quinta-feira, setembro 04, 2008

SONHOS

Passadas duas semanas da nossa chegada do Paquistão ainda não me readaptei à vida “normal”. Estranho o trânsito intenso. Estranho o trabalho. A minha cabeça retorna uma e outra vez ás fabulosas montanhas do Karakorum.

O Esporão dos Franceses é a evidente aresta que começa no canto inferior direito da foto.

As memórias voltam a cruzar os imensos glaciares, a subir as perigosas pendentes de neve e gelo e a desfrutar das vistas esmagantes de picos selvagens e intocados.

Entretanto, já escalei na Serra da Estrela apenas para descobrir que, na rocha, a minha forma física se encontra pior que nunca. Nas montanhas perdi cerca de nove quilos. Fiquei seco que nem um carapau mas, também perdi muita massa muscular, a suficiente para ter de me arrastar penosamente numa fissura de 6a!

De todos modos, a minha mente não se encontra por cá. Os pensamentos vagueiam num país distante do qual desejei partir, após dois meses de expedição mas, para o qual voltaria agora mesmo.

Gasherbrum I

Com a Daniela, tentámos escalar os Gasherbrum I e Gasherbrum II. Condicionantes na montanha e do clima impediram-nos de concretizar as ascensões. No GII, tentámos uma via diferente da normal. Uma linha muito estética, técnica e directa ao cume. O Esporão dos Franceses. Estávamos sós, não existiam cordas fixas nem trilho na neve. Após o período de aclimatação tentámos esta escalada no chamado “estilo alpino”. Ou seja, sem fixar cordas, sem montar previamente campos de altitude e com tudo ás costas. Aos 6600 metros com o mau tempo a aproximar-se mais cedo que o previsto, decidimos retirar.

Depois tentámos a ascensão do GI, pela sua via normal. Subimos acima do campo 2, para deparar-nos com ventos fortes e a montanha a despejar mega-cascatas de neve em pó.

Em desespero de causa e sem retornar ao campo base tentámos de novo o GII. Subimos rápido pelas cordas fixas da via normal mas, bem perto dos 7700 metros de altitude e, após oito dias de permanência acima dos 6000 metros, descobrimos não possuir mais energias físicas e mentais para continuar. É que, corríamos o risco de não conseguir concretizar a segunda metade da ascensão... a descida! De qualquer forma, o nosso espirito não se encontrava na via normal do GII. Os nossos sonhos vagueavam longe das cordas fixas desta via. Os nossos anseios iam de encontro a uma qualquer ascensão mais selvagem, menos concorrida.

Os meus anseios continuam nesse sentido.

No trekking de retorno, cruzámos o Gondogoro pass. É um colo situado aos 5500 metros que permite eliminar um dia a uma caminhada de quatro dias, caso tivéssemos optado pelo retorno através do glaciar do Baltoro.

Para um percurso de trekking standard o Gondogoro pass é um osso duro de roer. De um dos lados é necessário subir uma vertente de neve e do outro, descer uma pendente de rocha constituída por xisto absolutamente decomposto. Trata-se de um terror, felizmente apoiado por cordas fixas que um grupo de gente local vai mantendo em estado razoável.

O passo permite o acesso ao vale de Hushe, um vale de uma beleza mágica, rodeado de montanhas fantásticas e intrigantes, muitas delas virgens.

A entrada do vale de Charakusa. Paredes e montanhas ainda virgens andam por aqui!

As onze duras horas reservadas para o ultimo dia de caminhada foram largamente compensadas com as vistas de enormes torres de granito que se erguiam de um só tiro desde o estreito trilho que seguíamos.


Uma parede desconhecida e intocada no vale de Hushe.

Agora, dentro do meu cérebro continuo a cruzar aquelas moreias e glaciares onde os meus piolets e crampons se cravam no gelo de uma perdida via de alta montanha. Quiçá na via dos Franceses.

O meu espirito caminha pelos prados verdes do vale de Hushe em direcção àquelas montanhas imaculadas.

A minha imaginação vagueia por aqueles diedros e fissuras que trepam vertiginosas paredes de granito intocado.



Torres de granito virgens de nome e altura desconhecidos. "Mesmo ali ao lado!"

Numa única palavra: sonho!


Paulo Roxo

4 Comments:

Anónimo said...

Também um dia... ou melhor, durante vários dias, semanas, meses, anos (parece-me irreal, mas já lá vão 16 anos, metade da minha actual existencia) senti-me perdido, inadaptado ao quatidiano, com o pensamento e o coração longe... muito longe, algures perdidos na ilusão de grandiosas e esteticas flechas rochosas e geladas montanhas.

Hoje, no decorrer de uma longa e forçada paragem, obrigado a afastar as montanhas do pensamento, na tentativa de suavizar a minha propria sobrevivencia (pelo menos mentalmente), obrigo-me a me sentir resignado com a situação.

E o sonho? E aqueles sonhos que sozinho povoavam o meu pensamento, que eram tema de conversa entre amigos, que contigo, Paulo, tanta ilusão nos causavam em uma qualquer suspensa reunião de uma qualquer via, em uma qualquer falesia?

Para mim, continuam a ser sonhos, cada vez mais distantes, cada vez mais os sonhos, sonhos são...

Consola-me a felicidade de pelo menos alguem com quem tantos momentos de felizes escaladas partilhei, graças à sua preserverancia, forte personalidade, e caracteristica força, estar a realizar os seus tão ansiados sonhos.

Força, ben! Uma dessas inexploradas torres de granito será "tua"!!!

Miguel Grillo

Carlos said...

Oi Roxo antes de mais parabéns pela vossa grande aventura que valeu mais do que 30 cumes, tudo o resto são números…
um abraço Carlos Mata

Pedro Hauck said...

Olá Paulo e Daniela,
Gostaria muito de conversar com vc's, por favor me mandem um email para fazermos contacto:
pedro@gentedemontanha.com
abraços

Animado e Spagurja said...

Ora bem vindo então! que aqui a malta não vê hora de sair a escalar por ai,seja lá onde for.
Já agora não te esqueças de me mandar as fotos de riglos.
Aquele abraço.
João Animado