segunda-feira, novembro 23, 2020

Solo

SOLO 


Vignemale, há 19 anos...


Há pouco tempo, ao vasculhar os meus canhandros - aquele caos de memórias de aventuras esquecidas - , descobri umas pequenas folhas amassadas, já meio descoloridas, mas de aspecto familiar. Tratava-se do único testemunho escrito que relata, de uma forma demasiado sucinta, aquela que considero como uma das minhas mais inspiradas escaladas: a ascensão em solo integral e à vista do corredor Arlaud-Soriac (700m, MD+), no maciço do mítico Vignemale, nos Pirinéus.

Não foi num passado demasiado distante, mas também não foi ontem!


As fotos que acompanham o texto são cópias de slides, obtidos em 2001.

 

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No Inverno de 2001, vivia naquele limbo existencial, entre as montanhas e uma Fiat Ducato - uma velharia com uns 20 anos - transformada em casa ambulante, que me servira de abrigo durante 18 meses de deambulações alpinas.

No mês de Abril, após uma aventura invernal no Vignemale, o meu companheiro, Nuno Soares (Larau), teve de retornar aos seus compromissos profissionais. No entanto, durante as horas da caminhada de regresso, enquanto apreciava as montanhas em redor, uma ideia germinava na minha cabeça.

O Larau abandonou o estacionamento e eu fiquei para ali, sozinho, a matutar…

“E se…?”

Por via das dúvidas, não fosse realmente decidir-me a concretizar o plano, preparei o equipamento. Comi qualquer coisa e, devia pensar em dormir um bocado, afinal, tinha acabado de descer do refúgio nem fazia uma hora.

Deitei-me e… não dormi!


O magnífico Vignemale!



Às 2h30 da madrugada, abandonei a carrinha no estacionamento de Pont d`Espagne e, mochila ligeira, mente focada, pus-me a caminho, refazendo o trilho nevado pelo qual havia passado poucas horas antes.

Tardei pouco mais de duas horas a chegar ao refúgio. Eram as 4h45 e, reinava o silêncio. O refúgio estava ocupado por mais alpinistas que dormiam nas camaratas. Muito em breve iriam começar a emergir dos casulos quentinhos dos sacos-cama e cobertores, para a dor momentânea da madrugada fria e negra. A maioria iria escalar o famoso Corredor de Gaube. Outros, iriam para outras vias, quiçá, para a “minha” via, a Arlaud-Soriac e, isso, constituía um problema para mim. Não queria ter ninguém por cima a lançar-me detritos de gelo mas, sobretudo, não queria que soubessem do meu plano, antes de o concretizar. Não queria que me fizessem perguntas sobre o que tencionava tentar. Planeava uma escalada em solo e, não me apetecia ser influenciado negativamente por nada, por opiniões, nem sequer por informações acerca do estado da via.

O Vignemale não é uma estranha para mim. Em 1992, conheci-a da forma mais profunda e visceral que alguém pode conhecer uma montanha. Na verdade, da forma mais dolorosa. Uma queda de 15 metros na última cascata do Corredor de Gaube, resultou nas duas pernas partidas e num longo processo de recuperação física. A reabilitação mental foi a mais penosa. No entanto, para me ajudar a superar os traumas, possuía a melhor arma secreta que alguém poderá ter jamais: a juventude! Com 22 anos, qualquer muralha, por mais alta que possa parecer, rapidamente se transforma numa pequena barreira, ultrapassável com algum treino. Porém, aquele acidente delapidou para sempre a certeza da imortalidade, tão comum, quando se é novo. Cresci!


O amigo "Toño", de Riglos, a escalar a última cascata do Corredor de Gaube. Nesta actividade, (2001), tentámos o Corredor Y, à esquerda do Gaube mas, as más condições daquela via, levaram-nos a realizar mais uma repetição do Corredor de Gaube. A fotografia mostra o local do meu acidente, em 1992.
Hoje em dia, devido à recessão do glaciar, na face sul, esta cascata quase não se forma. Era o glaciar que, "escorrendo" para norte, alimentava o gelo do Corredor de Gaube.



Depois do acidente, retornei algumas vezes ao Vignemale. A minha primeira ascensão (efectiva) ao Corredor de Gaube, resultou num processo “espanta-fantasmas”. Vários medos ressurgiram, durante a escalada daquela fatídica cascata final, vertical e com 40 metros. As assombrações do passado reapareciam a cada estocada de piolet. No entanto, o passar do tempo, a experiência acumulada e a familiaridade ao terreno de alta montanha, minorou de forma significativa as mazelas psicológicas do acidente, deixando algumas físicas, com as quais ainda convivo diariamente.

Voltei ao Vignemale para tentar outras vias e escalei o Corredor de Gaube mais três vezes, com diferentes companheiros, incluindo clientes. Os fantasmas do passado tinham-se evaporado definitivamente.


Uma secção fácil do Corredor de Gaube, onde não utilizámos a corda.



No interior da sala do refúgio, a luz tépida da chama do pequeno fogão amenizava a escuridão. Só e em silêncio aquecia um chá, antes de enfrentar de novo a fria madrugada.

Às 6h15, saí do refúgio. O fogão e o pouco equipamento supérfluo tinham ficado dentro de um dos cacifos. Também a mochila ficou para trás.

Os meus entusiasmos são muitas vezes alimentados por pequenos detalhes. Detalhes aparentemente insignificantes que funcionam como catalisadores. Uma ideia, uma peça de equipamento por estrear, uma determinada morfologia rochosa, um pensamento. Naquela noite, o pormenor que mantinha acesa a chama que impulsionava o espírito era uma frase que tinha lido num artigo sobre alpinismo, uma espécie de mantra, que o meu subconsciente repetia uma e outra vez: “Se tu pensas que PODES necessitar de alguma peça de equipamento, não a leves! Leva aquilo que EFECTIVAMENTE vais utilizar!”. Tinha decidido não levar sequer mochila, ou seja, seguindo o mantra, seria uma escalada levada a cabo da forma mais ligeira que me podia ocorrer… extremamente, radicalmente, ligeira! Posteriormente, apontei a lista de equipamento na pequena nota amassada:

“- Arnés

- 1 parafuso de gelo

- ½ litro de água numa garrafa preparada para suspensão ao arnês

- Frontal

- (Obviamente!) Piolets e Crampons (mono-ponta)”

Escrevinhei ainda:

“Ah!... Como não transportei mochila levei também uma pequena bolsa de cintura com:

- Algumas bolachas (Maria)

- Uma barra de Isostar (que não comi – não suporto!)

- Algumas pastilhas Isostar energéticas (isso sim, vale a pena!)

- E… caramelos (a minha fraqueza em guloseimas)”


O corredor de Gaube em 2001. O círculo marca dois alpinistas já acima da rimaya da entrada.



A neve recém-gelada quebrava debaixo dos crampons a cada passada, produzindo um ruído característico, o “crunch-crunch” ritmado e monótono, reconhecido por qualquer alpinista. Um céu impossivelmente estrelado iluminava a noite tranquila, congelada, como a própria temperatura.

Curiosamente, não me recordo de qualquer pensamento negativo. Nada! Caminhava em direcção a uma goullote de gelo com quase 700 metros que nunca tinha escalado, da qual não possuía qualquer informação e para a qual não levava sequer corda, ou qualquer equipamento de relevância, por forma a prevenir algum… incidente… no entanto, estranhamente, interiormente, sentia-me calmo, sereno, equilibrado. Todas a variáveis, equações, dúvidas ou medos, tinham-se diluído no exacto momento em que a decisão fora tomada. Ainda não o sabia, mas a decisão fora tomada ainda no estacionamento, logo a seguir ao abraço de adeus ao Larau, talvez até horas antes, enquanto descíamos do refúgio. O mesmo refúgio do qual partia agora, para cima, para a montanha. Todos os vectores convergiam numa só direcção: a certeza que tudo iria correr de feição.

Tardei pouco mais de uma hora em alcançar a base da Arlaud-Soriac. A claridade do amanhecer revelava um céu glorioso, pálido ainda, a caminho do azul intenso.


O Corredor Arlaud-Soriac está marcado pela linha vermelha. A seta marca o Corredor de Gaube, o mais famoso e repetido do Vignemale. O Corredor Y é o braço evidente que parte do Gaube para a esquerda.



De piolets em punho observo o cavalo que pretendo domar. As condições da via parecem-me perfeitas. “Vamos a isso!” – digo em voz alta.

A primeira parte do corredor com 60 graus de inclinação foi fácil e serviu como um aquecimento de motores. Pouco depois, surgiu a primeira cascata de gelo. Escalei-a num ápice. Sentia-me seguro e confiante… invencível.

A cascata seguinte mostrou-me os dentes. Uma pequena prancha de rocha vertical, quebrava a continuidade do gelo. Um ressalto inesperado. Observação, análise, decisão! Ainda no troço de gelo anterior, estiro o braço esquerdo o mais que posso, tentando que o piolet alcançasse o troço de gelo seguinte, evitando o passo impossível de rocha. Uma estocada… nada! Segunda estocada… nada! Terceira estocada… o piolet parece aguentar. “Parece aguentar” não é suficiente. O piolet TEM de aguentar! Quarta estocada… Quinta. O piolet vibra. Ok! O passo toma uma direcção ligeiramente em diagonal para a esquerda. Confiando que o piolet está solidamente cravado no gelo, coloco o piolet direito no ombro, levo a mão livre ao piolet cravado (durante alguns segundos agarro-me com as duas mãos à mesma ferramenta, a única que me agarra à cascata e… à vida), deixo balançar um pouco o corpo ao mesmo tempo que engancho a ponta do crampon esquerdo numa exígua saliência rochosa. Ergo o pé direito e desfiro um só golpe certeiro de crampon, procurando o eixo de equilíbrio. Volto a agarrar o piolet suspenso no ombro, desta vez com a mão esquerda. A troca de mãos no mesmo piolet permite-me tentar cravar ainda mais à esquerda, onde o gelo parece mais “saudável”. De novo, procedo ao ritual das estocadas até atingir o resultado ideal. Após três golpes o piolet vibra. Ok! Desta vez tenho de me erguer no crampon esquerdo que se aguenta precariamente na pequena saliência de rocha. Com cuidado, procuro o novo ponto de equilíbrio, desencravo o piolet direito, realizo um arco por cima do ombro e, num só golpe, cravo-o mais acima. Yes! – grito. Passo resolvido. Rapidamente escalo os metros seguintes com bom gelo. Naquele momento, soube que nunca iria poder destrepar aquela passagem. Pouco importava. A opção não me passava sequer pelo cérebro.


Uma das notas que escrevinhei, após a escalada da via. Uma miserável folha de papel, dobrada em quatro, é o único "documento" que possuo que testemunha a minha ascensão.



Um novo muro vertical apresentava o próximo desafio. Felizmente, o gelo encontrava-se em perfeitas condições e com quantidade suficiente para progredir sem sobressaltos. Acerca desse troço escrevi uma nota: “Gelo vertical (90 ͦ) em cerca de 6 metros, com ´ancragens` a ´explorar`.”

Alguns metros depois, a cascata reduziu um pouco a sua inclinação ao mesmo tempo que apertava a chaminé. Se pudesse soltar as mãos e abrir os braços conseguiria tocar em ambas paredes da garganta. Encontrava-me, literalmente, nas entranhas da montanha. Agora escalava com mais soltura, o terreno assim o permitia.

No final do corredor mais estreito, a uns 400 metros da base, deparei-me com um obstáculo. Um golpe psicológico! “E agora?” Analiso a situação. À minha esquerda erguia-se uma parede de rocha vertical, impossível de ultrapassar (mesmo com corda). À minha direita, uma estreita “escorrência” de gelo “trepava” até ao topo de um pequeno promontório que parecia terminar também em rocha. Ali, ocorreu o único momento de dúvida da ascensão. “E agora?” – repeti. Na verdade, não tinha alternativa senão optar pela “micro-goullote” da direita. Cravei o piolet. O gelo era de qualidade, escasso, mas de qualidade. Como não havia hipótese de colocar os pés lado a lado, tive de ir subindo um pé por cima do outro, cravando os crampons com bastante cuidado. Um escorregão estava fora de questão. Um pensamento ocupava-me o cérebro durante aqueles passos de escalada: “E se isto terminar efectivamente em rocha vertical?”


A "lista" de material que transportei. O parafuso de gelo servia apenas para me auto-segurar em caso de perigo extremo. Nunca o utilizei!



Atingi o topo do promontório e… à minha direita ali estavam, os duzentos metros restantes do corredor, não em gelo mas, em neve dura, de muito mais fácil progressão. Para alcançar o Nirvana tinha apenas que destrepar para o lado oposto da pequena aresta onde me empoleirava, evitando assim a parede de rocha e, alcançando o corredor. À medida que subia, fabricando uma escadaria de degraus pouco profundos na neve transformada, um misto de sensações debatia-se no meu cérebro. Misto de alívio e regozijo. Felicidade pura? Talvez isso.

O ponto focal, bem apertado na concentração máxima, podia agora alargar o seu horizonte. A "Zona", aquele estado cerebral difícil de alcançar e que nos permite realizar coisas perigosas ou difíceis, sem que o ritmo cardíaco se altere, desaparecia, como que diluído por um qualquer mecanismo misterioso. Podia agora ceder ao luxo de me distrair com outros pormenores, outros pensamentos.


O rabisco do croquis que fiz após a escalada do Corredor Arlaud-Soriac, onde apontei as condições encontradas. Esta e as notas anteriores (fotos anteriores), são os únicos escritos que documentam aquela ascensão. Como não transportei qualquer camera (peso a mais!), as fotografias não existem!



O vento frio recebeu-me na aresta, entre o Petit Vignemale e a Punta Chausenque. Detrás, encontrava-se o cume do monarca, o Vignemale com 3298m. Observei a vertente sul do maciço, mais suave e amistosa, iluminada por um Sol intenso de alta montanha. O relógio marcava as 9h30. A minha aventura a solo tinha demorado duas horas. Não escondia a sensação de orgulho. Celebrei sozinho aquela realização pessoal.

Sentei-me e olhei para trás. O vale profundo, branco de neve, estendia-se até aos bosques verdejantes, muitos metros mais abaixo. O refúgio Des Oulettes surgia na paisagem como um pequeno ponto colorido. Era para ali que devia descer. Pensava que iria encontrar outros alpinistas. Desta vez já podiam perguntar-me o que tinha escalado. Aquele pensamento suscitou um certo sentimento precoce de vaidade. 

Descendo pela via normal, desta vez em ritmo de passeio, parei a poucos metros do refúgio. Voltei a cabeça para encarar a imponente face norte do Vignemale, com os seus emblemáticos corredores de gelo. Um penacho de neve em pó surgiu da aresta de cume, projectado pelo vento. A montanha apresentava-se bela e impassível, indiferente a todos os sucessos, fracassos ou tragédias, acontecidos durante a breve história das “conquistas” humanas. Afinal, correspondiam apenas a meras fracções de segundo da sua vida geológica milenar.  

A minha escalada era alheia à montanha…

Assim como tem de ser…


Paulo Roxo




segunda-feira, setembro 26, 2016

Pirinéus - acto II

PIRINÉUS - RESPIRAR!

Acto II - A SAUDADE



Ordesa vertical.


Estávamos cansados. Um dia para recuperar da ida e volta ao Circo de Perramó não foi suficiente. Os quadríceps ainda doíam, os gémeos também, mas a avidez de usar todo o pouco tempo disponível para escalar, fugir para lugares bonitos era maior que todas as dores do corpo, essas mesmas que se instalaram para mascarar a dor que se instalou na minha alma. Dias antes perdi a minha avó Zita, com os seus 101 anos. Segura de que olha agora por mim de uma forma diferente, decidi mostrar-lhe as paredes de Ordesa.
Dias antes, eu e o Paulo tínhamos falado em abrir uma via em Ordesa. Como ultimamente as escaladas tem sido escassas, a pouca rodagem parecia limitar os nossos desejos a uma parede já nossa conhecida, o Abismo de Carriata (vizinha do famoso Tozal del Mallo), onde em 2012 escalámos uma nova via. No entanto, desta vez, era a parede da Fraucata que cativava os nossos sentidos.


A imensa parede da Fraucata.


Cruzar a Fraucata era um sonho que vagueava nos nossos cérebros desde 2012. A parede intimidante, a menos concorrida, onde escaladores de renome, como Jesus Galvez e Christian Ravier deixaram traços ainda hoje pouco (ou nunca) repetidos. Essa mesma parede onde não nos sentiríamos confortáveis. “A Fraucata é a menos desejada das paredes de Ordesa. É austera, o sol chega tarde”, foi o que lemos no novo guia de Christian Ravier e Rémi Thivel. Essa frase exercia sobre nós um misto de medo e atracção.
De alguma forma, entre as saudades da Zita e a melancolia perdeu-se o medo, e deixámo-nos levar pelo sonho. Porque a Zita sempre me fez sentir o coração leve, livre, achei que tinha chegado a altura de enfrentar a Fraucata sem pensar demasiado. Libertar-me, tentar alcançar um esboço de alegria. Senti-me livre do medo de falhar, de não ser aceite por esta parede… “Que se lixe o que acontecer!” Neste enredo confuso, abrimos o livro de Ravier e escolhemos um espaço no papel sem linhas desenhadas. Após um dia de descanso acercámo-nos da parede.


A terminar o segundo lance de escalada. 


Cerca de 300m de calcário vertical olhavam-nos de soslaio. Buscámos o traçado que nos pareceu mais fácil. Brincávamos tentando adivinhar as dificuldades. “Em busca do V grau!” Porque não tínhamos muita corda para fixar, a aventura teria de se desenrolar em tão só dois dias. A rapidez seria algo imperioso para terminar a via no segundo dia. No primeiro não poderíamos fixar mais que 60 a 80m (80 metros... com truque!), no segundo, ou chegávamos au topo ou regressaríamos de mãos a abanar. De qualquer modo, decidimos que aquela via sairia de uma forma ou de outra. Tínhamos tempo, não íamos desistir!
No dia 26 de Agosto, perto da 9 da manhã, apanhamos o autocarro que nos depositou no parque de estacionamento de Ordesa. Uma hora e quarenta depois estávamos à sombra dessa enorme parede. A Fraucata parecia olhar-nos com um sorriso traquinas.


O Paulo inicia o terceiro lance da nova via.


Após um primeiro lance de trepada (70m, um passo de IV grau, o resto: jardinagem), atámos as cordas a um pinheirito isolado e, olhando para cima, descobrimos um lance de aparência… fácil.
- Queres ir tu? Não parece difícil! – propõe o Paulo.
- Estou cansada. Não estou muito motivada. Olha vai tu!
... passada uma hora e cerca de quarenta metros escalados juntámo-nos novamente, na nova reunião.
- Chiça! V grau? Achas mesmo? A mim custou-me! – declarei decepcionada.
- Eu não disse que era V grau! – retorquiu o Paulo.
Tínhamos acabado de escalar o lance que nos parecera mais fácil, um 6b! O nosso “em busca do V grau” desvaneceu-se e mentalmente preparámo-nos para uma via mais dura, bem mais dura.


Todos os lances são mais duros que o esperado.


No quarto lance. A aventura continua.


O dia de escalada parecia estar quase a terminar, pois a corda estática não dava para muito mais, mas lá nos lembrámos que poderíamos fixar uns 30m extra usando uma das cordas duplas (não aconselhável, mas lá o fizemos!). Assim, o primeiro dia rendeu-nos uns bons 80m de escalada.
Como em corpo não recuperado uma nova dose física não ajuda, achámos por bem descansar um dia para regressar em força.


Finalmente um respiro! O quinto largo "aligeira" um pouco.



"Mmm, como será o resto?"


No dia do regresso, despertámos às 4h30 e às seis da manhã apanhámos o primeiro autocarro que parte para o estacionamento de Ordesa.
Antes do nascer do Sol, escondemos uma mochila no meio de um denso matagal no início do caminho que nos levaria à parede. No interior dessa mochila colocámos algum equipamento de pernoita, caso não conseguíssemos apanhar o último autocarro para Torla, o das 22h00. Mentalmente, preparámo-nos para um dia épico.
Algures pelas 8h30 estávamos a tomar o pequeno-almoço, constituído por uma dose de 80 metros de jumar!


Uma reunião típica.


Num momento de travessia nervosa para aceder ao último muro da via.


Escalámos e escalamos e pelas 14h00 tínhamos já atingido uma pequena plataforma que corta a parede. Por onde ir?
Sem grandes hesitações, decidimos seguir a linha que parecia mais fácil – agora já sabíamos que a aparência de facilidade era aqui uma mera ilusão.
- Merda! Está aqui um piton! Este diedro já foi escalado! – a voz do Paulo denotava frustração.
- Queres tentar mais à esquerda? Ainda temos tempo! – berrei com convicção.
Estávamos determinados a abrir uma linha que fosse só nossa. O Paulo destrepou um pouco e escalou em direcção ao diedro da esquerda, aquele que queríamos evitar por nos parecer mais difícil. A vantagem é que terminaríamos a via por uma saída mais elegante.


Escalada exigente já no último muro da via.


Dois lances de escalada levaram-nos ao diedro final. Seria o último lance, lógico e inevitável.
- Merda! Um piton! – silêncio…
- Já andaram por aqui! Epá, agora vou seguir!
Esse último lance seria comum com outra via misteriosa que provinha de qualquer um dos múltiplos diedros ou fissuras. O guia não indicava qualquer via por ali. Foram os únicos vestígios de outros escaladores que encontrámos no nosso alinhamento.


Perto do final. Trezentos metros de escalada debaixo dos pés.


Após sofrer mais uns 35m de escalada, penduranço, “A1zanço” e tal, algures pelas 17h30 estávamos finalmente os dois no topo da Fraucata. Do outro lado do vale, olhávamos a parede do “Gallinero” com orgulho, felizes por ter cruzado toda a “Fraucata austera”, felizes por quase terminar o sonho (faltava a descida) que nos perseguia desde 2012. Felizes por deixarmos o nosso medo 345m mais abaixo. Deleitámo-nos com a paisagem, a vista era imensa, no horizonte de cristas de montanhas reconhecia-se o Taillón, o Cilindro de Marboré, a Falsa Brecha de Rolando, nomes famosos...


"Yeeeeaaaaahhhhhhhh! The end!... opss, ainda não! Falta a descida!"


Vistas largas para o belíssimo circo de Cotatuero. Descida esgotante mas, muito compensadora.


Faltava-nos agora regressar ao ponto de partida. Com alguma sorte e celeridade talvez conseguíssemos evitar dormir por ali. Agora o sonho mais apetecido era jantar num dos restaurantes de Torla. O guia de Ordesa indicava algo como 1h30 para descer... “Hummmm” - estranhámos e contámos no nosso intimo com 2h00. Fizemos contas para apanhar o “bus” das 20h00.
Andámos, andámos, e andámos muito, e em jeito de recompensa a natureza decidiu oferecer-nos a visão de enormes flores Edelweiss, rebecos que corriam pelo vale, marmotas empoleiradas em pequenas pedras. Andámos e corremos, porque o tempo passava e sentíamo-nos cada vez mais longe daquele jantar apetecido.
Perto de três horas depois, a esperança era agora apanhar o autocarro das 21h00.
Novamente no escuro, os arbustos que serviam de esconderijo para a mochila do depósito pareciam ter desaparecido! Os minutos passavam, víamos o jantar cada vez mais longe. Pouco depois os arbustos familiares apareceram. Com o pouco tempo que nos restava, colocámos a mochila às costas atabalhoadamente e corremos para o autocarro, ainda com o arnês à cintura e os friends a tilintar.
Eram 20h55 quando saltámos para dentro do autocarro. Nessa noite, os nossos liofilizados transformaram-se em dois excelentes “menus” e a água de rio ganhou o sabor de um vinho branco fresquinho nascido na mesma região da Fraucata, nos Pirineus!


Daniela Teixeira


A seguir: PIRINÉUS - RESPIRAR! Acto III


Topo da via "SAUDADE":







terça-feira, setembro 20, 2016

Pirinéus - Acto I

PIRINÉUS - RESPIRAR!

Acto I - Circo de Perramó



Vista do Circo de Perramó e Vale de Estós, desde o cimo da via "Momentos".


Ordesa! Sinónimo de vertigem, de aéreo, de lastras imensas empilhadas formando o verdadeiro arquétipo de lego para gigantes.
A visão do mundo vertical do Parque Nacional de Ordesa revela receios ocultos mas também sentimentos profundos. Não é fácil evitar as exclamações sonoras em cada recanto do caminho, em cada brecha na folhagem da floresta quando, como uma aparição fantasmagórica, surgem as muralhas avermelhadas pela luz quente do final da tarde.
Já em 2012 a Daniela e eu tivemos a oportunidade de explorar uma nova via nestas paredes e, não sei bem, mas a distância temporal talvez tenha entorpecido a memória do medo visceral provocado pela verticalidade perturbadora da escalada em Ordesa. Por isso… voltámos!


A grandiosa parede do Galliñero no Parque Nacional de Ordesa.


Nos últimos tempos, por razões diversas e uma perda familiar imensa, os nossos níveis de ansiedade aumentaram muito. Resolvemos escapar para as montanhas. Ansiávamos pelas grandes paisagens, pela natureza selvagem, pela pureza crua dos montes, pela frescura dos bosques. Ansiávamos pela indiferença dos elementos. Uma indiferença sem questões, sem juízos, no fundo, acolhedora.

Pirinéus: a mais bonita cordilheira do mundo.
Duas semanas: pouco tempo mas, uma lufada de ar. AR!

Ordesa consistia no objectivo principal mas, queríamos em primeiro lugar subir a um lugar isolado, deserto e bonito. Lembrámo-nos de um vale espectacular que havíamos visitado há uns anos. Mas seria necessário andar. Andar e carregar!


As muito desejadas sombras do bosque num dia de caminhada dura sob um calor intenso!


Com as mochilas apetrechadas com tudo, incluindo equipamento de escalada suficiente para abrir uma nova via, iniciámos a caminhada para o Vale de Estós. Hora e meia depois, saímos do caminho principal e embicámos para o trilho da esquerda, empinado e sinuoso em direcção ao Circo de Perramó. 
O calor acompanhou toda a jornada, apenas aliviada pela visão sublime das paisagens de aspecto “Canadiano”, das montanhas, dos bosques e das lagoas de água translúcida.


Uma visão do paraíso.


A Daniela já mais animada: "Estamos quase!"


Uma penosa subida de três horas e meia depositou-nos num dos lagos superiores do Vale. Um mergulho rápido nas águas gélidas para lavar os litros de suor perdido precedeu a montagem rápida da pequena tenda. À nossa direita, a Torre de Perramó evidenciava-se. Em 2012 Escalámos por ali uma nova via. Já naquela altura pensámos que os 75 metros de escalada não justificavam a aproximação dura e demorada. Desta vez já se adivinhava uma repetição desse cálculo matemático. Mas quem disse que a montanha é feita de cálculos matemáticos? Nunca é, e naquele lugar, para prova-lo bastava levantar o olhar e apreciar o horizonte num giro lento de 360 graus.
Delimitando a cumeada do vale que acabáramos de subir, avistava-se o pico Perdiguero. Das suas vertentes escorregavam prados de um verde intenso até desaparecerem escondidos por um bosque magnifico. As pequenas lagoas encontravam-se salpicadas por ali e acolá. Em sentido oposto, ali estava o cordão de granito formado pelas Tucas de Ixeya, Agulha del Chinebró e Tuca de Corbets.



O nosso pequeno refúgio isolado do resto do mundo.


Estas paredes surgiam como uma carta aberta, disponível para colmatar os nossos desejos de escalada. É um lugar bastante remoto e bastava escolher uma parede ou um esporão ao azar e a probabilidade de se abrir um novo itinerário era grande.
Ligámos o fogão para aquecer a água para a refeição. Não fossem os mosquitos, a perfeição teria ali uma verdadeira expressão física. No entanto, o tão desejado isolamento, esse, tínhamo-lo encontrado. 
Às duas e trinta da madrugada a fisiologia obrigou a uma saída da tenda. De olhos entorpecidos admirámos o céu limpo e a via láctea em versão total. A ténue luz combinada das estrelas era suficiente para iluminar a muralha de granito e a lagoa que agora revelava uma tez negra. Paz e silêncio absoluto. PAZ! Ficámos ali um bocado a olhar o infinito, a admirar o momento. MOMENTOS!


A preparar o material para iniciar uma nova via na face norte da Tuca de Xinebró... num lugar descrito pela Daniela como: "Onde o Diabo perdeu as botas!"


Na Tuca de Xinebró (de raríssima visita), a uma hora do “campo base”, inaugurámos uma nova via. Cerca de 150 metros de granito, com a cereja no topo do bolo situada no segundo lance, um diedro estético e belo.

A Daniela a emergir do primeiro lance fácil.


A iniciar o estético segundo lance da escalada.


Atipicamente, a nossa via não terminou no cume da torre mas sim no cimo de uma crista. Para cima, ficou a faltar uma secção de parede tombada de trepada fácil. “Parece demasiado tombado mas, não para descer!” – considerámos. Decidimos não continuar para não ter que abandonar muito material nas inevitáveis instalações de rapel. O chip da poupança prevaleceu à lógica alpinística.
Visto a frio, caminhámos umas quatro horas para escalar uma via de sabor incompleto e com um único lance de boa qualidade. Errado! Caminhámos quatro horas para viver e respirar e ainda se aproveitou para subir um pedaço de muralha com vistas largas.


As vistas compensaram todo o esforço.


“Como será isto no pino do Inverno?” – questionava-se a Daniela, com os olhos metidos nas sombrias paredes vizinhas, voltadas a norte. Naquele momento, nasceu uma nova ideia. Talvez um novo sonho…
Quase esquecemos que após uma subida daquele calibre, inevitavelmente, viria uma descida igualmente extenuante. Os joelhos e os tornozelos - especialmente os meus tornozelos, já bastante desgastados por percalços e acidentes vários, ao longo de uma vida de aventuras - viriam a queixar-se lá em baixo, na civilização. O dia terminou com uma tareia magnífica. Algo que por aquelas bandas é conhecido como “Una menuda paliza!” 
Que mais se podia desejar?


Entretanto, Ordesa sussurrava… 


Paulo Roxo


A seguir: PIRINÉUS - RESPIRAR! Acto II


Topo da via "Momentos":





segunda-feira, maio 06, 2013

Variante Pops

 A ULTIMA DA ÉPOCA FRIA 
VARIANTE POPS


 


Já o Inverno tinha entrado na Primavera e ainda não tinha chegado a ansiada encomenda especial.

Após os últimos dias de actividades de neve na Serra da Estrela, ainda esperávamos um fim-de-semana alargado extra para fechar a época. Esse fim-de-semana surgiu dos dias 13 a 16 de Abril, quando vimos uma aberta de bom tempo nos Pirinéus.
Já há algum tempo que tínhamos uma linha em vista nos Gabietos, um “3000” lá para as proximidades de Ordesa.


 A fantástica parede Noroeste dos Gabietos, nos Pirinéus.


No dia 12, um dia depois de, finalmente, recebermos a tal encomenda secreta, fizemo-nos à estrada com o objectivo de chegar a Madrid. Aí iríamos conhecer o representante da RAB Península Ibérica e o Pedro Cinfuentes que foi o primeiro escalador a fazer a travessia das Torres del Paine na Patagónia (também patrocinado pela RAB). Também se juntaria ao grupo, Mendieta, um simpático jornalista de montanha, ex-reporter da revista espanhola Desnivel, que acabou por nos entrevistar, algo que nem sequer tínhamos combinado previamente. 
Após uma noite de “chat chat” agradável, rumámos em busca de ambientes mais montanhosos.
No dia seguinte, com pouca paciência para a aproximação mais tradicional aos Gabietos (que consiste em carregar equipamento de pernoita e comida, para além do típico material técnico, e dormir relativamente perto da parede), decidimos pernoitar ao lado do carro e acumular a aproximação à escalada no dia seguinte. Afinal, seriam apenas mais duas horas e meia a juntar à festa para cima, e mais outro tanto para baixo.


Preparação para uma noite de luxo.


Entre as 5:30 e as 6 da manhã, começámos a aproximação à face Noroeste dos Gabietos, de início por um bonito trilho que estava transformado num verdadeiro ribeiro alimentado pelo degelo das neves e depois, por extensos e incómodos neveiros que apresentavam, ora passos de neve consistente, ora passos em que nos enterrávamos. Aqui e ali víamos vestígios de avalanches recentes, provocadas pela súbita subida de temperatura dos últimos dias... aliás, este ia ser supostamente um dia algo primaveril, seguido de um dia de Verão em que começávamos a suspeitar que não iríamos conseguir escalar coisa nenhuma nas montanhas!


 A caminho da montanha... e do vento!


Algures pelas 9, fustigados por um vento com o qual não contávamos, abrimos as hostes e estreamos as armas secretas. O verde das ferramentas sobressaía brilhante na brancura da neve. Finalmente, os novos piolets entravam em acção!
A face norte apresentava-se com um aspecto convidativo, excepto pelo persistente “spin-drift” que teimava em refrescar-nos o corpo. O Paulo encarou bem a coisa: “Serve de treino!” e eu... eu passava bem sem aquela neve em pó a tentar permanentemente entrar-me pela gola e mangas do casaco.


 "Aí vamos!"


Nas primeiras pendentes, após alguns passos precários mais abaixo... dúvidas... continuamos ou descemos?


Breve percebemos que o aspecto da parede não correspondia ao encontrado. De facto, a zona mais rochosa por onde queríamos abrir via tinha neve, mas como não estava solidificada, não aguentaria nem com um caracol!
Após dois largos de teimosia, com 60 metros cada e alguns passos precários, a decisão estava tomada (de inicio, a minha cabeça não estava para aquilo mas, lá fui), pelo menos sairíamos por cima! Uma grande rampa e uma travessia para a esquerda conduziu-nos inevitavelmente ao corredor da “Remi-Quintana”. Não queríamos coincidir com outra via estabelecida mas, as péssimas condições da neve não nos deixaram alternativa. Por alguns metros avançámos com rapidez, até atingirmos o fecho do dito corredor.


 "Bem, vamos a isso! É para cima!"


 A ideia inicial era escalar alguma linha mista mais ou menos a direito relativamente à minha posição na foto.


Cerca de 2/3 da parede estavam “no papo”, quando o Paulo investigava se a melhor saída seria à esquerda ou à direita.
À esquerda víamo-nos confrontados com uma zona mais exposta, à direita era o desconhecido... fomos pela direita.
Novamente, os novos brinquedos verdes mostraram o seu potencial para os gancheios. Avançamos num terreno misto entre neve podre e rocha... podre e, ao mesmo tempo, compacta e quase improtegivel. É nesta altura que a experiencia se mostra e encontra locais para colocar protecções onde elas supostamente não existem (boa Paulo!).


 A Daniela a chegar a uma reunião, já bem alto na parede e metidos em cheio no assunto.


 "Mmmm... vamos lá a ver se por aqui passamos!"


Uns metros para cima, uma travessia para a direita, uma secção exposta e delicada onde era proibido cair, mais uns metros na vertical e lá estávamos nós na última reunião onde fomos surpreendidos pela única peça de material que encontramos ao longo de 550m de via: um piton!
“Epá, já passaram por aqui! De onde terão vindo?”
A ânsia de estar a abrir via fazia-nos imaginar todos os caminhos possíveis para aceder àquele ponto. Se as condições dos que plantaram o piton fossem as que encontramos, só haveria duas maneiras de chegar ali. Se fossem muito melhores, outros horizontes poderiam ter existido. De facto, se há uma coisa interessante nas vias invernais, é que por mais que se repita uma via, esta será quase sempre um desafio diferente, mais ou menos dura consoante a muita ou pouca neve, podre ou consistente, muito ou pouco gelo... as variantes são infinitas. Foi o achado daquele pequeno artefacto que nos fez pensar que, com honestidade, não poderíamos chamar à “nossa” via: Via! Provavelmente, estávamos a inaugurar uma “Variante” mais.


Após ultrapassar o "crux" da via, constituido por um passo de misto precário, protegido por um piton psicológico.


Restava-nos um largo que terminava numa canaleta de neve vertical, mesmo por baixo de uma cornija intimidante! Rezando para que o calor não a fizesse cair naqueles breves momentos, lá foi o Paulo até à aresta, ultrapassando aquele trecho impossível de proteger.


 A iniciar o ultimo lance e mais do mesmo: neve muito má e protecções... raras.


“Podes viiiiiiiir!”, escutei minutos depois. “Se caires não faz mal, estou no outro lado da aresta!”. Com o coração mais tranquilo subi, bordeei a cornija e saí para a aresta. Atrás de mim, mais umas quantas cornijas, uma delas constituía uma enorme pala com aspecto verdadeiramente ameaçador, principalmente com o calor que se tinha instalado e com o sol a brilhar com toda a sua força. Bom, nós não sentimos grande calor, apenas porque o vento na aresta era tal, que o corpo não percepcionava a real temperatura. No entanto, o avistar de uma avalanche, deixava-nos conscientes de que ainda não estávamos totalmente livres de perigo.


A Daniela já na saída da nossa via, que veio da vertente do lado direito da foto. Aqui, conseguimos ter uma ideia do tamanho das cornijas formadas pelo vento. 


Teríamos de atravessar uma boa parte da aresta para escapulir pelo colo que existe entre os Gabietos e o Taillon.
Uma parte da travessia ainda me fez suar o cérebro “Não é nada bom cortar a neve assim! Vá, vai com cuidado e pisa exactamente onde o Paulo pisou, não cortes mais a neve...”. Mantínhamos a corda entre nós e foram colocadas algumas protecções intermédias “Just in case!”


 Lá ao fundo, a face noroeste do Taillón.


 A face norte do Taillón.


Horas depois, chegámos a terreno seguro. “UF!” Faltava apenas o laaaaaargoooooo pateio de regresso ao carro.
Na descida, pudemos observar como o terreno se tinha modificado ao longo daquelas horas. Os “Debris” de avalanches multiplicaram-se! Nessa altura, tivemos a certeza que aquela tinha sido a última actividade da época, assim nos despedíamos do excelente Inverno de 2013.


 "Check! Vamos ás lecas!"


Como invariavelmente nos ocorre nestas situações e nesta parte do mundo, o dia seguinte foi passado em Riglos!
Passamos das temperaturas baixas para uns agradáveis 24º, onde as cervejinhas numa esplanada virada aos famosos Mallos, nos sabiam a néctar dos deuses!
Se escalámos?
Sim, uns singelos 4 lances, pois os pés inchados de 15h de actividade e os dedos maçados de cerca de 3h de descida não toleraram o “(des)conforto” dos pés de gato!


DanielaTeixeira




Os topos