de espessura de gelo (entenda-se, parafusos curtos metidos até meio e alondrados!), consegui escalar a extensão total da linha, concluindo mais uma bonita via naquele sector prometedor.
O nome que escolhemos para os 40 delicados metros da nova linha foi: “Brr! Brr! Hot! Hot! (WI5)”. Um nome alusivo à diferença de temperaturas encontradas entre a altura da abertura da “Brr! Brr!” e o ultimo dia 15 de Março.
No final desse dia, o Francisco e eu ainda escalámos uma goulotte relativamente fácil e divertida, situada entre o “Corredor do Cavalo” e a cascata “Cavalo de gelo”. Com o nome inevitável de “Goulotte do Cavalinho (WI2/60º)”, esta via com uns 130m, pode constituir uma óptima opção de fim de dia, em contraposição com a saída pelo “monótono” “Corredor Largo”.




Dois momentos durante a abertura da espectacular "Brr!Brr! Hot! Hot!" Fotos de Francisco Sancho.





No dia 23 de Março, enfrentando um grau de humidade próximo dos 100%, a Daniela Teixeira e o António Ferra, realizam a aproximação a pé através do Covão da Ametade, para escalar uma nova linha lógica situada a uns metros abaixo do sector de cascatas conhecido como “Lafaille”. A ideia inicial consistia em escalar dois lances de Goulotte e misto mas, as terríveis condições da neve, podre e inconsistente no segundo lance, tornaram a escalada num exercício exposto e descompensado. A uns dez metros do final, foram equalizados um piton e um entalador e um rapel prudente, colocou a dupla no sopé do largo. No entanto, como o primeiro lance terminava num escape lógico, ficou decidido que merecia ser considerado como uma via independente. Desta forma, nasceu a “Cinco euros por metro (M5)”, mais uma bonita opção invernal, na área do “Corredor Largo”, constituída por um canal empinado de escalada mista, com uns 50 metros.


O Antonio Ferra na abertura da "Cinco euros por metro".





O remate final da época, surgiu nos dias 6 e 7 de Abril.
Um ultimo surto de frio e um oportuno intervalo nas chuvadas constantes da semana anterior, motivaram-nos para retornar à serra para uma última aventura de escalada mista. Voltámos as atenções para a face oeste do Cântaro Magro e encontrámos a parede bastante seca. No entanto, uma antiga linha mantinha uma aceitável aparência invernal, a “Pepi te quiero”. Esta via com quatro lances e cerca de 200 metros foi aberta em Fevereiro de 1999 por mim e pela Yolanda Traver e tinha (que eu saiba) apenas uma repetição. No dia 6 de Abril, realizámos a provável segunda repetição desta bela linha, encontrando alguns passos compostos por ressaltos que o nível da neve mais reduzido tornava consideravelmente mais duros. Para abrilhantar a festa, ainda nos enganámos no itinerário no terceiro lance, realizando uma nova variante que saiu muito mais exigente que o original. Após uma luta de hora e meia, com gancheios precários, pioladas em tufos de erva gelada e protecções em entaladores e pitons mais ou menos credíveis, lá saiu uma variante em M6 (com um provável + à frente!).
Nas condições ideais (temperaturas negativas e neve transformada) a “Pepi te quiero” torna-se numa “clássica” obrigatória.

 
No primeiro lance da excelente "Pepi te quiero". Foto de Alcino Sousa.


A Daniela nos primeiros passos da "Pepi te quiero".




Dois momentos na saída da goulotte do primeiro lance da "Pepi te quiero".



A enfrentar o crux da exigente "Variante" de terceiro lance da "Pepi te quiero".



A terminar o terceiro largo da "Pepi te quiero"


O ultimo lance de corredor da "Pepi te quiero".


No cimo do Cântaro Magro, depois de terminar a possivel segunda repetição da "Pepi te quiero". Foto de Alcino Sousa.






No dia seguinte, com o tempo a deteriorar-se cada vez mais e com as temperaturas a subir para níveis demasiado altos, escalámos uma nova pequena via, mesmo à esquerda da cascata (quase inexistente) “Estrela nocturna”. Trata-se de uma linha de goulotte de dificuldade moderada que se junta ao segundo lance da “Estrela nocturna”. A “Estrela de neve”, possui cerca de 60 metros e tem uma dificuldade máxima de M5, num único passo de entrada do segundo lance. Ficou por concretizar a saída directa e muito lógica desta ultima via. Uma escalada que já não nos apeteceu (!) realizar e que ficará seguramente como projecto para a próxima época.




Dois momentos no primeiro lance da "Estrela de neve".





Epilogo


No global, só neste inverno, entre vias de escalada mista e gelo puro, com mais ou menos qualidade, foram abertas 17 novas linhas na Serra da Estrela.
Para trás fica uma época extraordinária, como não se encontrava em muitos anos.


Paulo Roxo


Um agradecimento aos Antonio Ferra, Alcino Sousa, Francisco Sancho, João Gaspar e Rui Rosado pelas informações e fotos cedidas.

segunda-feira, março 11, 2013

A alma e a memória

A ALMA E A MEMÓRIA




A mais desejada cascata da Serra da Estrela. A célebre "Cascata do Inferno", no dia 1 de Março de 2013.


- Olha, o teu projecto está em condições!
A mais de mil quilómetros de distância conseguia sentir a excitação na voz do Miguel Grillo ao telefone. Nem sequer era necessário dizer-me o nome, para eu adivinhar a que projecto se referia.
Estávamos em pleno inverno de 2002, e eu estava “plantado” em Benasque, no coração dos Pirinéus.
O Miguel, o João (Animado) e o Hélder Massano encontravam-se na Serra da Estrela. Naqueles dias, tinham-se formado quase todas as cascatas habituais, incluindo a rara e emblemática “Cascata do Inferno”. Mesmo à direita desta ultima “ex-libris”, existe um tecto pronunciado desde o qual se ergue de quando em quando, uma fantástica cascata de gelo inacessível, a quase 30 metros da base da parede. Esta inacessibilidade, esta aparente impossibilidade, foram talvez os verdadeiros motivos que despertaram a minha imaginação, que atraíram os meus sonhos de aventura. Aquele tecto provocador de granito, um tecto que cortava inexoravelmente o acesso à bela linha de gelo imaculado, representava um desafio irresistível.


Vistas para a face oeste do Cântaro Magro. Um bom terreno de aventura para a escalada mista.


A partir de meados dos anos 90 sentia-me altamente inspirado com a escalada em gelo e a “nossa serrinha”, revelara-se um excelente campo de exploração e aventura. Depois de escaladas várias linhas geladas, hoje clássicas frequentes (se é que os termos “clássica” e “frequente” podem ser aplicados ás características extremamente efémeras do gelo na Estrela), uma ocorrência iria modificar, para sempre, a minha forma de ver a escalada invernal. Essa ocorrência foi a visão de uma simples fotografia. 


O gelo e a rocha.


A foto em questão tinha sido publicada na capa da revista espanhola Desnível, em Janeiro de 1995 e eternizava o Jeff Lowe, suspenso num tecto perfeito, com um dos novíssimos (na época), piolets “pulsar”, gancheado numa fissura rochosa e o outro piolet, cravado numa impressionante estalactite de gelo suspensa no vazio. Era uma visão única, mesmo grotesca. Decididamente poderosa. A fotografia testemunhava a abertura da “Octpussy”, em Vail, nos Estados Unidos e tornou-se de imediato o símbolo de uma pequena revolução no mundo da escalada em gelo, o nascimento de uma disciplina tão estranha quanto inquietante: o “Dry-tooling”. Um novo conceito que permitia utilizar deliberadamente as ferramentas típicas para se escalar gelo, em rocha pura. A teoria original advogava que o objectivo principal seria “caçar” colunas e cortinas de gelo inacessíveis de outra forma. 


A fotografia que despoletou o sonho. Jeff Lowe, suspenso na sua "Octopussy", uma via revolucionária que se tornou na bandeira de nascimento do "Dry-tooling" mundial. Foto retirada da net.


Assim, de repente, diante dos meus olhos, novos mundos se iluminaram. Também a Serra da Estrela iria possuir algum representante dessa disciplina embrionária no mundo. Um dos mais importantes candidatos, o que mais se realçava pela sua estética e lógica, era aquela linha de cristal, a tal inacessível que se erguia do nada, à direita da Cascata do Inferno.
Um dia de Inverno de 1997, sozinho e absorto no meu próprio entusiasmo, desci desde o topo e, munido com uma máquina emprestada, equipei as reuniões e coloquei algumas plaquetes no tecto e na placa desprovida de fissuras do primeiro lance. Nascia assim, um projecto ambicioso. Depois, passei noites de olhos abertos, a sonhar acordado, imaginando os movimentos atléticos, que me iriam levar ao sucesso e ao máximo da satisfação pessoal, na minha muito particular “Octopussy”.
Entretanto, os anos foram passando e, a cada inverno lá ia surgindo na minha cabeça a imagem daquela linha por escalar, como um fantasma sazonal disposto a atormentar-me o espírito, cada vez que caíam os valores do termómetro acompanhados pelos primeiros flocos de neve.
Duas razões principais impediram a concretização de uma tentativa de ascensão digna desse nome: a via teimava em não se formar em condições ou quando se encontrava em condições, eu não estava por lá para tentar. 


Reunião "à bomba!" Dois "abalakovs" e um parafuso. Foto do dia 3 de Março de 2013, no topo da "Cavalo de gelo".


Um dos factores de sucesso para se escalar gelo na Estrela é, “estar no lugar certo, na altura certa”. Foi o reconhecimento desse factor importante que levou o Miguel a telefonar para Benasque, naquele dia de inverno, não fosse eu desaproveitar uma hipótese de poder finalmente inaugurar a via sonhada.
A minha estada pelos Pirinéus coincidiu com o surgimento da disciplina de “dry-tooling” em Espanha e, foi nessa altura que realizei o maior número de vias nesse estilo. Mais do que nunca, estava preparado para enfrentar as dificuldades da nova via na Serra da Estrela. Ironicamente, a distância imensa impedia-me aproveitar aquela oportunidade única. 


Nesta foto de Abril de 2003, o escalador Galego Juan Goyanes, escala a "Titán", em Ardonés, Benasque. Esta via, equipada por mim, constituiu um bom desafio de Dry-tooling e a sua dificuldade ficou assente em M9. Foto retirada da "Desnivel online", com a cortesia de Juan Goyanes.


A título de desabafo, respondi ao Miguel: - Epá! Se está em condições, vão lá! Não deixem escapar essa linha! - Secretamente, temia a resposta, do outro lado.
Cavalheiro, o Miguel declinou o convite e, irremediavelmente, a via acabou por derreter… literalmente.
Entretanto, passaram mais anos e o projecto desejado, a via ambicionada, a “Octopussy” lusitana da minha imaginação, ficaria relegada para segundo plano, destinada a um canto obscuro da memória. A situação de letargia foi apenas interrompida, em Março de 2010, por uma fugaz remexida em top-rope do primeiro lance, que permitiu chegar a duas conclusões capitais. A primeira, foi constatar que aquele primeiro lance era “duro que nem um corno!”. Um “M-Muito!” em termos de dificuldade. A segunda, foi confirmar que o equipamento fixo seria manifestamente insuficiente para manter uma potencial ascensão “à frente”, livre do sério risco de partir as pernas, em caso de queda.  
Uma vez mais, a escalada do eterno projecto fora adiado para futuras calendas.


A Daniela numa cómoda poltrona, depois de escalarmos a excelente "Cavalo de gelo", no sector do "Corredor largo".


28 de Fevereiro de 2013

- Se calhar levo a máquina. Não vá “o projecto” estar formado… - Anunciei, enquanto organizávamos o material para mais uma incursão à Serra da Estrela.
No fim-de-semana anterior, a Daniela e eu tínhamos andado a farejar o gelo no sector do Corredor Largo e, desse reconhecimento saiu uma repetição nervosa da comprometida “Canalito” e uma “primeira” de uma pequena cascata que baptizámos com o nome “Micro-coisa”.


 Dois momentos da Daniela na "Micro-coisa", uma semana depois da sua abertura.



Também tivemos notícias do Rui Rosado e do António Ferra que resolveram investigar o vale de Loriga, onde acabaram por abrir três novas linhas, das quais se destaca a “Youtube”, uma pequena, mas intensa via, com uma entrada em dry-tooling e uma coluna de gelo de saída – mais info sobre estas e outras aberturas na serra, no post seguinte.
A julgar pelas previsões do termómetro, os dias seguintes prometiam. A esperança de encontrar boas condições era tão forte que a Daniela resolveu meter uma folga de forma a aproveitarmos três dias plenos de escalada em gelo.
A Sexta-feira revelou-se um dia de tranquilidade absoluta, sem o rebuliço habitual de turistas que invadem a zona alta da serra, durante o fim-de-semana.
Abrindo uma trincheira na neve densa, descemos o arqui-clássico “Corredor do Inferno” e, imediatamente descobrimos as paredes que marginam a garganta, pejadas do tão desejado elemento congelado.


A descer o "Corredor do Inferno" e a confirmar as boas condições existentes.



Ao chegar ao fundo do corredor: Yes! Ali estava a mais desejada das cascatas. A “Cascata do Inferno”, formada e imaculada à espera das primeiras pioladas da época.
Os olhos da Daniela brilhavam de emoção. Era uma cascata que desejava muito escalar e agora, surgia a oportunidade, talvez única.


"Uau! Vamos lá!"



Quatro momentos da escalada da "Cascata do Inferno", no dia 1 de Março. Gelo imaculado!



Durante as horas seguintes, concentrámo-nos na ascensão dos 70 metros de gelo que constituem esta bela via de rara formação. O dia não podia ser mais perfeito. O azul intenso do céu contrastava com o manto branco pálido da neve. A total tranquilidade do ar frio era apenas interrompida pela respiração profunda, a cada passo vertical mais delicado.


"Yuupii!" Finalmente, a escalar a mais famosa das cascatas da Estrela.


 Dois momentos a terminar o primeiro lance.



Ao chegar ao topo, a satisfação era notória. Impossível ficar indiferente, perante o privilégio de completar uma via daquela qualidade. Sem dúvida alguma, uma das linhas de gelo mais estéticas da Península Ibérica, mesmo ao lado de casa.



Três momentos da escalada do segundo lance da "Cascata do Inferno". 


A Daniela a terminar os passitos delicados de saída da bela.





A descida em rapel, colocou-nos mesmo em cima do antigo “projecto”. Uns pontapés na coluna suspensa no lábio do grande tecto comprovaram as excelentes condições do gelo. Imediatamente, a sensação do “agora ou nunca” atravessou-me os neurónios, como um relâmpago imprevisto.
Era tarde para uma tentativa digna desse nome. “Talvez amanhã”. Pensei.


A Daniela feliz, junto à reunião de rapel. "Cascata do Inferno: Check!"


Mas, no dia seguinte aquele sector iria estar mais concorrido.
Tendo conhecimento das boas condições do gelo na “Cascata do Inferno”, um grupo de escaladores meteu-se imediatamente em fila para, também eles, espetarem ali, os seus piolets e crampons.
Recordei uma dolorosa pancada no nariz, fruto de um bloco de gelo lançado por um escalador acima da minha posição, numa cascata demasiado concorrida, durante uma recente actividade nos Pirinéus. Essa memória fez-me vacilar na decisão de retornar ao sector do Inferno no dia seguinte. A Daniela ajudou a quebrar as dúvidas: - Se achas que esta é uma oportunidade em mil, vamos lá! Afinal, vamos estar afastados uns dos outros o suficiente, para não haver perigo.


No Sabado, o Ricardo Belchior e o Antonio Ferra, "tiram a senha" para a "Cascata do Inferno"...


... logo a seguir, entram em cena o Rui Rosado e o João Garcia.

No dia seguinte, de máquina em riste, acrescentei, sem apelo nem agravo, uma série de novas plaquetes na placa exposta do eterno projecto. Escalava em artificial desde baixo e, ao mesmo tempo ia verificando que tal seria se, por um acaso, tivesse a estamina suficiente para realizar aquilo em livre. Fingia tentar os passos em livre, apenas para concluir (uma vez mais) que estava diante de uma via absolutamente futurista na Serra da Estrela.


A iniciar a secção de rocha do antigo projecto.


Artificial, em busca do gelo.



De certa forma, desiludido pela constatação da minha própria fraqueza, a minha cabeça decidiu que iria descer após a colocação do último expansivo, antes de ultrapassar o tecto e meter-me no gelo. Desistiria assim, de abrir a tão desejada via, naquele dia.


No tecto, ainda pouco convencido que "desta é que é!"


Coloquei a ultima plaquete mas, num impulso irresistível, estendi o corpo e cravei o piolet no alto da coluna. “Surprise!” O gelo continuava excelente. Era desconcertante. Agora, esgotavam-se as desculpas para não prosseguir.
- Atenção, rédea curta na corda porque vou tentar sair para cima! - Anunciei, ainda com algumas reservas.


"Rédea curta, rédea curta!"


Às primeiras “pioladas”, chegou a certeza imediata que iria conseguir. Relaxei, respirei… alguns minutos depois estava suspenso na reunião, a uns quatro metros do final do tecto. “Uau!”
A Daniela juntou-se a mim, após realizar a escalada do primeiro lance também em artificial.


Uma perspectiva da Daniela, na saída do tecto.



Ainda em artificial a Daniela prepara-se para entrar na cascata.


"Okis! Agora, já estamos melhor!"


No entanto, para considerar a via real e oficialmente aberta, faltava ainda escalar o segundo lance, integralmente em gelo. Esse facto não constituía qualquer problema, antes pelo contrário, dada a excelente aparência do “edifício” congelado que se erguia por cima dos nossos capacetes. O que se seguiu, foi a realização de uma das mais fantásticas cascatas jamais formadas pela natureza, na nossa Serra da Estrela. Uma estrutura com quase 40 metros, ligeiramente mais empinada que a própria “Cascata do Inferno”.


 
Quatro momentos na fantástica cascata do segundo lance. Quase quarenta metros de puro júbilo!



No topo, exultantes, celebrámos a primeira ascensão de uma via extraordinária, uma linha realmente singular na nossa geografia. Para mim, algo mais que uma simples escalada.
A Daniela e eu resolvemos baptizar a via com o nome “GRÂNDOLA, VILA MORENA”, como uma forma de protesto e contestação, neste período conturbado em que vivemos e, como homenagem singela e improvável ao poeta incontestável que criou esse hino “da malta”.


 
A cascata final e o final de 15 anos de "sonho morno".


Passado o período de relativa embriaguez pós-realização e, analisando objectivamente a concretização, ao nível técnico, a nova via não representa nenhuma grande novidade. A utilização da máquina reduziu bastante o nível de exposição e transformou o primeiro lance num mero exercício desportivo, com excepção para a primeira parte de cascata fácil e a saída do tecto, para a coluna e reunião. No entanto, em abono da verdade, não existiam outras opções de protecção (pelo menos no inverno, quando as pequenas fissuras de saída se encontram totalmente tapadas de gelo e, inutilizáveis). Por outro lado, nasceu uma via que pode ser escalada em artificial, para ganhar a bela cascata aérea e espectacular. Finalmente, no campo do dry-tooling ali fica um desafio para o futuro, com óbvias dificuldades técnicas e físicas.


 O rapel de celebração. De volta à base.
 

Para mim, abrir esta via representou o culminar de um sonho. Não um sonho impetuoso e fanático, mas sim um desejo em água morna, que ia e vinha ao longo de todos estes anos, por vezes com um pouco mais de intensidade, outras vezes, sob a forma de um breve pensamento, um ténue recordar. Este sonho, este desejo, este pensamento, acompanhou uma parte importante da historia da escalada invernal na Serra da Estrela e, acompanhou também os companheiros e amigos aos quais me encordei durante este longo período.
Uma velha ideia concretizada. Uma ideia com mais de 15 anos.
Para mim… uma escalada com alma.
Uma ascensão com memória.

Paulo Roxo


Contentes por um dos melhores fins de semana de escalada em gelo, na Serra da Estrela.

 


Os Topos: