quinta-feira, maio 25, 2006



Bufo-real vs Escaladores ou Escaladores & Bufo-real, Lda.


Eram umas de 6 horas da tarde do passado Domingo. O dia estava fresco e a chuva tinha dado ares da sua presença. Estávamos cerca de uma dezena de escaladores/as empenhados cada um no seu objectivo e todos desfrutando de mais um dia de escalada nos sectores de escalada do fundo (Poios Novo) do Vale dos Poios. Uma meia dúzia de nós preparava-se para abandonar este “santuário” e fugir à força que as duas argolas exercem naquele refundido sector encaixado no fundo deste petrificado canhão.

Caminhávamos dispersos pelo estreito trilho, quando os mais adiantados vêem passar torpe, desajeitadamente e mesmo desesperadamente, cruzando o seu caminho, um vulto de cor pardo do tamanho semelhante a uma galinha. Apressadamente aproximam-se do animal e vendo os seus debilitados movimentos, agarram-no instintivamente de uma forma algo impulsivamente audaz.

Caminhando um pouco afastado na retaguarda do grupo na companhia da Ema, apercebemo-nos da agitação e aceleramos o passo de forma a inteirarmo-nos da razão de tal movimentação. Ainda ao longe, andando aceleradamente deslumbro, debatendo-se entre as femininas mãos da Isa uma enorme ave de rapina. Aproximo-me, e os outros sabendo do meu gosto (e modestos conhecimentos) por aves passam-me para as mãos aquele fantástico e grande pássaro e impacientemente perguntam qual o seu nome. Sem grandes hesitações (embora mais tarde tenham surgido algumas duvidas) exclamo com um ar tão espantado quanto o deles:
- “É um Bufo-Real!!!!!”



De facto, aqueles imensos, gigantescos e esbugalhados olhos alaranjados que firmemente nos fixava e apesar da sua descaracterizada imagem devida à sua debilitada forma e tenra idade, aquela enorme ave que segurava entre as minhas “magnesiadas” mãos era nada mais nada menos que o «Rei da Noite», a maior de todas as aves de rapina nocturnas, o enigmático Bufo-Real.

Preocupados com o seu estado, entre todos começamos uma “cruzada” de telefonemas, contactos, chamadas…mas sendo um Domingo as perspectivas demonstravam-se pouco animadoras. Por fim, ao cabo de mais de uma hora de tentativas, após a maioria já ter abandonado o vale, um telemóvel sem saldo e outro sem bateria finalmente conseguimos falar com o Prof. Vingada, biólogo investigador, colaborador do ICN e grande entendido em vida selvagem. Após algumas questões sobre o estado de saúde do Bufo e alguns conselhos sobre o seu manuseamento, combinamos entregá-lo para tentativa de recuperação e reabilitação num local intermédio a cerca de 40 km do Vale dos Poios.

Na Aldeia de Poios conseguimos arranjar uma caixa de cartão onde colocar a ave para o seu transporte. Por volta das 8 e meia da noite encontro-me com dois biólogos. Retiro a caixa de dentro do carro e ao abri-la o Prof. Vingada num tom de surpresa e entusiasmo exclama vigorosamente:
- “Ohhh, é mesmo um Bufo!!!!!!”

Nesta fase, já a pobre ave demonstrava poucos sinais de vitalidade e a sua perda parecia inevitável. O seu estado de desidratação e subnutrição eram evidentes e numa tentativa de salvar este pequeno “tesouro” demos-lhe água e apressadamente os dois entendidos saíram a todo o vapor na tentativa de chegar ao centro de recuperação de aves o mais depressa possível.
Ontem, telefonei ao Prof. Vingada para saber se o Bufo tinha sobrevivido. Foi com grande prazer que obtive uma resposta positiva e fui informado de que se encontra a recuperar a receber soro e nutrientes e quando o seu estado estabilize será transferido para Centro de Recuperação de Animais Silvestres do Parque Ecológico de Monsanto (CRASPEM), em Lisboa.

Também me foi dito, que caso seja viável, um dia este pequeno/grande Bufo poderá voltar ao seu local de nascimento e cruzar livremente os céus do grandioso Vale dos Poios.

Hoje, reflectindo sobre tudo isto, sinto uma enorme satisfação por saber que contribuímos para salvar esta rara ave e por saber que o grande Bufo-real ainda habita estas verdejantes paragens.

Também por ver que nesta ocasião, foi graças aos escaladores (habituais deste vale), que tantas vezes são acusados de interferir na sobrevivência das aves de rapina, que esta se pôde salvar. Por sentir a compatibilidade das acções, a sensibilidade de conservação dos seus frequentadores. Talvez quem sabe, num futuro tenhamos de ajustar as nossas actividades em prol da conservação destas aves (respeitar épocas de nidificação nos sectores mais sensíveis (e comprovadamente sensíveis!!)) mas tenho plena convicção de que poderemos continuar a desfrutar harmoniosamente de longos e fanáticos dias de escalada das rochosas paredes e falésias pela nossa extensa costa e largas serranias.

Confesso que por muitos e mais metros de vias que sejam escalados, por mais duros e estrondosos encadeamentos realizados, no passado Domingo apercebi-me de quem era realmente «O SENHOR DE POIOS»!!!


Miguel Grillo

7 Comments:

Montes d'Evolução said...

boas:

Obrigado por continuarem a demonstrar que o fanatismo (que tanto faz evoluir este nosso desporto)se pode consiliar com a vida animal. Nós escaladores que passamos muito do nosso tempo rodeados desta maravilhosa fauna sempre fomos os primeiros a querer protege-la, pena é que muitos existam que assim não crêem.

BOAS TREPAS

ljma said...

Bom trabalho! As melhoras para o paciente!

Isabel said...

Muito fixe! Parece que afinal é mesmo preciso que os escaladores andem por aí a trepar uns calhaus! ;)

chb said...

Os escaladores... são muita maus!!! É por causa deles que já não existem aves em Portugal...
Santa ignorância!!!
Se não fossem os escaladores, muitas destas situações acabavam bem pior...
Apertem...

Fernando_Vilarinho said...

água mole em pedra dura tanto bate até que ...

a mentalidade na lusa pátria vai mudando...

boas actividades!

cumpr.

Rui Lourenço said...

Bom dia!
Numa pesquisa dei com este post. O indivíduo de Bufo-real que encontraram trata-se de uma cria deste ano, que já saiu do ninho, mas que nesta idade ainda anda a deambular pela escarpa, sendo alimentada pelos progenitores até finais de Agosto. Não havendo sinais exteriores de ferimento, nestas situações o melhor procedimento é deixar o juvenil no mesmo local para que continue a desenvolver-se com os progenitores, aumentando assim a probabilidade de voar e atingir a idade adulta.

Como eu também aprecio a escalada e penso que a forma de conciliar esta actividade com a conservação das aves que se reproduzem em escarpas é através da troca de conhecimentos, deixo aqui esta informação sobre o Bufo-real.

Qualquer questão sobre bufos e afins podem enviar e-mail (ruxlourenco@yahoo.co.uk)

Continuação de boas escaladas

Rui Lourenço (biólogo)

JR said...

Após a leitura da experiência acima descrita, posso dizer-vos que a informação dada pelo Rui Lourenço contém o essencial para que em situações futuras e idênticas, possam agir de forma mais correcta e com vista a melhorar vosso desempenho “ecológico”.
O meu conhecimento e a minha experiência dizem-me que em situações idênticas não devem mexer nos “bichos”; desfrutem antes o privilégio de os observar em estado selvagem, fotografá-los e ficar com uma boa recordação do momento. O importante a reter é deixá-los ficar nos locais onde os encontrarem.

Eu estudo o Bufo-real e agradeço desde já qualquer informação que tenham e me possam facultar.

Votos de escaladas seguras, ecológicas e saudáveis!!!
Sou João Rodrigues
O meu mail é: joão.c.r@clix.pt