domingo, julho 01, 2012

Alpes - parte I

 
No passado mês de Junho a Daniela e eu concluímos um périplo de aberturas que começou nos Alpes, percorreu alguns dos lugares mais bonitos dos Pirinéus e terminou na emblemática parede de granito da Meadinha na serra da Peneda.
Decidimos contar a historia em episódios pois o resultado final de três semanas de acção traduziu-se em cinco novas vias, entre algumas outras repetições com características bem diferenciadas entre si, quer ao nível técnico, quer em vivências e emoções.
Os dois pontos em comum fundamentais a todas as aventuras: a beleza natural e a tranquilidade dos locais.
Este é o primeiro relato da Daniela acerca da nossa pequena e muito particular "Climbing Trip".

 

ACLIMATAÇÃO



 A caminho da Goulotte Modica-Noury. "Pas du condition!"


Tínhamos pressa de sair. Por razões variadas o cérebro acusava cansaço e só uma boa tareia física a fazer tudo o que gostamos poderia solucionar esta questão.
A decisão de partir foi tomada quatro dias antes de nos enfiarmos no carro e rumarmos aos Alpes. O destino foi escolhido em cima do joelho, o material para gelo e rocha (o que viesse!) foi empacotado às pressas e dia 2 de Junho, o nosso carrito atolado de tralha já rumava para terras mais frescas. Queríamos mexer nos piolets, passar frio, ter dias de longas actividades, viver aventuras. Precisávamos de acção, de muita acção!
Chegámos aos Alpes com visibilidade zero de montanhas, debaixo de uma chuva intensa, daquelas que deixam qualquer condutor absolutamente desgastado. Fomos obrigados a um dia de descanso pela continuidade do excesso de humidade e com um prognóstico de... um dia de bom tempo, decidimos ir a cotas mais altas e aproveitar para fazer a primeira actividade, a aclimatação!


 A Daniela no Vallée Blanche de neve recente e imaculada.


Escolhemos para isso escalar a goullote  Modica-Noury, uma super-clássica situada no Mont Blanc du Tacul acedendo pela Aiguille du Midi. Já desabituados das andanças mecanizadas, chegámos ao teleférico respectivo cerca de 10 minutos antes da primeira cabine do dia, cerca da 8:10 (horários de época baixa!) e perante as dezenas (centenas?) de alpinistas que já lá estavam, fui assaltada por um pensamento: “Isto parece a fila de desempregados na Segurança Social! Aqui também tem de se chegar horas mais cedo para marcar lugar?!”.
Em pouco tempo, fomos empacotados e espremidos, como se estivéssemos no metro em hora de ponta! Todos os pensamentos me atiravam para um sentimento puramente citadino... alpinismo desportivo? Sem dúvida!
Para mim, que nunca tinha saído no teleférico na Aiguille do Midi, tudo era estranho. Calçar os crampons num túnel de betão e sair para a afiada aresta tendo de esperar em fila indiana... onde estão as longas e solitárias aproximações a que estou habituada??


 Ao fundo as Grand Jorasses, de cabeça coberta com um chapéu de nuvens de mau tempo.


Pouco depois deixávamos o material de pernoita no plateu do colo du midi (fomos os únicos a acampar...onde anda a crise?) e descemos pelo glaciar do Vallé Blanche até ao inicio da goullote que tínhamos elegido.
Não foi com enorme surpresa que percebemos que a via não estava em condições. Pequenos rios de neve húmida passavam por nós, o gelo mostrava-se translúcido e troços gelados caiam continuamente. Encolhemos os ombros e resolvemos espreitar uma delicada linha na Point Lachenal mesmo à direita do Tacul. Também esta estava a desfazer-se.


 Uma tentativa de entrada na "Modica-Noury". Pouco depois as condições impossiveis fizeram-nos retirar.


Para não voltarmos para trás pelo mesmo tedioso caminho, já perto das 14:00 decidimos entrar pela face sul da Point Lachenal, buscando um neveiro de aspecto fácil que víamos desde  baixo... e assim começou a abertura de uma nova via, assim mesmo por um acaso do destino.


A entrada de misto fácil na nova via.


 Nas rampas iniciais.


Afinal o neveiro ficava mais longe do que os nossos olhos faziam supor, a uns largos de escalada mista e outro de pura rocha... rocha de excelente qualidade, porém... molhada. Fica na memória o largo de V+/6a feito com os crampons pendurados no arnés, com uns entalamentos numa fissura perfeita onde jorrava água que empapava as luvas, o verdadeiro deleite! 


 A parte final do magnifico lance de rocha.

 
Após o neveiro sucederam-se ainda uns quantos largos empinados (perfeito se fosse inverno e a neve estivesse dura!), do qual o mais bonito foi um de escalada mista (“No Rules”) num diedro com uma entrada delicada e que ofereceu gancheios de piolets que nos encheram a alma.
 


A entrada intensa do lance de "dry-tooling". 

Mais acima no mesmo lance. "Gancheios a canhão!"
 

 A Daniela a terminar os passinhos atléticos do lance de escalada mista.


Foi curioso a certa altura não saber exactamente onde iríamos parar, não perceber quantos largos faltavam, nem ter ideia das dificuldades que nos separavam do fim da via, já que íamos avançando literalmente “à vista”. De baixo não tivemos a percepção da parede e a coisa acabou por sair bem mais difícil e longa que o esperado. Ainda assim, terminamos a via “Ai que Saralho, pas de condicion” no momento certo, ou seja, com o tempo à justa para regressar e montar a tenda ainda com luz.


 Os ultimos passitos técnicos.


 Cume...


 ... e a foto-cume!


Nesta altura já o vento anunciado começara a soprar, o mau tempo chegou um pouco mais cedo que o previsto. Dormir? Noite dentro, as rajadas de vento (de cerca de 80 a 90km/h!) fustigaram a tenda. Com um pouco de claridade, vi a parede da tenda ser empurrada várias vezes até quase tocar na cara do Paulo que estava deitado. 


 A observar a entrada da frente de mau tempo.


  O vento forte já se fazia sentir.



 "Agarra a tenda!"


Começamos a pensar que a tenda poderia não aguentar e decidimos equipar-nos. De repente, o vento abrandou e começou a nevar. Vimos a nossa oportunidade para desmontar a tenda e sair dali, o teleférico do Midi estava a “apenas” meia hora de distância... estava, mas com o nevoeiro que se instalou e uma visibilidade de cerca de 5m, a coisa foi mais demorada!

Sem trilho, sem bússola, apenas a farejar, lá encontrámos a afiada aresta que desemboca na Aiguille do Midi. Chegou a ser irritante ouvir o ruído das máquinas e não conseguir perceber exactamente que rumo tomar. Ao fim de pouco mais de uma hora entrávamos novamente no sorumbático túnel de betão de acesso ao teleférico. 


O túnel "dos alpinistas" na Aiguille du midi. Um local sorumbático desde o qual se iniciaram muitas historias e aventuras épicas.
 

Pelas 11:30, chegávamos a Chamonix numa cabine que levava apenas trabalhadores e carga, debaixo de uma copiosa chuva que teimava em pôr à prova os nossos impermeáveis. 

Estávamos aclimatados!

Daniela Teixeira

 Os Topos






7 Comments:

Fábio e Elisabete said...

Ola Daniela e Paulo

Parabens por esta magnifica partilha. É louvar as vossas actividades e amor a camisola.
O vosso blog é fenomenal.

Ate breve
Mountain4ever

Ana M. Duarte said...

Sempre em grandes aventuras e a desbravar caminhos. É assim mesmo! Parabéns e venham as restantes partes dessa Climbing Trip.

White Angel said...

Parabéns!!!!

Mas de facto.."Pas e conditions" éh éh éh éh Fantásticos!!!

Bjinhos

Anónimo said...

Muito obrigados amigos.
Já a seguir (breve) o segundo episódio ;)

Paulo Roxo

Lírio said...

É pá! Gandes malucos!!!He! He!

Magnífico! Grande aventura, é bem preciso de vez em quando uma adrenalina nas nossas vidas...até me deixou arrepiada toda aquela neve, mas estava lindo, e deve ser uma satisfação indescritível chegar a um cume :)

Adorei o texto, as imagens e a vossa felicidade é contagiante! Parabéns!
E venham daí mais capítulos!!!

Beijinhos aos dois

Zé Pataleno said...

Muito bom, gosto particularmente da foto do cume, dá gosto vêr esses sorrisos.Boas Aventuras.

Anónimo said...

Sempre a dar!!!!
Cá esperamos o resto da historia!!!!
João Animado