sexta-feira, janeiro 15, 2016

Todos os caminhos vão dar a...

TODOS OS CAMINHOS VÃO DAR A...
EL CHORRO!




Rumámos para leste com a cabeça cheia de possibilidades.
Apesar de já ter passado um ano desde o meu acidente de escalada, ainda me encontro em fase de recuperação. Esta actividade iria funcionar como teste: “O teste!”
Quanto ao clima, nas semanas anteriores à nossa partida tinha-se portado de uma forma demasiado benevolente. O que era um mau presságio para as seguintes semanas, justamente as “nossas” semanas.
Tendo em conta as minhas limitações e a imprevisibilidade climática, a Daniela e eu carregámos a Berlingo com… tudo! Piolets, botas de montanha, pés-de-gato, múltiplas cordas: simples, duplas de gelo, duplas de rocha e toda a parafernália e quinquilharia necessária.
Com o olho piscado às montanhas de neve e gelo, iríamos, no entanto, preparados para qualquer outra coisa.
Tal como esperado, mal saímos de Portugal, as previsões começaram a apontar para uma degradação do tempo em montanha.
Uma fugaz passagem pelos - sempre fantásticos - Mallos de Riglos e, aproveitando uma “aberta” de dois dias, preparámos tudo para tentar uma nova via na face noroeste dos Gabietos (3035m), nos Pirinéus. Aquela montanha já não nos é uma estranha. Em 2013 eu e a Daniela abrimos ali uma nova via, a “Variante Pops” e no ano anterior eu tinha já aberto uma outra via, a “Perro Marrón”, encordado ao Tiago Faneca.


A face Noroeste do Gabietos. 500 metros de parede e gloriosa. Desta vez... não se deixou dominar!


A Face noroeste do Gabietos é uma parede impressionante, com cerca de 500 metros, raiada por numerosos corredores, estrias geladas e esporões de rocha friável. Este aspecto ostenta uma verdadeira parede com ambiente de alta montanha.
Passámos a noite num pequeno refugio degradado e, na madrugada seguinte, lá fomos a caminho da parede. No entanto, à medida que nos aproximávamos, a neve que julgámos perfeitamente transformada e dura, deixou muito a desejar. Ao chegar à base da via escolhida, confirmámos aquilo que suspeitávamos durante a hora e meia de aproximação: neve inconsistente e inexistência absoluta de gelo. Hesitamos na decisão durante alguns minutos e, finalmente, metemo-nos vale abaixo.
Cheguei ao estacionamento a coxear como um deficiente. Apesar do fracasso, tinha sido um bom teste para os meus tornozelos. “Hora de meter mais um “Voltaren”!”


"Eu levo mais peso para te poupar os pézinhos!" - Não era uma novidade. Na cordada, geralmente, a Daniela leva sempre o mesmo peso (ou mais!) que o seu par!


Nos dias seguintes, as previsões apontavam para tempo mau e temperaturas altas nos Pirinéus. Mau para alpinismo, mau para escalada em rocha. “Que fazer?”
“E se fossemos a Culla?” – sugeri.
Culla é um pequeno povoado bonito, localizado a norte da província de Valência. Marginando a povoação existem numerosas paredes selvagens e isoladas, terreno ideal para colmatar o nosso espírito de exploração e novas aventuras.


As fantásticas e selvagens paredes de Culla. Um bom lugar para escutar o silêncio absoluto.


Há doze anos, vagueei por ali e tive a sorte de abrir cinco vias de aventura, com alturas até aos 260 metros. Três delas foram abertas em solitário, uma encordado com o Miguel Grillo - em três dias de "fun" - e a última com a Yolanda Traver. 
Já passou muito tempo e a minha memória apagou muitos “detalhes”, como o tempo de aproximação, o acesso exacto, etc. O cérebro deve ter feito uma selecção das memórias mais importantes, conservando as de maior impacto. Naquela altura, o “maior impacto” não estaria com certeza na mera aproximação. Essa era secundária. Hoje porém, não é bem assim. Para já, com as minhas mais recentes limitações físicas, as aproximações e retiradas têm um papel crucial e decisivo.


"Será por aqui?"


Escalámos quatro lances de uma nova via mas o céu resolveu brindar-nos com alguma chuva. A chuva suficiente para nos obrigar a “rapelar”. Quando tocámos o solo, a chuva entretanto, parou. “Típico!” Tarde demais para retomar a escalada, resolvemos retirar com a promessa de voltar para terminar o assunto. Nessa noite instalámo-nos num simpático apartamento barato em Culla. Urgia um duche quente.


O terceiro lance da nova via em Culla. Pouco depois descíamos. Ficaria o projecto para voltar um dia.


O despertador tocou à hora imprópria das quatro da manhã. Atirámos as mochilas para o interior da carrinha decididos a atacar a parede interrompida e… madrugada escura como breu, o vento gelado uivava… rodei a chave e o motor começou a ronronar. “Vamos?”… adivinhava-se um dia frio, desagradável e sem garantias que a chuva não iria cair, portanto, sem garantias de sucesso… hesitação. “E se fossemos para o El Chorro?”
Por volta das duas da tarde tínhamos as grandes paredes frontais, imagem de marca do El Chorro, mesmo à nossa frente.


A imagem de marca de El Chorro. As paredes frontais!


A decisão de retornar a El Chorro foi tomada rapidamente mas, com alguma apreensão. Basicamente, tínhamos receio de nos sentirmos desiludidos. A razão tem que ver com a nova “reabilitação” do histórico “Caminito del Rey”, que se prolonga pelo interior das gargantas naturais do lugar. Essa restauração consistiu na construção de um passadiço enorme que permitiu a entrada de centenas de pessoas em massa. A consequência foi a proibição da escalada nos sectores por onde passa o caminho.
Em El Chorro, a escalada possui uma tradição muito grande e uma história consistente. De um dia para o outro, por razões puramente económicas, foram impostas duras restrições a uma actividade de natureza e aventura e promovida uma actividade de “multidão”. Como é evidente, a curto prazo e economicamente a região terá a ganhar, tal qual qualquer outro lugar turístico muito famoso. A longo prazo e relativamente ao ambiente de tranquilidade que sempre imaginamos existir num local natural, isso já é outro falar.
Surpreendentemente, com grande excepção para o “Caminito del Rey” e imediações directas, tudo nos pareceu semelhante às anteriores visitas. Nem nos esforçámos para tentar entrar no vale entre as gargantas, apenas para não desfazer a ilusão de serenidade.


"Serenidade"


Imediatamente, imaginámos linhas em secções de paredes onde ainda existem possibilidades para albergar novas vias. As linhas que escolhemos seguiam itinerários lógicos e intuitivos. “Será que aquilo ainda não foi escalado?” Depois dos “baldes de água fria”, nos Pirinéus e Culla, desejávamos ardentemente realizar (completar) alguma escalada.
No dia 6 de Janeiro, o nascer do Sol viu-nos a encordar na base do sector “Austria”, mesmo à direita de uma via equipada, muito repetida, chamada “Valentinis day”. O vento fazia sentir a sua presença e insinuava-se para todo o dia. Apesar do incómodo, desta feita estávamos decididos a não baixar os braços.


A iniciar o fantástico segundo lance da nova via.


A Daniela a emergir do primeiro largo. O vento obrigava a escalar com o blusão de penas posto.


Nos últimos anos temos visitado o El Chorro porque, paradoxalmente, este é maioritariamente conhecido para a escalada desportiva. O facto de quase toda a gente visitar estas paredes para desfrutar das vias desportivas, faz com que a escalada tradicional esteja relegada para segundo plano. Curiosamente, estas paredes possuem excelentes condições para a escalada de aventura. A rocha é generosa em possibilidades para protecções volantes e existem linhas capazes de satisfazer os apetites por vias longas mais vorazes – como os nossos!
A escalada desenrolou-se por diedros e placas cinzentas muito evidentes e de dificuldade moderada. Apesar de termos escolhido uma secção de parede sem qualquer via desportiva por baixo, íamos com cuidado para evitar deslocar alguma pedra. Aqui, a limpeza “a fundo”, é de todo desaconselhada.
Quatro longos lances depois, alcançamos o “jardim” de rampas que precede a parede final, vertical e pejada de fissuras que tornam difícil a decisão de por qual subir.


A entrar no terceiro lance da via.


A desfrutar dos últimos diedros fáceis da primeira parte da escalada. 


Um pontinho avermelhado avista-se no alto do quarto lance. fantástica rocha cinzenta e aderente.


A Daniela avistou a linha mais apelativa e lógica. Uma fissura diagonal para a esquerda que logo terminava numa secção mais difusa e difícil de analisar desde baixo.
Um mega-lance com quase 55 metros revelou-se o mais difícil e demorado. A fissura inicial deixou-se conquistar sem grandes histórias mas, uma pequena chaminé central teimava em querer empurrar para fora o corpo do escalador. Foi um pequeno osso duro de roer, que se complicou ainda mais um pouco mais acima. A rocha deteriorou-se e uma passagem obrigatória em terreno extra-prumado e decomposto travou o meu progresso. Após longos minutos de luta e indecisão, resolvi finalmente colocar um perne de 8mm, suspenso num piton de rocha muito duvidoso. “Desde que não respire com muita intensidade…” Agarrando sem pudor a expresse colocada na novíssima plaquete, alcancei uma boa fenda e coloquei um sólido camalot 0,75. “Já está!”



Dois momentos no difícil quinto lance, o "crux" de toda a via.


Um último largo colocou-nos no cimo da parede. O Sol já tinha desaparecido e o lusco-fusco adivinhava apenas uma restante meia hora de luz. À pressa, realizámos a habitual “foto-cume” e “corremos” para a árvore mais próxima com a intenção de abandonar uma cordeleta para rapelar por um canal evidente. Aqui não existiam reuniões equipadas e a nossa ideia era descer em dois rapeis até às rampas para depois alcançar as reuniões da “Valentinis day”. Tínhamos que ser rápidos pois os frontais estavam no final das rampas, no interior das pequenas mochilas abandonadas no sopé dos dois últimos lances.
Quando acendemos os frontais, abaixo de nós, perto do topo da “Valentinis”, uma série de pequenos olhitos reflectiam as luzes das lanternas. Eram as cabras selvagens de El Chorro, que seguramente estariam curiosas com as nossas estranhas movimentações nocturnas. Restava-nos utilizar as reuniões perfeitamente equipadas, descendo em direcção a um bom jantar no bar “El Kiosko”. Terminámos em beleza um longo dia com doze horas de acção.
Como não encontrámos quaisquer vestígios de anteriores passagens, supomos que os seis lances de escalada que perfizeram uns 260 metros de escalada correspondam a uma nova via. Com a “Clássica do vento” expurgámos a impressão de não conseguir concluir uma ascensão, durante esta viagem.

No dia seguinte acordámos meio emperrados. Os dedos estavam inchados e o corpo um pouco amassado. Os meus tornozelos, curiosamente, não se queixavam muito.
Animados pelas previsões de subida da temperatura, resolvemos tentar outra linha que tínhamos avistado dois dias antes. Estacionamos a carrinha a poucos minutos da base da via em questão. Em contraste com outras paredes, por aqui as aproximações são praticamente inexistentes. Genial!
O objectivo desenhava-se ao longo de um esporão com uma lógica impressionante. Mais uma vez nos interrogámos se a linha teria sido escalada. Naquele preciso momento pouco importava. A decisão estava tomada.
A temperatura estava ligeiramente mais alta que no dia anterior mas, uma capa de nuvens cobria o céu, mesmo por cima da serrania do Chorro. O tempo teimava em não nos deixar despir qualquer forro. Seria mais um dia de escalada invernal.
Logo no início do segundo lance, um passo exposto travou o progresso da escalada. “Lá se foi a ideia de subir rapidamente e sem muitas paragens.” Tardei bastante em resolver aquela passagem, ao ponto de considerarmos o abandono da via naquele dia. No entanto, tal como no dia anterior, lá topei uma pequena fissura que albergou um piton muito precário, inaceitável para arriscar a progressão, mas suficiente para descarregar o meu peso e poder libertar as mãos para martelar um expansivo de 8mm. Alguns minutos depois, restaurada a confiança (e realizada a passagem) a decisão de continuar retornou aos nossos espíritos.



Logo no segundo lance, surgiu um osso duro de roer. As dificuldades obrigaram à colocação de um expansivo. O único de toda a via.


Ultrapassámos o terceiro lance longo (50 metros) através de um diedro muito lógico, com alguns blocos encaixados que requereram atenção especial, desembocando numa curta fissura diagonal que constituiu o “crux” da tirada.



Dois momentos da Daniela a escalar o aéreo terceiro largo da via.


A emergir no esporão do penúltimo lance.


Uma trepada fácil colocou-nos no pequeno colo entre a parede principal e a torre destacada onde termina a via “Navegador”. Neste ponto, dado o cansaço acumulado do dia anterior ainda considerámos terminar por ali a nova via e descer em rapel através da “Navegador”. Contudo, escalávamos uma linha muito natural e óbvia que pedia para continuar até ao cimo de toda a parede.
Por vezes, ao longo da nossa vida, escalamos vias que valem pela sua beleza de movimentos, ou pela suprema qualidade da rocha, mesmo que sigam itinerários não tão óbvios e quiçá algo forçados. Outras vezes, é a própria rocha que nos indica qual o caminho a seguir. Nesses momentos, quando é a parede a decidir, a escalada torna-se numa actividade perfeita.
Três lances depois, incluindo uma aresta fácil mas muito estética, alcançámos o topo da parede.


A aresta final, fácil mas estética.


Cume!

E a obrigatória... foto-cume!


Mais uma vez, ao longo de seis largos, não descobrimos nada de nada no tocante a artefactos de escalada abandonados, o que nos faz supor que também esta se trata de uma nova via. Devido às características particulares do itinerário, resolvemos baptizar a linha com o nome de “El Chorro Alpino”.
Em contraposição com o dia anterior, desta vez iriamos descer a pé, utilizando um cómodo trilho tranquilo e sem história, com tempo ainda para saborear duas belas “bocatas” bem recheadas, com vista diurna para as paredes preciosas de “El Chorro”.


Paulo Roxo


Os topos:








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