sexta-feira, julho 07, 2006

Domingo no Mundo”

Depois de um Sábado perfeito, ainda a suspirarmos pela “Erika”, já pensávamos que o Domingo também prometia.
Estavam à nossa espera há algum tempo, duas linhas já escovadas, que nos criavam à alguns fins-de-semana um certo…formigueiro nos dedos!
Pelo meio da manhã, aproximamo-nos novamente do Cântaro, desta da sua face W.
Bem perto da estrada (comparando com a distância de quem vai para a NW), a arrancar do anel do Cântaro, lá estava a via, «A “via” mas já não há», uma tal assediada pelo Miguel e “moi même” à cerca de uma ano atrás, mas que pela dificuldade acrescida devido ao verdume, ficou à espera de melhores dias.
O dia chegou e desta éramos três.
Quando me acerquei dos meninos, já estava o Paulo de anquinhas preenchidas de “amigos” e umas fitas carnavalescas à bandoleiro. Enfiou-se pelo primeiro largo seguindo as instruções do Miguel “…agora vai pelo diedro à esquerda…”. Rapidamente passou o crux, que dá direito à reunião (curioso que nas 3 vias deste pequeno sector, os crux’s estão sempre antes das reuniões!).
Este primeiro largo (V+), entra numa diedro que leva a outro. Neste, é à escolha, ou se faz pelo diedro, ou se desvia para um esporãozito à direita (o que torna a coisa um pouco mais fácil). A saída para a reunião é a mesma que a da via “Triangulogia Final”
De seguida, o Miguel reviveu o segundo largo(6b), com uma pequena diferença para a tentativa do ano passado, desta foi mesmo mesmo até ao fim ( 3 vivas a crux’s escovados!). Este, arranca da reunião por uma espécie de placa com boas presas e uns metros à frente deriva um pouco para a esquerda (1 passo lateral) para voltar a subir. O crux, é um tectinho antes da placa fácil que vai dar à reunião.
Quando o Paulo e eu íamos algures a meio do largo, estava o Miguel em amena cavaqueira (como quem diz…troca de berros!) com a Isabel, que nos olhava lá de baixo…afinal não estávamos sozinhos por ali.
Após a descida, foi altura de trocar “allôs” com a malta que escalava nas desportivas do corredor dos mercadores. Pelos comentários, os V’s por ali metem medo!
Resolvemos depois dedicarmo-nos à segunda via do dia, a que nos esperava na face NW.

Daniela Teixeira (6/7/06)

A arte do sofrimento

- Piii! Piii! - grita a Daniela.
- Ahh! Não grites! – respondo.
O eco do seu grito rebota nas paredes da chaminé e entra nos meus ouvidos como agulhas afiadas.
- Estás em top. Não é necessário gritar tanto!
Logo páro para pensar na sua situação: “Não está acostumada a este tipo de escalada.”
Olho para cima e descubro duas paredes opostas, virtualmente desprovidas de presas, divididas por uma fenda enorme.
Não percebo o que fazer para me elevar.
Então penso de novo: “E quem é que está acostumado a este tipo de escalada?!”




- Piiii! – grito, sem qualquer pudor...
O Miguel assegura-nos desde o cimo, aliviado, depois de ter aberto com mestria este “Off-width” de antologia.
“Sortudo!”
Os “Off-width`s” são fendas demasiado estreitas para permitir o entalamento normal em chaminés “normais” (rabinho de um lado, pés e mãos do outro lado) e demasiado largas para permitir a razoável protecção com friends (normais!). No fundo, trata-se de um arrastamento vertical utilizando todas as partes do corpo, excepto... as mãos.
As possiveis protecções permitem largas sessões de infantilidade e pânico puro.
Os “Off-width`s” são bons locais para se reflectir sobre o sentido da escalada e da vida em geral.


Já haviam passado algumas semanas desde que escovámos esta via e agora vinhamos preparados para a inaugurar.
O Miguel trouxe os maiores friends da sua colecção. Dentro da sua mochila transportava os Camalots quatro, quatro e meio e também o numero seis (!), um verdadeiro calhamaço com as dimensões de uma antena parabólica.
Esta artilharia pesada quase tornava a escalada numa batotice mas, por outro lado, representava uma ténue esperança de reduzir os níveis de taquicardia.
Descemos até à base da via, situada no sector Inferior da face Oeste do Cântaro Magro.
Animado, encarreguei-me do primeiro lance. Um exigente 6b+ constituído por um diedro e uma travessia delicada que conduz ao interior da graaaande chaminé.
O Miguel atacou a “dita cuja” e a Daniela e eu esperámos na fresquinha reunião.
O tempo passou devagar, com o Miguel a pronunciar vários sons indecifráveis que denunciavam vários estados de espirito:
- Uf, uf!
- Gnnnnn!
- Atenção aí!!
- Uau, este passo... blá, blá, blá...
Não entendiamos o que dizia mas percebiamos que estava em jubilo.
E de novo:
- Uf, uf!
- Gnnnn!!
A Daniela olhava-me preocupada...
Eu respondia ao seu olhar dizendo algo estupido do tipo:
- Vais ver que isto é fácil! – “É só saber reptar... muito!” – pensava de seguida.
E, eis que o Miguel, radiante, atinge a reunião. E isso queria dizer que os restantes elementos teriam de começar a subir.
Para além dos “Piiii!`s”, também um monte de “Uffff!`s” e “Gnnnn`s” foi ilustrando a lenta ascensão. E, a juntar ao requintado repertório, também não faltaram as “Merda!`s” e os clássicos “Fo... -se!`s”. Mas a coisa lá terminou com um ocasional “Nunca mais meto aqui os cotos!”
Finalmente, chegámos à reunião, também contentes por haver concluído o objectivo... que consistia em chegar ao topo com um nível de escoriações aceitável.
- Bela via! – exclama o Miguel. – E o grau?
- Como é evidente, se esta via fosse repetida por um “Américas” esta chaminé não seria mais de V.
Este tipo de escalada é quase impossivel de cotar e depende muito do jeitinho do “animal”.


Após uma rápida reflexão a coisa fica-se pelo 6c (quiçá).

Já na Curva do Cântaro encontramo-nos com a malta que tinha estado a escalar no sector dos Mercadores.
O Nuno pergunta:
- E então a vossa chaminé?
- À maneira! Perfeitamente horrivel... é o que se quer!

Paulo Roxo (6/7/06)
D.D.D. (Deep, Dark and Depressing)
50 mts, 6c
(Cântaro Magro - sector inferior)
Material: conjunto bastante completo de friends, camalot nº 4 para um grande nível de medo, camalot nº 4,5 para nível médio de medo e camalot nº 5 ou 6, para um nível de medo aceitavel.






(aconselhável ver filme com som)

quinta-feira, julho 06, 2006

Terras de ninguém

Sexta-feira, novamente nos fizemos à estrada para passar o fim-do-dia por terras do norte.
Desta, a ideia era escalar na Meadinha no Sábado (1 de Julho) e Domingo ir ter com uns amigos a Vigo. Resolvemos de caminho, ir jantar ao Porto com o Pedro Guedes (da LOJA ESPAÇOS NATURAIS), que por coincidência tinha à espera um belíssimo arnês que o Paulo já havia encomendado.
Por tradição, fomos às fracesinhas, com o Pedro e família (cá para nós, o Pedro tem um filhote lindo…mais um escalador potencial!) e como não podia deixar de ser, a conversa passou pela escalada e pelos múltiplos locais pouco visitados. Por volta das 23:00 e após alguns conselhos, a ideia da Meadinha estava quase esquecida “mas, tens aí os croquis?” perguntava o Paulo, “Estão na loja. Vamos lá e passo-vos os croquis e mostro-vos umas fotos de lá!”. Pela meia-noite, saíamos em direcção ao Gerês.
Cutelo de Pias era o destino.
Após uma curta noite, seguimos as preciosas indicações do Pedro Guedes, e pelas 11:00 começávamos a lindíssima caminhada que vai dar a esse belíssimo penedo de granito.
Seguimos por um vale encaixado, com bonitas placas de granito à nossa esquerda e sempre rodeados da verdejante vegetação do Gerês. Algures a meio caminho, passamos por uma pequena piscina natural, onde desejamos tomar um banhito, mas com a ânsia de tentar ainda escalar qualquer coisita e já com a fraga de granito pendurada no olhar deixamos essas vontades para outras núpcias e continuamos a caminhar. Pouco depois, fomos presenteados pelo voar de uma enorme águia, que se manteve no nosso horizonte por breves instantes. Duas horas foi o tempo que demoramos até à base do penedo e que penedo! “Isto é o paraíso!” exclamamos…Uma belíssima fraga granítica no meio de uma deslumbrante paisagem todinha só para nós.


…que mais se pode pedir?
Duas fragas?
Pois bem, por perto existem duas fragas mais, a imponente Roca Negra e Rocalva!
Como já era um pouco tarde, apesar de vermos algumas linhas atractivas, achamos por bem não nos metermos em ”grandes raiadas” e em jeito de reconhecimento da parede resolvemos fazer a via da qual tínhamos croqui, e sabíamos estar parcialmente equipada, aberta pelo Pedro Pacheco com Miguel Rosa em 1991.
O primeiro largo, é uma trepada fácil por entre a florescente vegetação local, com um pouco de rocha já perto da reunião. É o passo de rocha que lhe dá o grau (V). Apesar de fácil, é preciso algum cuidado, já que algumas das plataformas de terra desmoronam-se com os quilos do corpo humano (e é ingrato partirmo-nos todos a trepar um monte de ervas!).
O segundo largo (6b), já é rocha (com um pouco de musgo, mas nada que impeça a exequibilidade da via.). Entra por uma grande lastronga (que faz “poc poc”) passando diagonalmente para uma placa à esquerda desta. Na placa existe um spit a proteger um passo de aderência que não me pareceu fácil. Logo depois, um "passo de cavalo" atlético para a perna direita, já que há que elevar o corpo sobre esta, bem na vertical (porque como a plataforminha a subir é estreita, ficamos com o nariz colado à parede). Pouco depois, contorna-se um pequeno tecto pela direita e acima deste montamos reunião por debaixo de um outro tecto.Achamos este segundo largo o mais difícil, com alguns passos…acrobáticos.
O 3º largo (6b/A0) (que achamos o mais bonito), segue pela fissura para a direita, que se prolonga depois como um bonito e vertical diedro (que dá direito a esbeltos movimentos). No final deste existe um piton. A fissura do diedro segue depois para a direita (onde existe um 2º piton) e quando termina, dá direito a 2 passos de destrepe que são o início de uma pequena travessia improtegivel…mas fácil.


Depois disso, são cerca de 5 a 6m evidentes, para chegar ao cimo desta fraga.

Lá de cima, a vista é preciosa, todo um mundo de granito entalhado por algumas linhas de água. A descida faz-se a pé “pelas traseiras”, por enormes lages graniticas pouco inclinadas até que se chega ao vale pelo qual acedemos.


Pelo caminho, vêm-se pequenas nascentes (pocinhas por onde começa a surgir a água que alimenta os ribeiritos circundantes).
Finalmente, tivemos ainda tempo para nos deliciarmos com um banho em águas azul turquesa.

Foi um dia perfeito!Domingo, partimos para Vigo com uma história para contar.

Daniela Teixeira

Conselhos aos próximos repetidores:
- Contar com material para montar as reuniões (o “Parcialmente equipada”, traduz-se pela presença de um spit (não se garante que aguente uma queda jeitosa) e dois pitons).
-Levar uma escova para escovar uma ou outra reglete.Aos mais sensíveis ao som, não bater nas lastras maiores (pois quase todas soam a oco!).
-Ir cedo, para ter tempo de tomar um banhito na dita piscina natural.
-Ter em conta a época de nidificação

Já agora, fica aqui o croqui da via gentilmente cedido pelo seu "aberturista" e uma foto do Pedro Pacheco a abrir a via.


Nota: Desculpem lá a deselegancia da publicidade mas se há quem mereça menção pelo apoio que tem dado, é o Pedro e a Espaços Naturais.

domingo, julho 02, 2006




Roca Negra

Cutelo de Pias

Hummm?!...

sexta-feira, junho 30, 2006

«A "via" mas já não há!!»

No Verão de 2005, num fim-de-semana em que tristemente todo o Vale Glaciar de Manteigas sucumbia à força das chamas, numa incursão solitária, rodeado de fumo e helicópteros num ambiente apocalíptico de teatro de guerra, tive a oportunidade de abrir a via «Wild Fire». Na semana seguinte, desta vez acompanhado da Daniela abrimos imediatamente à esquerda a via «A Triângulogia Final».

Passado quase um ano, no Domingo dia 25, na companhia uma vez mais da Daniela e também do Paulo, abrimos ainda mais à esquerda das vias já referidas uma nova linha de seu nome: «A "via" mas já não há!!!» (50 mts, 6b)

M. Grillo





Free Image Hosting at www.ImageShack.us



quinta-feira, junho 29, 2006

Erika, uma Estrela da Serra

Há dois fins-de-semana atrás, o entusiasmo que havia para 4 dias inteirinhos para escalar, ficou pela metade. Dois dias de chuva encharcaram-nos as ideias!
Ainda assim, em dois deles fomos à descoberta de novas aventuras.
Nos dois primeiros dias de fim-de-semana alargado, eu e o Paulo só conseguimos assediar os granitos serranos na sexta-feira (16 de Junho).
Como da Covilhã a serra se mostrava negra, ficamos por cotas mais baixas e fomos a umas paredes na Barragem do Caldeirão, mesmo ao lado da Guarda. O Paulo tinha dali remotas recordações, eu, nem as conhecia. Aquele lugar num vale encaixado, com uma bela cascata por trás, foi palco de treino da maltinha da Guarda à uns anos atrás. O dia foi produtivo na medida do possível, duas vias entre três chuvadas. Por ali, há vias de placa equipadas com muuuuiiito ambiente (pode reduzir-se um pouco o ambiente fugindo para as fissuras para colocar protecções intermédias), um extraprumo equipado e fissuras que gritam para que se lhes meta os entalecos.
No Sábado e Domingo o Miguel juntou-se a nós.
Para Sábado, tinha sonhado em abrir uma via, à qual chamaria "A via dos (meus) anos", à semelhança de outra aberta à muitos anos pelo Paulo Alves (era um fetiche!), mas a chuva não deu tréguas e passamos o dia a deambular de carro pelos recantos da serra.





Domingo o dia acordou…com carácter, um pouco de azul, um pouco cinzento, umas gotitas aqui e ali…ainda assim, resolvemos enfiar-nos na parede sul do Cântaro para tentar abrir uma linha que há algum tempo tínhamos observado.
Eu, mariquinhas com a chuva e o musgo, os rapazes, com o entusiasmo ao rubro ao ver tantos metros por escalar.
Algures perto do meio-dia, iniciamos o primeiro largo (6b). O Paulo abriu as hostilidades e trepou por uns ressaltos que conduziram a uma placa bastante técnica (daquelas em que os pés, aderem e das mãos só se usam as palmas). Nesta, colocou uma plaquete (bem ao estilo Pedriceiro) e lá continuou protegendo depois numa fissura repleta de musgo molhado.
Da minha parte, acabei por fazer tudo em placa, só para evitar o musgo, mas a tarefa não me foi fácil!




O Miguel começou o segundo largo (6b+) quando eu ainda pensava em abandonar a história (estava com receio que o musgo me comece os dedos!). E que largo! A coisa segue por umas fissuras que vão dar a um patamarzito, do qual sai um belíssimo diedro, bem vertical e bastante técnico, com a fendinha bastante estreita e as regletes diminutas.


O terceiro larguinho (V), seguiu por uma placa facilita e o seguinte (V+) enfiou-se por fissuras e diedros. A reunião entre o quarto e o quinto...bom, na reunião entre o quarto e o quinto, reside um cagalhão! As multiplas sobremesas do dia anterior, reviraram as tripas a alguém ("pas de preocupacion"...está camuflado!) Depois de esse alguém ter arriado o calhau por ali mesmo merendámos... sem comentários...


O quinto largo (6a) é...algo estranho...movimentos esquisitos num curto diedro que se faz de 3 maneiras diferentes.
Sexto (6b+)...vimos o Paulo deliciar-se com uma espécie de diedro em meia cana, passos um pouco mais exigentes, com um crux um pouco desiquilibrante e atlético.
Por fim, lá foi o Miguel por um diedro atulhado de..."Ericas" espicaçantes.Um setimo largo (V) algo verdejante levou-nos ao cimo do Cantaro.





Mas a história não se fica por aqui! Uma via tão bonita, merece tratamento especial. Por isso, fizemos no Sábado passado a 1ª repetição, para lhe retirar um pouco do seu ar…verdejante e a deixar mais confortável (como quem diz…menos escorregadia!) para os repetidores que se seguem. Aproveitámos e deixamos também por lá uns perninhos nas reuniões e num ou outro lugar mais...arejado.Desta, a trepada soube ainda melhor, num fantástico dia de sol, sem pressa de voltar a casa...perfeito!

Daniela Teixeira (28/06/2006)


Via "Erika" (265 mts, 6b+) Material: 1 jogo de entaladores e 1 jogo de friends (c/ numeros pequenos e médios repetidos)

quarta-feira, junho 28, 2006

BÉÉÉ!... BÉÉÉ!...

(Nota: No dia 13 de Março de 2000, no então existente Forum Montanha (www.jba.pt/montanha/forum) apareceu esta inspirada história acerca de um pastor alentejano e as suas ilusões verticais, escrito pelo Paulo. Hoje, recuperando este texto, aqui fica para deleito de todos uma vez mais)


O compadre Gumerzindo, respeitável pastor da aldeia do “Pé na Bosta”, estava um dia, como todos os dias, a guardar o seu famoso rebanho de 32 ovelhas. A poucos metros de si estava “Vómito”, o fiel e único amigo de quatro patas e raça rafeira, companheiro de duras andanças pelos montes perdidos do Alentejo.

Sentado num calhau, mãos e queixo apoiados no seu cajado, de olhar inexpressivo, ao qual já se havia acostumado, Gumerzindo deixava que os minutos decorressem livres até se transformarem em horas. A seu lado… BÉÉÉ!... BÉÉ!… Vómito dormia, de focinho entre as pernas, absolutamente indiferente ao constante balir das ovelhas que, em seu redor devoravam ervas e pedras.

E, eis que de súbito, algo espantoso aconteceu… Trazidas pelo vento que se levantara com o final da tarde, as folhas de uma revista voavam descrevendo piruetas desordenadas até que se espetaram, num golpe seco, em cheio na cara de Gumerzindo.
- Ai! Merda! - bramiu.
Vómito levantou ligeiramente o focinho para, logo de seguida o voltar a pousar.
- O que é isto? - num gesto irritado o pastor retirou as folhas da sua cara. Dirigiu-lhes um rápido olhar antes de se preparar para as voltar a jogar ao vento. Mas, qualquer coisa despertou a atenção de Gumerzindo. Apesar de amarrotadas e descoloridas, ainda se conseguia observar uma série de fotografias nestas velhas páginas da revista. As estranhas fotografias eternizavam imagens de pessoas que se suspendiam unicamente pelas mãos em rochas e fragas, envergando roupas coloridas e esquisitos artefactos de metal, por onde passavam finos e atraentes “cordéis”. Algumas fotografias mostravam atletas de torso nu e musculado sobre pedras, em posições contorcionistas. Noutras imagens viam-se verdadeiros astronautas, dobrados sobre si próprios, transportando ás costas grandes “armários” e aparentemente, caminhando sobre inclinadas pendentes de neve.
Os olhos de Gumerzindo esbugalharam-se quando surgiu a foto de uma bonita rapariga, agarrada como uma lapa a um pedaço de rocha, envergando roupas mínimas, que lhe salientavam belos ombros e lombares bronzeados. Demasiado acostumado à companhia das suas ovelhas, custou-lhe abandonar esta ultima fotografia. A curiosidade deu lugar ao fascínio e só quando o Sol se escondeu por detrás do monótono horizonte, é que Gumerzindo desviou os olhos desta ocasional oferta do vento.

Nessa noite, embrulhado no seu velho cobertor esburacado, à luz da fogueira, tendo como tecto o céu estrelado, Gumerzindo tomou uma importante decisão. Também ele se iria tornar num trepador.

Os meses passaram. Na aldeia do Pé na Bosta nunca mais ninguém conseguiu pôr os olhos em cima de Gumerzindo, do seu cão e do famoso rebanho de 32 ovelhas. Corriam rumores que o pastor tinha sido aniquilado por meliantes que lhe roubaram o rebanho. A única duvida, residia em Vómito. Quem alguma vez iria querer um rafeiro tão feio?!

Blocos e paredes de granito invadem a paisagem da Serra da Estrela. Um território ainda em estado bruto no que diz respeito à escalada. A distância, a fraca vontade de exploração e aventura e, a pura ignorância, fazem com que este maciço receba poucas visitas do “pessoal colorido e artilhado de artefactos metálicos”.

No entanto, para Gumerzindo, este era um local de paraíso. Bons pastos para o seu rebanho de 31 ovelhas (a pobre Ofélia fora atropelado por um camião TIR quando cruzava o IP8, junto a Castelo Branco), montes e vales para o Vómito correr e saltar (um novo júbilo despertara no espírito deste cão, outrora um calão incorrigível) e sobretudo, muita rocha para Gumerzindo estoirar com os braços a praticar a sua nova e apaixonante actividade. Inspirado pelas páginas da velha revista, ainda em seu poder, cedo adquiriu o seu primeiro material técnico de escalada. Nos pés calçava umas belas galochas, ostentando a marca «Five-Ten», pintada a marcador. Uma lata vazia de feijões, com dois furinhos por onde passava um cordel, de forma a atar à cintura, fazia as vezes do imprescindível saco de magnésio. Quanto ao magnésio, pó-de-talco, está claro.
- “O único problema” – pensava Gumerzindo – “é que as mãos parecem escorregar um pouco mais”.
Para os dias frios não faltava a quente samarra… «North Face», bordado no ombro.

E assim passava os seus dias Gumerzindo. Escalando (sobretudo em solo) e resolvendo complicados problemas de Boulder, sempre acompanhado pelo seu inseparável rebanho de 31 ovelhas (BÉÉÉ!... BÉÉ!...), sob o olhar arguto do fiel (apesar de horrível) cão.

Para os passos de Boulder mais expostos já havia ensinado Vómito a conduzir o Ambrósio e a Mamalhuda (os calmeirões do seu rebanho) para debaixo de si, de forma a proteger eventuais quedas. Finalmente resolveu rebaptizar estas duas ovelhas como: o casal “colchão” (Crash-Pad, para os mais técnicos).

Mais meses volvidos e o pastor continuava a ser visto nos locais mais dispares da nossa geografia.

Um dia, nas Buracas, conseguiu encadear o seu primeiro 8a em solo, deixando os “penteadinhos”, bem vestidos mestres do “grau” (que se encontravam no meio das suas ovelhas… BÉÉ!...) boquiabertos.

Noutro dia alguém o descobriu a escalar “à vista” um 7c+ na Fenda da Arrábida. O escalador que testemunhou o acontecido relatou o facto:
- É pá! Eu cá só ouvia balidos de ovelhas. O cheiro era pestilento! De repente, do meio de toda aquela lã, vejo um tipo com umas galochas e uma lata de feijão atada à cintura, a subir como um louco por ali acima… foi indescritível!

Em Sintra, nos novos blocos de Boulder, resolveu um V10 à terceira tentativa.

Quando interrogado sobre os seus mais recentes feitos, a sua resposta foi enigmática:
- Ó compadre, experimente lá conduzir um rebanho pelos montes Alentejanos e aí sim…vossemecê vai ver o que é a dificuldade de verdade!

Hoje em dia pouco se sabe de Gumerzindo. No entanto algumas testemunhas oculares afirmam ter visto, em plena autopista Espanhola, um pastor de samarra (North Face) e de cajado em punho a deslocar-se em direcção a Cuenca, acompanhado por um rebanho de 33 ovelhas (comprovando os anunciados nascimentos de “Patas Tortas” e de “Costas Arqueadas”, os primeiros filhotes do casal Crash-Pad).

Ah! Convém não esquecer que, seguindo atrás de toda a “família” de Gumerzindo também foi visto um cão muito feio arrastando uma comprida língua.

Seria o fiel Vómito?

Paulo Roxo em 13/03/2000 (www.jba.pt/montanha/forum)

terça-feira, junho 27, 2006

Rocha Podre?!?!


Parece que da fama já não nos livramos. Pois então aqui fica um pequeno filmezito para reforçar a ideia...





Nota: As imagens acima visualizadas foram produzidas numa improvisada encenação no decorrer de uma ascensão a uma via algures pela Serra da Estrela.

quarta-feira, junho 21, 2006

E a bola rola...

Já agora e dando uma achegazita ao texto da Daniela, a propósito do Futebol e, neste caso das bandeiritas Portuguesas e dos patriotas que aparentemente proliferam neste cantinho Europeu, eu pergunto:

Onde é que estavam as ditas bandeirinhas e os patriotas quando ainda no passado ano (e no ano anterior e no anterior e no anterior...) a zona de Pampilhosa da Serra e Serra da Estrela (e outras) estavam a ser assoladas pelos terriveis mega-incêndios visiveis do espaço?
Será que essas mesmas bandeirinhas e esses mesmos patriotas estavam reunidos junto à assembleia da republica para tentar obrigar o governo a fazer algo em relação a esse assunto?

E porque é que não vemos esses patriotas e as suas “irritantes” bandeiritas a manifestarem-se junto aos barões da Turistrela contra a mais selvagem obliteração de uma das mais belas serras Portuguesas?


Ás vezes penso que o nosso País merece a sua sorte.

Ou então sou o único que acha uma verdadeira fantochada governamental o facto de a assembleia da republica (note-se as minusculas nas primeiras letras de assembleia e republica) fazer um minuto de silêncio pela morte de um... futebolista!?
Ou de o excelentissimo senhor actual primeiro ministro (e demais comitiva) ter-se deslocado à Alemanha para assistir aos joguinhos, comer e beber “à Francesa”, à pala do dinheiro dos tugas. Tudo isto anunciado na T.V. como um grande acontecimento nacional e para jubilo dos mesmos patriotas – qual Papa em visita de terras Árabes!

De facto, só nos resta a escalada.

Paulo Roxo

Futebol...a bola rola e o país estanca!

Começo por dizer que não gosto, não gosto mesmo!
Até à bem pouco tempo (como quem diz...até à uns anos atrás!), pouco me importava com o jogo, jogadores, assistência...
Hoje em dia choca-me, choca-me que um bando de analfabrutos que correm atrás de uma coisa redonda, sejam ultra bem pagos para paralizar o país!
Confesso que até à uns minutos atrás, estava a tentar trabalhar...porque é para isso que me pagam enquanto o meu rabo está sentado na cadeira que ocupo diáriamente das 8:30 às 19:30 (ou outras horas quaisquer), mas...tentar tentei, até que os gritos vindos de várias salas instaladas nas empresas que existem no prédio onde trabalho (note-se que algumas até são empresas do estado!), me destabilizaram os neurónios.
O país está em greve, mas desta vez não há estado que se queixe!
Se por algum motivo uma empresa, várias, um sector, o que seja, fazem greve por 2 horas, vem logo acusações do estado contabilizando prejuizos por tamanha paragem na produção.
Agora (porra, estão de novo a gritar!), pára o país por 2h (estado incluido!) e nem se fala no tamanho rombo financeiro provocado pelo jogo!!!
Já diz alguém que me é querido"o homem quando está em grupo, embrutece" e desta o grupo é muito grande!

Até aposto que na Assembleia estão vários ecrans gigantes a passar o jogo e os nossos "governantes" gritam como qualquer outro ser embrutecido (imagino-os já suados de nervosos, alargando os nós das gravatas para melhor arrotarem as cervejas e cuspirem as cascas dos tremoços para o chão!) !...é por isto que o país não anda para a frente!
Olha...mais vale ir escalar uma pedra!!!

Daniela

terça-feira, junho 13, 2006

O dia dos "anos"

Este é o mês de todos fazerem anos. Tanta, tanta gente que nasceu em Junho!

No dia 10 de Junho, é o dia de aniversário do «Larau», e como já vem sendo habitual nos ultimos anos, nesta data vamos escalar para o Cabo Carvoeiro (Peniche). E como o Roxo e a Ema também fazem anos na mesma semana, nada como festejar todos juntos os seus aniversários.

No Sábado até direito a bolo na falésia tivemos. À noite uma vez mais o Larau e a Guida proporcionaram-nos um banquete em sua casa.


O bolo rapelador!!


Os aniversariantes


Parte do grupo

Bruno a ultrapassar as dificuldades da via «Federações e outras Aberrações»




quinta-feira, junho 08, 2006

Recuperando um antigo texto, publicado à mais de um ano atrás num conhecido forum:

O MEMORIAL DO CARVALHINHO

No inicio, ainda antes de ter visto o mundo, vim a voar no cú de um passarinho. Este pousou debaixo daquele tecto sombrio e, indiferente ao meu destino, resolveu cagar numa fina fissura de granito. A humidade fria dos Invernos e o calor abrasador dos Verões viram-me nascer sob a forma de um tímido arbustinho passando, alguns anos depois, para um pequeno mas forte e orgulhoso tronco de árvore. Tinha-me transformado num Carvalho (na verdade, tão entalado estava naquela estreita fissura que o meu crescimento sempre foi difícil. Realmente, havia-me transformado num “Carvalhinho”). A minha posição era privilegiada. Avistava todo o vale da Nossa Senhora da Peneda até Tibo. À minha frente, o maciço granítico estendia toda a sua crista até à gigantesca placa da Nédia. Os dias, meses, anos e as estações, corriam lentamente. A magnífica monotonia cíclica da terra desfilava ao vento, perante os meus ramos e folhas. E, eis que um dia vi surgir uma figura humana. Trepava na minha direcção. De estranhas vestes e um magote de quinquilharia metálica à cintura, este estranho ser ganhava gradualmente altura. Corria o mês de Outubro do ano 1981. Miguel Lopez, Antonio Martinez e José Maria, subiram até à minha presença e, um de cada vez, suspenderam-se ao meu tronco para cruzarem, por primeira vez, o tecto que me cobria da intempérie. Ainda estava longe de adivinhar a importância daquele acto. Aquele encontro surreal, naquele cantinho remoto da parede da Meadinha, acabou por marcar a minha vida para sempre. Estes primeiros escaladores baptizaram a linha de quatro lances “As escaleras al cielo” e, ao nível da segunda reunião, ali estava eu, no caminho, como uma bênção da oportunidade, pronto a ser laçado, ao bom estilo dos cowboys. A palavra foi viajando e, com o correr dos anos transformei-me no Carvalhinho mais famoso da região. Todos os que ousavam enfrentar a “Escaleras al cielo”, iriam encontrar-me, laçar-me e continuar. O “passo da árvore” era inevitável e a minha importância inestimável. Eu era um Carvalhinho emblemático conhecido e comentado por todos. A minha existência tornara-se um símbolo. Até que... o mês de Fevereiro de 2005 viu surgir três escaladores. Não havia novidade. Três mais, três menos... não fariam a diferença. Só que eu não me apercebi dos sinais. Algo não estava bem. Quando se aproximaram não consegui distinguir o brilho tresloucado por detrás dos óculos de um deles. O primeiro escalador laçou-me a sua cinta, como todos o fizeram até então. - À primeira! Nunca tinha laçado a árvore à primeira! - gritou o tal de Miguel Grillo.

A segunda escaladora, de nome Daniela Teixeira, repetiu os movimentos, subindo sobre mim e continuando... como todos até então. Mas, eis que surge o terceiro elemento. O de olhar tresloucado. Não sei se era da vaidade por estar a estrear umas ridículas novas calças amarelas ou se este seria apenas e por natureza intrínseca um “pataludo” incorrigível, o facto é que a sua conduta foi muito menos elegante que a dos precedentes. Duas mãos feias e enrugadas agarraram o meu tronco e suspenderam-se confiantes. Demasiado confiantes! Num mísero segundo a minha vida foi literalmente quebrada. - VIL ASSASSINO! Pendurado pela corda, a rodar no ar, o surpreendido criminoso fitava nas suas mãos o meu corpo inerte, separado para sempre daquela moradia de granito, à qual já me havia acostumado.

Segundos depois fui lançado ao vazio, caindo na base da parede, saltando uma, duas vezes, até jazer junto aos meus primos maiores. Que morte tão indigna! Um trágico momento na história da escalada na Meadinha. A partir desse instante o “passo da árvore” seria muito mais difícil. Sem a minha valiosa presença tudo se havia modificado. Ao descer, os mesmos três escaladores encontraram-me numa das curvas do caminho romano. Após uma breve homenagem solene, fui deixado no interior de uma fissura de granito, na parede que me viu crescer.

As flores irão surgir, o Sol irá aquecer, as folhas cairão e a chuva irá aparecer. As estações do ano seguirão o seu curso normal. A Terra continuará a rodar à mesma velocidade e os planetas do universo não se desviarão da sua rota. No entanto, nem que seja por uma miserável e ridícula parcela de um micro-segundo, o mundo mudou. Sem mim, o Carvalhinho, o mundo mudou.

Paulo Roxo (o de “olhar tresloucado”)

20 de Fevereiro de 2005

sexta-feira, junho 02, 2006

Shaktis Ausentes


Ainda esta temporada estival não tinha ido sentir o áspero granito da Serra da Estrela. Sentia-me inquieto agora que o calor começa a fazer-se sentir e os finais de tarde são de um prazer memorável. Para mim, quando o Verão se aproxima, e praticamente todo o país sufoca sob um ardente sol, não existe lugar mais perfeito para dar azo ás ânsias de escalar do que a nossa querida Serra. Reino de tremendas fissuras, diedros e temidas placas, alberga algumas das melhores vias de escalada que se poderão encontrar. Cântaro Magro, Parede do Inferno, Placa Verde, Vale de Loriga…enclaves por excelência para um jogo de uma pura essência. Granito de grande qualidade recortado por fissuras onde a arte da auto-protecção impera e extensas placas com transpirantes protecções fixas. Terreno de torneados movimentos onde o perfeito equilíbrio de corpo/mente nos leva ao tão ansiado próximo relé.



Na passada semana, uma poderosa força se apoderava corrosivamente do meu pensamento, puxando-me endiabradamente e com uma extrema violência o meu espírito para aquelas altas e rochosas terras.
- Tens de IR à SERRAAAAA!!!!!!, uma muda voz sussurrava constante e insistentemente na minha interioridade.

Mas a razão, e o discernimento da mente puxavam-me para terras mais a sul, para as falésias que compartimentam o azul oceano da baia de Sesimbra (perdoa-me Gaspar!).

Naquela calorosa noite de Sexta-feira (26 de Maio), dando voltas e revoltas na cama, numa constante e angustiosa luta, aquela “força” vs a voz da “razão” debatiam-se gladiadoramente por um fim sem desfecho previsível. Já tarde na hora ás portas da escura madrugada, cansado de uma semana de conflituosa luta interna, tomo a decisão…

Sábado, 6 horas da manhã. Desperto ao som do sempre irritante telemóvel e silenciosamente arrumo todo o material de escalada. 45 minutos mais tarde, já rumava em direcção à Serra da Estrela. Agora tudo estava claro e o objectivo estava perfeitamente nítido nos perdidos recantos do pensamento.

Há dias, ocasiões, momentos em que não vale a pena fugir. Agora, apenas renascia a constância e a necessária concentração para a opção tomada e uma fugaz apreensão derivada da incerteza final. Ou não fosse tudo isto a razão…da aventura!

No final da primavera de 1995, o incombustível Paulo Roxo acompanhado do João “Artista”, abriam magistralmente, na refundida e um pouco mais remota face Norte-Nordeste do Cântaro Magro a via Shaktis Ausentes (150m, 6c/A2).

Em Julho de 1996, na altura ainda graduada pelos seus aberturistas como 6a/A3, tive a oportunidade na companhia do Nuno “Larau” de realizarmos a provável 1ª repetição integral desta grandiosa via de escalada. Grandiosa pelo seu entorno e sobre tudo pela beleza do seu traçado. Naquele ano, foram quase dois dias de intensa escalada com direito a dormida em suspensas “hamacas” caseiras. Foi toda uma real aprendizagem e principalmente uma grande aventura. Uma escalada que jamais poderei esquecer…

Oito anos mais tarde, num fresco dia de Verão, voltamos a esta via. A minha curiosidade aumentava aguçadamente à medida que subíamos o trilho em direcção ao Covão Cimeiro. Em todos estes anos tanto se havia alterado…idade e conhecimentos, ideias e pensamentos, relações e ralações, vivências e momentos. E a via, será que está na mesma? Será que agora aos nossos olhos estará diferente? Apenas uma forma havia de encontrar a resposta: Escalar!!
Descontraidamente, limpando algum musgo aqui e ali, conversando e rindo como constante, o Roxo, o “Magno” e eu realizávamos aquela agradável escalada em cerca de 4 horas, forçando em livre o máximo para nós possível e recotando a via para 6c/A2 (6a/A2 obrigatório). Dos 4 lances, apenas o primeiro e 3 passos do segundo ficaram por forçar. Uma vez mais a Shaktis Ausentes me proporcionava uma escalada invejável.

No Sábado (dia 27de Maio), por volta das 10 horas encontrava-me de novo na base da face Norte do majestoso Cântaro Magro. Sobre mim, ergue-se a familiar Shaktis. Neste dia estava sozinho. Já há muito que esta ideia de escalar em solitário esta via rondava os meus mais perversos pensamentos, mas por um motivo ou outro, ou simplesmente por nunca ter coincidido com o momento certo, esta era uma ideia eternamente adiada.

Tranquilamente preparo todo o material. Coloco os entaladores, friends e expresses no arnês, preparo as cordas, coloco o gri ao peito. Inicio o fortemente sub-prumado 1º largo ao ritmo da fresca brisa. Escalada artificial fácil. Suspenso do 3º friend, continuo a sentir-me tranquilo. Aquele era o DIA!! O dia em que tudo encaixava.
Escalo mais lentamente do que usual. Hoje não existe lugar a precipitações. Tudo tem de ter o seu ritmo e o seu encadeamento natural. O 1º lance, 2º lance, 3º lance...tudo corria na sua normalidade de rotina que este estilo de escalada apresenta. Escalar à frente, fixar corda, descer, subir novamente pela corda, organizar o material e voltar novamente a escalar à frente o seguinte largo…e assim sucessivamente. Este 3º lance é um dos mais bonitos largos de corda que alguma vez escalei. Uma fissura perfeita com mais de 20 metros de longitude de uma dificuldade de cerca de 6b+/6c. Começa com entalamentos de mãos e vai estreitando…estreitando…até desaparecer, engolida pela lisura deste cinzento granito. Termino os últimos 3 ou 4 metros em artificial. Nesta posição (em solitário) a fissura parece-me demasiado cega. Da outra vez, havia escalado esta fissura integralmente em livre, mas desta vez (e em tantas outras) a força é proporcional ao medo, e o medo directamente proporcional ao compromisso.



Levanta-se um fortíssimo vento. Hesitei em continuar para o 4º e ultimo lance. O maior problema do vento forte, seria na descida em rappel de toda a via. Decidi continuar e sem grandes percalços (embora alguns sustos com as rajadas de vento que mais pareciam tiros de ar comprimido) alcanço o final da via. Um breve momento de descontracção e de enorme satisfação, e rapidamente inicio a descida. Três longos rappeles depositam-me novamente em chão firme. Invadido por uma desabordante felicidade, embora bastante cansado, sinto uma sensação de alívio e enorme leveza. Há muitos anos que esta ideia me perseguia e naquele momento havia-se tornado numa realidade.




Enquanto colocava a pesada mochila às costas para o sofrido regresso ao carro, uma nova e fugaz ideia emergia no meu pensamento. Liberar esta via, tentar escalar em livre a totalidade de cada um dos largos da Shaktis Ausentes. Provavelmente nunca terei o nível suficiente e dificilmente algum dia o conseguirei. Mas, certamente um dia voltarei!!

Miguel Grillo (02/06/2006)

Shaktis Ausentes (150m, 6c/A2) – 1ª ascensão em solitário em 27 de Maio de 2006


quarta-feira, maio 31, 2006

Então cá vai o topo de um dos sectores de Stª Luzia...sector de luxo, o mais vistoso!
Neste, pode-se escalar todo o ano (excepto nos dias de chuva!...bom, também se pode escalar...), não existem aves em risco a...a...a fazer amor!

Barragem de Santa Luzia – Pampilhosa da Serra

Parede da Flexura

Características: As vias tem entre 100 e 120 metros e a grande maioria percorre fissuras perfeitas.
As protecções fixas são raras.
Só ocasionalmente se encontrarão plaquetes nas reuniões.
Necessário montar ou reforçar todas as reuniões.

Acesso: Descer as escadas da barragem até ao passadiço de metal. Realizar um rapel desde o final do passadiço.
Todas as vias tem inicio no extremo esquerdo da plataforma de ervas. Os primeiros metros são comuns a todas as vias. Uma plaquete marca o inicio.

Descida: No extremo direito do topo do sector existe uma reunião equipada para Rapel (acesso à barragem). Necessárias cordas duplas.

Material: Prever um conjunto de friends, repetindo os numeros médios. Um conjunto de micro-friends e um bom conjunto de entaladores (usam-se muito por aqui!).


Vias:

1- As escadinhas da Luzia. V, V, V.
2- O Canto do Cuco. V+, 6a, 6a+.
3- A profecia do lagarto. V+, 6a, 6b, 6a.
4- Diedro da Flexura. V+, V, V.
5- Aventuras hidroeléctricas. V+, 6b+, V.
6- A fissura dos Mc louds. V+, 6b, 6b+, 7b+.
7- Via Pimentel. V+, 6a, 6c, 7b.
8- Um mundo de cunhas. V+, 6c, V.
9- O Pilar da comunidade. V+, 6b, 6a+, 6c+.
10- Diedro do Rapel. V.

Uma achega à foto do Post anterior...

Quanto à via "O Pilar desencantado"
L1: 6c; L2: 6c; L3: 6a
Via integralmente equipada, com distâncias...generosas entre plaquetes!!!
Aberta algures em 2006 por Paulo Roxo e Paulo Gorjão

NOVA! NOVA!

Mais uma vez descemos o trilho de pescadores que nos conduz ao mar e ao inicio de uma das mais esplendidas falésias da nossa geografia. A Falésia de Pinheirinhos.
Mais uma vez transportamos às costas todo o material necessário para inaugurar uma nova via: cordas duplas, friends, entaladores, cintas, cordeleta para abandonar em pontes de rocha e, desta feita alguns pitons. Não transportamos expansivos.
O objectivo é o evidente diedro que domina o flanco esquerdo da parede que alberga a via desportiva “O Pilar desencantado”.
Penduramo-nos como chouriços nas primeiras cinco plaquetes da “Pilar...” e atravessamos para a esquerda abandonando o conforto psicológico das protecções fixas, iniciando os primeiros passos do terreno virgem, explorando um novo itinerário nesta mole de calcário.
O primeiro largo com 40 metros é exigente e dificil de proteger.
Mas, a coisa lá se realizou sem percalços de maior.
A reunião foi equipada com pitons no lado oposto do curioso e grande bloco quadrado que se destaca da parede.
No segundo largo encadeiam-se duas belas fissuras verticais e atléticas.
É necessário estar vigilante pois a rocha tem aqui troços um pouco mais duvidosos.
Um fácil esporão conduz à reunião que se monta debaixo de uma Oliveirinha (dando o nome à via).
Os 25 metros finais são de alta qualidade. Trata-se de um semi-diedro de rocha muito boa e, o seu grau mais baixo possibilita uma escalada tranquila, para disfrutar.
Não fora a chuvada que nos surpreendeu na descida teria sido perfeitissimo!

OLIVEIRINHA
L1 (40 mts): 6c; L2 (45 mts): 6b; L3 (25 mts): 6a.
Material: Cordas duplas, friends e entaladores
Descida: Em rapel pela “Pilar Desencantado”
1ª ascensão: Paulo Roxo e Daniela Teixeira em Maio de 2006.

Paulo Roxo

quinta-feira, maio 25, 2006



Bufo-real vs Escaladores ou Escaladores & Bufo-real, Lda.


Eram umas de 6 horas da tarde do passado Domingo. O dia estava fresco e a chuva tinha dado ares da sua presença. Estávamos cerca de uma dezena de escaladores/as empenhados cada um no seu objectivo e todos desfrutando de mais um dia de escalada nos sectores de escalada do fundo (Poios Novo) do Vale dos Poios. Uma meia dúzia de nós preparava-se para abandonar este “santuário” e fugir à força que as duas argolas exercem naquele refundido sector encaixado no fundo deste petrificado canhão.

Caminhávamos dispersos pelo estreito trilho, quando os mais adiantados vêem passar torpe, desajeitadamente e mesmo desesperadamente, cruzando o seu caminho, um vulto de cor pardo do tamanho semelhante a uma galinha. Apressadamente aproximam-se do animal e vendo os seus debilitados movimentos, agarram-no instintivamente de uma forma algo impulsivamente audaz.

Caminhando um pouco afastado na retaguarda do grupo na companhia da Ema, apercebemo-nos da agitação e aceleramos o passo de forma a inteirarmo-nos da razão de tal movimentação. Ainda ao longe, andando aceleradamente deslumbro, debatendo-se entre as femininas mãos da Isa uma enorme ave de rapina. Aproximo-me, e os outros sabendo do meu gosto (e modestos conhecimentos) por aves passam-me para as mãos aquele fantástico e grande pássaro e impacientemente perguntam qual o seu nome. Sem grandes hesitações (embora mais tarde tenham surgido algumas duvidas) exclamo com um ar tão espantado quanto o deles:
- “É um Bufo-Real!!!!!”



De facto, aqueles imensos, gigantescos e esbugalhados olhos alaranjados que firmemente nos fixava e apesar da sua descaracterizada imagem devida à sua debilitada forma e tenra idade, aquela enorme ave que segurava entre as minhas “magnesiadas” mãos era nada mais nada menos que o «Rei da Noite», a maior de todas as aves de rapina nocturnas, o enigmático Bufo-Real.

Preocupados com o seu estado, entre todos começamos uma “cruzada” de telefonemas, contactos, chamadas…mas sendo um Domingo as perspectivas demonstravam-se pouco animadoras. Por fim, ao cabo de mais de uma hora de tentativas, após a maioria já ter abandonado o vale, um telemóvel sem saldo e outro sem bateria finalmente conseguimos falar com o Prof. Vingada, biólogo investigador, colaborador do ICN e grande entendido em vida selvagem. Após algumas questões sobre o estado de saúde do Bufo e alguns conselhos sobre o seu manuseamento, combinamos entregá-lo para tentativa de recuperação e reabilitação num local intermédio a cerca de 40 km do Vale dos Poios.

Na Aldeia de Poios conseguimos arranjar uma caixa de cartão onde colocar a ave para o seu transporte. Por volta das 8 e meia da noite encontro-me com dois biólogos. Retiro a caixa de dentro do carro e ao abri-la o Prof. Vingada num tom de surpresa e entusiasmo exclama vigorosamente:
- “Ohhh, é mesmo um Bufo!!!!!!”

Nesta fase, já a pobre ave demonstrava poucos sinais de vitalidade e a sua perda parecia inevitável. O seu estado de desidratação e subnutrição eram evidentes e numa tentativa de salvar este pequeno “tesouro” demos-lhe água e apressadamente os dois entendidos saíram a todo o vapor na tentativa de chegar ao centro de recuperação de aves o mais depressa possível.
Ontem, telefonei ao Prof. Vingada para saber se o Bufo tinha sobrevivido. Foi com grande prazer que obtive uma resposta positiva e fui informado de que se encontra a recuperar a receber soro e nutrientes e quando o seu estado estabilize será transferido para Centro de Recuperação de Animais Silvestres do Parque Ecológico de Monsanto (CRASPEM), em Lisboa.

Também me foi dito, que caso seja viável, um dia este pequeno/grande Bufo poderá voltar ao seu local de nascimento e cruzar livremente os céus do grandioso Vale dos Poios.

Hoje, reflectindo sobre tudo isto, sinto uma enorme satisfação por saber que contribuímos para salvar esta rara ave e por saber que o grande Bufo-real ainda habita estas verdejantes paragens.

Também por ver que nesta ocasião, foi graças aos escaladores (habituais deste vale), que tantas vezes são acusados de interferir na sobrevivência das aves de rapina, que esta se pôde salvar. Por sentir a compatibilidade das acções, a sensibilidade de conservação dos seus frequentadores. Talvez quem sabe, num futuro tenhamos de ajustar as nossas actividades em prol da conservação destas aves (respeitar épocas de nidificação nos sectores mais sensíveis (e comprovadamente sensíveis!!)) mas tenho plena convicção de que poderemos continuar a desfrutar harmoniosamente de longos e fanáticos dias de escalada das rochosas paredes e falésias pela nossa extensa costa e largas serranias.

Confesso que por muitos e mais metros de vias que sejam escalados, por mais duros e estrondosos encadeamentos realizados, no passado Domingo apercebi-me de quem era realmente «O SENHOR DE POIOS»!!!


Miguel Grillo

"À pois é!", enceramos para obras por uns tempos (...laaaaargooos) mas estamos de volta (não sei se de vez...vamos ver!).

Breve breve haverá por aqui uns quantos croquis a mais, de viotes que se tem aberto nos fins-de-semana que nos servem de descanço.
Mais umas quantas vias na já conhecida (e surpreendentemente povoada) Falésia dos Pinheirinhos e outras tantas na Barragem de Stª Luzia.
Por falar em vias, deixamos aqui um alerta para os amantes do Cabo da Roca...caso um destes dias pensem em repetir "O Pilar do Golfinho"...CUIDADO!!!!

À uns dias atrás (...talvez mais de 30...), eu e o Paulo resolvemos ir matar saudades aos granitos do Cabo da Roca, mais precisamente, ao "Pilar do Golfinho". Como fomos picados pelo bicho da preguiça, deixamos o carro o mais perto possivel da saida da via para rapelarmos para a sua base.
Estava o Paulo a montar o rapel e eu a chegar perto, quando em 2 escassos segundos nos vimos envolvidos por uma nuvem de centenas de abelhas (não, não estou a exagerar quanto ao numero). Ficamos quietos...estáticos e encolhidos em silêncio cobrindo a cara com os bracitos até que após 1 ou 2 minutos, os listados bicharocos se afastaram para outras paragens...para um arbusto contiguo a outro onde tinhamos as mochilas (um problema a resolver mais tarde!).
Após o susto, lá nos "enfiamos" na corda a rapelar via abaixo e ao passar uma qualquer reunião, novamente o zumbido das abelhas nos captou a atenção...centenas (mas desta menos centenas :)).
Confesso que o meu entusiasmo para fazer a via esmoreceu...só um bocadinho...
A escalada em si, até correu bastante bem, mas a chegada à 2ª reunião foi um pouco assustadora. O Paulo permanecia em silêncio rodeado pelos referidos bicharocos (não, não são os da preguiça!)...zum, zum, zum...
Da minha parte, resolvi ficar a dar-lhe segurança para o largo seguinte, da plaquete que antecede a reunião, a uma distância de escassos 2 metros das abelhitas.
Feita a via...quem vai buscar as mochilas?
Sendo o Paulo um autentico "gentlemen", tocou-lhe a ele (ser mulher compensa!)! Lá foi sorrateiramente, deslizando em silêncio até ao arbusto onde se encontravam as nossas tralhas. No arbustinho logo ao lado, repousavam em cacho (um cachito com cerca de 40cm de altura e outros 30 de diâmetro) as milhentas abelhas que outrora voavam sobre as nossas cabeças (parecia que estavam a escolher local para fazer colmeia...e parecia que o tinham encontrado!).
Incrivelmente, safamo-nos sem uma unica picadela!
Ou seja...se quiserem repetir "O Pilar do Golfinho"...VÃO MAS NÃO NOS CONVIDEM!!!

Para quem lá for, tenham atenção por onde andam e no que tocam...elas andam aí...

Boas escaladas...
Daniela

domingo, abril 02, 2006


1 de Abril 2006

Previa-se um fim-de- semana chuvoso, mas ainda assim, fomos espreitar o sol na falésia de Pinheirinhos.
No inicio do caminho, percebemos que não iriamos estar sozinhos, pois cruzamo-nos com um carro familiar estacionada, a Ana, o Rosado e o Luis Fernandes tinham chegado antes de nós. Iam para uma “Viagem sem Rumo”...
Da nossa parte, estavamos empenhados em terminar mais uma nova via nesta parede que mora ali perto do Cabo Espichel.
Chuva nem senti-la, o sol brilhou e nós...escalamos, alegres, felizes e contentes 4 largitos de se lhes tirar o chapeu (neste caso, o capacete!).
Chamamos-lhe “Diedro Makalu”.
Para os muuuuuiiiiiiiiitoooooos interessados, a via encontra-se semi-equipada, reuniões semi-equipadas (anda uma plaquete perdida por reunião, o friendusco extra fica por vossa conta) excepto a primeira, que tá todinha à vossa espera.
De quando em vez, encontrarão alguma plaquete e simpáticas pontes de rocha equipadas com cordeletas (que até são capazes de aguentar com alguma queda).
O primeiro largo é um pouco enganador, passa-lo-ão em suspanse a pensar onde anda o 6b, mas ele encontrar-vos-á!
O segundo lance, começa numa plaquinha, de calcário picotante (se a fizerem, irão perceber o significado da palavra – de qualquer modo, vale bastante a pena).
O terceiro largo, entra no diedro evidente, um 6b mais atlético, digamos que...mais desportivo!
No quarto largo, onde se suspira de tristeza por saber que não há mais e mais e mais outro larguito, continua-se pelo diedro, num interessante 6a+. É um bocadinho exposto, mas não faz mal...vocês gostam (é mesmo só um bocadinho)!
Após estes 4 larguitos de rocha de boa qualidade, certamente ficarão curiosos para fazer a vizinha Shisha Pangma (são dois mundos paralelos), também ela semi-equipada.
Para não ficarem desamparados, juntamos aqui umas achegas dessa via.
Foi aberta em Dezembro.
No primeiro larguito, espera-vos um 6b com uma passagem verdadeiramente de circo a meio do largo (nada que um pouco de contorsionismo não resolva).
De seguida, um diedro fácil conduz a uma bela aresta que termina num outro diedro, tudo isto está a venda por 6a+.
O terceiro e último largo, 6a+, tem um inicio um pouco delicado. Os mais distraidos olharão para um diedro, mas o caminho acertado é seguir o esporão.
Apesar de (por agora) só serem apresentadas duas vias, 6 outras existem nesta falésia.
Aos pouquinhos, elas vão aparecendo por aqui (não se esqueçam que este é ainda um bloguinho experimental)....aguardem as cenas dos próximos capitulos.
Téééééé...