terça-feira, outubro 06, 2009

UMA AVENTURA... COMOVENTE!

Uma novissima reunião "à bomba!!". Imagem de marca do Cabo da Roca.


Uma caminhada de reconhecimento levou-me um dia à base desta sombria parede.

Descobertos os sectores mais óbvios do Cabo da Roca, as manobras seguintes consistem em levantar as pedras banhadas pelo oceano, para ver se por baixo conseguimos encontrar algum novo muro interessante.


A praia da Aroeira, vista desde o farol.


Desta vez, “debaixo de uma pedra” surgiu uma “coisita” com uns 70 metros, que poderia albergar alguma que outra nova via.

Ignorando a maré que subia inexoravelmente, sentei-me num calhau rebolado pela violência das ondas e, comecei a tirar as fotos da praxe. A minha imaginação começou a traçar as possíveis linhas que poderiam, no futuro, cruzar esta sugestiva parede orientada a norte.


A sempre espectacular Ursa aflora entre os rochedos.


No dia 24 de Setembro, o Rui Rosado começou a escalar uma via relativamente fácil, situada na face oeste da “Pirâmide”, na zona da praia da Aroeira. Esta fissura/chaminé é uma pequena criação de Sergio Bruno, um brasileiro afoito que, nos anos 90, inaugurou muitos horrores na região do Cabo da Roca.



Pela minha parte teria de escalar este quinto grau ligeiro, em segundo de cordada mas, carregando o petate com toda a logística necessária para abrir uma nova via. O que neste caso, significava “alancar” com a comida, água e... máquina hilti e uma mão cheia de plaquetes.

Com a maré cheia, esta é uma das unicas formas de aceder à face norte do sector. Do “lado de lá”, iríamos equipar uma reunião de rapel para descer até à base da parede.


O Rui a escalar a via de acesso.


“Isto começa bem!”

Cinco minutos passados e, ainda não conseguia descolar do solo.

“Máquina!”

Com o Rui Rosado a empurrar-me as costas, lá consigo colocar um primeiro perno, o mais alto que o meu braço alcançava.

Um maravilhoso passo de escalada... em artificial, uns esgares e grunhidos a tentar abandonar a segurança da plaquete e... “Máquina!!”

A cordeleta de apoio permite improvisar um teleférico entre o escalador e o assegurador que pode passar desta forma qualquer peça de equipamento necessário, como a máquina de furar. Através dessa cordeleta não se pode, no entanto, passar a dose de decisão imprescindível para enfrentar o medo de seguir para cima.

Uma segunda plaquete foi colocada sem mais delongas.

A partir desse ponto foi possível colocar alguns friends e a escalada decorreu com a elegância... de um hipopótamo, entre os estribos e o livre tosco.

O Rui Rosado, em segundo de cordada, realizou o primeiro largo todo em livre, com aparente facilidade.


O Rui a forçar em livre o primeiro largo.


Abrindo o segundo lance, o Rui fez uma figura muito melhor que a minha, cruzando em escalada livre um muro precário e com um razoável grau de exposição: “Olha, presta atenção! É que estão por aqui uns blocos...”


A reunião do primeiro largo. Um magote de plaquetes!!


Alguns longos minutos volvidos em que permanece oculto da minha visão, eis que reaparece a ultrapassar uma secção bem delicada (mas de rocha sólida), de acesso à reunião.


O Rui emerge no "crux" do segundo lance.


O terceiro largo revelou-se o mais difícil de roer, apesar da fissura que o corta de alto a baixo. Bem, na verdade trata-se de uma micro-fissura que, no seu inicio, foi conquistada com entaladores pequenos e um piton (rapidamente substituído por um novissimo perno aço inox!) e, depois aceitou alguns microfriends e até um camalot 0,75 (o verde do conjunto).


Aqui o "je" a seguir a via mais fácil... espetar um perno com a máquina... é a vergonha!


Com a corda por cima, o Rui esforçou-se para tentar “libertar” este lance mas, o malfadado resistiu-se aos esforços. Ficou-se como uma proposta de 7a+ ou 7b, a confirmar, (ou desconfirmar!), como é evidente.


O Rui na saída do terceiro largo.


Coube ao Rui escalar o ultimo lance. Entretanto, estavam esgotadas as plaquetes calculadas para a via. E, a julgar pelo estado da rocha, se havia algum lance que necessitava –mesmo- de protecções, era este ultimo. O grau era muito mais acessível que os outros mas, a sua exposição também era a maior, devido à qualidade da rocha, digamos... muito precária!


E a entrar no ultimo e infame largo.


Está pensada uma nova visita para “endireitar” (e proteger!) este ultimo lance, limpar a via dos blocos mais suspeitos e acrescentar uma ou duas protecções expansivas de forma a “humanizar” um pouco mais esta: “AVENTURA COMOVENTE” (COMOVENTE, porque as pequenas pedrinhas e pó que caiam, entravam-nos nos olhos e faziam-nos lacrimejar bastante –qual donzela chorosa ás janelas do castelo.).


Paulo Roxo







2 Comments:

RS said...

A mim não me comoveu... acagaçou-me, só de ver as fotos. Excelente crónica.

Abraço de um leitor diário,
Rui

Berserker said...

Curto o sentido de humor e esse espírito
Abraço de um leitor acidental