quarta-feira, fevereiro 10, 2016

Pinheirinhos selvagens

PINHEIRINHOS SELVAGENS


A chuva no nosso caminho.


“Caramba! A chuva é toda para mim!” – gritei à terceira molha, já no ultimo largo.
Sabíamos que o dia não ia estar solarengo, mas a fome daquele calcário era tanta, que decidimos ainda assim tentar escalar na baía dos Pinheirinhos.
Passou-se mais de ano e meio sem uma única visita, resultado da recuperação do acidente do Paulo. Este local de beleza indescritível, indiscutível, que carinhosamente chamamos do “nosso quintal”, não nos via desde... nem me recordo de quando! Foi como se estivéssemos estado ali ontem mesmo, a mesma grandeza, a mesma água límpida azul-turquesa, onde os cardumes de peixes se avistam desde uma altura de noventa metros. Noventa metros acima do mar, enquanto preparávamos o rapel para a base do “Esporão do pé descalço”, víamos os cardumes de peixes lá em baixo, umas quantas medusas que dançavam ao sabor da corrente, as gaivotas e os corvos marinhos, a fauna residente da baía à qual naquele Domingo nos juntámos. Sentíamos que fazíamos parte de tudo aquilo, creio mesmo que aquele pedaço de terra sentiu a nossa falta, por isso acolheu-nos num dia que... dificilmente se imaginaria que seria um bom dia para escalar uma nova via.
Arriscámos rapelar até á base da parede e, recuperadas as cordas, caíram os primeiros pingos.
“Podia ter começado a chover à meia hora! Escusávamos de descer!”. O comentário do Paulo era mais do que justificado. Já não havia escape. Entre nós e as mochilas havia uma centena de metros para escalar, ou seja, a perspectiva de o fazer com rocha molhada não era algo que nos agradasse, mas... naquele momento não tínhamos outra opção senão conformarmo-nos com a situação e desfrutar o que de bom ou mau os Pinheirinhos tinham reservado para nós naquele dia.
A chuva parou e a rocha que ainda não estava encharcada secou. Secou o suficiente para o Paulo escalar o primeiro largo de travessia tranquilo. Aquele primeiro largo foi uma espécie de aproximação à via. Olhando para o Cabo Espichel viam-se nuvens grossas e chuva, muita chuva que ainda não tinha chegado até nós.


Lá ao fundo, vêm mais nuvens e... chuva! Entretanto ainda nos maravilhamos com a parede principal dos Pinheirinhos.


“Podes viiiiiir!”. Conheço bem este grito e quando o escutei já tinha os pés de gato calçados, pronta para me fazer à rocha. De repente, o branco do calcário sarapinta-se, sarapinta-se de gotas grossas, o calcário e o meu impermeável que por sorte - ou não - já ia vestido. A primeira molha já ninguém me tirava.
Chego à reunião, confortável por debaixo de um pequeno tecto. Nessa altura a chuva já tinha parado e o calcário secava com rapidez, afagado por um sol forte que dava ao dia um sabor de contrastes. As nuvens, essas seguiam espessas no horizonte escondendo por vezes a luz do astro rei.
Com rapidez o Paulo inicia o segundo largo, este já com menos sabor a travessia. Eu, na reunião avaliava a direcção do vento...das nuvens...


A escalar o primeiro lance... à chuva!


“Reuniãããããooooo! Podes viiiiiir!”. Segundo largo. Inicio novamente de impermeável bem fechado. “Já pinga... já chove!”. Gotas gordas teimam em estragar-me o gozo da escalada. Mãos enlameadas, pés a patinar, tento progredir com rapidez e para isso o preconceito deixa de existir. Um friend significa apenas dois metros conquistados com mais rapidez. Chego à segunda reunião algo encharcada. A chuva pára. Curiosamente parece respeitar o primeiro de cordada... é justo! Quem vai à frente safa-se com rocha seca, as forças da natureza conspiram a favor do Paulo e lá vai ele apressado no terceiro largo, a meu ver, o mais bonito da via. Vejo-o ultrapassar uma sequencia de fissuras ligeiramente extra-prumadas de presa boa. Venho depois a confirmar a excelência da rocha, que até ao momento se revelou de muito melhor qualidade do que esperávamos.
Desta tenho sorte, desfruto de um belíssimo largo, rocha boa, fissuras atléticas de presa grande, um largo de deixar qualquer um sorridente. Chamam os espanhóis a este tipo de escalada “desfrutona”, confirma-se! E pela primeira vez no dia, escalo um largo seco. “YEAHHHH!” Desta safei-me, chego à terceira reunião sem chuva. O Paulo segue outra vez... tudo seco, sorte. Eu aproveito para apreciar aquela paisagem da qual tive tantas saudades.


Uma breve trégua de céu azul, permite desfrutar do largo mais bonito da via.


O dia vai agora longo e falta apenas um largo para atingir o topo da falésia. Três a quatro metros acima e... ”AHHHHHH!!!”. Conheço bem aquele grito de pânico, é uma verbalização de medo que me deixa de imediato tensa, na verdade, assustada. No segundo que durou o drama, olho para cima à espera da queda do escalador e vejo sair um falcão, disparado em voo rasante à cabeça do Paulo. O susto cedeu o lugar a um enorme sorriso e a umas quantas gargalhadas.
- Está aqui um ninho!
- E tem ovos?
- Não, não tem nada.
- O bicho deve ter apanhado um susto ainda maior que o teu!


O Sol deixa-se cair no horizonte. Ambiente "National Geographic!"


Já comentávamos que o dia parecia saído de um qualquer programa de “National Geographic”. Uns minutos depois, é a minha vez de gritar:
- Golfiiiinhoooooos!!! Golfiiiiiiiinhos! Paaaauuuuulo, olha para a base do esporããããooo! Montes de golfiiiinhos!
- Espectáááááculo!!!! São buéééés!
Nada como um bando de golfinhos a saltitar, rebolar, cambalhotar na água para tornar dois seres humanos ainda mais felizes. Naquele regresso aos Pinheirinhos, a falésia recebeu-nos como se fossemos da casa. Aproveito para continuar a apreciar aquela paisagem da qual tive tantas saudades. Algumas gaivotas, certamente agradecidas pela abundância de peixe naquele dia, alimentam-se, mergulham com elegância para aparecerem segundos mais tarde à superfície. Delicio-me com o sabor da natureza selvagem do lugar, mas o azul do céu volta a desaparecer e percebo que vou levar a terceira molha... a terceira bátega de água. O Paulo, escala todo o largo com rocha seca.
Após o novo grito de reunião apresso-me. A escalada não é difícil, ainda assim as mãos e pés-de-gato molhados tornam o largo menos prazenteiro.
Algures pelas cinco da tarde estávamos os dois no topo da “PINHEIRINHOS SELVAGENS”, húmidos e felizes com a forma com que os Pinheirinhos nos acolheram neste regresso.
Mas o dia ainda não estava terminado! Sim, faltava ainda o regresso ao carro, ao cair da noite, e claro, com uma grande bátega de água para concluir em beleza! Desta, levámos os 2!
Daniela – 4 molhas!
Paulo – 1 molha!

Nota final: Entretanto retornámos ao sector para inaugurar uma nova via. Escalámos a “DESENGANA-TE” durante um belo dia de aventura em que sentimos a falta dos Golfinhos e… da chuva!

Daniela Teixeira



 A escalar o terceiro lance da "Desengana-te". Desta, a chuva não nos atormentou.


 A chegar ao final de mais uma nova via na "mais bela" grande falésia da Arrábida.


 Foto-cume!


Claro, os topos:





sexta-feira, janeiro 15, 2016

Todos os caminhos vão dar a...

TODOS OS CAMINHOS VÃO DAR A...
EL CHORRO!




Rumámos para leste com a cabeça cheia de possibilidades.
Apesar de já ter passado um ano desde o meu acidente de escalada, ainda me encontro em fase de recuperação. Esta actividade iria funcionar como teste: “O teste!”
Quanto ao clima, nas semanas anteriores à nossa partida tinha-se portado de uma forma demasiado benevolente. O que era um mau presságio para as seguintes semanas, justamente as “nossas” semanas.
Tendo em conta as minhas limitações e a imprevisibilidade climática, a Daniela e eu carregámos a Berlingo com… tudo! Piolets, botas de montanha, pés-de-gato, múltiplas cordas: simples, duplas de gelo, duplas de rocha e toda a parafernália e quinquilharia necessária.
Com o olho piscado às montanhas de neve e gelo, iríamos, no entanto, preparados para qualquer outra coisa.
Tal como esperado, mal saímos de Portugal, as previsões começaram a apontar para uma degradação do tempo em montanha.
Uma fugaz passagem pelos - sempre fantásticos - Mallos de Riglos e, aproveitando uma “aberta” de dois dias, preparámos tudo para tentar uma nova via na face noroeste dos Gabietos (3035m), nos Pirinéus. Aquela montanha já não nos é uma estranha. Em 2013 eu e a Daniela abrimos ali uma nova via, a “Variante Pops” e no ano anterior eu tinha já aberto uma outra via, a “Perro Marrón”, encordado ao Tiago Faneca.


A face Noroeste do Gabietos. 500 metros de parede e gloriosa. Desta vez... não se deixou dominar!


A Face noroeste do Gabietos é uma parede impressionante, com cerca de 500 metros, raiada por numerosos corredores, estrias geladas e esporões de rocha friável. Este aspecto ostenta uma verdadeira parede com ambiente de alta montanha.
Passámos a noite num pequeno refugio degradado e, na madrugada seguinte, lá fomos a caminho da parede. No entanto, à medida que nos aproximávamos, a neve que julgámos perfeitamente transformada e dura, deixou muito a desejar. Ao chegar à base da via escolhida, confirmámos aquilo que suspeitávamos durante a hora e meia de aproximação: neve inconsistente e inexistência absoluta de gelo. Hesitamos na decisão durante alguns minutos e, finalmente, metemo-nos vale abaixo.
Cheguei ao estacionamento a coxear como um deficiente. Apesar do fracasso, tinha sido um bom teste para os meus tornozelos. “Hora de meter mais um “Voltaren”!”


"Eu levo mais peso para te poupar os pézinhos!" - Não era uma novidade. Na cordada, geralmente, a Daniela leva sempre o mesmo peso (ou mais!) que o seu par!


Nos dias seguintes, as previsões apontavam para tempo mau e temperaturas altas nos Pirinéus. Mau para alpinismo, mau para escalada em rocha. “Que fazer?”
“E se fossemos a Culla?” – sugeri.
Culla é um pequeno povoado bonito, localizado a norte da província de Valência. Marginando a povoação existem numerosas paredes selvagens e isoladas, terreno ideal para colmatar o nosso espírito de exploração e novas aventuras.


As fantásticas e selvagens paredes de Culla. Um bom lugar para escutar o silêncio absoluto.


Há doze anos, vagueei por ali e tive a sorte de abrir cinco vias de aventura, com alturas até aos 260 metros. Três delas foram abertas em solitário, uma encordado com o Miguel Grillo - em três dias de "fun" - e a última com a Yolanda Traver. 
Já passou muito tempo e a minha memória apagou muitos “detalhes”, como o tempo de aproximação, o acesso exacto, etc. O cérebro deve ter feito uma selecção das memórias mais importantes, conservando as de maior impacto. Naquela altura, o “maior impacto” não estaria com certeza na mera aproximação. Essa era secundária. Hoje porém, não é bem assim. Para já, com as minhas mais recentes limitações físicas, as aproximações e retiradas têm um papel crucial e decisivo.


"Será por aqui?"


Escalámos quatro lances de uma nova via mas o céu resolveu brindar-nos com alguma chuva. A chuva suficiente para nos obrigar a “rapelar”. Quando tocámos o solo, a chuva entretanto, parou. “Típico!” Tarde demais para retomar a escalada, resolvemos retirar com a promessa de voltar para terminar o assunto. Nessa noite instalámo-nos num simpático apartamento barato em Culla. Urgia um duche quente.


O terceiro lance da nova via em Culla. Pouco depois descíamos. Ficaria o projecto para voltar um dia.


O despertador tocou à hora imprópria das quatro da manhã. Atirámos as mochilas para o interior da carrinha decididos a atacar a parede interrompida e… madrugada escura como breu, o vento gelado uivava… rodei a chave e o motor começou a ronronar. “Vamos?”… adivinhava-se um dia frio, desagradável e sem garantias que a chuva não iria cair, portanto, sem garantias de sucesso… hesitação. “E se fossemos para o El Chorro?”
Por volta das duas da tarde tínhamos as grandes paredes frontais, imagem de marca do El Chorro, mesmo à nossa frente.


A imagem de marca de El Chorro. As paredes frontais!


A decisão de retornar a El Chorro foi tomada rapidamente mas, com alguma apreensão. Basicamente, tínhamos receio de nos sentirmos desiludidos. A razão tem que ver com a nova “reabilitação” do histórico “Caminito del Rey”, que se prolonga pelo interior das gargantas naturais do lugar. Essa restauração consistiu na construção de um passadiço enorme que permitiu a entrada de centenas de pessoas em massa. A consequência foi a proibição da escalada nos sectores por onde passa o caminho.
Em El Chorro, a escalada possui uma tradição muito grande e uma história consistente. De um dia para o outro, por razões puramente económicas, foram impostas duras restrições a uma actividade de natureza e aventura e promovida uma actividade de “multidão”. Como é evidente, a curto prazo e economicamente a região terá a ganhar, tal qual qualquer outro lugar turístico muito famoso. A longo prazo e relativamente ao ambiente de tranquilidade que sempre imaginamos existir num local natural, isso já é outro falar.
Surpreendentemente, com grande excepção para o “Caminito del Rey” e imediações directas, tudo nos pareceu semelhante às anteriores visitas. Nem nos esforçámos para tentar entrar no vale entre as gargantas, apenas para não desfazer a ilusão de serenidade.


"Serenidade"


Imediatamente, imaginámos linhas em secções de paredes onde ainda existem possibilidades para albergar novas vias. As linhas que escolhemos seguiam itinerários lógicos e intuitivos. “Será que aquilo ainda não foi escalado?” Depois dos “baldes de água fria”, nos Pirinéus e Culla, desejávamos ardentemente realizar (completar) alguma escalada.
No dia 6 de Janeiro, o nascer do Sol viu-nos a encordar na base do sector “Austria”, mesmo à direita de uma via equipada, muito repetida, chamada “Valentinis day”. O vento fazia sentir a sua presença e insinuava-se para todo o dia. Apesar do incómodo, desta feita estávamos decididos a não baixar os braços.


A iniciar o fantástico segundo lance da nova via.


A Daniela a emergir do primeiro largo. O vento obrigava a escalar com o blusão de penas posto.


Nos últimos anos temos visitado o El Chorro porque, paradoxalmente, este é maioritariamente conhecido para a escalada desportiva. O facto de quase toda a gente visitar estas paredes para desfrutar das vias desportivas, faz com que a escalada tradicional esteja relegada para segundo plano. Curiosamente, estas paredes possuem excelentes condições para a escalada de aventura. A rocha é generosa em possibilidades para protecções volantes e existem linhas capazes de satisfazer os apetites por vias longas mais vorazes – como os nossos!
A escalada desenrolou-se por diedros e placas cinzentas muito evidentes e de dificuldade moderada. Apesar de termos escolhido uma secção de parede sem qualquer via desportiva por baixo, íamos com cuidado para evitar deslocar alguma pedra. Aqui, a limpeza “a fundo”, é de todo desaconselhada.
Quatro longos lances depois, alcançamos o “jardim” de rampas que precede a parede final, vertical e pejada de fissuras que tornam difícil a decisão de por qual subir.


A entrar no terceiro lance da via.


A desfrutar dos últimos diedros fáceis da primeira parte da escalada. 


Um pontinho avermelhado avista-se no alto do quarto lance. fantástica rocha cinzenta e aderente.


A Daniela avistou a linha mais apelativa e lógica. Uma fissura diagonal para a esquerda que logo terminava numa secção mais difusa e difícil de analisar desde baixo.
Um mega-lance com quase 55 metros revelou-se o mais difícil e demorado. A fissura inicial deixou-se conquistar sem grandes histórias mas, uma pequena chaminé central teimava em querer empurrar para fora o corpo do escalador. Foi um pequeno osso duro de roer, que se complicou ainda mais um pouco mais acima. A rocha deteriorou-se e uma passagem obrigatória em terreno extra-prumado e decomposto travou o meu progresso. Após longos minutos de luta e indecisão, resolvi finalmente colocar um perne de 8mm, suspenso num piton de rocha muito duvidoso. “Desde que não respire com muita intensidade…” Agarrando sem pudor a expresse colocada na novíssima plaquete, alcancei uma boa fenda e coloquei um sólido camalot 0,75. “Já está!”



Dois momentos no difícil quinto lance, o "crux" de toda a via.


Um último largo colocou-nos no cimo da parede. O Sol já tinha desaparecido e o lusco-fusco adivinhava apenas uma restante meia hora de luz. À pressa, realizámos a habitual “foto-cume” e “corremos” para a árvore mais próxima com a intenção de abandonar uma cordeleta para rapelar por um canal evidente. Aqui não existiam reuniões equipadas e a nossa ideia era descer em dois rapeis até às rampas para depois alcançar as reuniões da “Valentinis day”. Tínhamos que ser rápidos pois os frontais estavam no final das rampas, no interior das pequenas mochilas abandonadas no sopé dos dois últimos lances.
Quando acendemos os frontais, abaixo de nós, perto do topo da “Valentinis”, uma série de pequenos olhitos reflectiam as luzes das lanternas. Eram as cabras selvagens de El Chorro, que seguramente estariam curiosas com as nossas estranhas movimentações nocturnas. Restava-nos utilizar as reuniões perfeitamente equipadas, descendo em direcção a um bom jantar no bar “El Kiosko”. Terminámos em beleza um longo dia com doze horas de acção.
Como não encontrámos quaisquer vestígios de anteriores passagens, supomos que os seis lances de escalada que perfizeram uns 260 metros de escalada correspondam a uma nova via. Com a “Clássica do vento” expurgámos a impressão de não conseguir concluir uma ascensão, durante esta viagem.

No dia seguinte acordámos meio emperrados. Os dedos estavam inchados e o corpo um pouco amassado. Os meus tornozelos, curiosamente, não se queixavam muito.
Animados pelas previsões de subida da temperatura, resolvemos tentar outra linha que tínhamos avistado dois dias antes. Estacionamos a carrinha a poucos minutos da base da via em questão. Em contraste com outras paredes, por aqui as aproximações são praticamente inexistentes. Genial!
O objectivo desenhava-se ao longo de um esporão com uma lógica impressionante. Mais uma vez nos interrogámos se a linha teria sido escalada. Naquele preciso momento pouco importava. A decisão estava tomada.
A temperatura estava ligeiramente mais alta que no dia anterior mas, uma capa de nuvens cobria o céu, mesmo por cima da serrania do Chorro. O tempo teimava em não nos deixar despir qualquer forro. Seria mais um dia de escalada invernal.
Logo no início do segundo lance, um passo exposto travou o progresso da escalada. “Lá se foi a ideia de subir rapidamente e sem muitas paragens.” Tardei bastante em resolver aquela passagem, ao ponto de considerarmos o abandono da via naquele dia. No entanto, tal como no dia anterior, lá topei uma pequena fissura que albergou um piton muito precário, inaceitável para arriscar a progressão, mas suficiente para descarregar o meu peso e poder libertar as mãos para martelar um expansivo de 8mm. Alguns minutos depois, restaurada a confiança (e realizada a passagem) a decisão de continuar retornou aos nossos espíritos.



Logo no segundo lance, surgiu um osso duro de roer. As dificuldades obrigaram à colocação de um expansivo. O único de toda a via.


Ultrapassámos o terceiro lance longo (50 metros) através de um diedro muito lógico, com alguns blocos encaixados que requereram atenção especial, desembocando numa curta fissura diagonal que constituiu o “crux” da tirada.



Dois momentos da Daniela a escalar o aéreo terceiro largo da via.


A emergir no esporão do penúltimo lance.


Uma trepada fácil colocou-nos no pequeno colo entre a parede principal e a torre destacada onde termina a via “Navegador”. Neste ponto, dado o cansaço acumulado do dia anterior ainda considerámos terminar por ali a nova via e descer em rapel através da “Navegador”. Contudo, escalávamos uma linha muito natural e óbvia que pedia para continuar até ao cimo de toda a parede.
Por vezes, ao longo da nossa vida, escalamos vias que valem pela sua beleza de movimentos, ou pela suprema qualidade da rocha, mesmo que sigam itinerários não tão óbvios e quiçá algo forçados. Outras vezes, é a própria rocha que nos indica qual o caminho a seguir. Nesses momentos, quando é a parede a decidir, a escalada torna-se numa actividade perfeita.
Três lances depois, incluindo uma aresta fácil mas muito estética, alcançámos o topo da parede.


A aresta final, fácil mas estética.


Cume!

E a obrigatória... foto-cume!


Mais uma vez, ao longo de seis largos, não descobrimos nada de nada no tocante a artefactos de escalada abandonados, o que nos faz supor que também esta se trata de uma nova via. Devido às características particulares do itinerário, resolvemos baptizar a linha com o nome de “El Chorro Alpino”.
Em contraposição com o dia anterior, desta vez iriamos descer a pé, utilizando um cómodo trilho tranquilo e sem história, com tempo ainda para saborear duas belas “bocatas” bem recheadas, com vista diurna para as paredes preciosas de “El Chorro”.


Paulo Roxo


Os topos:








segunda-feira, outubro 05, 2015

A lição

A LIÇÃO... 



Shivling com aspecto Invernal.


Passaram nove meses desde o acidente.
Um pequenino pedaço de rocha sedimentar, formado há muitos milhares de anos, esperava pacientemente, imóvel, até que, no dia 21 de Dezembro, a minha mão esquerda resolveu agarrá-lo. Um simples acto, um simples gesto e… todos os planos mais próximos alteraram-se radicalmente, violentamente.
As pedras não pensam, simplesmente… estão lá. Volvidos estes meses, dou por mim a pensar se aquele insignificante pedacinho deste planeta não estaria destinado a ser arrancado da sua posição, naquele dia, durante um segundo de desatenção. Um pedacinho que sobreviveu milénios, até finalmente sair disparado e, com ele, levar-me também no seu inevitável trajecto, até ao solo. As pedras não pensam, nem sentem, nem sofrem, nem gritam, portanto, para aquele pedacinho de calcário, cair no chão, num baque seco, não significou nada. Para a pedra, todo o processo não passou de uma transição entre estados de equilíbrio, mas para mim…
A queda foi curta, pouco mais de dois metros, mas foi inesperada. A pancada foi dura. Senti-a com violência e imediatamente me apercebi que era grave. Gritei, gemi como uma criança. Chorei. Senti-me desfalecer. Teria chegado a hora? A HORA? A ansiedade deixou-me tonto e, de repente, a falta de ar…
O equipamento continuava perfeitamente organizado no meu arnês. Nem tinha tido tempo de colocar uma única protecção entre mim e o chão. Um metro mais acima e, provavelmente, nada tinha ocorrido. Foi uma queda de escalada ridícula, curta e sem glória.
O João Gaspar abraçava-me, fazendo tudo por tudo para me confortar e acalmar. O Fernando Pereira já tinha agarrado o telefone para ligar para o 112. Entre choro e pânico, enfureci-me comigo próprio. O pensamento viajava entre várias imagens, nenhuma agradável: “Como foste deixar acontecer isto? Outra vez…”, “112, Bombeiros, Hospital…”. Pensei na Daniela, no susto que lhe iria dar… outra vez. Pensei na minha mãe, na tristeza que lhe iria provocar… outra vez. Pensei, repensei e, ofegante, tentava recompor-me. Ainda nos braços do João, ouvia-o dizer repetidamente: “Não durmas, não durmas!” - Agradeci ter ali um amigo, tão perto - Mas eu não dormia. De olhos fechados, lembrei-me de respirar, profundamente, ritmadamente. Passados longos minutos, o pânico deu lugar a inspirações profundas, cadenciadas. Por vezes a ansiedade ganhava terreno e o irracional tomava as rédeas e aí, de novo, sentia-me desfalecer. Mas pouco a pouco, voltava a mim.
Ouvi a voz da Daniela. Já tinha chorado, eu sabia-o. Abraçou-me e beijou-me e disse-me algumas palavras para me acalmar. Nessa altura já tinha feito o “check-up” a mim próprio: mover os dedos dos pés, sentir as pernas. “Não estão dormentes!”, “Bom sinal, bom sinal!”
Horas no hospital. T.A.C. para verificar as fracturas. O prognóstico não era totalmente mau. Fracturas em duas vertebras lombares, sem atingir a medula, uma micro-fractura na bacia e uma (“desdenhável”) fractura do metatarso do dedo mindinho do pé esquerdo, que mereceu gesso até ao joelho. A mazela menos grave tornou-se na mais impressionante visualmente. Previsão: três semanas deitado numa cama, depois, levantamento para cadeira de rodas, depois, transição para muletas, depois, transição para uma única muleta, depois, reaprender a andar, depois…
Os pais da Daniela, a Maria da Luz e o António Teixeira, a quem estarei eternamente grato, cederam o seu quarto e a sua cama e, durante dois meses, transformei-me no hóspede principal.
A Teresa Leal e o João Gaspar tornaram-se nos amigos incansáveis que ajudavam em tudo ao seu alcance. Temo que nunca irei poder pagar esta dívida de sangue.
A Daniela transformou-se, de um dia para o outro, numa profissional de enfermagem dedicada e atenciosa. As suas valências implicavam todo o tipo de assistência. Os médicos coincidiam na opinião de que devia manter-me deitado e mover-me o menos possível. O mais dramático de se estar acamado eram as “não-idas” à casa de banho. Sentia-me a personagem principal de uma comédia trágica. O problema era que a peça teatral envolvia o ritmo de vida de toda a gente que me rodeava. E a Daniela, ali estava, sempre comigo, sempre a acarinhar, sempre presente. Os dias foram passando, longos e intermináveis. Transformaram-se em semanas.

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A primeira volta de cadeira de rodas foi celebrada na esplanada do café da esquina. Enquanto a Daniela foi buscar os cafés, eu apreciava as nuvens que atravessavam o céu. Sempre gostei das nuvens. Apesar de me encontrar em ambiente urbano, aquele bocadinho de natureza trazia algum alento. As nuvens constituem excelentes metáforas de liberdade. Formam-se onde quer que seja, não obedecem a amarras e viajam para onde querem, ao sabor do vento. Voam livres, sobre todos os países, sobre todos os povos. Aquela primeira saída à rua, depois do acidente, transportou-me para um desses momentos fugazes de liberdade. Não deixa de ser irónico serem por vezes as más experiências da vida que despertam para os pequenos detalhes, aqueles que realmente importam. Num breve instante, tinha-me juntado àquela nuvem, a caminho do horizonte incerto.


A primeira voltinha.


As sessões de fisioterapia acompanharam as pequenas caminhadas e saltitar agarrado a umas titubeantes muletas tornou-se parte da minha rotina. Os meses iam passando.
Este não foi o meu primeiro acidente de escalada. O primeiro ocorreu há quase 25 anos. Desse acidente, possuo memórias físicas, mas poucos traumas psicológicos. Já foi há muito tempo. O tempo possui um mágico condão de relativizar tudo. Uma dor imensa, transforma-se numa recordação longínqua, presente, mas digerível. O tempo ensina a conviver com os próprios demónios e fantasmas.
Daquele acidente, em Fevereiro de 1992, já não me recordo das dores, essas desvaneceram-se com o correr dos anos. O que retenho é uma lição e uma decisão. Era jovem e os sonhos fluíam a um ritmo frenético. As dúvidas existencialistas também. Naquela altura, as duas pernas partidas num voo de escalada em gelo, nos Pirinéus, obrigaram-me a reflectir sobre as consequências de perseguir uma quimera. Valeria a pena escalar montanhas?
Segundo o médico-cirurgião - que me operou e atarraxou alguns dos parafusos que ainda hoje possuo nos tornozelos - eu “jamais iria voltar às escaladas”. Hoje em dia, estranhamente, esqueci quase por completo as dores físicas do pós-operatório. O que recordo com clareza, são as lágrimas vertidas naquela cama de hospital, na noite seguinte à “certeza absoluta” vaticinada pelo médico.
Uma velha crença dos alpinistas dita que os anos de afirmação são os primeiros cinco anos de actividade. Ou seja, durante esses primeiros anos, um tipo anda constantemente a questionar se o esforço, os sacrifícios e, sobretudo, o risco, valerão mesmo a pena. “É isto que eu quero?” Segundo a crença, após os cinco anos, ou desistes e partes para outra, ou o alpinismo entra-te na corrente sanguínea, como uma doença crónica da qual já não podes escapar.
Em 1992, eu fazia pouco mais de cinco anos de actividade. Encontrava-me no limiar da decisão suprema. “Continuar ou não?” Amargava-me a ironia de me ter oferecido uma queda meteórica e aparatosa, em pleno inverno, no célebre corredor de Gaube, para colocar em causa a minha capacidade de compromisso com o alpinismo. Contudo, ali estava, deitado, engessado, com muito tempo para pensar na vida.
Só larguei baba e ranho durante uma noite e a decisão estava tomada. O médico bem podia ir bugiar e levar com ele as suas opiniões de mau agouro!

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Agora, via-me confrontado com uma repetição do dilema. Dispensaria de bom grado esta nova lição. Lição?
Em 1992, aprendi várias lições e tomei decisões cruciais que decerto mudaram o rumo da minha vida. Mas agora, volvidas mais de duas décadas, honestamente, custa-me descobrir qual é a lição a aprender. Tenho muito mais experiência que naqueles anos, já experimentei todos os tipos de terrenos imagináveis, sinto-me muito mais cauteloso e a minha capacidade de análise do risco nas montanhas é infinitamente superior. No entanto, o peso de toda uma “escola” não evitou o acidente. A queda deu-se logo no início da escalada e podia ter acontecido em qualquer sector de escalada desportiva, imediatamente antes de alcançar a primeira protecção.
Desta vez não identifiquei qualquer erro, não protegi de forma deficiente (nem tive tempo), não estava distraído (creio), não escalava em terreno que não dominava… e aconteceu!
Em jeito de conclusão sou obrigado a citar uma verdade de “la palice”, bem retratada na terminologia popular, que diz: “Tantas vezes vai o cântaro à fonte, que acaba por se partir”. Talvez seja isso. Talvez os grandes desígnios do destino, que sempre buscamos quando acontecem coisas graves, se resumam a um simples facto, tão insípido, quanto realista. A verdade, retratada num prosaico ditado popular.


A Daniela Teixeira na face sul do Kapura, em plena abertura da "Sonhos intermináveis". Ao fundo, um mar de montanhas dos Himalaias, tudo por explorar.


Às páginas tantas, a verdade pode muito bem passar por uma gigantesca roleta universal que vai rodopiando até parar aleatoriamente, num nome qualquer, sem olhar a experiências, vivências ou credos.  
“Escalar é arriscado”. “Escalar é perigoso”. “Ao escalar podes morrer”. Então porquê continuar? Para quê dedicar-te a uma actividade que te pode matar?
A verdade é que não tenho uma resposta convincente.
“Convincente?!” Pensando bem, quem quero eu convencer, senão a mim próprio?
Este novo acidente que me podia ter morto ou (pior) colocado numa cadeira de rodas para sempre, fez-me reflectir bastante acerca das consequências de algumas das nossas escolhas e rumos. Por mais que afirmemos que são as NOSSAS escolhas, que é o NOSSO rumo, a verdade é que as decisões irão implicar aqueles que nos são mais próximos. Na verdade, quando penso nisso (como agora a escrever), sinto alguma confusão. Uma espécie de conflito interno, um digladiar de posições. Neste alvoroço mental, uma coisa parece certa: tentar justificar as minhas escolhas com argumentos da lógica e da razão, parece-me uma tarefa impossível. Com o tempo aprendi que é inútil tentar procurar razões para que pessoas que não se identificam o mais mínimo com estas actividades, compreendam porque andamos a trepar pedras e montanhas. Na eventualidade extrema de um acidente, tentar oferecer uma explicação baseada na lógica chega a atingir contornos ridículos. Tudo o que se consegue balbuciar soa a desculpa esfarrapada e ficamos sempre com a sensação que o interlocutor vira a esquina mais próxima a murmurar: “Este tipo é doido!”
Talvez escolha continuar porque, para mim, a escalada e o alpinismo são os componentes de uma forma de arte. Uma combinação poderosa entre as maravilhas da natureza, a aventura e a filosofia. Um emaranhado de conceitos muito difíceis de traduzir. Algo a que me agarro com unhas e dentes, para apaziguar um certo sentimento de culpa latente, por arrastar outros, sobretudo os que me são próximos, a viver as consequências das minhas acções. A aflição na cara da Daniela, quando me encarou prostrado no chão, naquela tarde de Dezembro, rebota no meu cérebro e acaba por escorregar até ao estomago, onde se acumulam sempre todas as apreensões. Que fazer então? É um dilema sem resposta. As palavras não bastam.

Penachos de neve saem das arestas das montanhas, projectadas pelo vento dos Himalaias. A silhueta imponente do Shivling domina a paisagem. Ao fundo, ergue-se o pico Meru. Por detrás do meu ombro esquerdo, não muito longe, ali está, a mole de aspecto intransponível dos Bhagirathi. O planalto do campo base encontra-se coberto por um manto de neve recém-caída. A Daniela encontra-se sentada, em posição de lotus e de costas para mim, em meditação, voltada para a montanha. O silêncio envolve tudo, quebrado apenas por uma suave brisa que levanta milhares de cristais de neve, que cintilam ao serem trespassados pela luz de um sol intenso. Aqui, realmente, é possível cheirar a paz. A mente esvazia-se. A montanha… fazemos parte dela. Fazemos parte de algo grandioso. Somos mera poeira das estrelas mas, tal como as montanhas, transformamo-nos no elemento mais importante de todos. Nós e o mundo. Somos as montanhas! Impossível explicar estas emoções simples e simultaneamente complexas com palavras. Um novo olhar para os cumes gelados… uma pequena gralha negra corta o meu campo de visão, flutua graciosa ao sabor do vento e, de súbito, sem sequer tomar a consciência, acabo por descobrir aquilo que busco. Em breves instantes, consigo avistar a razão… a minha razão.


Paz!



Após meses sem escalar uma pedra, a Daniela e eu, retornámos à nossa querida Serra da Estrela. A pouco e pouco, vai-se retomando o equilíbrio e o ritmo da vida.
Ainda não me encontro a cem por cento e, honestamente, não creio que lá consiga chegar. Contentar-me-ei com uns bons noventa por cento. Já me sentirei nas sete quintas se puder retornar ao mundo das altas montanhas, com mais ou menos dores.
Entretanto, voltámos à escalada de exploração e já abrimos algumas vias. Curiosamente, na parede, sinto-me muito estável e tranquilo. Aparentemente o acidente não criou nenhum impacto na confiança. É possível que o treino mental a que me obriguei durante a recuperação (“Não ficarás com trauma! Não ficarás com trauma!”) tenha ajudado a alcançar este estado de espírito.
Suspeito porém, que a razão fundamental para a aparente tranquilidade em actividade, seja a aceitação simples de que “isto” é o que me define. “Aceita e vive bem com a tua decisão!”

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A nuvem desapareceu de vista, escondeu-se por detrás de um prédio cinzento. A nuvem é livre, não liga a fronteiras, faz parte de um todo muito mais importante, faz parte do planeta, da natureza e das maravilhas. Talvez aquela nuvem alcance as montanhas, ou talvez não. A nuvem é livre… a Daniela chegou com os cafés. Olho para ela e intimamente agradeço conhecer o amor. Pouco depois, sou de novo empurrado para casa na cadeira de rodas. Sinto-me tranquilo…
…vi a nuvem.


Paulo Roxo



A lua cheia ilumina o campo base do Shivling. Por detrás, os imponentes Bhagirathi. E as nuvens... essas vão.

quinta-feira, agosto 06, 2015

Livro

SERRA DA ESTRELA, MONTANHISMO E ESCALADA INVERNAL. 
O LIVRO





O livro “Serra da Estrela, Montanhismo e Escalada Invernal”, é o primeiro guia que documenta em detalhe todos os Corredores de neve, Cascatas de gelo e vias de Escalada Mista existentes na Serra da Estrela.
Este é um trabalho único que abrange todo o espectro das dificuldades técnicas, desde simples ascensões de montanhismo para desfrutar de um belo dia em terreno nevado, passando pelas singulares e verticais escaladas em gelo, até às mais difíceis vias que combinam a neve, o gelo e a rocha.
Distribuídas por mais de 180 páginas, encontram-se as descrições dos itinerários com croquis desenhados sobre fotografias, descrições dos acessos, informações acerca do equipamento necessário e muitos outros conselhos úteis.
Várias fotografias de “acção” ilustram bem todo o contexto.
Para além dos aspectos técnicos para consulta e utilização no terreno, o livro inclui vários textos sobre escaladas Invernais vividas pelo autor e outros protagonistas, assim como histórias de acontecimentos caricatos, lendas fantásticas e curiosidades do imaginário de gerações de pastores e aventureiros.





FORMA DE APOIAR


Neste momento o guia “Serra da Estrela, Montanhismo e Escalada Invernal” está terminado e pronto para imprimir.
Falta no entanto o financiamento necessário para a sua publicação. Foi criada uma campanha para esse fim.
Para apoiar este projecto compre antecipadamente o livro (com uma dedicatória personalizada do autor) – 25 euros (incluí portes).
A aquisição do guia deverá ser realizada por transferência bancária para o NIB 003 508 480 000 666 316 102, e o comprovativo deverá ser enviado para o email: paulo.alpinismo@gmail.com, indicando o nome  e a morada. Confirmação da recepção garantida pelo autor.
O objectivo é publicar o livro até ao dia 30 de Outubro, para poder ser desfrutado e utilizado já no próximo Inverno. O dia exacto da publicação dependerá do montante conseguido durante a campanha de angariação de fundos. Estando reunidas as condições financeiras necessárias, a edição será efectuada antes da data mencionada.



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Publicite a sua marca ou empresa nas páginas do livro destinadas para tal. Para preçário e mais informações contactar directamente o autor através do email: paulo.alpinismo@gmail.com





MEMÓRIA HISTÓRICA


A Serra da Estrela é a única que possui condições para o Montanhismo e Escalada Invernal no território Português. Trata-se de um diamante raro que merece ser considerado e respeitado.
Existem relatos escritos de actividades de montanhismo na Serra da Estrela desde finais do século XIX. Ao longo das décadas e atravessando vários estágios políticos e sociais, o montanhismo nos “Montes Hermínios” foi criando as suas raízes e a sua própria biografia. As gentes locais, as lendas, o montanhismo, a escalada e a Natureza, interligam-se de uma forma notável, criando uma narrativa única que associa em muitos aspectos o mundo real com o imaginário.
Este guia constitui uma singela homenagem aos que, ao longo dos tempos, se dedicaram a explorar as paisagens agrestes e selvagens desta montanha, ficando como um testemunho do que existiu e existe na “nossa” Serra da Estrela.
Quem adquirir este livro estará também a contribuir para o resgate e conservação da memória histórica de uma actividade profundamente enriquecedora.


Paulo Roxo





segunda-feira, maio 25, 2015

Padaria


A GRANDE AVENTURA FARINHENTA DA ARRÁBIDA. A "PADARIA"



- Epá! Ando mesmo a precisar de uma daquelas aventuras “à séria!” - desabafou o João, interrompendo a nossa conversa aborrecida acerca de acidentes, incidentes e mazelas várias.
- E já tens ideia da parede? - perguntei-lhe, enquanto tentava equilibrar-me nas “muletas”. Já estava num estágio mais avançado de recuperação do acidente mas, as aventuras verticais ainda não se vislumbravam no meu horizonte. - O Fernando é a pessoa ideal para te acompanhar!
- Sim, estava a pensar nele. Estás a ver aquela parede do Fojo, mesmo à direita da “Figos prós amigos?” – com o dedo, o João aponta a palma da mão direita, voltada para baixo – “Imagina uma via a atravessar aquele tecto gigante. Seria espectacular!”


A bela falésia!


A Parede dos Figos, na Serra da Arrábida, constitui uma das paredes mais remotas da nossa geografia. O que não quer dizer que esteja muito distante da civilização. Sem utilizar cordas, o único acesso existente para alcançar a base daquele pilar de calcário, é pelo mar. Adoptar o acesso por cordas requer algum planeamento e uma certa logística. Não existe propriamente uma linha de rapel que permita aceder comodamente à base da parede. Consequentemente, escapar dali também pode ser bastante complicado. Perante estas dificuldades, não se torna difícil compreender o considerável grau de compromisso envolvido. Mesmo assim, curiosamente, a “Parede dos Figos” já possui um bom número de vias de escalada. No entanto, todas elas foram equipadas desde o cimo e são vias “desportivas”.
Agora, a intenção era abrir uma nova via, desde baixo e, recorrendo o mínimo possível aos expansivos. Seria a primeira via do género, naquela parede, embora tenha havido uma anterior tentativa protagonizada pelo Ricardo Nogueira e por mim em 1998, que fracassou logo no segundo lance.


Fantásticas brumas matinais, num lugar mágico.


No dia 26 de Abril, o João Gaspar e o Fernando Pereira, iniciaram o trilho que se dirige para o topo da falésia, carregados com pesadas mochilas. Após alguma deliberação, a sua decisão foi a de instalar duas cordas fixas, entre a “Parede dos Figos” e a “Parede Branca”, como forma de ter uma linha de acesso e retirada – a jumarear! – durante o assédio.


A iniciar os rapeis de acesso à baía isolada. O plano "B" de acesso ou retirada às costas.


O Fernando iniciou as hostilidades e o que se seguiu foi um lance de escalada nervosa com um crux um pouco exposto, que foi resolvido em artificial.
Sem tempo para mais nesse dia, o Fernando desceu e tratou de sanear os blocos e pedras maiores, de forma a tornar a escalada mais “humana”.
Inicialmente, existiam duas estratégias possíveis para realizar a aventura. Uma das formas seria dormir junto à parede, desfrutando de umas noites bucólicas embaladas pelo “chap, chap” do mar tranquilo. Outra das hipóteses seria, no final de cada jornada, jumarear as cordas fixas e ir dormir a casa. A primeira hipótese seria a mais romântica e a segunda a que envolvia menos dores de cabeça em planeamentos. «Não nos apeteceu muito carregar o fogão, comida, sacos de dormir, colchonetes e demais parafernália para ir “viver” na parede. Por outro lado, a ideia de um jantarito como deve ser, acompanhado de uma “jola” fresquinha ou um vinho bem servido, também nos atraía bastante!» Se dúvidas houvessem, a ultima ilustração encarregava-se de as fazer cair por terra.


O Fernando a iniciar o primeiro lance.


O João a terminar de escalar o primeiro lance.


No dia seguinte, após “rapelar” as cordas estáticas, fixas para o acesso e, jumarear a corda de escalada, fixa na via até à primeira reunião, cabia ao João a responsabilidade de abrir o lance seguinte. O que encontrou foi uma rocha muito boa mas, de protecção precária. Felizmente, os micro-entaladores fizeram a sua função principal que consiste em providenciar alguma paz de espírito, animando o escalador a continuar, esperançado que o material aguente “o tranco”, produzido por uma hipotética queda. Nessa altura, os dois escaladores já tinham desistido da ideia de enfrentar o grande tecto “mesmo em frente” pois, obrigaria a gastar ali, todas as reservas de pernes e plaquetes disponíveis, o que entraria certamente em conflito com um dos objectivos almejados que consistia, precisamente, em furar a rocha o mínimo possível. 


O aspecto da primeira reunião.


De forma a alcançar um troço do tecto que permitisse a colocação de protecções naturais, o João realizou uma travessia, alcançou uma figueira característica e, pouco depois, concluiu o lance com um destrepe delicado em diagonal. Suspenso num gancho, o João içou a máquina e colocou os dois pernes que correspondem à segunda reunião da via. Quem não gostou muito da travessia final foi o Fernando que, ao retirar todo o equipamento, deparou-se com um destrepe desprotegido de arrepiar todos os cabelinhos. A duras penas e meio equilibrado em nada, o Fernando conseguiu colocar um novo perne, de forma a reduzir o grau de exposição daquele troço.


O João a iniciar o segundo lance, uma placa que prometia.


O Fernando assegura atentamente.


O João a chegar à figueira "salvadora". A segunda reunião viria a ser colocada ao virar da esquina, fora de vista.


Entretanto, algo se passava com o João. Não se sentia bem e, jumarear as cordas de escape, representou um esforço extremo. Mais tarde, em tom de graça o João dizia: “Estivemos para chamar uma equipa de resgate, tão mal me encontrava!” Nessa noite a febre atacou em cheio e o termómetro disparou para uns preocupantes 39º. Pensaram em adiar a aventura mas, o Fernando tinha-se esquecido da sua carteira com toda a documentação, no interior do petate, que se encontrava pendurado na segunda reunião da via. Os caminhos do azar tinham-se encarregado de obrigar os escaladores a retornar no dia seguinte. No mercy!
Felizmente, no dia seguinte, a febre do João tinha baixado e, lançaram-se de novo ao ataque embora a horas mais tardias. Desta feita, adoptaram outra técnica de acesso. Um pequeno bote de borracha, providencialmente deixado junto ao Fojo da Arrábida, serviu como veículo para chegarem à base da parede. Remar até ao grande projecto revelou-se uma alternativa bem mais divertida que a trabalheira de subir e descer as cordas fixas na falésia.


"Isto sim, é um acesso!"


Apesar das intenções iniciais de “ir apenas para recuperar a carteira do Fernando”, quando alcançaram a reunião, não resistiram ao factor: “já que aqui estamos.”
Era a vez do Fernando e calhou-lhe enfrentar o grande tecto que prometia uma dura luta de escalada artificial. Lentamente, laboriosamente, os pequenos friends e entaladores foram sendo instalados, testados e utilizados. Ía nascendo uma bonita costura que atravessava o grande tecto.


O Fernando a atacar o terceiro largo. Logo a seguir: "Artifo by the book!"


De repente: “Um friend solta-se e lá vai um Fernando voador para o vazio! Deu para perceber bem a sua emoção e foi uma bela imagem! Felizmente o entalador seguinte (embora precário!) susteve bem a queda. Depois de respirar um pouco e de se recompor, o rapaz lá voltou à sua tarefa… com vontade!”
Como as “conquistas” em técnica de escalada artificial são morosas, o dia “útil” terminou e, um perne estratégico serviu para fixar a corda, descer e deixar tudo preparado para a seguinte jornada.
Um bom jantar, algumas anedotas e uma noite bem dormida, precederam um novo ataque à parede prometida.


O Fernando, logo após o voo inesperado.


Agora, os escaladores estavam decididos a ultrapassar o grande tecto. As dificuldades mantinham-se austeras e encontrar boas fissuras, buracos e buraquinhos, revelou-se a maior dificuldade da missão. “No segundo dia, a progressão foi bem mais lenta do que no primeiro dia, pois havia partes de rocha bem instáveis e o Fernando demorou a conseguir superar alguns obstáculos difíceis mas, finalmente, conseguiu dobrar o tecto. Nesse ponto não via, nem ouvia o Fernando. Só via chover televisores e outros elctrodomésticos, até que, por fim, lá ouço o grito há muito esperado.” O Fernando tinha conseguido alcançar um nicho adequado para montar a reunião. 


Sessão de "jumareanço" com ambiente.


O Fernando, atarefado com a "conquista" do grande tecto da via.


O João, começou a desmontar as coisas e a preparar-se para iniciar a escalada atrás do seu companheiro. «Por meu lado, pensava que tinha a tarefa facilitada por ir em top mas, foi mais difícil do que esperava. A sujeira continuava a ser muita e o “desplome” era muito pronunciado, pelo que se tornava difícil a recolha do material... fui obrigado a colocar novos pontos várias vezes, para poder recolher os anteriores!»
Vencido o grande tecto, faltava o resto da parede. O dia esgotara-se e já não havia tempo
disponível para mais escaladas, limpezas e emoções verticais variadas. A conclusão do projecto foi adiada por uma semana.


"Aí vai o Petateeee!"


O João em segundo de cordada, a desmontar a duras penas o equipamento de progressão.


O rapel de categoria, desde a ultima reunião do dia.


Como forma de agilizar a logística de acesso, os dois escaladores resolveram aceder à sua última reunião através de um rapel diagonal desde o topo da falésia. A abertura do lance seguinte era da responsabilidade do João. Após uma curta tirada nervosa e algo exposta, que serviu como acesso aos lances seguintes, o João escalou um diedro e continuou por um esporão de presas excelentes que constituíram “momentos de puro prazer!” - apesar da sujidade sob a forma de uma areia fina, tipo farinha, que cobria praticamente todas as presas. A parede mantinha um cariz de extra-prumo e, essa característica não permitia que a água da chuva a lavasse de uma forma natural. Mesmo assim, o João conseguiu encadear devidamente o lance e, algum tempo depois, alcançou a pequena plataforma de reunião que ficou equipada com dois pernes.


O João, a escalar a pequena mas, exposta, travessia de acesso à ultima parte da via.


O João a escalar o belo quinto lance da via.


Uma das reuniões características.


Pouco depois de se juntar ao João, o Fernando começou a organizar o material no arnês, preparando-se para enfrentar o lance seguinte. «Sabe-se lá porquê, ao Fernando saíram sempre os largos em que foi necessário recorrer às “artimanhas” do artificial». Horas depois, estava ultrapassada uma placa bonita… e dura. O João resolveu experimentar “liberar” aquele lance. «Em top-rope, consegui realizar todos os movimentos em livre, embora sem encadear, pois tem um “crux” bastante duro que é preciso ler bem (algo difícil, ao mesmo tempo que recolhia o material). No entanto, deu para entender que nunca será menos de 6c+ ou 7a.»


O Fernando, no penultimo largo. A dificuldade mantinha-se constante.


Com o decorrer das horas, fazia-se tarde e, um último lance bastante mais fácil marcou o final da escalada. O abraço de “cume” assinou o termo daquela aventura vertical. “Neste último largo já não há fotos. Estávamos tão alegres que nem nos lembrámos de fazer uma foto de cume! Mas registamos na memória esses momentos bem passados.
Foi com um belíssimo pôr-do-sol que regressámos a casa!”


Paulo Roxo


Ficha Técnica

PADARIA
João Gaspar e Fernando Pereira entre os dias 26 e 29 de Abril e 5 de Maio de 2015


Como cada um dos lances têm a sua personalidade, resolveu-se atribuir-lhes nomes próprios.

L1. “Broa de Calcite” – 30m, 6c/7a
L2. “Figueirinha Implacável” – 15m, 6b
L3. “Febre Artifóide” – 25m, A2+/A3
L4. “Largo Curto” – 10m, V
L5. “Largo da Farinha” – 40m, 6b+
L6. “Largo Mitrado” – 25m, 6c+/7a
L7. “Sandochas” – 25m, V+/6a


Material:

Dobrar friends até ao nº4, Micro-friends essenciais, Jogo de entaladores, Tricams úteis, Fitas com fartura e estribos.
Não será má ideia levar um pequeno petate e uma “tag-line”.


Notas:

- As distâncias não foram medidas com exactidão mas a via terá aproximadamente 170 metros com as respectivas curvas. Na vertical, a parede tem uns 120 metros.
- Instalou-se 13 pernes no total. 1 na R1, 1 à chegada da R2, 2 na R2, 1 à saída da R2, 1 a meio do tecto, 2 na R3, 2 na R5, 1 a meio do L5, 2 na R6.
- Foram usados alguns pitons no L1 e para reforço da R4, todos foram removidos pelo que será aconselhável (não obrigatório) levar uns “pitonitos”…
- Os aberturistas acreditam que não irão surgir muitos voluntários para repetir a via, no entanto, consideram que a “Padaria” vale a pena pela aventura. Acreditam que pode ser forçada em livre depois de passar muita gente (!) e/ou ser convenientemente limpa.

Pede-se encarecidamente que, se por algum acaso, passar alguém por ali: Feedback, please!


Croquis:




Todas as fotos são da autoria do João Gaspar e Fernando Pereira