quinta-feira, janeiro 09, 2014

A abertura da época Balnear

A ABERTURA DA ÉPOCA BALNEAR!
  E as sete inesperadas escaladas em gelo


 No final de um inesperado dia fantástico de escalada em gelo. "Vamos à janta!"
 


A escalada invernal na Serra da Estrela corresponde a jornadas húmidas, frias e incómodas. Depois de um dia de acção em vertentes de neve profunda, gelo precário ou misto molhado, sob um nevoeiro denso e vento intenso, o corpo sente-se encarquilhado, arrepiado, em suma: cansado. Quando acontece desta forma, os espíritos mais incautos ou alguns principiantes nestas lides, são convidados a debandar para paragens mais quentes, em busca de actividades mais confortáveis, menos adversas. Os teimosos, esses, retornam. Enchem as mochilas de equipamento afiado, de índole medieval, vestem as armaduras “Hi-tech”, maleáveis e impermeáveis e voltam a enfrentar os elementos, abraçando o frio e a dor. Mais que uma vez, foi assim que aconteceu e, decerto acontecerá de novo.
No entanto, por vezes… não é assim. Por vezes…


 O Covão Cimeiro, desde o topo do "Corredor Largo".


Como noutras ocasiões, viajamos para a Serra da Estrela sem grandes esperanças de concluir grandes actividades. A temperatura não conseguiu afundar muito na semana anterior e choveu torrencialmente no dia da nossa chegada, inclusivamente no cucuruto da montanha, ou seja, nos telhados dos “monstrengos” de betão que enxovalham o cume da serra.
Como costume, estacionamos em Penhas da Saúde, num local já adoptado para passar as noites. 


 Pequeno almoço de luxo no interior da nossa "micro-caravana", carinhosamente apelidada de: "Berlingota".


Pela manhã, a paisagem pinta-se de branco imaculado e a esperança de escalar qualquer coisa, nas condições invernais adequadas, retorna. Não alimentámos muitas expectativas de estrear os novos piolets em gelo puro mas, umas “cokinadas” valentes em rocha, coberta pela “colagem” de neve fresca, também iria servir para acalmar os nossos espíritos inquietos. No que toca às condições ideais, a Daniela e eu não somos muito picuinhas nem demasiado criteriosos. A ideia base é aproveitar aquilo que existe e adaptar-nos ao momento: neve, rocha, gelo… Gelo Verde! No Rules!
Tomamos café na “Varanda da Estrela”. É um café prolongado pois esperamos que abram a estrada que acede ao cimo, todo um clássico na nossa Serra da Estrela, cada vez que caem três ou quatro flocos de neve puxados a vento.

- Espreitamos as “Couves”? – sugiro, sem estar convencido e, na verdade, sem grande vontade de sair lá para fora.
À distância de um palmo, o vento violento dispara rajadas de neve dispersa, como que a tentar atravessar os vidros da carrinha.
- Ok. Vamos lá! – responde a Daniela, sem grande convicção.


 Um dia tipico na Serra da Estrela. "Escalamos?", "Mmmm... náá! Voltamos amanhã!"


O “Sector das Couves” é um dos mais acessíveis da Estrela. Encontra-se a uns meros cinco ou dez minutos da estrada e possui uma característica particular que o torna ainda mais interessante. Normalmente, este sector serve como bitola para aferir as condições para a maioria dos outros sectores. Muito embora a Serra da Estrela já nos tenha ensinado que a formação de gelo rege-se por ordens misteriosas e aparentes forças caóticas de previsões impossíveis, a existência do elemento água, sob forma sólida, no Sector das Couves, determina a existência do gelo noutros sectores. Abreviando, se ali não existisse gelo, não o iríamos encontrar em mais nenhum sítio.
Empurrados pelo vento forte, enxotados pelo granizo, analisámos a situação. As condições prometiam uma que outra aventura ao bom estilo “Scottish”. As “Couves” encontravam-se congeladas mas, sob uma camada fina e pouco prometedora. Nada que não estivesse já previsto, dadas as terríveis condições de humidade e calor dos dias anteriores. Não nos apeteceu viver um dia épico e húmido e decidimos pela debandada e pelo retorno no dia seguinte. E o dia seguinte amanheceu sem nuvens e mais tranquilo.


 Chão congelado a caminho de um belo dia.


 Da noite para o dia, com o cair brusco das temperaturas, o mundo transformou-se. A maravilhosa metamorfose da Natureza.


Metemo-nos de novo no “Corredor Largo”, convencidos que iríamos escalar uma via mista, sem depositar muitas esperanças no gelo puro.
Surprise, surprise! A Cascata das “Couves” encontrava-se em muito melhor estado que no dia anterior (de facto, até se tinha dividido em duas linhas distintas) e, mesmo à esquerda, no lugar onde no dia anterior escorria água, formou-se a clássica “Diedro de cristal”. Uma cascata formada assim de repente, literalmente, da noite para o dia!
- Boa! Vamos afinal estrear os piolets no gelo, yupii! – exclamou a Daniela, com os olhinhos a brilhar.


 "Não acredito, estamos a escalar gelo!" Via nº 1.


 Na "mais que clássica Cascata das Couves", desta vez, transformada em duas! Escalámos a versão da esquerda (na foto) e, pouco depois, escalámos a versão da direita (Via nº 2).


Algumas horas depois, tínhamos escalado três cascatas distintas, que aceitaram parafusos (curtos) como forma de protecção razoável.
Entretanto, os novos piolets passaram o teste, no seu terreno próprio! 


 O "Diedro de cristal" deu o ar de sua graça e recebeu as primeiras pioladas do ano. Via nº 3.


 A Daniela a escalar o "Diedro de cristal".


 Na saída do "Diedro de cristal".


Descemos um pouco mais na vertente de neve transformada. A chuva dos dias anteriores dera cabo de grande parte da neve que caíra até então mas, a que sobrou, transformou completamente, obrigando a um cuidado redobrado. Um escorregão inadvertido teria consequências pouco agradáveis.


 Pendentes do "Corredor Largo", bem transformadas.


Colocamo-nos por baixo da bela clássica “Dama oculta”. – Uau! – exclamámos entusiasmados. A parede encontrava-se totalmente coberta por neve congelada e gelo, entrecortada aqui e ali, por proeminências rochosas. A “Dama” estava transformada numa linha de aspecto técnico e que prometia experiências variadas, exactamente aquilo que buscamos numa escalada mista. O que se seguiu foi uma pequena aventura, onde não faltaram o gelo precário impossível de proteger, alguns passos mais técnicos e, bons gancheios em rocha, para os piolets. 


 A belíssima "Dama oculta", bem técnica e interessante. Via nº 4.


 A meio da "Dama oculta".


Depois das últimas dificuldades da via, em vez de retirar pela direita e destrepar, realizando a saída mais comum, continuámos para cima, encontrando uma reunião equipada e preparada para rapel, semi-escondida debaixo da capa de gelo. Eu equipei esta instalação, já lá vão uns bons anos e agora a sua existência tinha-se-me varrido da memória. Foi um bom reencontro. 


 A Daniela a iniciar a "Dama oculta"...


 ... e já no final a chegar à reunião.


Olhando para cima, descobrimos os últimos muros congelados. Um excelente convite para realizar um segundo lance lógico para a “Dama oculta”. Após uns 25 metros de escalada, com passos de cascata algo delicada mas, de desfrute, baptizámos o novo prolongamento como: “Dama longa”. Trata-se de uma bonita proposta, sobretudo quando a serra resolve reunir as condições ideais.


 "Ok, temos gelo, continuamos por aqui acima!"


 A negociar a bela variante de saída que prolonga a "Dama oculta".


 A daniela a sair da "Dama longa".


 Ainda na saída da "Dama longa".


 A chegar à reunião com um daqueles sorrisos de: "Espectáculo!"


No ano passado, quando a Daniela e eu escalámos a “Pepi te quiero”, uma misteriosa linha deu o ar de sua graça. Desde a “Pepi”, avista-se perfeitamente todo o sector que alberga, entre outras vias, a “Estrela nocturna”. Mesmo à direita desta clássica, formou-se uma via contínua de gelo, fina e estética, daquelas que sempre prometem um bom desafio psicológico. Naquela altura, já no final do Inverno, não nos foi possível realizar uma tentativa. No Inverno que agora nasce, um dia depois da escalada no sector das “Couves”, a memória da tal linha voltava a fazer um “clic” no cérebro. 


 As novas máquinas da DMM. Passaram a prova com distinção!


Estacionamos o carro na famosa “Curva do Cântaro” e, rapidamente descemos a rampa que acede ao sector da “Estrela nocturna”. E, quando dobramos a esquina… bingo! Ali estava um belo fio de gelo totalmente desenhado na parede de granito.


 Equipamo-nos na base da "Estrela nocturna", antes de iniciar a escalada da melhor via do fim de semana.


O primeiro lance percorreu uma fina canaleta de gelo, tipicamente difícil de proteger, terminando na plataforma da “Estrela…”. Mas, as maiores dificuldades encontravam-se no segundo lance. Um primeiro muro bastante atractivo, portador de algumas formações em couve-flor, tão características das cascatas na Serra da Estrela, conduziu ao muro superior, onde, aí sim, encontrámos o “sumo” do assunto. 


 O primeiro lance da nova "DMM - Delightful Mountain Madness". Via nº 5.


 Ainda no primeiro lance da nova via.


 A Daniela nas delicadas passagens do primeiro lance.


 A terminar o primeiro lance da nova via.


A parede de gelo perfeitamente vertical parecia demasiado frágil e, sobretudo, era muito fina para aceitar algum parafuso que pudesse oferecer a tranquilidade mental suficiente de forma a não tornar a empresa numa missão suicida. Em caso de falhanço, a queda numa plataforma estava garantida. Tento um pouco pela direita. Cravo o piolet num tufo de erva congelada… parecia sólido. “Mmmm…” Desconfiei. Dirijo-me para a esquerda, subo um ressalto de rocha e tento uma travessia horizontal de forma a apanhar a “chapa” de gelo. O piolet estava bem cravado mas, para os pés, não existia nada razoável. Os crampons raspavam o gelo precariamente. A exposição era demasiado grande, não aceitável. Finalmente, preparei-me para desistir. Um escape pela esquerda por terreno fácil levava-me directamente para a saída da “Estrela nocturna”. No entanto, uma ultima observação fugaz da parede de granito liso, marginal à cascata de gelo, revelou um pequeno detalhe. Ali estava, uma pequena fissura isolada, quiçá suficientemente profunda para albergar um friend razoável.
- Daniela, atenção! Vou fazer uma última tentativa!


 Nos primeiros passos do muro de gelo inicial, antes do crux.


 A Daniela observa atenta desde a primeira reunião, comum com a "Estrela nocturna".


 
 Quase a terminar o primeiro muro do segundo lance. O muro de gelo vertical e exposto que constituiu o crux da via está fora de vista e viria a seguir, provocando alguns suores frios e um desfrute proporcional.


A Daniela encontrava-se fora de visão. Não nos víamos mutuamente mas, a julgar pelo que eu tardava nesta secção da escalada, decerto já tinha adivinhado que a coisa não estaria fácil.
Um pequeno gancheio precário permitiu-me abrir as pernas e colocar-me numa posição equilibrada. Um pé num bloco, o outro crampon espetado num tufo congelado. Alcancei a pequena fissura e, imediatamente, um friend foi atirado lá para dentro. Uma rápida inspecção e um puxão decidido permitiram aprovar a peça. Boa! Estava aberto o caminho para resolver aquela secção delicada. Uma passagem lateral desequilibrante em “dry-tooling” permitiu esticar-me para cravar bem o piolet direito. Mas, faltava incorporar-me definitivamente na linha vertical da cascata. Meio corpo no gelo, meio corpo ainda em rocha. Troco as mãos no mesmo piolet e cravo o segundo piolet um pouco mais afastado. Respiro profundamente, uma, duas vezes, antes de me decidir a suspender nos braços e enfrentar os passos seguintes na cascata. Alguns metros depois, os meus olhos ainda passaram de relance pelo friend já lá em baixo. Em caso de queda, esta teria um efeito pendular pouco agradável e corria um certo risco de impacto. De todos modos eram considerações que já não importavam. Agora encontrava-me totalmente concentrado e as ferramentas bem colocadas, tudo iria correr como a água. Uns bonitos passos de misto, com bons gancheios (e boas protecções) ilustraram o final perfeito para a nova linha. A Daniela escalou tudo e, quando nos encontrámos na reunião exclamámos quase em uníssono: - Bela via!


 A Daniela nos ultimos passos de escalada mista da nova "DMM - Delightful Mountain Madness".


As escaladas anteriores chegavam para considerarmos estes dias como “ganhos”, no entanto, uma pequena cascata que nunca tínhamos visto formada, piscou-nos o olho e… não resistimos. Esta situava-se no sector da “Curva do Cântaro” e constituiu uma delicada linha de gelo que apresentou ainda um ou dois passos mais picantes, pois a única protecção decente estava constituída por um entalador excêntrico martelado numa fenda congelada… os pequenos prazeres da escalada invernal!



Dois momentos durante a abertura da "PI (Pequena Intensa)". Via nº 6.


Para terminar o dia, ainda escalámos a arqui-clássica cascata da “Curva do Cântaro”, imediatamente antes do novo período de chuva que viria a destruir mais uma vez as cristalinas obras de arquitectura invernal da Natureza, fenómeno que apenas confirma a particularidade extremamente efémera da escalada em gelo na nossa Serra da Estrela.


 Na hiper-clássica "Cascata da Curva do Cântaro", para terminar dois dias fabulosos de escalada em gelo. Via nº 7.


A escalada invernal na Serra da Estrela corresponde a jornadas húmidas, frias e incómodas.
No entanto, por vezes… não é assim. Por vezes, com alguma persistência e recorrendo um pouco à imaginação, é possível reunir os dias bons às condições excelentes e, esses momentos são os que inundam o espírito, deixando-o preenchido durante bastante tempo…
… pelo menos até à próxima oportunidade. 

Paulo Roxo


 "Yuupiii!"



E, claro... os Topos:





sexta-feira, dezembro 27, 2013

QUE 2014 TRAGA A TODOS MONTANHAS DE COISAS BOAS!!!!!

Nós entramos no ano com a palestra "Sonhos Intermináveis"...apareçam! 
Em Lisboa dia 8  e na Maia dia 10 de Janeiro de 2014!!!


segunda-feira, novembro 04, 2013

Nangma valley - Terceira parte

EXPEDIÇÃO NANGMA VALLEY 2013 
TERCEIRA PARTE


A ASCENSÃO


"Lá em cima não há nada. Apenas a historia que escreveste com a própria vida para lá chegar.”
Alfonso de Vizán





Síndrome da noite anterior



As maiores dúvidas surgem durante a noite.
Imagino cada detalhe da escalada, tento adivinhar cada passo.
Quando tento dormir, os maiores perigos da montanha parecem ganhar forma, tomam uma proporção quase real, palpável. Vejo-me a cair, a ser alcançado por algum objecto vindo das alturas, a ser alcançado por uma avalanche. A Daniela encontra-se deitada ao meu lado. A ideia de se poder magoar é insuportável. Quanto mais tento afastar os pensamentos negativos, mais estes me invadem o cérebro, obsessivamente. O livro que atirei para um dos lados da tenda, não serviu de nada.
Os anos já me deviam ter ensinado a lidar com o “síndrome da noite anterior”, quando surgem as reflexões negativas e os medos irracionais. É sempre a mesma coisa. Antes de cada ascensão mais importante lá aparece o pequeno diabinho, o gnomo invisível do pessimismo, o arauto da desgraça, para me infernizar o espírito.


 O "Gnomo invisivel  do pessimismo" a inquietar o cérebro. Não interessa: os dados estão lançados!


Viro a cabeça encafuada no saco-cama. “Será que a Daniela sente o mesmo?” Deixo de respirar durante um momento para tentar ouvir o silêncio. A Daniela dorme. Lá fora, tudo está tranquilo. O vento não se sente. Dentro de poucas horas vamos dar início a uma tentativa definitiva de escalada do Kapura, com mais de 6000 metros de altitude, jamais tentado através do vale do Nangma.


 "As maiores dúvidas surgem durante a noite."


Em casa tudo é mais simples. Por mais técnica que pareça, qualquer ascensão se torna muito mais fácil e possível. Depois, a diferença temporal que divide o real do imaginário vai encurtando cada vez mais e, as coisas começam a ganhar novas proporções. As certezas dos planos iniciais começam a ser questionadas. Até que chega a hora da verdade, quando nos colocamos frente a frente com o objectivo. Nesse instante, algo muda drasticamente. A montanha bela, perfeita, possível, abstracta, torna-se num ogro, duro, inclemente, agreste, real. Esse é o momento para recuperar aquele truque da manga, a cartada que somente os anos podem providenciar. É o momento da análise objectiva, da questão definitiva: “Sou, ou não sou capaz de subir isto?”
A meio da noite, lá decido sacar a tal carta da manga. Objectivamente, digo a mim próprio: “Tu és capaz de subir aquilo!” Quase de imediato, o “gnomo do pessimismo”, voa para longe, açoitado pelo vento de um pensamento.
Minutos depois… adormeci.


O nosso solitário campo base, visto da moreia do glaciar.

 
Deixámos o campo base no dia 5 de Setembro. Atravessámos as primeiras rampas de prados de um verde intenso, usando pequenos trilhos que o gado foi formando com o decorrer de muitos anos de utilização. A paisagem era de cortar a respiração. Gigantescas muralhas de granito erguiam-se dos glaciares e a grande mole maciça do K6, dominava o fundo do vale. Este colosso majestoso com mais de 7200 metros, fora escalado apenas uma vez, em toda a sua existência.


O maciço K6 domina o horizonte. O cume principal desta montanha foi escalado em 1970, por uma expedição Austriaca, a qual montou o campo base na moreia de blocos, que se avista na foto, mais acima do nosso campo base. Desde então, mais ninguém escalou nenhum dos seus cumes, desde o lado do Nangma.


 Os prados que antecedem os blocos e o glaciar de aproximação ao kapura. As vistas são de cortar a respiração.


Desfrutávamos das vistas e da nossa posição privilegiada. Poucos ocidentais tiveram a sorte de conhecer e sentir estes lugares belos e selvagens. Mesmo os locais, na sua maioria habitantes de Kande, raramente sobem a cotas superiores às dos prados de pastagens, como nos revelou Altaf, nos primeiros dias de aclimatação, quando resolveu acompanhar-nos até ao sopé do glaciar: “It´s the first time here!” Dizia, com os olhos perdidos nas montanhas. Sentimo-nos surpreendidos e honrados por poder apresentar um novo local a um autóctone.


 O Altaf acompanhou-nos na nossa primeira subida de reconhecimento e aclimatação. Era a primeira vez que visitava o local da foto. Por cima da cabeça da Daniela pode-se apreciar uma perspectiva pouco conhecida do AminBrakk. Desde este vale trata-se de um bigwall com 1000 metros, nunca escalado.

 
 Vistas sobre as montanhas do flanco direito do vale. O K6 encontra-se à esquerda, envolto em nuvens.

Junto ao início do glaciar sem nome, aos 5000 metros, fizemos uma pausa para colocar o arnês e os crampons. Estava um dia magnífico, com o raios de sol a irromper por entre bojudas nuvens que se intrometiam no meio das arestas escarpadas. Sentíamo-nos com energia e, os pequenos diabinhos da noite anterior desvaneceram-se, levando com eles os pensamentos negativos.
A neve fresca depositada pelo mau tempo dos dias anteriores, tapou muitas fendas do glaciar, tornando a travessia numa “gincana” mais nervosa, com zigues e zagues entre crevasses, bem mais amplos que nas ocasiões anteriores. 


 "Zigue-zague", entre crevasses. Atravessamos o glaciar sem nome em direcção ao nosso Campo base avançado.


Uma hora e meia mais tarde, encontrámos a pequena tenda vermelha, que tínhamos deixado montada a pouca distância da base do Kapura. O aspecto sudeste do Kapura dominava toda a visão da montanha, uma impressionante muralha vertical de rocha, um bigwall tremendo, com mais de 1000 metros de desnível. “O sonho de qualquer base-jumper.” 


 À esquerda, o nosso objectivo, o Kapura. À direita, parte do K6.


 A meio do glaciar, junto à nossa tenda, um pequeno ribeiro de agua permite-nos poupar muito combustivel, pois não existe a necessidade de derreter neve para cozinhar.


O despertador soou às 1.30 da madrugada. Era o dia 6 de Setembro. Ligámos as lanternas frontais para descobrir uma miríade de pontinhos brilhantes a cobrir o tecto da tenda, cristais de gelo produzidos pela condensação da humidade da nossa própria respiração. Preguiçosamente, começámos a emergir do torpor. Ainda com os olhos empedernidos pelas poucas horas de sono e os lábios ressequidos pela desidratação nocturna, inclinei-me o mais que pude, esticando o braço, tentando alcançar o fundo do saco de dormir. Apalpei às cegas, tentando localizar a botija de gás, entre os vários utensílios armazenados no interior do saco, como uma das cameras fotográficas, o telefone satélite, as luvas molhadas no dia anterior, as meias húmidas, as botas interiores e outros objectos menores. Durante a noite, com os valores do termómetro a caírem a pique, esquecer algum deste itens no exterior do saco, podia traduzir-se num desagradável inconveniente que, dependendo das circunstâncias, podia descambar para um problema grave.
Repetimos o ritual ao qual já nos acostumámos nas madrugadas incómodas de alta montanha. A Daniela começou imediatamente a aquecer a água para o capuccino e o fogão não mais parou.

Há tarefas que dentro do silêncio da cordada já me estão atribuídas... assim como outras fazem parte das lides do Paulo. “Cozinhar” o pequeno-almoço, toca-me a mim. Acendi o fogão e aqueci água para os nossos típicos capuccinos matinais (desta feita, nocturnos). Aproveitei o calor da tampa da panela para aquecer uns troços de chapata seca, a que juntei uns triângulos de queijo e uns quadrados de marmelada. A geometria alimentar do Paulo é sempre mais ligeira que a minha. Umas bolachas rectangulares da marca “Tuc”, um quadradinho de marmelada e... ar, servem-lhe de pequeno-almoço. À força e entre tarefas, lá bebemos perto de um litro de líquidos cada um, como mandam as regras de bom comportamento em altitude.


 A chapata seca a aquecer no tacho. Um pequeno almoço de alta qualidade.


Após o frugal pequeno almoço, colocámos as botas e saímos para o exterior da tenda, para o frio e noite escura.
Às 3.30 da madrugada, abandonámos o local, com todo o equipamento às costas. Uma meia hora depois, reiniciámos a primeira parte da nossa via. Entrámos oficialmente nos domínios do Kapura. Quando amanheceu, já estávamos num ponto elevado da vertente e aproximámo-nos rapidamente da primeira travessia exposta à queda de pedras. Desta vez, toda a muralha sobranceira vertical e ameaçadora descansava num silêncio gelado. Fazia mais frio que da ultima vez que ali tínhamos estado e, o mundo em nosso redor encontrava-se em modo de pausa. Os únicos ruídos que nos chegavam aos ouvidos eram os dos crampons e piolets, produzidos pelos nossos próprios movimentos. Todo um contraste relativamente aos dias da aclimatação.


A Daniela atravessa uma passagem de neve, antes da aresta de xisto, agora, coberta pela neve caída nos dias anteriores. Desta vez a montanha está calma e não caem quaisquer pedras.

 
A Daniela, no final da segunda travessia perigosa. Desta feita, a neve e o frio permitiram uma ascensão tranquila e sem risco de queda de pedras.

 
 Uma perspectiva da parede que iriamos enfrentar no dia seguinte.


Por volta das 7.30 da manhã, chegámos ao colo Alam. Imediatamente, reconhecemos o local para procurar um cantinho adequado para plantar a pequena tenda de bivaque, apenas para descobrir que… não havia nada para reconhecer. O colo era afiado e as vertentes caíam a pique para ambos lados da montanha. Um dos precipícios despenhava-se para o vale do Charakusa, o outro para o “nosso” lado, o vale do Nangma. Naquele lugar, separava-nos menos de um metro de largura de aresta. Encontrávamo-nos literalmente, no gume da navalha. Descortinámos o único cantinho possível para um bivaque mais ou menos decente.


 No colo Alam. Por cima da Daniela, uma aresta de rocha decomposta em direcção a um outro cume com 6000 metros, virgem, claro!


- Um bivaque “Fowleresco”! – exclamei, aludindo a Mick Fowler (um alpinista britânico, considerado como um especialista em bivaques grotescos, em lugares horríveis). A Daniela concordou, com um acenar de cabeça.
Numa tentativa de aplanar um pouco o lugar, colocámos algumas lajes de rocha, colmatadas com neve compactada, de forma a dissimular, os blocos pontiagudos. Algumas horas depois, terminámos uma pequena mas, orgulhosa plataforma, onde depositámos a tenda, com os bordos a escorregar para cada vertente mas, com espaço suficiente para albergar duas pessoas deitadas.


 Istalamo-nos confortávelmente no nosso "ninho de passarinhos".


Planeámos despertar muito cedo, ainda no dia anterior, imediatamente antes do dia posterior.
Mais uma vez, não conseguia dormir. Os gnomos voltavam para me atormentar a alma. Mais uma vez, tentava escalar a parede com a mente. Tentava adivinhar os perigos. “E se?...”, “O tempo está mais que bom, não há desculpas!…”, “E se?...”, “Tens experiência mais que suficiente para escalar isto!...”, “E se?...” No entanto, mesmo com todos os “se`s” a bater e rebater, como bolas de bilhar, nas paredes do meu cérebro, a decisão estava tomada e íamos para cima. Com esta certeza em mente, a ansiedade tomava uma nova dimensão, desta vez vinha acompanhada por uma impressão de inevitabilidade. Mas, em lugar de uma inevitabilidade trágica, esta era positiva. Crescia um sentimento de que os dados estavam lançados e de que não existia nenhuma razão lógica para não tentar. Na verdade, a ansiedade nocturna traduzia-se num nervoso miudinho de excitação. Desejava que as horas passassem depressa para enfrentar aquele desconhecido vertical, para mais uma vez, enfrentar os meus próprios fantasmas, desta vez, numa montanha esquecida, numa terra longínqua. Ao meu lado, a Daniela parecia dormir tranquilamente. Será que lhe passavam coisas semelhantes pela cabeça? Não consegui pregar olho nessa noite.


Uma perspectiva, desde o glaciar, da segunda parte da nossa via na face sul do Kapura. A pequena tenda de bivaque foi instalada na ponta esquerda do colo Alam.


Cumes ilusórios


23:30 do dia 6 de Setembro, toca o despertador. As horas que antecedem a saída para o cume são tendencialmente de ansiedade, mas desta vez, sentia-me calma, tranquila. Na verdade, apesar de não ter dormido profundamente, resultado da altitude e do chão ondulado e duro da nossa minúscula tenda, sentia-me confortável no quentinho do saco-cama e tinha a perfeita noção de que o corpo estava descansado, perfeitamente preparado para um longo dia em altitude. Tinha aquela doce sensação que nos impele a adiar o despertador mais dez minutos. A solução que encontrei para combater aquela inércia gostosa foi levantar-me de rompante. Vestir-me rapidamente e iniciar todo o longo processo que separa o despertar do sair da tenda.


23.30, despertar!



Enchemos a garrafa térmica com chá, outra com café e dois cantis com sumo energético de laranja. À última hora,ao contrário do que tínhamos combinado inicialmente, decidimos não levar o fogão connosco. Poupávamos assim cerca de 600g ao lombo. Estimámos que a ascensão e retorno à tenda nos deviam levar cerca de 15 horas, período que aguentaríamos bem, com dois litros de líquidos para cada um.
O vento pouco soprava. Encordámo-nos, trocámos um beijo, um abraço de boa sorte, e pelas 1:30 do dia 7 de Setembro, iniciámos a ascensão.
Cuidadosamente, para evitar as cornijas, cruzámos a aresta do “Colo Alam” para aceder à face do Kapura. A noite estava escura e não havia lua que nos iluminasse. Ao meu lado direito a brilhar no céu, estavam as 3 Marias. Sorri. Achei que aquelas três estrelas alinhadas nos trariam boa sorte.

Cravei pela primeira vez os piolets na vertente empinada. Encostei o capacete à pendente e fechei os olhos. Inspirei profundamente. Era uma espécie de ritual simbólico muito pessoal.
Durante meses, imaginámos aquele momento. O momento do frente a frente com o monstro. Agora, o monstro não era a montanha mas sim, a nossa vontade. O pequeno ponto geográfico que buscávamos estava lá em cima mas, o verdadeiro desafio estava dentro de nós e, tinha chegado o momento exacto de lutar pelos dois.
Sentia que a Daniela pensava o mesmo. A corda unia-nos num laço tal, que nos transformava num único ser. O espírito da “cordada” é mesmo esse!

Tudo, toda a envolvência do lugar me fazia acreditar que iríamos conseguir chegar ao cume. Sentia que toda a ascensão iria ser um verdadeiro desfrute, uma bonita escalada numa soberba montanha, numa via intocada, com a melhor companhia do mundo, o Paulo. Vi cruzarem o céu duas estrelas cadentes e o desejo que formulei não podia ser mais previsível: chegar ao cume e regressar em segurança.

Abri os olhos, olhei para cima esquadrinhando a escuridão. Ergui o braço e, numa estocada decidida, cravei o piolet no gelo.
O que estás disposto a sacrificar pelos teus sonhos?
Foi sem surpresa que encontrámos a parede formada por gelo puro e duro, coberto por uma fina camada de neve. Desde os primeiros passos, entendemos que a única opção seria escalar um lance de corda de cada vez. A técnica mais rápida de “ensamble” em que os elementos da cordada avançam ao mesmo tempo sem pontos de reunião intermédios era, neste caso, inviável, pelos perigos que comportava. Este era um mundo que não perdoava qualquer queda.

A escalar à noite, deixei-me embalar pelo típico barulho dos piolets e dos crampons a penetrarem o gelo. Nos primeiros 40 metros de cada largo avançava sempre com uma cadência confortável, controlando a respiração, deixando os movimentos do meu corpo fluírem. Fazíamos parte da vertente, a face sul do Kapura acolhia-nos hospitaleira. Os cerca de 20 metros antes de chegar às reuniões eram sempre mais sofridos, com a respiração mais ofegante, mais profunda. Por vezes, o Paulo desligava o frontal para poupar as baterias e ganhar uma melhor percepção das formas da montanha.

Para poupar energia, de vez em quando, desligava a lanterna frontal. Não necessitava da luz para assegurar a Daniela. Ao fim de alguns segundos, os olhos acostumavam-se ao breu da noite. A Via Láctea delineava-se como uma auto-estrada de asteriscos brilhantes, por entre outras nebulosas de estrelas longínquas. A fraca luz emitida pelo enxame galáctico de pequenas luzinhas era suficiente para iluminar a cordilheira do Karakorum.


Ao amanhecer, começamos a distinguir as montanhas em redor. À direita o magnifico Drifica, com 6400 metros e á esquerda um fantástico pico virgem com 6000 metros. O esporão de rocha que desce desde este ultimo pico, desemboca directamente no colo Alam, onde deixámos a tenda de bivaque.


Ainda em Portugal, sabíamos que iríamos ser uma das últimas equipas da época a escalar no Paquistão. O período normal de alpinismo, nestas latitudes, encontra-se entre os meses de Junho e Agosto. Quando chegámos aquele país asiático, a meados de Agosto, a grande maioria das equipas estavam já de saída. De todos modos, este ano, ninguém visitou o vale do Nangma, ou seja, na prática, não nos iríamos cruzar com nenhum ocidental.
Com o frontal apagado, conseguia observar as silhuetas sem cor que os gigantes de gelo e rocha insinuavam. Muito provavelmente, naquele momento, seriamos as únicas pessoas metidas numa escalada, num raio de muitos e muitos quilómetros de montanhas selvagens. A sensação de isolamento e exposição esmagavam-me e isso deixava-me fascinado.


 A Daniela, nas pendentes empinadas da face sul do Kapura. Lá embaixo é possivel distinguir o ponto vermelho da nossa tenda, instalada no colo Alam.


 
 Ao amanhecer, a meio da ascensão.


Horas depois, encontrámos os primeiros afloramentos de rocha e com eles os primeiros passos de escalada mista. A banda de rocha que cortava a parede numa grande diagonal ascendente para a direita, obrigou-nos a realizar uma larga travessia. De súbito, o gelo desapareceu e, em seu lugar, encontrámos uma neve fina e inconsistente, sobre placas lisas de granito. Um tipo de terreno que obrigava a uma concentração especial.


 Imediatamente antes do inicio da banda rochosa, a escalada torna-se mais interessante.


 A Daniela a emergir de um dos lances em travessia.


As pontas dos crampons seguravam-se precariamente em algo que não conseguia distinguir muito bem. Um dos piolets encontrava-se gancheado num troço de rocha. Utilizei o outro piolet para procurar outra presa decente, ora raspando a neve, ora golpeando, tentando encontrar algum troço de gelo escondido. O desagradável som do metal na rocha não revelava grandes possibilidades. Por fim, lá consegui ultrapassar o obstáculo. Um a menos. “Vamos ao próximo!” Um último lance de 60 metros em travessia, protegido por um entalador martelado numa pequena fissura, depositou-nos na rampa final… pelo menos, parecia-nos a rampa final.


 Algumas passagens mais precárias em que a neve pouco consolidada escondia as boas presas de rocha.


 
 Os lances sucediam-se, entre algumas passagens mais interessantes.


O tempo passou a voar e ainda parecia faltar bastante.
As dúvidas retornaram. Já passava do meio-dia e o trajecto do Sol conduzia ao inexorável ocaso e à indesejável perspectiva de uma descida nocturna.
- Como te sentes? – perguntou a Daniela.
- Já estou cansado mas, sinto-me bem. E tu, que tal?
- Estou bem. A única coisa que me preocupa é a descida nocturna. Pelo menos, a descida da banda de rocha.
A Daniela tinha razão. A partir daquele momento, retornar pelo mesmo itinerário estava fora de questão. A grande travessia tinha eliminado essa possibilidade. Restava-nos rapelar a direito, por terreno desconhecido. Olhámos para cima durante algum tempo tentando calcular a distância que nos separava do topo. Parecia relativamente perto mas, sabíamos estar a ser ludibriados por um erro de perspectiva.
- Que tal apontarmos para aquele ombro? – de braço esticado, a Daniela indicava uma espécie de aresta que parecia tombar.
- Com sorte, a inclinação irá permitir continuar em “ensambe”.
- Sim. Desde ali deve faltar apenas mais um lance até ao cume. – concordei.


Nesta foto, inicio a secção em travessia, constituida por cinco lances de escalada não demasiado dificil mas, com algumas passagens mais delicadas. Muito mais acima é possivel avistar a ultima pendente de neve e gelo que termina nuns afloramentos de rocha, que pensámos fazerem parte do cume... estavamos enganados.


Continuámos. O meu ânimo... os meus sentimentos estavam confusos, creio que pela primeira vez me senti enganada por não conseguir calcular as distâncias. A montanha enganou-nos, parecia já ali, tão perto... tão difícil era arriscar como voltar para trás. Tive um medo inconsciente da noite, de não saber medir as minhas forças com as forças da montanha. Tentei racionalizar, fisicamente sentia-me bem, o tempo continuaria bom, o gelo estava em perfeitas condições... se o corpo não me atraiçoasse seria apenas uma questão de tempo. Pensava também no Paulo, no rosto tinha escrita a vontade de querer continuar. O único senão era mesmo a pouca quantidade de líquidos e de comida que nos restava... o combustível que racionávamos há já algumas horas. Tentei novamente racionalizar, pensei no Cho Oyu. “Subi aquele 8000 com apenas meio litro de água, certamente não seria ali, aos 6000m, que o corpo me atraiçoaria por falta de líquidos!” Ponderei todas as variáveis.


Numa das secções da grande travessia.

Vistas vertiginosas.


Para ganhar o “ombro”, escalei um último muro de gelo com cerca de 70º. Ao chegar ao bordo da parede, a realidade esbofeteou-me com violência.
- Nããão! – gritei ao vento e deixei cair a cabeça entre os piolets. O capacete fez um som oco. Por cima de mim, ali estava a dolorosa evidência de que faltariam muito mais que 60 metros para terminar a escalada.
Naquele momento, desfaleci psicologicamente.
- Não pode ser!
Era já muito tarde e a parede parecia não ter fim. O resultado estava à vista, o fracasso era evidente. Dobrado sobre mim próprio, deixei as lágrimas correrem pela face.

Vi o Paulo chegar a essa linha, gritar de raiva e baixar a cabeça. Percebi que mais uma vez a montanha nos enganava. Separavam-nos 50 metros. Não o podia abraçar, senti raiva, frustração. Aquela era a quarta visita ao Paquistão e, mais uma vez, não faríamos cume. Decidi não mais voltar àquele país. Não nos trazia sorte.

Anunciei as más notícias à Daniela, que me observava com atenção, desde a reunião de baixo. Devolveu-me um grito de desânimo.
Com lentidão hipnótica, enrosquei um parafuso no gelo e preparei-me para assegurar a minha companheira. Pelo menos, iríamos decidir juntos o que fazer a seguir. Para cima, ou para baixo? A Daniela escalava devagar, num misto entre o cansaço e o desalento. Notava-se no ar, o ambiente da derrota.

Comecei a escalar sem pensar na respiração, nas costas direitas, no cansaço físico... o mental já me tinha dominado. Queria apenas chegar rapidamente perto do Paulo, ver o que ele via.


Uma das muitas reuniões de gelo.


O dia seguia magnifico.
Enquanto recuperava as cordas com lentidão, comecei a analisar os arredores. Notei que a aresta que divide a face sul da parede sudeste, não estava assim tão longe. Olhando com mais atenção apercebi-me que estava muito perto do topo do grande bigwall que dispara directamente do glaciar, quase até ao cume do Kapura. Voltei a cabeça para o lado oposto e, reparei que a aresta do lado esquerdo também não parecia nada longe. Um novo júbilo invadiu-me a alma.
- Não podemos estar longe! Quiçá um lance e meio mais. No máximo, 80 metros mais. – comuniquei o meu optimismo à Daniela.
- Ok! Mas, tens a noção que vamos alcançar a banda rochosa de noite, não?!
- Neste ponto, vamos ser apanhados pela noite, de uma forma ou de outra. – concluí. A Daniela concordou.
A inevitabilidade conduziu à decisão final.


Avistámos mais longe, duas montanhas de granito impressionantes, certamente por escalar. Já estariam em terreno proibido a estrangeiros, em plena zona de disputa entre a India e o Paquistão, junto ao glaciar Siachen, naquela que é já reconhecida como a "guerra mais alta do planeta".

Algum tempo depois, alcançámos a aresta rochosa. À nossa esquerda, caía a vertiginosa face Oeste da montanha. Finalmente, conseguíamos avistar as agulhas rochosas que constituem os cumes centrais do Kapura. O cume principal escondia-se atrás das agulhas mas, a sua calote de gelo era visível, desde aquele ponto. Abandonámos as mochilas, suspensas em dois pitons de rocha, que seriam posteriormente aproveitados para o rapel. Faltavam apenas uns 30 metros para terminar a escalada. O relógio marcava as 18 horas quando alcançámos o cume sul do Kapura, com cerca de 6350 metros de altitude, dezasseis horas e meia depois de iniciarmos a escalada. 


 A Daniela a poucos metros do cume do kapura sul. "Yeaaahhhhh!"

 
 Eu, no cume do Kapura sul. "Yeaaaahh!"


Éramos os primeiros seres humanos a pisar aquele pedaço estreito do planeta. Abraçámo-nos. A celebração ficaria para depois. Naquele momento, estávamos vazios de emoções. Apesar do cansaço, o instinto mantinha-nos atentos, tensos. Apenas queríamos descer o quanto antes. Esperavam-nos ainda muitos rapeis, até alcançar a segurança do colo Alam.


 Vista para o vale do Nangma, desde o cume sul do Kapura a 6350 metros. Entre as muitas montanhas visiveis, encontra-se o AminBrakk, o cume bojudo situado à direita na foto. A face virada ao sol é a mais conhecida dos escaladores, com diversas vias abertas. A face da esquerda à sombra encontra-se ainda por escalar.


Epilogo para um dia infinito


 Sorridentes, do cume do kapura sul.


O sol afundou-se no horizonte durante o segundo rapel. Agora a velocidade da descida já era indiferente, pelo que pela primeira vez, decidimos fazer uma pausa para comer e beber algo, 20 minutos de pausa, todo um luxo! No meio da escuridão, distinguimos lá em baixo no vale, uma luz intermitente. De imediato percebemos que era o nosso cozinheiro, Altaf. Respondi-lhe, fazendo também sinais de luz.
- Não faças isso! Ele ainda pode pensar que não estamos bem! – alertou o Paulo.
- Que mau! Não trouxemos o rádio como combinado, ele deve estar em pânico! Mais ainda a ver-nos cá em cima a estas horas! Coitado...
O que pensava Altaf era fácil de adivinhar, mas naquele momento não havia nada que pudéssemos fazer para o tranquilizar.
Uns quantos rapeis depositaram-nos no topo da banda de rocha. Sabíamos que depois de ultrapassar aquele trecho, o resto seria uma questão de tempo.
O Paulo desceu, vi a luz do seu frontal desaparecer nas profundezas. Restou-me esperar. Sabia que não seria fácil encontrar no escuro fissuras que lhe permitissem montar reunião. De quando em vez sentia a corda baloiçar e percebia que ainda estaria à procura. Momentos mais tarde a minha ansiedade foi quebrada.
- Podes viiiiiiiir! – um grito, vindo dos confins da escuridão, quebrou o silêncio.
Coloquei a corda no descensor e rapelei.
- Bom trabalho. És um espectáculo! – disse-lhe, quando vi o lugar que encontrou para montar a reunião.
- Desculpa lá a seca! – respondeu-me.
O processo repetiu-se por mais três rapeis e horas depois chegávamos ao gelo. Deviam ser cerca das onze da noite e ainda tínhamos mais uns 500 metros para descer (cerca de 10 rapeis!), mas agora sentíamos segurança. Sabíamos que seria apenas uma questão de tempo até atingirmos o conforto da nossa pequena tenda.
A coisa tornou-se mecânica, o Paulo rapelava até ao fim das cordas e colocava um parafuso no gelo. Eu iniciava a descida. Quando terminava o rapel, estava ele a preparar o “Abalakov” para o rapel seguinte. Eu limpava os parafusos de gelo e puxava as cordas. Colocávamos as cordas no “Abalakov”, o Paulo colocava-as no seu descensor, descia e o processo repetia-se. Vigiávamo-nos mutuamente para que nada corresse mal por vias do cansaço. Naquela altura a sede era o pior. O conteúdo dos cantis já estava gelado e inconsumível. Para poder aproveitar tudo o que tínhamos, tivemos que misturar o sumo dos cantis, com o chá e o café que estavam nas garrafas térmicas. Daquela forma, acabámos a inventar duas novas bebidas energéticas de altitude (café de laranja e laranjada de Lúcia-lima!).
As horas seguiram-se, os rapeis repetiram-se e tudo era igual na escuridão, nem as silhuetas das montanhas se desenhavam. A monotonia era imensa e, a certa altura: - Olha, acabei de adormecer! -  anunciou o Paulo. Por momentos, passou-me pela cabeça que algo podia ainda correr mal, tão perto do final.
- Mal por mal, se for preciso, deixamo-nos ficar aqui pendurados e descansamos um bocado! Vê lá! – disse-lhe.
- Não. Eu estou bem, foi só um segundo. É melhor continuar a descer.
O tempo passava cada vez mais devagar até que a certa altura, pareceu-me ver a silhueta familiar do colo Alam.
- Estamos quase! Está ali! São só mais um ou dois rapeis!
- Achas? Não sei! – o Paulo mantinha-se reservado quanto ao cálculo das distâncias.
Nessa altura apetecia-me chegar à tenda e descansar, mas sabia que ainda teríamos tarefas obrigatórias pela frente. Hidratar, comer, ligar o rádio para tentar falar com o Altaf, que devia estar preocupadíssimo.
Após um ultimo rapel, chegámos ao colo Alam e, pelas 3:15 da madrugada de 8 de Setembro voltámos a reptar para o interior do nosso pequeno refúgio de tecido vermelho, 25 horas e 45 minutos depois de o deixar-mos.
Aí sim, senti-me em segurança e desfrutei em pleno da aventura que tínhamos acabado de viver, da linha que tínhamos aberto, do cume intocado que tínhamos escalado. Aí sim, abraçámo-nos com força e felicidade e a noite brindou connosco e ficou mais bela.
 - Já está! – exclamei.
- Calma, ainda falta sairmos daqui amanhã! – respondeu o Paulo, conservador.
Mas naquele momento, eu já tinha a certeza que tudo iria correr bem.
A minúscula tenda parecia-nos um palácio. Derretemos neve, bebemos sopas e entrámos nos nossos sacos-cama aconchegantes. O chão estava ainda mais irregular que no dia anterior, resultado de alguma neve que tinha derretido, mas naquela altura, isso era um detalhe insignificante.
Ainda ligámos o rádio, mas o Altaf não estava do outro lado.
Adormecemos sem ansiedade.
Eu, com um sorriso gigante. 


Paulo Roxo e Daniela Teixeira



 Carregados com todo o equipamento, dirigimo-nos para o campo base.

 
 Uma pausa para um descanso, antes de continuar a descida em direcção ao campo base!


 Ao chegarmos ao campo base, Altaf agraciou-nos com os ornamentos tradicionais do final das expedições. Missão cumprida!