“Domingo no Mundo”
Depois de um Sábado perfeito, ainda a suspirarmos pela “Erika”, já pensávamos que o Domingo também prometia.
Estavam à nossa espera há algum tempo, duas linhas já escovadas, que nos criavam à alguns fins-de-semana um certo…formigueiro nos dedos!
Pelo meio da manhã, aproximamo-nos novamente do Cântaro, desta da sua face W.
Bem perto da estrada (comparando com a distância de quem vai para a NW), a arrancar do anel do Cântaro, lá estava a via, «A “via” mas já não há», uma tal assediada pelo Miguel e “moi même” à cerca de uma ano atrás, mas que pela dificuldade acrescida devido ao verdume, ficou à espera de melhores dias.
O dia chegou e desta éramos três.
Quando me acerquei dos meninos, já estava o Paulo de anquinhas preenchidas de “amigos” e umas fitas carnavalescas à bandoleiro. Enfiou-se pelo primeiro largo seguindo as instruções do Miguel “…agora vai pelo diedro à esquerda…”. Rapidamente passou o crux, que dá direito à reunião (curioso que nas 3 vias deste pequeno sector, os crux’s estão sempre antes das reuniões!).
Este primeiro largo (V+), entra numa diedro que leva a outro. Neste, é à escolha, ou se faz pelo diedro, ou se desvia para um esporãozito à direita (o que torna a coisa um pouco mais fácil). A saída para a reunião é a mesma que a da via “Triangulogia Final”
De seguida, o Miguel reviveu o segundo largo(6b), com uma pequena diferença para a tentativa do ano passado, desta foi mesmo mesmo até ao fim ( 3 vivas a crux’s escovados!). Este, arranca da reunião por uma espécie de placa com boas presas e uns metros à frente deriva um pouco para a esquerda (1 passo lateral) para voltar a subir. O crux, é um tectinho antes da placa fácil que vai dar à reunião.
Quando o Paulo e eu íamos algures a meio do largo, estava o Miguel em amena cavaqueira (como quem diz…troca de berros!) com a Isabel, que nos olhava lá de baixo…afinal não estávamos sozinhos por ali.
Após a descida, foi altura de trocar “allôs” com a malta que escalava nas desportivas do corredor dos mercadores. Pelos comentários, os V’s por ali metem medo!
Resolvemos depois dedicarmo-nos à segunda via do dia, a que nos esperava na face NW.
Daniela Teixeira (6/7/06)
A arte do sofrimento
- Piii! Piii! - grita a Daniela.
- Ahh! Não grites! – respondo.
O eco do seu grito rebota nas paredes da chaminé e entra nos meus ouvidos como agulhas afiadas.
- Estás em top. Não é necessário gritar tanto!
Logo páro para pensar na sua situação: “Não está acostumada a este tipo de escalada.”
Olho para cima e descubro duas paredes opostas, virtualmente desprovidas de presas, divididas por uma fenda enorme.
Não percebo o que fazer para me elevar.
Então penso de novo: “E quem é que está acostumado a este tipo de escalada?!”

- Piiii! – grito, sem qualquer pudor...
O Miguel assegura-nos desde o cimo, aliviado, depois de ter aberto com mestria este “Off-width” de antologia.
“Sortudo!”
Os “Off-width`s” são fendas demasiado estreitas para permitir o entalamento normal em chaminés “normais” (rabinho de um lado, pés e mãos do outro lado) e demasiado largas para permitir a razoável protecção com friends (normais!). No fundo, trata-se de um arrastamento vertical utilizando todas as partes do corpo, excepto... as mãos.
As possiveis protecções permitem largas sessões de infantilidade e pânico puro.
Os “Off-width`s” são bons locais para se reflectir sobre o sentido da escalada e da vida em geral.

Já haviam passado algumas semanas desde que escovámos esta via e agora vinhamos preparados para a inaugurar.O Miguel trouxe os maiores friends da sua colecção. Dentro da sua mochila transportava os Camalots quatro, quatro e meio e também o numero seis (!), um verdadeiro calhamaço com as dimensões de uma antena parabólica.
Esta artilharia pesada quase tornava a escalada numa batotice mas, por outro lado, representava uma ténue esperança de reduzir os níveis de taquicardia.
Descemos até à base da via, situada no sector Inferior da face Oeste do Cântaro Magro.Animado, encarreguei-me do primeiro lance. Um exigente 6b+ constituído por um diedro e uma travessia delicada que conduz ao interior da graaaande chaminé.
O Miguel atacou a “dita cuja” e a Daniela e eu esperámos na fresquinha reunião.
O tempo passou devagar, com o Miguel a pronunciar vários sons indecifráveis que denunciavam vários estados de espirito:
- Uf, uf!
- Gnnnnn!
- Atenção aí!!
- Uau, este passo... blá, blá, blá...
Não entendiamos o que dizia mas percebiamos que estava em jubilo.
E de novo:
- Uf, uf!
- Gnnnn!!
A Daniela olhava-me preocupada...
Eu respondia ao seu olhar dizendo algo estupido do tipo:
- Vais ver que isto é fácil! – “É só saber reptar... muito!” – pensava de seguida.
E, eis que o Miguel, radiante, atinge a reunião. E isso queria dizer que os restantes elementos teriam de começar a subir.
Para além dos “Piiii!`s”, também um monte de “Uffff!`s” e “Gnnnn`s” foi ilustrando a lenta ascensão. E, a juntar ao requintado repertório, também não faltaram as “Merda!`s” e os clássicos “Fo... -se!`s”. Mas a coisa lá terminou com um ocasional “Nunca mais meto aqui os cotos!”
Finalmente, chegámos à reunião, também contentes por haver concluído o objectivo... que consistia em chegar ao topo com um nível de escoriações aceitável.
- Bela via! – exclama o Miguel. – E o grau?
- Como é evidente, se esta via fosse repetida por um “Américas” esta chaminé não seria mais de V.
Este tipo de escalada é quase impossivel de cotar e depende muito do jeitinho do “animal”.

Após uma rápida reflexão a coisa fica-se pelo 6c (quiçá).
Já na Curva do Cântaro encontramo-nos com a malta que tinha estado a escalar no sector dos Mercadores.
O Nuno pergunta:
- E então a vossa chaminé?
- À maneira! Perfeitamente horrivel... é o que se quer!
Paulo Roxo (6/7/06)
D.D.D. (Deep, Dark and Depressing)
50 mts, 6c (Cântaro Magro - sector inferior)
Material: conjunto bastante completo de friends, camalot nº 4 para um grande nível de medo, camalot nº 4,5 para nível médio de medo e camalot nº 5 ou 6, para um nível de medo aceitavel.
(aconselhável ver filme com som)


Lá de cima, a vista é preciosa, todo um mundo de granito entalhado por algumas linhas de água. A descida faz-se a pé “pelas traseiras”, por enormes lages graniticas pouco inclinadas até que se chega ao vale pelo qual acedemos.
Foi um dia perfeito!Domingo, partimos para Vigo com uma história para contar. 




























