MURALHA
1990. João Simões durante a abertura do segundo lance da via "Oceânica"
Na Serra da Arrábida, desde o miradouro natural do sector de
escalada desportiva do Fojo dos Morcegos, é possível observar a grande faixa de
falésias de aspecto decomposto que se estende para leste. Na faixa de calcário
que encabeça essas falésias, uma parede em especial realça a sua presença.
Trata-se da MURALHA, um paredão amarelado que atrai o olhar de qualquer
escalador amante da aventura. Nos anos 80, o Fojo constituía, por excelência, a
escola de treinos para um determinado grupo do qual fui membro, o Grupo de
Montanha do Barreiro. Sempre que descíamos o trilho empinado que conduzia ao
sector, o perfil da “Muralha” (como a batizámos então) ia ganhando forma, até
que tomava a sua real dimensão quando a avistávamos desde a chamada “varanda do
Fojo”.
Naqueles tempos, aquele muro vertical impressionava-me
sobremaneira e mexia de tal forma com a imaginação que não tranquilizei
até ter a possibilidade de lhe tocar com as minhas próprias mãos. Este
sentimento era acompanhado pelos meus dois companheiros de cordas da altura.
Também o Fernando Brito e o João Simões sonhavam escalar aquele pedaço de rocha
provocador.
1990. Paulo Roxo a inaugurar o quarto lance da "Oceânica"
1990. João Simões na saída técnica da "Oceânica"
Em 1989 surgiu a oportunidade. Eu e o Fernando Brito
juntámos vontades e equipamento (quase todo do clube) e resolvemos tentar a
nossa sorte. Destrepámos o Fojo, atravessámos as praias pedregosas, eternamente
torturadas pelo mar e, iniciámos a nossa escalada por um afiado esporão que
constituía a única entrada de rocha razoável, em toda a extensão de calcário
decomposto. Dois lances nervosos (especialmente o segundo, constituído por
rocha realmente má e terreno exposto, praticamente improtegível), colocaram-nos
na grande plataforma de matagal que antecede a parede principal da “Muralha”.
Após um retempero de energias e de um acalmar de nervos, retomámos a nossa
escalada, desta vez por terreno muito mais sólido. O fim daquele dia viu-nos no
topo da falésia, muito cansados, desidratados mas, mais que tudo, felizes.
Acabáramos de “conquistar” a tão sonhada “Muralha”. O Fernando lembrou-se de um
famoso poema épico de Álvaro Campos (uma das várias entidades de Fernando
Pessoa) e a via foi batizada com o nome inspirado de “Ode Marítima”.

1990. Fernando Brito, numa pausa "para um cigarrito" na via "1313"
1990. João Simões a assegurar e o Fernando Brito a escalar, durante a abertura da via "Noite"
A partir daquela primeira ascensão, inevitavelmente,
começámos a estudar os outros aspectos da parede. No entanto, o acesso desde o
mar foi considerado demasiado perigoso e rapidamente ficou descartado. A partir
daí realizámos o acesso sempre desde o topo. Para as seguintes ascensões, o
João Simões juntou-se à cordada da via original e, a 5 de maio de 1990,
inaugurámos a via “Noite”, cujo próprio nome denúncia o pequeno épico final de
uma saída nocturna e às apalpadelas. Nos dias 19 e 20 de maio desse mesmo ano,
caíram as vias “Rota do vento” e a “Oceânica”. O doblete ofereceu-nos o
privilégio de poder realizar dois maravilhosos bivaques no topo da “Muralha”, à
luz de milhões de estrelas brilhantes da Via Láctea.
1990. Paulo Roxo de martelo em rite, a pitonar o segundo lance da "1313"
1990. Paulo Roxo durante a abertura da "1313"
Retornámos a 16 de junho de 1990 para escalar a via “1313”.
O nome foi inspirado no Irmão Metralha que, nas histórias de banda desenhada do
Tio Patinhas (Walt Disney), era o vilão mais trapalhão e azarado. Durante
aquela escalada recordo-me de termos perdido vários pitons de rocha e um
martelo que, na sua queda, razou a cabeça do Fernando (naquele tempo o capacete
não estava na moda). No fim, pareceu-nos uma sucessão de azares adequada para
merecer aquele nome.
No ano seguinte (1991), desta vez sem o nosso companheiro
João, o Fernando Brito e eu escalámos a “Joshua Tree” e, finalmente, ainda
encordado com o Fernando, inaugurámos a última via da década dos anos 90. A
“Sentinela” nasceu a 7 de abril de 1996. Esta última aventura marcou o final de
uma época romântica de sonhos rebeldes de juventude sob o mote “dureza total”,
um cunho privado que pretendia realçar a nossa forma de encarar a montanha e a
escalada.
1990. João Simões assegura e Fernando Brito "limpa" um dos lances de escalada
1990. Paulo Roxo durante a abertura do segundo lance da via "Noite"
Durante muitos anos a parede da “Muralha” ficou esquecida,
longe da vista e dos corações dos escaladores, a maioria embarcados na recente
expansão da escalada desportiva. Longe também da minha visão, surgindo, aqui e
ali, apenas nas memórias das belas páginas de vivências. Com o tempo, a cordada
desfez-se. Até que, no ano 2007, agora na companhia da Daniela Teixeira,
resolvemos revisitar o sector. Durante essas visitas, repetimos algumas
daquelas velhas vias, surpreendidos pelo bom estado aparente do equipamento
fixo, constituído por vários pitons e spits, apesar dos anos que nos separavam das
primeiras ascensões. Ainda em 2007 equipei a via “Pânico, horror e dor”, que se
revelou durinha e um bom objectivo de aventura “desportiva” para o futuro, uma
vez que se encontra bastante equipada. Só realizámos uma tentativa de a encadear
e tivemos de nos agarrar a algumas protecções para a ultrapassar e sair por
cima. Até hoje, a “Pânico, horror e dor” permanece sem uma ascensão absoluta em
escalada livre.
No dia 10 de fevereiro de 2008, a Daniela e eu abrimos a
bela “Yellowviper”, que parte desde o meio da parede (partilhando os primeiros
lances com a via “Noite”) e ultrapassa uma semi-fissura que corta na vertical
uma placa compacta e lisa.
Pouco depois, a “Muralha” voltou a afundar-se no
obscurantismo, durante vários anos.
1990. João Simões a escalar o fantástico diedro do terceiro lance da "1313"
1990. Fernando Brito e Paulo Roxo a descansar na famosa plataforma de acampamento, a meio caminho entre a estrada e o Fojo dos Morcegos
Chega o ano de 2013 e surge alguma curiosidade por parte de
alguns escaladores que decidem verificar se a “lenda” que atesta a “Muralha” como
um lugar de rocha aceitável é verdadeira. Entre eles apareceram João Gaspar,
Fernando Pereira e Nuno Pinheiro. A confirmação da parede por parte destes
escaladores inspira inclusivamente a inauguração de duas novas vias, pelas mãos
do Fernando Pereira e do Nuno Pinheiro. Assim, nasceu a “Javali, aperta aqui”,
um único lance que ultrapassa o atraente muro amarelo entre a via “Noite” e a
“Sentinela”. Ainda nesse ano a mesma cordada abriu a “O Elefante de Aníbal”, um
itinerário de três lances que se cruza com algumas das vias históricas da
parede. Durante o processo dessas novas escaladas Fernando e Nuno aproveitaram
para reequipar as reuniões da “Ode Marítima”, que constitui a linha actual de
rapel para aceder a todas as vias.
Em 2008, durante a abertura da "Yellowviper"
Em 2008, durante a abertura da "Yellowviper"
Daniela Teixeira em 2008, durante a abertura da "Yellowviper"
No momento da publicação deste artigo (janeiro de 2025), a magnífica
falésia da “Muralha” permanece um lugar tranquilo e, de certa maneira, esquecida
da generalidade da “população”. Sim, trata-se de uma parede “vintage”,
reservada apenas a amantes da escalada clássica (no melhor sentido da palavra)
e uma bela varanda para o infinito oceano Atlântico. Existindo, talvez, como um
testemunho, hoje em dia cada vez mais raro, da aventura em estado selvagem.
Paulo Roxo
TOPOS
Apresentam-se todas as vias existentes e, para a maioria das vias, os respectivos croquis por ordem numérica mas não tratados, ou seja, na sua forma original.