domingo, maio 02, 2010

SOLIDÃO CANINA (Parte dois)

Segue a segunda parte da aventura de contornos solitários protagonizada pelo Fernando Pereira na Baía do Terramoto. Desta feita o escalador acedeu a ser acompanhado para efeitos de reportagem fotografo-videológica. A intenção do Paparazzi foi registrar a sinceridade da perna tremelicante e dos níveis temerários em redução drástica, em suma: THE REAL THING.



SOLIDÃO CANINA (Parte dois)


Wally no meio do caos. Primeiro largo.


Como as impressões que ficaram foram melhores do que esperado, passado pouco tempo e mais umas manobras escabrosas, cumpria-se dar saída à via, desta vez com os padrões de heroísmo mais modestos, e vindo de cima, sanearam-se as numerosas armadilhas do extra prumo, colocou-se um par de protecções essenciais, “reforçaram-se” reuniões, evitando-se a tentação de furar demasiado, vindo debaixo, movido pelo terror previsível.


Fernando na burilada do compacto segundo lance: "Épá, isto é muito mais liso do que parecia!"


E ali ficou uma via que provavelmente ninguém irá repetir, pelos vários argumentos antes mencionados. Assim que, pelo menos tinha de tentar a coisa de alto a baixo, uma vez na vida, no mesmo estilo. Armada a logística toda, mais uma vez, lá fui. Desta vez sem me conseguir esquivar da imprensa local do blog RPPD, sempre sequiosa de sangue em contexto de escândalo geotectónico.


O sistema do solitário.


Na posse da mais fina tecnologia emprestada pelo Paulo Roxo (Gri-gri modificado™), fiz-me ao caminho, provando do meu próprio remédio e constatando que afinal a via até tem traços de interesse, é progressivamente mais disfrutona e termina com chave-d’ouro, num verdadeiro e piramidal “cume” duma agulha verde (Aiguille Verte, para os escaladores mais aristocratas).


No cimo da "Aiguille vert".


O último lance, que era no fundo o que faltava revelar, oferece uns 20 ou 25 metros dos quais a metade é a tal placa tombada, de protecção escassa.


Terceiro lance.


Já no muro mais empinado dois microfissureiros do #2 serão a única possibilidade durante extensos metros de ressaltes de blocos e parede compacta. Segue-se uma excelente fissura diagonal para esquerda e uns metros de muro verdadeiramente aéreo que levam a uma fissura final, curta e de desfrute total, que, após um passito de placa nos deixa gloriosos num cucuruto como há poucos na costa da Roca.





Ultimas quatro fotos: sequência da escalada da "Agulha verde" e o "cucuruto".


A presença do assegurador improvisado (o cãozinho de peluche) deve-se apenas a uma piada doméstica que provavelmente só um par de pessoas entenderá. Porém, a pedido da produção da reportagem, veio, mais uma vez a acompanhar esta “aventura”, da subida integral da via “Solidão Canina”, à Agulha Verde da Baía do Terramoto. De qualquer das formas como não era possível garantir a atenção do “belayer”, muitos passos foram resolvidos em A0 prudêncial, apesar de que a via é toda ela liberável, sem grandes dificuldades.


Ficha técnica da via (para além do mencionado no texto):

A via situa-se numa baía a que se chega pelo estradão de terra da “Rua do Amor”, próximo da Biscaia (Malveira).

O carro pode-se deixar junto da moradia isolada. Desce-se praticamente todo o estradão até à segunda curva em lacete (uns 10 a 15 minutos). Desta curva já se tem uma perspectiva da Baía e o porquê de ter levado o apelido de: “Terramoto”.

Acompanhar o rebordo da arriba por carreiro de pescadores. Ao chegar a um canal de pendente menos pronunciada, iniciar o destrepe. Este destrepe já era utilizado por “pescaladores” e podem ser vistos vestígios de cordas fixas degradadas. Assim que possível, montar rappel com a corda extra, em simples, idealmente de 60 metros, para facilitar o acesso mais estável à praia de calhaus. Existe a possibilidade de destrepar tudo, mas é delicado, com o peso do material.


Corda fixa dos pescadores bem atada... a um tronco caído no solo!


A via inicia-se em frente dum bloco caído, ligeiramente á direita do inicio do esporão. Subir na vertical por uns 10 metros, onde se há-de passar por um piton que é a única protecção fixa deste lance (se é que há alguma coisa fixa em todo este largo). Com tendência à esquerda, evitando os jardins de chorões buscar o caminho de melhor rocha, em direcção ao fio (arredondado) do esporão, subindo na vertical até à reunião de 2 pernos de 8mm. Este primeiro lance tem uma dificuldade máxima de IV+ em algum passo. Rocha delicada e sem quedas santas. É possível que ao longo dos tempos os chorões venham a ocultar alguma passagem.


Lá em baixo, o Fernando prepara-se para abandonar a primeira reunião.


O segundo lance sai na vertical da reunião uns 5 metros, onde é possível proteger com um grande prologamento de fita. Desvia à direita, nuns passos fáceis mas expostos, até um perninho de 8mm. Daqui segue-se o rasto de buris, numa sucessão de rampas escalonadas, com tendência para a esquerda e aos últimos metros, na vertical, até à reunião sob um nicho abrigado da queda de pedras. Prever alguma fita comprida para os meandros. Este lance levou um microfriend, um micro-fissureiro #2. Os buris são 5 de 6mmx30mm (AISI304), distribuídos ao longo de uns 10 metros, e podem ser protegidos com chapas recuperáveis ou estrangulando com o cabo de aço dos fissureiros mais magros. As possibilidades de proteger doutra forma não abundam. É o lance mais apimentado de protecções e, possivelmente, poderá vir a ser melhorado.

O terceiro lance está praticamente descrito no texto, foram utilizados dois microfriends, camalots médios-pequenos (até #2) e prolongamentos de fita. Duas ou três cintas. Os dois micro-fissureiros #2 são bastante recomendáveis.


Um momento de descanso e observação.


Em toda a via o maior entalador utilizado foi o camalot #3 (1 vez) mas pode ser dispensado. Os microfissureiros revelaram-se importantes, assim como as fitas de prolongamento. A saída da agulha pode fazer-se rapelando (prever alguma coisa para abandonar) até à praia de calhau e pet, jumareando a corda fixa para o rappel de acesso. Em alternativa fazer o passo mais perigoso de toda a via que é sair da agulha para a parede principal, por uma crista de terra solta até ao pinheirinho decrépito e daí subir o ressalte de pedra solta até aos pinheiros anões. Tomar o carreiro em direcção ao estradão e recuperar a corda do rappel (para quem a utilizou). Em 20 ou 25 pesados minutos regressamos ao carro.


Fernando Pereira






3 Comments:

Rui said...

Excelente relato!
Rosado

FCS said...

Temo que o relato seja mais espectacular e sólido do que a via! Sugiro mudar-lhe o sistema de cotação para a escala de Richter, é mais apropriada para os tremores descritos.
Abc

Anónimo said...

http://www.peticao.com.pt/arvores-de-sintra