quarta-feira, junho 28, 2006

BÉÉÉ!... BÉÉÉ!...

(Nota: No dia 13 de Março de 2000, no então existente Forum Montanha (www.jba.pt/montanha/forum) apareceu esta inspirada história acerca de um pastor alentejano e as suas ilusões verticais, escrito pelo Paulo. Hoje, recuperando este texto, aqui fica para deleito de todos uma vez mais)


O compadre Gumerzindo, respeitável pastor da aldeia do “Pé na Bosta”, estava um dia, como todos os dias, a guardar o seu famoso rebanho de 32 ovelhas. A poucos metros de si estava “Vómito”, o fiel e único amigo de quatro patas e raça rafeira, companheiro de duras andanças pelos montes perdidos do Alentejo.

Sentado num calhau, mãos e queixo apoiados no seu cajado, de olhar inexpressivo, ao qual já se havia acostumado, Gumerzindo deixava que os minutos decorressem livres até se transformarem em horas. A seu lado… BÉÉÉ!... BÉÉ!… Vómito dormia, de focinho entre as pernas, absolutamente indiferente ao constante balir das ovelhas que, em seu redor devoravam ervas e pedras.

E, eis que de súbito, algo espantoso aconteceu… Trazidas pelo vento que se levantara com o final da tarde, as folhas de uma revista voavam descrevendo piruetas desordenadas até que se espetaram, num golpe seco, em cheio na cara de Gumerzindo.
- Ai! Merda! - bramiu.
Vómito levantou ligeiramente o focinho para, logo de seguida o voltar a pousar.
- O que é isto? - num gesto irritado o pastor retirou as folhas da sua cara. Dirigiu-lhes um rápido olhar antes de se preparar para as voltar a jogar ao vento. Mas, qualquer coisa despertou a atenção de Gumerzindo. Apesar de amarrotadas e descoloridas, ainda se conseguia observar uma série de fotografias nestas velhas páginas da revista. As estranhas fotografias eternizavam imagens de pessoas que se suspendiam unicamente pelas mãos em rochas e fragas, envergando roupas coloridas e esquisitos artefactos de metal, por onde passavam finos e atraentes “cordéis”. Algumas fotografias mostravam atletas de torso nu e musculado sobre pedras, em posições contorcionistas. Noutras imagens viam-se verdadeiros astronautas, dobrados sobre si próprios, transportando ás costas grandes “armários” e aparentemente, caminhando sobre inclinadas pendentes de neve.
Os olhos de Gumerzindo esbugalharam-se quando surgiu a foto de uma bonita rapariga, agarrada como uma lapa a um pedaço de rocha, envergando roupas mínimas, que lhe salientavam belos ombros e lombares bronzeados. Demasiado acostumado à companhia das suas ovelhas, custou-lhe abandonar esta ultima fotografia. A curiosidade deu lugar ao fascínio e só quando o Sol se escondeu por detrás do monótono horizonte, é que Gumerzindo desviou os olhos desta ocasional oferta do vento.

Nessa noite, embrulhado no seu velho cobertor esburacado, à luz da fogueira, tendo como tecto o céu estrelado, Gumerzindo tomou uma importante decisão. Também ele se iria tornar num trepador.

Os meses passaram. Na aldeia do Pé na Bosta nunca mais ninguém conseguiu pôr os olhos em cima de Gumerzindo, do seu cão e do famoso rebanho de 32 ovelhas. Corriam rumores que o pastor tinha sido aniquilado por meliantes que lhe roubaram o rebanho. A única duvida, residia em Vómito. Quem alguma vez iria querer um rafeiro tão feio?!

Blocos e paredes de granito invadem a paisagem da Serra da Estrela. Um território ainda em estado bruto no que diz respeito à escalada. A distância, a fraca vontade de exploração e aventura e, a pura ignorância, fazem com que este maciço receba poucas visitas do “pessoal colorido e artilhado de artefactos metálicos”.

No entanto, para Gumerzindo, este era um local de paraíso. Bons pastos para o seu rebanho de 31 ovelhas (a pobre Ofélia fora atropelado por um camião TIR quando cruzava o IP8, junto a Castelo Branco), montes e vales para o Vómito correr e saltar (um novo júbilo despertara no espírito deste cão, outrora um calão incorrigível) e sobretudo, muita rocha para Gumerzindo estoirar com os braços a praticar a sua nova e apaixonante actividade. Inspirado pelas páginas da velha revista, ainda em seu poder, cedo adquiriu o seu primeiro material técnico de escalada. Nos pés calçava umas belas galochas, ostentando a marca «Five-Ten», pintada a marcador. Uma lata vazia de feijões, com dois furinhos por onde passava um cordel, de forma a atar à cintura, fazia as vezes do imprescindível saco de magnésio. Quanto ao magnésio, pó-de-talco, está claro.
- “O único problema” – pensava Gumerzindo – “é que as mãos parecem escorregar um pouco mais”.
Para os dias frios não faltava a quente samarra… «North Face», bordado no ombro.

E assim passava os seus dias Gumerzindo. Escalando (sobretudo em solo) e resolvendo complicados problemas de Boulder, sempre acompanhado pelo seu inseparável rebanho de 31 ovelhas (BÉÉÉ!... BÉÉ!...), sob o olhar arguto do fiel (apesar de horrível) cão.

Para os passos de Boulder mais expostos já havia ensinado Vómito a conduzir o Ambrósio e a Mamalhuda (os calmeirões do seu rebanho) para debaixo de si, de forma a proteger eventuais quedas. Finalmente resolveu rebaptizar estas duas ovelhas como: o casal “colchão” (Crash-Pad, para os mais técnicos).

Mais meses volvidos e o pastor continuava a ser visto nos locais mais dispares da nossa geografia.

Um dia, nas Buracas, conseguiu encadear o seu primeiro 8a em solo, deixando os “penteadinhos”, bem vestidos mestres do “grau” (que se encontravam no meio das suas ovelhas… BÉÉ!...) boquiabertos.

Noutro dia alguém o descobriu a escalar “à vista” um 7c+ na Fenda da Arrábida. O escalador que testemunhou o acontecido relatou o facto:
- É pá! Eu cá só ouvia balidos de ovelhas. O cheiro era pestilento! De repente, do meio de toda aquela lã, vejo um tipo com umas galochas e uma lata de feijão atada à cintura, a subir como um louco por ali acima… foi indescritível!

Em Sintra, nos novos blocos de Boulder, resolveu um V10 à terceira tentativa.

Quando interrogado sobre os seus mais recentes feitos, a sua resposta foi enigmática:
- Ó compadre, experimente lá conduzir um rebanho pelos montes Alentejanos e aí sim…vossemecê vai ver o que é a dificuldade de verdade!

Hoje em dia pouco se sabe de Gumerzindo. No entanto algumas testemunhas oculares afirmam ter visto, em plena autopista Espanhola, um pastor de samarra (North Face) e de cajado em punho a deslocar-se em direcção a Cuenca, acompanhado por um rebanho de 33 ovelhas (comprovando os anunciados nascimentos de “Patas Tortas” e de “Costas Arqueadas”, os primeiros filhotes do casal Crash-Pad).

Ah! Convém não esquecer que, seguindo atrás de toda a “família” de Gumerzindo também foi visto um cão muito feio arrastando uma comprida língua.

Seria o fiel Vómito?

Paulo Roxo em 13/03/2000 (www.jba.pt/montanha/forum)

6 Comments:

nuno said...

Muito muito bom!!!!!

FCS said...

O Humor inigualável do roxo!Excelente!

Ricardo Belchior said...

Para quando o livro?

Abraço

sesa said...

o Roxo é o verdadeiro master! uma inspiração para todos nós... Parabéns.

chb said...

Não era má ideia fazer uma pequena compilação de todos estes devaneios humorísticos com que o Roxo sempre nos presenteou...
Só é pena a "velhinha" revista Montanha já não existir...
Continua!

zm said...

Um texto inspiradíssimo! Foi muito agradável relê-lo.
Um abraço ao autor e beijinhos à namorada.
ZM