sábado, setembro 16, 2017

A FACE LESTE, A NOVA VIA E OUTROS APONTAMENTOS HISTÓRICOS



Os Cântaros. Vistas inebriantes de maciços e Natureza.



NOVA VIDA!

O blog têm estado… morto!
Em Dezembro de 2016 mudámo-nos definitivamente para a Serra da Estrela, mais concretamente para a vila de Manteigas. Mudámo-nos para um dos locais mais belos do nosso país. Foi uma mudança radical de vida e de ocupações. O “emprego” da Daniela ia de mal a pior e eu encontrava-me numa fase “estagnada” em termos profissionais.
Tudo mudou no espaço de seis meses. Encontrámos uma casa adequada e, assim sem mas nem meio mas, arriscámos tudo, incluindo a cabeça, em prol de um novo projecto.
Desta forma nasceu a CASA MARIOLAS. Trata-se de um alojamento local com quartos duplos e twins e um quarto camarata com capacidade para seis pessoas.
Nunca antes tínhamos trabalhado no ramo da hotelaria ou hospedagem e a verdade é que tem sido uma experiência animada e gratificante, especialmente porque se trata de um negócio próprio. Estamos livres de vínculos com patrões ou entidades de chefia. No fundo, temos a liberdade para gerir o nosso “barco” e fazê-lo rumar no sentido que desejamos… assumindo que os ventos continuam de feição!
Desde o primeiro momento quisemos cunhar a casa com a nossa forma de estar e com uma forte ligação à Montanha e à Natureza.


Momento de contemplação a meio da face leste do Cântaro Magro.


Como não podia deixar de ser, uma das premissas incontornáveis para a nova profissão era a de conseguir ter tempo. Tempo para desfrutar da “nossa” Serrinha, tempo para explorar, tempo para treinar, tempo para escalar…
Tempo… para escrever, esse têm faltado. E o blog, como consequência, foi ficando para trás. Sobra a insipidez (des)informativa do Facebook.
De todos modos, falemos então de escalada!



FACE LESTE DO CÂNTARO MAGRO
APONTAMENTOS HISTÓRICOS


A face leste do Cântaro Magro na Serra da Estrela é a maior parede “escalável” do nosso país, ultrapassando mesmo a Placa da Nédia situada num lugar remoto da Serra da Peneda. O cume do Cântaro, com os seus 1928 metros de altitude, ergue-se a quase 500 metros de desnível desde o Covão da Ametade. Estranhamente (entenda-se: incompreensivelmente), esta grande face de granito com um carácter marcadamente alpino só raras vezes recebe a visita dos escaladores. Aparentemente, poucos conhecem realmente o seu legado histórico. De facto, foi aqui que foram documentados os primeiros passos de escalada técnica na Serra da Estrela.

Corria o ano de 1953, mês de Agosto, Nave de Santo António. No decorrer do “Primeiro acampamento de montanha” organizado pelo Clube Nacional de Montanhismo (C.N.M.), liderado pelo respeitável Dr. Jorge Santos, fundador do C.N.M. (sediado no Porto), foi realizada a primeira ascensão da face leste do Cântaro. Os protagonistas foram Jorge Monteiro e Moura Martins. Acerca dessa memorável ascensão escreveria Jorge Monteiro muitos anos mais tarde: “Juntamente com o outro companheiro (Moura Martins), uma corda de 30 metros e quatro pitons, fizemos a via central do Cântaro Magro. Lembro-me sobretudo de uma passagem em ressalto, num corredor, que nos deu água pela barba”.


Jorge Monteiro, durante a primeira ascensão da face leste do Cântaro Magro, em Agosto de 1953.


Embora a via exacta desta ascensão não seja perfeitamente conhecida, o relato da “expedição” aponta para a actualmente nomeada como “Via do Y”, mais interessante na estação Invernal, quando se encontra carregada de neve. Contudo, esta ascensão constituiu, de certa forma, o virar de uma página, a transição entre uma determinada concepção generalista de montanhismo clássico para uma abordagem mais especializada de escalada. No dia seguinte a esta histórica ascensão foram escaladas três outras vias por diferentes cordadas, que participaram no referido encontro, encabeçadas pelo Dr. Jorge Santos. Infelizmente, os alinhamentos correspondentes a essas escaladas perderam-se por falta de documentação e croquis.


Moura Martins, companheiro de cordada de Jorge Monteiro em um momento de descanso durante a primeira ascensão da face leste do Cântaro Magro.


Na face leste existem outras cinco vias (mais ou menos documentadas) e umas quantas variantes. Foram ascensões realizadas em períodos diferentes. As mais antigas (pós Jorge Monteiro) foram abertas entre 1973 e 1976 e tiveram o cunho do prolífico escalador Paulo Alves e companheiros. Infelizmente, os denominadores comuns gerais a todas as vias são a sinuosidade, as escapatórias inevitáveis através de grandes rampas ervosas e o nível do musgo. Estes são os aspectos negativos que, a juntar a um certo preconceito geral, fizeram com que esta parede fosse relegada para o quase esquecimento da comunidade escaladora.


A abrir nova via na face leste do Cântaro Magro.


A Daniela, em plena faena no quinto lance da "Josefina Alpina".


JOSEFINA ALPINA

Desde que nos mudámos, já abrimos 16 vias de escalada em rocha ao longo do Vale de Manteigas e no maciço central. Os projectos, esses são… digamos: infindáveis!
Para já fica a informação acerca da maior das novas vias, uma via que desejamos, venha a ser repetida e devidamente desfrutada...


A JOSEFINA ALPINA é a nova proposta da face leste, aberta pela Daniela Teixeira e por mim, em Maio de 2017. Trata-se de uma via “amena”, equipada por forma a garantir um certo grau de compromisso, mantendo o espírito de aventura sem nunca chegar a ser exposta. Quase todas as reuniões estão integralmente equipadas ou possuem pelo menos uma protecção fixa. Em placas onde não é possível proteger utilizando entaladores ou friends, ali estará a plaquete salvadora.


Na travessia do sexto lance, a caminho do difícil diedro onde se encontram os únicos passos de escalada artificial da via. 


A escalar o espectacular lance número oito da "Josefina Alpina". Um verdadeiro desfrute a meio de uma grande via.


As passagens mais sujas foram devidamente escovadas, sem jamais entrar em exageros impactantes.
Quisemos criar uma via de porte, para desfrutar (sem demasiado stress) de uma escalada longa naquela que pode ser, em nossa singela opinião, a parede mais “alpina” da nossa geografia.
No fundo, a ideia é devolver a respectiva dignidade a esta parede singular que se levanta imponente desde o Covão da Ametade.


O décimo lance da via. O "Pilar verde" inicia com uma placa protegida por uma plaquete.


 Os últimos metros do lance número 13. "Estamos quase a terminar... ufa!"



Pelas suas dimensões e características a Josefina Alpina pode representar um grande objectivo para uma cordada iniciada nas lides das grandes vias de montanha, uma magnífica ascensão de preparação para voos mais altos para uma cordada mediana ou um divertido dia longo de escalada para uma cordada experiente em vias de vários lances.

De todas as maneiras, pensamos valer a pena reservar um destes fins de semana para escalar esta via e assim colocar no mapa a magnífica parede leste do Cântaro Magro.

Aqui fica o convite!


 "Foto-cume!!!" Agora só (!) falta a descida.


Paulo Roxo



O Topo










sexta-feira, setembro 30, 2016

Pirinéus - Acto III

PIRINÉUS - RESPIRAR!

Acto III - SEGUINDO MARIOLAS



As maiores flores Edelweiss que já vimos.


O planeamento foi feito ainda no rescaldo da aventura vivida na parede da Fraucata.
“Vai ser duro!” - advertiu a Daniela - “Mas será um novo desafio!” - rematou.
O plano consistia em abrir uma nova via na já familiar parede do Abismo de Carriata mas, desta vez, durante uma única jornada. Apenas iriamos transportar duas pequenas mochilas e as cordas duplas. Nada de cordas fixas, nem lances escalados preliminarmente. Era um plano muito simples: aproximação, escalar cerca de 300 metros de rocha periclitante e descida contornando e destrepando a muralha de calcário.


Abismo de Carriata. Uma parede já conhecida com aventuras solitárias para oferecer.


Durante dois dias descansámos o físico - quanto a mim, o foco estava na recuperação dos tornozelos - e preparámos o psicológico.
Às seis e meia da manhã, à luz dos frontais, subíamos o trilho irregular e empinado em direcção à parede mais emblemática de Ordesa, o Tozal del Mallo. Acompanhava-nos de perto um casal de escaladores que (adivinhámos) se dirigiam para o Tozal. Quando se sai do bosque denso os caminhos dividem-se e é nesse momento que se dá de caras com o Abismo de Carriata. O nome é curioso e sugestivo, adequado. “Abismo, aí vamos nós!”
Depois da “paliza” da escalada anterior, sonhávamos com uma via mais amena. Sonhávamos com uma escalada fluída e de dificuldade técnica, digamos… mais “atractiva”!
“Onde param os quintos graus nesta terra?” – perguntámo-nos na galhofa.


"Onde param os quintos?"


Longe de encontrarmos uma “via amena”, o que descobrimos foi uma escalada exigente. Em cada reunião do itinerário, de pescoços assomados para trás, perscrutávamos o futuro acima das nossas cabeças. A cada: “Creio que se formos por ali, talvez as dificuldades sejam menores.”, sucediam-se os inevitáveis: “Fo… isto é duro! Isto não se parece nada com o que imaginámos!” Apenas de cima para baixo era possível compreender a verticalidade do mundo em que estávamos metidos.


Escalando lego...


Praticamente toda a via desenrolava-se sobre grandes lastras de calcário que se projectavam para fora, causando uma perturbadora sensação de poiso de pássaro. Pessoalmente, desfrutava a cada descanso, porque este representava uma vitória mais e a possibilidade de usufruir de umas visões muito aéreas das florestas que se perdiam lá bem no fundo do vale.


No penúltimo lance, o mais duro.


Apesar das dificuldades encontradas o dia correu bem, bastante bem até.
Atingimos o cimo da nossa via com bastante tempo para realizar a descida com tranquilidade.
Sentados nos prados superiores do vale, já sem a prisão dos arneses e do equipamento de escalada, a uma razoável distância de segurança do precipício por baixo dos pés, pudemos apreciar as vistas esplendorosas. 


Prestes a entrar numa penosa chaminé estranguladora. 


"Reunião. Uffff!"



Futuro!


Desde aquele ponto, a parede sul do Tozal del Mallo, com cerca de 400 metros, apresentava-se de perfil, mesmo assim, constituía uma visão magnífica difícil de ignorar.
Descemos em modo de passeio, inebriados pelas montanhas, sem desperdiçar os momentos de contemplação. Virando a cabeça para trás surgiam de novo as paredes e com elas surgiam também novas ideias, novos projectos. “Em breve…” Mas isso seria para depois. O momento era para descer em direcção ao descanso.
Zigue-zagueando o trilho sinuoso, saltitando os ressaltes e as inúmeras pedras, trocámos poucas palavras. Em silêncio celebrámos as andanças verticais. Celebrámos a aventura. Celebrámos a vida.
Para trás ficava o território selvagem das montanhas… à nossa frente surgia de novo aquela sensação de…

… saudade.


Paulo Roxo


PIRINÉUS - RESPIRAR! 

FIM




Abraçando a montanha e a Natureza.


Topo da via MARIOLAS:




segunda-feira, setembro 26, 2016

Pirinéus - acto II

PIRINÉUS - RESPIRAR!

Acto II - A SAUDADE



Ordesa vertical.


Estávamos cansados. Um dia para recuperar da ida e volta ao Circo de Perramó não foi suficiente. Os quadríceps ainda doíam, os gémeos também, mas a avidez de usar todo o pouco tempo disponível para escalar, fugir para lugares bonitos era maior que todas as dores do corpo, essas mesmas que se instalaram para mascarar a dor que se instalou na minha alma. Dias antes perdi a minha avó Zita, com os seus 101 anos. Segura de que olha agora por mim de uma forma diferente, decidi mostrar-lhe as paredes de Ordesa.
Dias antes, eu e o Paulo tínhamos falado em abrir uma via em Ordesa. Como ultimamente as escaladas tem sido escassas, a pouca rodagem parecia limitar os nossos desejos a uma parede já nossa conhecida, o Abismo de Carriata (vizinha do famoso Tozal del Mallo), onde em 2012 escalámos uma nova via. No entanto, desta vez, era a parede da Fraucata que cativava os nossos sentidos.


A imensa parede da Fraucata.


Cruzar a Fraucata era um sonho que vagueava nos nossos cérebros desde 2012. A parede intimidante, a menos concorrida, onde escaladores de renome, como Jesus Galvez e Christian Ravier deixaram traços ainda hoje pouco (ou nunca) repetidos. Essa mesma parede onde não nos sentiríamos confortáveis. “A Fraucata é a menos desejada das paredes de Ordesa. É austera, o sol chega tarde”, foi o que lemos no novo guia de Christian Ravier e Rémi Thivel. Essa frase exercia sobre nós um misto de medo e atracção.
De alguma forma, entre as saudades da Zita e a melancolia perdeu-se o medo, e deixámo-nos levar pelo sonho. Porque a Zita sempre me fez sentir o coração leve, livre, achei que tinha chegado a altura de enfrentar a Fraucata sem pensar demasiado. Libertar-me, tentar alcançar um esboço de alegria. Senti-me livre do medo de falhar, de não ser aceite por esta parede… “Que se lixe o que acontecer!” Neste enredo confuso, abrimos o livro de Ravier e escolhemos um espaço no papel sem linhas desenhadas. Após um dia de descanso acercámo-nos da parede.


A terminar o segundo lance de escalada. 


Cerca de 300m de calcário vertical olhavam-nos de soslaio. Buscámos o traçado que nos pareceu mais fácil. Brincávamos tentando adivinhar as dificuldades. “Em busca do V grau!” Porque não tínhamos muita corda para fixar, a aventura teria de se desenrolar em tão só dois dias. A rapidez seria algo imperioso para terminar a via no segundo dia. No primeiro não poderíamos fixar mais que 60 a 80m (80 metros... com truque!), no segundo, ou chegávamos au topo ou regressaríamos de mãos a abanar. De qualquer modo, decidimos que aquela via sairia de uma forma ou de outra. Tínhamos tempo, não íamos desistir!
No dia 26 de Agosto, perto da 9 da manhã, apanhamos o autocarro que nos depositou no parque de estacionamento de Ordesa. Uma hora e quarenta depois estávamos à sombra dessa enorme parede. A Fraucata parecia olhar-nos com um sorriso traquinas.


O Paulo inicia o terceiro lance da nova via.


Após um primeiro lance de trepada (70m, um passo de IV grau, o resto: jardinagem), atámos as cordas a um pinheirito isolado e, olhando para cima, descobrimos um lance de aparência… fácil.
- Queres ir tu? Não parece difícil! – propõe o Paulo.
- Estou cansada. Não estou muito motivada. Olha vai tu!
... passada uma hora e cerca de quarenta metros escalados juntámo-nos novamente, na nova reunião.
- Chiça! V grau? Achas mesmo? A mim custou-me! – declarei decepcionada.
- Eu não disse que era V grau! – retorquiu o Paulo.
Tínhamos acabado de escalar o lance que nos parecera mais fácil, um 6b! O nosso “em busca do V grau” desvaneceu-se e mentalmente preparámo-nos para uma via mais dura, bem mais dura.


Todos os lances são mais duros que o esperado.


No quarto lance. A aventura continua.


O dia de escalada parecia estar quase a terminar, pois a corda estática não dava para muito mais, mas lá nos lembrámos que poderíamos fixar uns 30m extra usando uma das cordas duplas (não aconselhável, mas lá o fizemos!). Assim, o primeiro dia rendeu-nos uns bons 80m de escalada.
Como em corpo não recuperado uma nova dose física não ajuda, achámos por bem descansar um dia para regressar em força.


Finalmente um respiro! O quinto largo "aligeira" um pouco.



"Mmm, como será o resto?"


No dia do regresso, despertámos às 4h30 e às seis da manhã apanhámos o primeiro autocarro que parte para o estacionamento de Ordesa.
Antes do nascer do Sol, escondemos uma mochila no meio de um denso matagal no início do caminho que nos levaria à parede. No interior dessa mochila colocámos algum equipamento de pernoita, caso não conseguíssemos apanhar o último autocarro para Torla, o das 22h00. Mentalmente, preparámo-nos para um dia épico.
Algures pelas 8h30 estávamos a tomar o pequeno-almoço, constituído por uma dose de 80 metros de jumar!


Uma reunião típica.


Num momento de travessia nervosa para aceder ao último muro da via.


Escalámos e escalamos e pelas 14h00 tínhamos já atingido uma pequena plataforma que corta a parede. Por onde ir?
Sem grandes hesitações, decidimos seguir a linha que parecia mais fácil – agora já sabíamos que a aparência de facilidade era aqui uma mera ilusão.
- Merda! Está aqui um piton! Este diedro já foi escalado! – a voz do Paulo denotava frustração.
- Queres tentar mais à esquerda? Ainda temos tempo! – berrei com convicção.
Estávamos determinados a abrir uma linha que fosse só nossa. O Paulo destrepou um pouco e escalou em direcção ao diedro da esquerda, aquele que queríamos evitar por nos parecer mais difícil. A vantagem é que terminaríamos a via por uma saída mais elegante.


Escalada exigente já no último muro da via.


Dois lances de escalada levaram-nos ao diedro final. Seria o último lance, lógico e inevitável.
- Merda! Um piton! – silêncio…
- Já andaram por aqui! Epá, agora vou seguir!
Esse último lance seria comum com outra via misteriosa que provinha de qualquer um dos múltiplos diedros ou fissuras. O guia não indicava qualquer via por ali. Foram os únicos vestígios de outros escaladores que encontrámos no nosso alinhamento.


Perto do final. Trezentos metros de escalada debaixo dos pés.


Após sofrer mais uns 35m de escalada, penduranço, “A1zanço” e tal, algures pelas 17h30 estávamos finalmente os dois no topo da Fraucata. Do outro lado do vale, olhávamos a parede do “Gallinero” com orgulho, felizes por ter cruzado toda a “Fraucata austera”, felizes por quase terminar o sonho (faltava a descida) que nos perseguia desde 2012. Felizes por deixarmos o nosso medo 345m mais abaixo. Deleitámo-nos com a paisagem, a vista era imensa, no horizonte de cristas de montanhas reconhecia-se o Taillón, o Cilindro de Marboré, a Falsa Brecha de Rolando, nomes famosos...


"Yeeeeaaaaahhhhhhhh! The end!... opss, ainda não! Falta a descida!"


Vistas largas para o belíssimo circo de Cotatuero. Descida esgotante mas, muito compensadora.


Faltava-nos agora regressar ao ponto de partida. Com alguma sorte e celeridade talvez conseguíssemos evitar dormir por ali. Agora o sonho mais apetecido era jantar num dos restaurantes de Torla. O guia de Ordesa indicava algo como 1h30 para descer... “Hummmm” - estranhámos e contámos no nosso intimo com 2h00. Fizemos contas para apanhar o “bus” das 20h00.
Andámos, andámos, e andámos muito, e em jeito de recompensa a natureza decidiu oferecer-nos a visão de enormes flores Edelweiss, rebecos que corriam pelo vale, marmotas empoleiradas em pequenas pedras. Andámos e corremos, porque o tempo passava e sentíamo-nos cada vez mais longe daquele jantar apetecido.
Perto de três horas depois, a esperança era agora apanhar o autocarro das 21h00.
Novamente no escuro, os arbustos que serviam de esconderijo para a mochila do depósito pareciam ter desaparecido! Os minutos passavam, víamos o jantar cada vez mais longe. Pouco depois os arbustos familiares apareceram. Com o pouco tempo que nos restava, colocámos a mochila às costas atabalhoadamente e corremos para o autocarro, ainda com o arnês à cintura e os friends a tilintar.
Eram 20h55 quando saltámos para dentro do autocarro. Nessa noite, os nossos liofilizados transformaram-se em dois excelentes “menus” e a água de rio ganhou o sabor de um vinho branco fresquinho nascido na mesma região da Fraucata, nos Pirineus!


Daniela Teixeira


A seguir: PIRINÉUS - RESPIRAR! Acto III


Topo da via "SAUDADE":







terça-feira, setembro 20, 2016

Pirinéus - Acto I

PIRINÉUS - RESPIRAR!

Acto I - Circo de Perramó



Vista do Circo de Perramó e Vale de Estós, desde o cimo da via "Momentos".


Ordesa! Sinónimo de vertigem, de aéreo, de lastras imensas empilhadas formando o verdadeiro arquétipo de lego para gigantes.
A visão do mundo vertical do Parque Nacional de Ordesa revela receios ocultos mas também sentimentos profundos. Não é fácil evitar as exclamações sonoras em cada recanto do caminho, em cada brecha na folhagem da floresta quando, como uma aparição fantasmagórica, surgem as muralhas avermelhadas pela luz quente do final da tarde.
Já em 2012 a Daniela e eu tivemos a oportunidade de explorar uma nova via nestas paredes e, não sei bem, mas a distância temporal talvez tenha entorpecido a memória do medo visceral provocado pela verticalidade perturbadora da escalada em Ordesa. Por isso… voltámos!


A grandiosa parede do Galliñero no Parque Nacional de Ordesa.


Nos últimos tempos, por razões diversas e uma perda familiar imensa, os nossos níveis de ansiedade aumentaram muito. Resolvemos escapar para as montanhas. Ansiávamos pelas grandes paisagens, pela natureza selvagem, pela pureza crua dos montes, pela frescura dos bosques. Ansiávamos pela indiferença dos elementos. Uma indiferença sem questões, sem juízos, no fundo, acolhedora.

Pirinéus: a mais bonita cordilheira do mundo.
Duas semanas: pouco tempo mas, uma lufada de ar. AR!

Ordesa consistia no objectivo principal mas, queríamos em primeiro lugar subir a um lugar isolado, deserto e bonito. Lembrámo-nos de um vale espectacular que havíamos visitado há uns anos. Mas seria necessário andar. Andar e carregar!


As muito desejadas sombras do bosque num dia de caminhada dura sob um calor intenso!


Com as mochilas apetrechadas com tudo, incluindo equipamento de escalada suficiente para abrir uma nova via, iniciámos a caminhada para o Vale de Estós. Hora e meia depois, saímos do caminho principal e embicámos para o trilho da esquerda, empinado e sinuoso em direcção ao Circo de Perramó. 
O calor acompanhou toda a jornada, apenas aliviada pela visão sublime das paisagens de aspecto “Canadiano”, das montanhas, dos bosques e das lagoas de água translúcida.


Uma visão do paraíso.


A Daniela já mais animada: "Estamos quase!"


Uma penosa subida de três horas e meia depositou-nos num dos lagos superiores do Vale. Um mergulho rápido nas águas gélidas para lavar os litros de suor perdido precedeu a montagem rápida da pequena tenda. À nossa direita, a Torre de Perramó evidenciava-se. Em 2012 Escalámos por ali uma nova via. Já naquela altura pensámos que os 75 metros de escalada não justificavam a aproximação dura e demorada. Desta vez já se adivinhava uma repetição desse cálculo matemático. Mas quem disse que a montanha é feita de cálculos matemáticos? Nunca é, e naquele lugar, para prova-lo bastava levantar o olhar e apreciar o horizonte num giro lento de 360 graus.
Delimitando a cumeada do vale que acabáramos de subir, avistava-se o pico Perdiguero. Das suas vertentes escorregavam prados de um verde intenso até desaparecerem escondidos por um bosque magnifico. As pequenas lagoas encontravam-se salpicadas por ali e acolá. Em sentido oposto, ali estava o cordão de granito formado pelas Tucas de Ixeya, Agulha del Chinebró e Tuca de Corbets.



O nosso pequeno refúgio isolado do resto do mundo.


Estas paredes surgiam como uma carta aberta, disponível para colmatar os nossos desejos de escalada. É um lugar bastante remoto e bastava escolher uma parede ou um esporão ao azar e a probabilidade de se abrir um novo itinerário era grande.
Ligámos o fogão para aquecer a água para a refeição. Não fossem os mosquitos, a perfeição teria ali uma verdadeira expressão física. No entanto, o tão desejado isolamento, esse, tínhamo-lo encontrado. 
Às duas e trinta da madrugada a fisiologia obrigou a uma saída da tenda. De olhos entorpecidos admirámos o céu limpo e a via láctea em versão total. A ténue luz combinada das estrelas era suficiente para iluminar a muralha de granito e a lagoa que agora revelava uma tez negra. Paz e silêncio absoluto. PAZ! Ficámos ali um bocado a olhar o infinito, a admirar o momento. MOMENTOS!


A preparar o material para iniciar uma nova via na face norte da Tuca de Xinebró... num lugar descrito pela Daniela como: "Onde o Diabo perdeu as botas!"


Na Tuca de Xinebró (de raríssima visita), a uma hora do “campo base”, inaugurámos uma nova via. Cerca de 150 metros de granito, com a cereja no topo do bolo situada no segundo lance, um diedro estético e belo.

A Daniela a emergir do primeiro lance fácil.


A iniciar o estético segundo lance da escalada.


Atipicamente, a nossa via não terminou no cume da torre mas sim no cimo de uma crista. Para cima, ficou a faltar uma secção de parede tombada de trepada fácil. “Parece demasiado tombado mas, não para descer!” – considerámos. Decidimos não continuar para não ter que abandonar muito material nas inevitáveis instalações de rapel. O chip da poupança prevaleceu à lógica alpinística.
Visto a frio, caminhámos umas quatro horas para escalar uma via de sabor incompleto e com um único lance de boa qualidade. Errado! Caminhámos quatro horas para viver e respirar e ainda se aproveitou para subir um pedaço de muralha com vistas largas.


As vistas compensaram todo o esforço.


“Como será isto no pino do Inverno?” – questionava-se a Daniela, com os olhos metidos nas sombrias paredes vizinhas, voltadas a norte. Naquele momento, nasceu uma nova ideia. Talvez um novo sonho…
Quase esquecemos que após uma subida daquele calibre, inevitavelmente, viria uma descida igualmente extenuante. Os joelhos e os tornozelos - especialmente os meus tornozelos, já bastante desgastados por percalços e acidentes vários, ao longo de uma vida de aventuras - viriam a queixar-se lá em baixo, na civilização. O dia terminou com uma tareia magnífica. Algo que por aquelas bandas é conhecido como “Una menuda paliza!” 
Que mais se podia desejar?


Entretanto, Ordesa sussurrava… 


Paulo Roxo


A seguir: PIRINÉUS - RESPIRAR! Acto II


Topo da via "Momentos":