terça-feira, março 06, 2007

Clássica de 1980

Clássica de 1980

A maré sobe. Tenho de ser rápido para que todos tenhamos tempo de entrar na via.
Mas, como ser rápido neste terreno e com esta exposição?
Consegui colocar dois friends e um entalador. O primeiro friend e o entalador encontram-se juntos e constituem protecções razoáveis. O segundo friend, uns bons três metros mais acima não serve sequer como consolo psicológico.
Agora tenho alguns metros de escalada comprometida e rocha duvidosa, sem possibilidades de proteger.
Olho para baixo e apercebo-me da forte possibilidade de uma queda no caótico chão de blocos.
A maré sobe. Hesito. Tenho de fazer algo.
Minutos antes e alguns metros mais abaixo protegera num piton completamente corroído. Este pequeno artefacto representa uma prova moribunda da primeira ascensão desta via.
Dias antes, a Daniela Teixeira, o Miguel Grillo e eu, resolvemos repetir a “Directa Integral da face leste da Ursa” (Cabo da Roca), aberta no longínquo ano de 1980, por Paulo Alves, Vasco Pedroso e “Faña”.
Agora, à medida que escalava o primeiro largo não parava de pensar na audácia de Paulo Alves, quando se meteu, à vista, nesta mesma linha vertical, há mais de 25 anos, munido apenas com alguns pitons e quatro entaladores bicoins (!).
Nós, estamos munidos com bons pés de gato, vários friends de ultima geração e cordas de resistência mais que comprovada. Ou seja, material recheado de homologações Europeias.
Mesmo assim, não sei bem o que fazer nesta passagem perigosa.
Finalmente, resolvo arriscar dois novos passos. Coloco um piton precário. Iço a máquina e, instantes depois, estava colocado um brilhante e resistente perninho.
Cómoda solução, não disponível na primeira ascensão.
Com a autorização de Paulo Alves a nossa intenção era reequipar apenas as reuniões e alguma passagem mais exposta. A ideia básica era ressuscitar esta via histórica, reactivando-a para futuros pretendentes. No final da nossa escalada ficaram equipados os relés e o referido perne do primeiro lance.

O Paulo Alves iniciou as suas andanças verticais muito antes de 25 de Abril de 1974. Continua hoje um escalador muito activo e no seu curriculum conta com vias abertas nos quatro cantos deste país. É de facto difícil referir uma parede onde este pioneiro não
tenha posto as mãos, em algum momento do seu longo historial de escalador.
No Cabo da Roca inaugurou inúmeras vias.
Foi o primeiro a escalar o emblemático rochedo da Noiva, pela sua via “Normal”, hoje em dia a mais repetida.
No dia 14 de Junho de 1980, Paulo e companhia continuaram a sua aventura na decomposta face leste da Ursa. Os três escaladores lá foram subindo cuidadosamente, aproveitando a linha mais lógica da parede. Terminaram às 19.30, no elegante cimo da torre de calcário, após sete horas de escalada arriscada e comprometida.
No croqui descritivo o Paulo Alves refere a existência de “pedra solta e rocha em pó nalguns locais”. Escreve também: “escalada bastante vertical, exposta e interessante”.
A sua apreciação geral retrata em três simples palavras todas as vivências, emoções e características desta ascensão.
Vivências e emoções garantidas a futuros repetidores.


Nota importante:
Para realizar qualquer das vias na Pedra da Ursa é necessário consultar uma tabela de marés, pois a entrada e saída só serão possíveis com a maré baixa. Durante o período compreendido entre as baixas a Ursa torna-se numa ilha. Mais um atributo de interesse para um aventureiro!

Tabela de marés:

http://www.hidrografico.pt/wwwbd/Mares/MaresPortosPrincipais.asp

Paulo Roxo



Duas fantásticas fotos da abertura da via. Note-se os pés de gato (!) e o equipamento utilizado!:

1980

1980

Repetição e reequipamento (18Fev2007):

A mais bela das praias!

A inevitável fotografia

A Ursa imponente (e a maciça Noiva por detrás)

O nervoso 1º lance

Paulo no 1º lance

Daniela também no 1º lance

Miguel em mais uma prespectiva deste lance



Terceiro largo

Ultimo lance

Sol e muito (e frio) vento no cimo vertiginoso

6 Comments:

sesa said...

Mais uma de arrepiar o pelo...

Pereira said...

Um resgate muito bem vindo... e umas fotos da abertura bastante inspiradoras.
Devia-se fazer o backup do "disco" de memória de pessoas como o Paulo Alves, nessas épocas de antanho, dos 70as e 80as, em que ao contrário de hoje, "a escalada era perigosa e o sexo era seguro..."
Mais um vez um excelente crocas para acompanhar.

Anónimo said...

Posso retirar informação deste último post para colocar noutro blog?

Abraço

P.R. said...

Podes retirar informação à vontade.
Diz-nos só em que blog vais colocar a informação e já agora quem és.

Paulo Roxo

jUliO---mAnO said...

Ola Paulo! deixei te um mensagem no Havista, se me pudesses ajudar agradecia te imenso!!

Anónimo said...

obrigado pela cedência da info, o blog é o seguinte:

http://museudaescalada.blogspot.com/

Contem mais coisas dessas.