terça-feira, dezembro 12, 2006

Abriu a época Balnear!!!


Pelo menos assim parece, a julgar pelo ultimo fim-de-semana.
As previsões apontavam para uma temperatura de 7 graus negativos. No entanto, a neve que caiu na Serra da Estrela ainda estava longe de encher corredores e congelar cascatas.
Mas, o vento gélido e a precipitação dos dias anteriores tinham deixado as paredes de granito brancas, coladas com neve. Os tufos de erva e as almofadas de musgo (tão incómodos no Verão), transformaram-se em pequenos blocos congelados ideais para cravar os piolets. Em suma, formaram-se as melhores condições para aquela que pode ser a mais masoquista das actividades de montanha. A escalada mista!
Equipados com friends, entaladores, alguns pitons, crampons e piolets, a Daniela Teixeira e eu dirigimo-nos à face Oeste do Cântaro Magro com o intuito de inaugurar a estação. E tentar abrir uma nova via.
O tempo instável e o forte vento transformaram a actividade num memorável dia de tremedeiras, passos arriscados, gancheios “manhosos” e “pioladas” em rocha.
De todos modos, passo a passo, lá fomos ultrapassando os obstáculos. Até que, a meio do quarto lance, um pequeno extra-prumo impediu a continuação. Cerca de uma hora de luta não bastou para salvar a passagem e resolvemos deixar alguns friends, rapelar e retornar no dia seguinte.
Com pouco vento e céu limpo retornámos, decididos a terminar a via.
Evitámos o passo “intransponível” do dia anterior optando por uma passagem pela direita de aparência mais acessivel (seguindo, mais ou menos, uma linha de Verão). Mas, a facilidade confirmou-se de facto aparente e, já com o Sol a surgir e a ameaçar transformar a tranquilidade congelada da “erva-tracção”, fomos confrontados com os passos mais difíceis de toda a via.
O culminar das dificuldades revelou-se num interessante lançamento de perna para cima de um bloco, traccionando nos dois piolets em simultâneo, cravados em… sei lá onde! Esta passagem ridiculamente difícil ficou completa após uma “elegante” reposição estilo lagarta, onde os joelhos, a barriga e o peito também tiveram um papel fundamental. Uma boa prova de resistência para o Gore-tex! Felizmente, toda a manobra foi realizada sob vigilância de um bom camalot numero 3. Psicologicamente tranquilizador.
“Conquistámos” o cimo do Cântaro Magro só depois da Daniela gramar como primeiro de cordada o ultimo lance da escalada. Nestas lides de escalar caóticas miscelâneas de rocha, gelo e neve (misturados não necessariamente por esta ordem), os piolets e os crampons saem a perder com os seus bicos rombos das “coquinadas” de fazer faísca. Mas, estes são detalhes que também fazem parte da aventura.
E agora a aventura chamou-se:
SCOTTISH WAY , 185 mts, M5+
(L1: M5, L2: M3, L3: M4, L4: M5+, L5: M3)



Nota curiosa:

Erroneamente, muitos pensam que os “inventores” das escaladas no terreno gelado das cascatas e sucedâneos, foram os Franceses.
Na verdade, os primeiros a escalar sistematicamente coisas verticais congeladas foram os Escoceses.
O primeiro piolet-tracção foi fruto da imaginação de um tipo que se chamava Hamish Mcinnes. Esta ferramenta de nome “Terrordactyl” era pouco maior que um martelo de carpinteiro mas, acabou por se tornar numa peça fundamental.
Com o passar dos anos o Terrordactyl ganhou um estatuto lendário.
A escalada mista nos “Hills” da Escócia tem a mais longa tradição de que se conhece e está sujeita a normas éticas muito rigídas e arreigadas. Por exemplo, uma ascensão mista só será considerada “Invernal” se a rocha estiver completamente incrustada de neve e gelo. Se a rocha estiver limpa de neve ou gelo a escalada não será considerada… mesmo tendo sido realizada no pino do Inverno!
E claro, como sempre, as discussões sobre “to bolt or not to be” (espetar plaquetes ou não), são eternas e muito inflamadas.
«Scottish Way» foi um nome inspirado na tradição longínqua dos homens de “Kilt”… sim, aqueles tipos do William Lawsons.

No rules!

Paulo Roxo



16 Comments:

Isabel said...

No primeiro fim de semana de Sol deste Outono Invernal vocês vão para a serra apanhar frio e rastejar-se na neve e no gelo do Cantaro!!! Vocês são é uns "Grandas Malucos"!

Parabéns e que venham os repetidores...

Tiago P said...

Pena que não tenham aproveitado para ajudar a plantar uns Carvalhozitos pela serra, lá para os lados da Lg dos Cantaros! Mas ainda podem participar, haverá mais saidas até Março. Vão acompanhando em,www.paulosilva.net/asestrela/calendario.php.
Abraço

P.R. said...

Olá Tiago.

Desta feita o chamamento do fanatismo foi mais forte.
De qualquer maneira fica prometida a ajuda num destes dias.

Paulo Roxo

Anónimo said...

Que inveja, e eu que andei a ajudar a plantar carvalhos...
;)

Anónimo said...

Ha Escoceses!

Proximo fim de semana la?

Pedro Barreto

Peeeeeeeedraaaaaaaa!!!! said...

Oias Pedro :)

Se a coisa se a brancura se mantiver...iá :)!
(mas a meteo parece que não está a ajudar!...vamos ver...)

Daniela

nuno said...

Essa cena de andar à procura da neve no meio da rocha é muita à frente!!! Mas não se deixem levar pelo fanatismo, no proximo fds é o jantar da Irmandade!!!!

Catarina said...

Posso fazer uma pergunta? Quero muito iniciar-me nesta coisa da escalada. Por onde acham que devo começar? Cursos? Aulas particulares? Rocódromo? Agradecia MUITO que me dessem umas luzes!
Obrigada, Catarina

C.Simes said...

Como não podia deixar de ser a época balnear começa mais cedo em Portugal.

Segundo fontes fidedignas, as famosas escaladas do "Scottish Winter" só estarão em condições lá mais para o verão...Desculpem Inverno! Ao que parece, por agora, algumas linhas e as partes superiores dos "Corries" - vulgo Covões por essa latitude - acumulam quantidades excessivas de neve, sendo comum a ocorrência de avalanches em maçiços como os Cairngorms e outras partes das Grampian e Northern Highlands.

Nos entretantos, os que se aventuram para umas passeatas nas cumeadas - com altitudes máximas inferiores ao nosso muito estético mais alto ponto continental!-,podem em alguns dias ser surpreendidos por ventosgas a roçar os 120km/h. As primeiras fatalidades do ano são já um facto e tais enclemências fazem pensar e compreender porque inventores de piolets, humildes amadores, "self promoting" pseudo-escaladores profissionais, ou mesmo, o mendigo de uma qualquer cidade toleram em permanência tão agreste meio.

Por isto, quando saem do último reduto da grande ilha, parecem confortáveis independentemente do cenário e, talvez por isso também, haja em espaços de similares características tão alusivos nomes.

Alguns conseguem fazer proveitosas analogias e treinar na Geografia Hermínia para logo - ou, talvez não - se voar mais alto, outros tomarão sempre tão sonantes referências como mitos e, o ferro acumulado no armário vai-se degradando como o calcário no Reino Unido por efeito da chuva.

Well done

P.R. said...

Ou seja, segundo o que entendo pelo que li no ultimo post... buga mas é escalar sejam lá quais forem as condições!

Um abraço ao Cuca que anda lá fora a lutar pela vida.

Paulo Roxo

C.Simes said...

É mais ou menos isso. A aproveitar o que há, sabes bem!

Abraço

Anónimo said...

Parece que as nossas rotas distintas se cruzaram :)
O vento que estava, quase impossibilitava de caminharmos no alcatrão ;) mas pelos vistos vocês eram os malucos que andavam de volta do cantaro.

http://aparis.fotki.com/escoteiros/acampamento-serra-d/alex/1005260.html (Creio que é uma foto vossa)

Parabens

Alexandre Páris

P.R. said...

Yep! Somos nós.
Sim, o dia estava uma lástima... ou seja, excelente!!
Nessa imagem estamos a Rapelar para continuar no dia seguinte.
Excelente foto!!
Parabéns!
Posso utilizar esta foto para marcar a via?

Paulo Roxo

Anónimo said...

Parabéns pela Grande Via aberta por vós, é deste tipo de Alpinismo que se faz a Historia.

Abraço e continuem sempre assim fanaticos.

André Monteiro

Alexandre Páris said...

Yep, no problem..
Se preferires outra das fotos que tirei, só tens de dar uma espreitadela la no meu site.
Se quiseres a foto original com mais resolução depois diz me qual e para que mail enviar..

Até breve..

falar_ru said...

beleza! :)