segunda-feira, janeiro 25, 2021

Ice report - Acto II

 ICE REPORT - SERRA DA ESTRELA

(A primeira report da temporada... desejando não ser a última!)


ACTO II


A parede leste do Cântaro Magro desde o Covão da Ametade.


O frio e a neve transformaram a face leste do Cântaro Magro numa bonita parede branca. O aspecto “Scottish” irresistível encheu-nos de motivação para tentar escalar um velho projecto adiado.

Um longo diedro evidente ergue-se no flanco direito da parede. Trata-se de um alinhamento inevitável de uma estética inegável… pelo menos para nós. Com as condições minimamente reunidas, resolvemos tentar a sorte. Concluímos a aventura após ultrapassar vários lances duros de escalada mista, incluindo uma secção especialmente difícil que obrigou a recorrer à escalada artificial. Porque teimámos em terminar da forma mais tradicional - leia-se: no cume - a ascensão consumiu muito mais tempo que o previsto. Com o avançar das horas resolvemos abandonar através de uma travessia lógica de escape para a direita, indo parar à face norte, buscando o famoso anel do Cântaro. Após vários “zigues e zagues”, optámos finalmente, por seguir pela canaleta da clássica “Y”, na “headwall”, de novo na face leste.


"Colagem" de gelo por cima das plcas de granito, escaláveis e "traccionáveis".


A longa jornada de aventura terminou noite dentro e nesse dia jantámos às 23h!

Baptizámos a nova linha de “Irrepetível” (220m, M6+/A1). Contudo, o escape para a direita, abandonando a parede principal, deixou-nos um tanto ou quanto sabor de boca amargo. Logo que as condições voltem a reunir-se, contamos retornar para repetir a “Irrepetível” e tentar “endireitar” a via, através de uma continuidade mais directa, que não obrigue a abandonar a face leste.


Bem dentro da noite, cansados mas felizes!


Passagens técnicas na "A irrepetível".


Durante as nossas múltiplas passagens de carro pelo Covão da Ametade, inevitavelmente, observámos o evoluir das condições no Cântaro Magro, até que, nos surgiu uma extraordinária visão. Observando com atenção, reparámos numa aparente linha ininterrupta de gelo que se iniciava na base da face leste do Cântaro Magro prolongando-se por muitos metros através do flanco esquerdo da parede. Foi um fantástico momento “Uau!”

Ainda cansados da actividade do dia anterior, resolvemos adiar um dia, perdendo assim a oportunidade de tentar a nova via no momento mais frio da semana. Apesar das previsões apontarem para uma subida de temperaturas e sendo uma parede com orientação leste, significando uma grande exposição ao sol matinal, decidimos subir na mesma. Estávamos convencidos que aquela seria a última hipótese de tentar uma via única e, provavelmente (essa sim), irrepetível.


Uma incrível cascata vertical na face leste do Cântaro Magro. Este foi "apenas" o segundo lance do lençol de gelo que se formou ao longo de seis tiradas de corda... Yuupii!


Literalmente numa corrida contra o sol, fomos escalando uma sucessão de cascatas de gelo de fusão, algumas constituídas por secções tão finas que se tornaram impossíveis de proteger. Por sorte, a dificuldade mantinha-se em níveis baixos e moderados, permitindo uma boa gestão do risco. Com excepção para os pontos de reunião onde utilizámos alguns friends, fomos protegendo sempre com parafusos de gelo. À medida que ganhávamos altura alucinámos com o insólito da própria situação: “Incrível! A face leste do Cântaro em piolet tracção!”


Ali, onde normalmente existe uma placa de granito compacto... piolet tracção!


Ultrapassados seis lances de escalada, alcançámos o final da linha ininterrupta de gelo. A nova via terminou no sítio mais lógico de saída, na base das belas vias de escalada em rocha da face sul, com escape para o célebre “Corredor dos Mercadores”.

Dadas as condições precárias e “no limite” em que encontrámos o gelo, resolvemos baptizar a nova linha de “No Limite Vertical”. O dia seguinte comprovou as nossas suspeitas de que o nome fora adequado. Com o aumentar das temperaturas vários troços da nova via tinham-se despenhado. A parede despia-se do seu casaco de gelo.


Ali, onde normalmente existe uma placa de granito compacto... piolet tracção!


Não satisfeitos com a mega linha de escalada em gelo, ainda atravessámos o “Corredor do Mercadores” para a vertente norte em busca de uma bela cascata que tínhamos divisado dias antes, desde o Covão da Ametade. Um pouco fatigados (mentalmente) da neve horrível que encontrámos para aceder ao novo sector, ainda recuperámos alguma energia para “conquistar” aquela via de gelo com 40 metros, que acabou por formar um par com a “Cascata Mariolas”, escalada por nós em Janeiro de 2017.

Para nós, este fora o sétimo dia de actividade do presente Inverno, portanto, a nova cascata mereceu o nome “Cascata do sétimo dia”.


Gelo com fartura na nova e surpreendente "Cascata do sétimo dia".


No dia seguinte, ainda um pouco entorpecidos pela intensa actividade, decidimos descansar. O “descanso” converteu-se numa nova via de escalada mista inaugurada no sector da “Curva do Cântaro”, na parede que forma o contraforte esquerdo do “Corredor da Ponte”. “É uma via curta e de aspecto ameno.” - afirmei, confiante na observação desde a base. Pouco depois, o bufar constante e o roçar agressivo do metal dos crampons contra o granito, convenceram-nos que aquilo seria tudo menos uma escalada “amena”.

A “Última chouriça” converteu-se numa via incómoda e dura, com uma difícil chaminé e um penoso diedro tombado que teimava em tentar empurrar-me para o precipício, apesar de todo o esforço de contorcionismo para tentar progredir.

O início da temporada ofereceu-nos belos dias de acção e aventura invernal. Resta saber se este é mesmo um “início de temporada”, ou se irá terminar simplesmente como… “A temporada!”

Para já, abateu-se a tempestade dramática do Covid e de um novo confinamento. Essa tempestade coincide com a chegada de vários dias de mau tempo e subida das temperaturas. Tempo de permanecer em casa.

Olhamos para as nuvens com olhos de esperança, alimentando o desejo de que os dias de neve e frio retornem brevemente, empurrados pelos ventos de norte…


Paulo Roxo


Os topos







sábado, janeiro 23, 2021

Ice report - Acto I

 ICE REPORT - SERRA DA ESTRELA

(A primeira report da temporada... desejando não ser a última!)


ACTO I


O "cabeçote" do Cântaro Magro - face leste. A Lua espreita indecisa... Vou? Fico?



O último mês (pré-confinamento), foi profícuo em actividades invernais.

As excelentes condições do gelo, que permaneceram durante vários dias seguidos, surgiram como uma janela de oportunidade para a realização de uma série de actividades "glaciares”, entre elas, algumas aberturas (ver "Acto II").

As boas condições gerais reinantes permitiram-nos (a mim e à Daniela Teixeira) escalar uma bela série de cascatas de gelo. Algo que nunca aconteceu na passada temporada, durante a qual, os piolets e crampons nem chegaram a ver a luz do dia.

A fome era muita e, com os ventos gelados do Inverno a empurrar as frias fragâncias do gelo acabadinho de cozinhar, lá nos metemos serra acima, em busca das primeiras pioladas da temporada.


Últimos metros da "Cavalo de gelo".


Ao nível das cascatas, escalámos clássicas habituais como a “Cascata das Couves”, “Diedro de Cristal”, “Dama oculta”, “Cavalo de gelo” e a “Cascata da Curva do Cântaro”. Mais tarde, também nos passou pelas mãos - melhor dizendo, pelos piolets - vias de formação mais rara como a “D.M.M.” (sector “Estrela nocturna”), a “Adrenalina” (sector “Curva do Cântaro”) e as de rara formação, “Burrinho de gelo” e “Via do Furgalho” (sector do “Inferno”).


A bela e rara "Burrinho de gelo".


Com o decorrer dos dias, já no final desta primeira fornada de gelo (esperemos que não seja a última deste Inverno), realizámos dois bonitos encadeamentos de escalada em gelo. Um deles começou com a ascensão da cascata “Jean”, no sector “Lafaille”, continuou por uma outra cascata mais pequena e mais fácil que nomeámos “Ligação”, terminando com a ascensão do “Corredor do Cavalo” que, nesta temporada, apresentou uma bela cascata com cerca de 20 metros, logo na sua entrada. Um raro presente que aceitámos de bom grado.




O segundo encadeamento de vias geladas concluiu com o alinhamento da “Tragédia feliz”, com a “Parece, mas não é!”, terminando ainda com uma bonita variante de escalada mista, com cerca de 20 metros, que apelidámos (recorrendo ao nosso melhor humor brejeiro e roubando a autoria a um amigo) de “Tufo deste há pouco!”


A Daniela na "Tragédia feliz".


A terminar a espirítuosa variante "Tufo deste há pouco!"


A Daniela a meio da bonita cascata "Parece, mas não é!"




Também tivemos a oportunidade de repetir algumas vias mistas na emblemática face oeste do Cântaro Magro, como os primeiros lances da exigente “Sem hesitar”. No entanto, o ex-libris da semana foi sem dúvida a escalada integral da espectacular “Pepi te quiero”, uma clássica de 1998, incontornável, que se apresentou mais difícil que noutras temporadas.


A iniciar o último lance da espectacular via mista "Pepi te quiero".


"Pepi te quiero". Primeiro lance.


"Pepi te quiero"


Este início de Inverno permitiu-nos também realizar algumas primeiras ascensões.

Logo nos primeiros arrufos, no dia 6 de Dezembro, aproveitando um corte prematuro das estradas, dirigimo-nos a pé (pela estrada) até ao sector do “Túnel”, para acrescentar uma nova linha que nos saiu bem mais dura que o desejado, pois a intenção era iniciar a temporada com um prosaico: “Vamos só ali, escalar uma mista fácil!” O “fácil”, rapidamente se tornou “muito difícil” e o resultado foi a “Pica-ponto” (135m, M6+).


"Uff!, Arghh!, Isto afinal é duro!" Na "Pica-ponto"




O Inverno voltou a retirar-se e ainda de espírito inquieto pelo receio de uma repetição de uma temporada miserável, eis que se avizinhou uma esperançosa vaga de frio. Esta acabou por provar ser longa o suficiente para justificar a “report” que agora partilho...


Paulo Roxo


To be continued no Acto II...

...com novas vias e croquis!


segunda-feira, novembro 23, 2020

Solo

SOLO 


Vignemale, há 19 anos...


Há pouco tempo, ao vasculhar os meus canhandros - aquele caos de memórias de aventuras esquecidas - , descobri umas pequenas folhas amassadas, já meio descoloridas, mas de aspecto familiar. Tratava-se do único testemunho escrito que relata, de uma forma demasiado sucinta, aquela que considero como uma das minhas mais inspiradas escaladas: a ascensão em solo integral e à vista do corredor Arlaud-Soriac (700m, MD+), no maciço do mítico Vignemale, nos Pirinéus.

Não foi num passado demasiado distante, mas também não foi ontem!


As fotos que acompanham o texto são cópias de slides, obtidos em 2001.

 

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No Inverno de 2001, vivia naquele limbo existencial, entre as montanhas e uma Fiat Ducato - uma velharia com uns 20 anos - transformada em casa ambulante, que me servira de abrigo durante 18 meses de deambulações alpinas.

No mês de Abril, após uma aventura invernal no Vignemale, o meu companheiro, Nuno Soares (Larau), teve de retornar aos seus compromissos profissionais. No entanto, durante as horas da caminhada de regresso, enquanto apreciava as montanhas em redor, uma ideia germinava na minha cabeça.

O Larau abandonou o estacionamento e eu fiquei para ali, sozinho, a matutar…

“E se…?”

Por via das dúvidas, não fosse realmente decidir-me a concretizar o plano, preparei o equipamento. Comi qualquer coisa e, devia pensar em dormir um bocado, afinal, tinha acabado de descer do refúgio nem fazia uma hora.

Deitei-me e… não dormi!


O magnífico Vignemale!



Às 2h30 da madrugada, abandonei a carrinha no estacionamento de Pont d`Espagne e, mochila ligeira, mente focada, pus-me a caminho, refazendo o trilho nevado pelo qual havia passado poucas horas antes.

Tardei pouco mais de duas horas a chegar ao refúgio. Eram as 4h45 e, reinava o silêncio. O refúgio estava ocupado por mais alpinistas que dormiam nas camaratas. Muito em breve iriam começar a emergir dos casulos quentinhos dos sacos-cama e cobertores, para a dor momentânea da madrugada fria e negra. A maioria iria escalar o famoso Corredor de Gaube. Outros, iriam para outras vias, quiçá, para a “minha” via, a Arlaud-Soriac e, isso, constituía um problema para mim. Não queria ter ninguém por cima a lançar-me detritos de gelo mas, sobretudo, não queria que soubessem do meu plano, antes de o concretizar. Não queria que me fizessem perguntas sobre o que tencionava tentar. Planeava uma escalada em solo e, não me apetecia ser influenciado negativamente por nada, por opiniões, nem sequer por informações acerca do estado da via.

O Vignemale não é uma estranha para mim. Em 1992, conheci-a da forma mais profunda e visceral que alguém pode conhecer uma montanha. Na verdade, da forma mais dolorosa. Uma queda de 15 metros na última cascata do Corredor de Gaube, resultou nas duas pernas partidas e num longo processo de recuperação física. A reabilitação mental foi a mais penosa. No entanto, para me ajudar a superar os traumas, possuía a melhor arma secreta que alguém poderá ter jamais: a juventude! Com 22 anos, qualquer muralha, por mais alta que possa parecer, rapidamente se transforma numa pequena barreira, ultrapassável com algum treino. Porém, aquele acidente delapidou para sempre a certeza da imortalidade, tão comum, quando se é novo. Cresci!


O amigo "Toño", de Riglos, a escalar a última cascata do Corredor de Gaube. Nesta actividade, (2001), tentámos o Corredor Y, à esquerda do Gaube mas, as más condições daquela via, levaram-nos a realizar mais uma repetição do Corredor de Gaube. A fotografia mostra o local do meu acidente, em 1992.
Hoje em dia, devido à recessão do glaciar, na face sul, esta cascata quase não se forma. Era o glaciar que, "escorrendo" para norte, alimentava o gelo do Corredor de Gaube.



Depois do acidente, retornei algumas vezes ao Vignemale. A minha primeira ascensão (efectiva) ao Corredor de Gaube, resultou num processo “espanta-fantasmas”. Vários medos ressurgiram, durante a escalada daquela fatídica cascata final, vertical e com 40 metros. As assombrações do passado reapareciam a cada estocada de piolet. No entanto, o passar do tempo, a experiência acumulada e a familiaridade ao terreno de alta montanha, minorou de forma significativa as mazelas psicológicas do acidente, deixando algumas físicas, com as quais ainda convivo diariamente.

Voltei ao Vignemale para tentar outras vias e escalei o Corredor de Gaube mais três vezes, com diferentes companheiros, incluindo clientes. Os fantasmas do passado tinham-se evaporado definitivamente.


Uma secção fácil do Corredor de Gaube, onde não utilizámos a corda.



No interior da sala do refúgio, a luz tépida da chama do pequeno fogão amenizava a escuridão. Só e em silêncio aquecia um chá, antes de enfrentar de novo a fria madrugada.

Às 6h15, saí do refúgio. O fogão e o pouco equipamento supérfluo tinham ficado dentro de um dos cacifos. Também a mochila ficou para trás.

Os meus entusiasmos são muitas vezes alimentados por pequenos detalhes. Detalhes aparentemente insignificantes que funcionam como catalisadores. Uma ideia, uma peça de equipamento por estrear, uma determinada morfologia rochosa, um pensamento. Naquela noite, o pormenor que mantinha acesa a chama que impulsionava o espírito era uma frase que tinha lido num artigo sobre alpinismo, uma espécie de mantra, que o meu subconsciente repetia uma e outra vez: “Se tu pensas que PODES necessitar de alguma peça de equipamento, não a leves! Leva aquilo que EFECTIVAMENTE vais utilizar!”. Tinha decidido não levar sequer mochila, ou seja, seguindo o mantra, seria uma escalada levada a cabo da forma mais ligeira que me podia ocorrer… extremamente, radicalmente, ligeira! Posteriormente, apontei a lista de equipamento na pequena nota amassada:

“- Arnés

- 1 parafuso de gelo

- ½ litro de água numa garrafa preparada para suspensão ao arnês

- Frontal

- (Obviamente!) Piolets e Crampons (mono-ponta)”

Escrevinhei ainda:

“Ah!... Como não transportei mochila levei também uma pequena bolsa de cintura com:

- Algumas bolachas (Maria)

- Uma barra de Isostar (que não comi – não suporto!)

- Algumas pastilhas Isostar energéticas (isso sim, vale a pena!)

- E… caramelos (a minha fraqueza em guloseimas)”


O corredor de Gaube em 2001. O círculo marca dois alpinistas já acima da rimaya da entrada.



A neve recém-gelada quebrava debaixo dos crampons a cada passada, produzindo um ruído característico, o “crunch-crunch” ritmado e monótono, reconhecido por qualquer alpinista. Um céu impossivelmente estrelado iluminava a noite tranquila, congelada, como a própria temperatura.

Curiosamente, não me recordo de qualquer pensamento negativo. Nada! Caminhava em direcção a uma goullote de gelo com quase 700 metros que nunca tinha escalado, da qual não possuía qualquer informação e para a qual não levava sequer corda, ou qualquer equipamento de relevância, por forma a prevenir algum… incidente… no entanto, estranhamente, interiormente, sentia-me calmo, sereno, equilibrado. Todas a variáveis, equações, dúvidas ou medos, tinham-se diluído no exacto momento em que a decisão fora tomada. Ainda não o sabia, mas a decisão fora tomada ainda no estacionamento, logo a seguir ao abraço de adeus ao Larau, talvez até horas antes, enquanto descíamos do refúgio. O mesmo refúgio do qual partia agora, para cima, para a montanha. Todos os vectores convergiam numa só direcção: a certeza que tudo iria correr de feição.

Tardei pouco mais de uma hora em alcançar a base da Arlaud-Soriac. A claridade do amanhecer revelava um céu glorioso, pálido ainda, a caminho do azul intenso.


O Corredor Arlaud-Soriac está marcado pela linha vermelha. A seta marca o Corredor de Gaube, o mais famoso e repetido do Vignemale. O Corredor Y é o braço evidente que parte do Gaube para a esquerda.



De piolets em punho observo o cavalo que pretendo domar. As condições da via parecem-me perfeitas. “Vamos a isso!” – digo em voz alta.

A primeira parte do corredor com 60 graus de inclinação foi fácil e serviu como um aquecimento de motores. Pouco depois, surgiu a primeira cascata de gelo. Escalei-a num ápice. Sentia-me seguro e confiante… invencível.

A cascata seguinte mostrou-me os dentes. Uma pequena prancha de rocha vertical, quebrava a continuidade do gelo. Um ressalto inesperado. Observação, análise, decisão! Ainda no troço de gelo anterior, estiro o braço esquerdo o mais que posso, tentando que o piolet alcançasse o troço de gelo seguinte, evitando o passo impossível de rocha. Uma estocada… nada! Segunda estocada… nada! Terceira estocada… o piolet parece aguentar. “Parece aguentar” não é suficiente. O piolet TEM de aguentar! Quarta estocada… Quinta. O piolet vibra. Ok! O passo toma uma direcção ligeiramente em diagonal para a esquerda. Confiando que o piolet está solidamente cravado no gelo, coloco o piolet direito no ombro, levo a mão livre ao piolet cravado (durante alguns segundos agarro-me com as duas mãos à mesma ferramenta, a única que me agarra à cascata e… à vida), deixo balançar um pouco o corpo ao mesmo tempo que engancho a ponta do crampon esquerdo numa exígua saliência rochosa. Ergo o pé direito e desfiro um só golpe certeiro de crampon, procurando o eixo de equilíbrio. Volto a agarrar o piolet suspenso no ombro, desta vez com a mão esquerda. A troca de mãos no mesmo piolet permite-me tentar cravar ainda mais à esquerda, onde o gelo parece mais “saudável”. De novo, procedo ao ritual das estocadas até atingir o resultado ideal. Após três golpes o piolet vibra. Ok! Desta vez tenho de me erguer no crampon esquerdo que se aguenta precariamente na pequena saliência de rocha. Com cuidado, procuro o novo ponto de equilíbrio, desencravo o piolet direito, realizo um arco por cima do ombro e, num só golpe, cravo-o mais acima. Yes! – grito. Passo resolvido. Rapidamente escalo os metros seguintes com bom gelo. Naquele momento, soube que nunca iria poder destrepar aquela passagem. Pouco importava. A opção não me passava sequer pelo cérebro.


Uma das notas que escrevinhei, após a escalada da via. Uma miserável folha de papel, dobrada em quatro, é o único "documento" que possuo que testemunha a minha ascensão.



Um novo muro vertical apresentava o próximo desafio. Felizmente, o gelo encontrava-se em perfeitas condições e com quantidade suficiente para progredir sem sobressaltos. Acerca desse troço escrevi uma nota: “Gelo vertical (90 ͦ) em cerca de 6 metros, com ´ancragens` a ´explorar`.”

Alguns metros depois, a cascata reduziu um pouco a sua inclinação ao mesmo tempo que apertava a chaminé. Se pudesse soltar as mãos e abrir os braços conseguiria tocar em ambas paredes da garganta. Encontrava-me, literalmente, nas entranhas da montanha. Agora escalava com mais soltura, o terreno assim o permitia.

No final do corredor mais estreito, a uns 400 metros da base, deparei-me com um obstáculo. Um golpe psicológico! “E agora?” Analiso a situação. À minha esquerda erguia-se uma parede de rocha vertical, impossível de ultrapassar (mesmo com corda). À minha direita, uma estreita “escorrência” de gelo “trepava” até ao topo de um pequeno promontório que parecia terminar também em rocha. Ali, ocorreu o único momento de dúvida da ascensão. “E agora?” – repeti. Na verdade, não tinha alternativa senão optar pela “micro-goullote” da direita. Cravei o piolet. O gelo era de qualidade, escasso, mas de qualidade. Como não havia hipótese de colocar os pés lado a lado, tive de ir subindo um pé por cima do outro, cravando os crampons com bastante cuidado. Um escorregão estava fora de questão. Um pensamento ocupava-me o cérebro durante aqueles passos de escalada: “E se isto terminar efectivamente em rocha vertical?”


A "lista" de material que transportei. O parafuso de gelo servia apenas para me auto-segurar em caso de perigo extremo. Nunca o utilizei!



Atingi o topo do promontório e… à minha direita ali estavam, os duzentos metros restantes do corredor, não em gelo mas, em neve dura, de muito mais fácil progressão. Para alcançar o Nirvana tinha apenas que destrepar para o lado oposto da pequena aresta onde me empoleirava, evitando assim a parede de rocha e, alcançando o corredor. À medida que subia, fabricando uma escadaria de degraus pouco profundos na neve transformada, um misto de sensações debatia-se no meu cérebro. Misto de alívio e regozijo. Felicidade pura? Talvez isso.

O ponto focal, bem apertado na concentração máxima, podia agora alargar o seu horizonte. A "Zona", aquele estado cerebral difícil de alcançar e que nos permite realizar coisas perigosas ou difíceis, sem que o ritmo cardíaco se altere, desaparecia, como que diluído por um qualquer mecanismo misterioso. Podia agora ceder ao luxo de me distrair com outros pormenores, outros pensamentos.


O rabisco do croquis que fiz após a escalada do Corredor Arlaud-Soriac, onde apontei as condições encontradas. Esta e as notas anteriores (fotos anteriores), são os únicos escritos que documentam aquela ascensão. Como não transportei qualquer camera (peso a mais!), as fotografias não existem!



O vento frio recebeu-me na aresta, entre o Petit Vignemale e a Punta Chausenque. Detrás, encontrava-se o cume do monarca, o Vignemale com 3298m. Observei a vertente sul do maciço, mais suave e amistosa, iluminada por um Sol intenso de alta montanha. O relógio marcava as 9h30. A minha aventura a solo tinha demorado duas horas. Não escondia a sensação de orgulho. Celebrei sozinho aquela realização pessoal.

Sentei-me e olhei para trás. O vale profundo, branco de neve, estendia-se até aos bosques verdejantes, muitos metros mais abaixo. O refúgio Des Oulettes surgia na paisagem como um pequeno ponto colorido. Era para ali que devia descer. Pensava que iria encontrar outros alpinistas. Desta vez já podiam perguntar-me o que tinha escalado. Aquele pensamento suscitou um certo sentimento precoce de vaidade. 

Descendo pela via normal, desta vez em ritmo de passeio, parei a poucos metros do refúgio. Voltei a cabeça para encarar a imponente face norte do Vignemale, com os seus emblemáticos corredores de gelo. Um penacho de neve em pó surgiu da aresta de cume, projectado pelo vento. A montanha apresentava-se bela e impassível, indiferente a todos os sucessos, fracassos ou tragédias, acontecidos durante a breve história das “conquistas” humanas. Afinal, correspondiam apenas a meras fracções de segundo da sua vida geológica milenar.  

A minha escalada era alheia à montanha…

Assim como tem de ser…


Paulo Roxo




domingo, novembro 08, 2020

Fecunda indecisão

FECUNDA INDECISÃO


Mundo de tranquilidade.


Ainda não via as nuvens num céu indeciso quando acordei pelas 5 da manhã.

- Paulo, estás a dormir?

- Não. Que horas são?

- Ainda não tocou o despertador, pouco passa das 5!... mas já não consigo dormir!

- Então vamos levantar!

Cerca de uma hora antes do previsto, quem sabe pela falta que a rocha já nos fazia nos dedos - porque a chuva tem abundado - pulámos do aconchego dos lençóis para as fardas de escalada.

Pouco depois, já a nossa Berlingota acelerava rumo a norte, direcção? "Terra Prometida".

Tínhamos em vista uma via, mas a aproximação por um lado diferente das paredes encheu-nos as medidas… e os olhares esbugalhados e sonhadores fixaram-se num estético pilar com um bico. Um estético bico cortado a meio por uma fissura ainda mais estética.

Começou assim mais um rol de frases indecisas:

- Xiiii, olha ali! Já tinhas reparado naquele bico? Espectacular! E os diedros? Esta deve dar quê… uns 3 largos?

- Iá! Por aí.

- Está mais perto do que a outra via. Pode ser mais rápida! Será de ir lá?

- Hummm, será que o primeiro diedro tem fenda? É tudo muito vertical!

É assim que geralmente se instalam as dúvidas e os dias ganham contornos diferentes… muitas vezes, terminam sem via!

Dúvidas, dúvidas, muitos metros de dúvidas…

- Danielocas, se calhar é melhor seguirmos o plano original.

- OK!


Aqui já não havia indecisão. Era para cima!


E assim continuámos a aproximação à via previamente escolhida para aquele dia.

Mas as surpresas teimavam em não terminar. Já bem perto da parede, uma cerca de arame farpado impedia-nos de chegar à tão almejada parede e os minutos não deixavam de passar e o dia tornava-se a cada dúvida mais curto.

Entre trepar até uma árvore que poderia dar acesso à parede escolhida (ou não!) ou… ou… ou olhar para o lado e ver outra via num esporão que estava mesmo à mão de se escalar, ou ou… ou ir para o pilar do bico, decidimos pelo que nos parecia oferecer um dia de escalada… mais garantido, neste caso, mais fácil, em jeito de reconhecimento a um novo sector… e aos pés de gato por estrear que a mochila escondia – tenho medo da combinação pés de gato por estrear com via grande e nova!

Na base de um pilar com ar de não ser o mais interessante do sector, esvaziámos a mochila, protegemos as mãos com as mais que úteis luvas para fissuras e acomodámos no bandulho umas sandochas bem abonadas. Vendo bem as coisas, já era quase hora de almoço!

Por volta do meio-dia, demos início ao bailado na parede. O primeiro largo foi amável, próprio para quem já não tocava naquele quartzito há muitos meses e para quem já não fruía em aventuras verticais há umas semanas.

- Sinto-me perro! Estou todo atrapalhado e isto é uma cagada!

Sentimo-nos os dois perros durante cerca de 30m.

Para o aspecto inicial, pelo qual não daria boa nota à estética daquela via, a coisa até não saiu feiosa.

Já na primeira reunião, a coisa mudou de figura, a fissura vertical desenhada na parede já aumentava a nota atribuída à estética da via.


Após um pequeno tecto, o crux!


- Reuniããããoooo!

- Não precisas medir! Trinta meeeeetros! – gritei de uma cómoda plataforma.

30 magníficos metros, não me senti burlada pelo que o olhar abarcou da agradável primeira reunião.

Da segunda reunião, dois pares de olhos esbugalhados pousaram em mais uma “daquelas” fissuras… mais um largo com qualidade bem superior ao que esperava quando calcei os pés de gato na base da via.

 - Reuniããããoooo!

- Não precisas medir! Mais trinta meeeeetros! – gritei de outra cómoda plataforma.

A escalada regalou-nos com verticalidade, fissuras estéticas, boas presas, tudo o que povoa o imaginário de um par de escaladores ávidos por um dia bem preenchido.

- Reuniããããoooo!

- Não precisas medir! Mais trinta meeeeetros! – berrei novamente – Agora só faltava o último largo também ter… 30 metros!

Na última reunião debatíamos por onde seguir: pelo estético diedro ou arriscar pela placa vertical, esperando que por baixo da capa de musgo surgissem boas presas e fissuras nos sítios certos para proteger?

A placa não era clara e decidimos…pela placa!


O último lance mais fácil mas, de desfrute.


- Reuniããããoooo! Termina aquiiiiiiiii!

- 30 meeeetros! – gritei ainda com um largo sorriso estampado nos lábios, na cara, no corpo todo!

Contrariamente ao que tantas vezes acontece, a escolha pela placa revelou-se acertada. Por entre o musgo que nunca foi em demasia (bem nos enganou!), surgiam sequências de presas e apoios para os gatos, sempre em abundancia e nos sítios certos.

Eram as cinco da tarde quando nos encontrámos no topo da parede. A via que me tinha parecido “pouco estética”, na verdade meio “mastronça” vista de baixo, revelou-se muito, mas muuuuuuiiiito mais bonita do que a impressão que o meu primeiro olhar transmitiu ao meu encéfalo.


A sempre-clássica "foto-cume".


Pouco mais de meia hora demorámos a chegar novamente à Berlingota e poucos minutos depois, a noite tornou-se tão escura como quando acordei.

A pergunta “do costume” já tinha sido respondida no topo da parede: “E nome para a via?”


Daniela Teixeira


Os Topos





quarta-feira, outubro 21, 2020

Zé do Desterro

ZÉ DO DESTERRO


A Daniela Teixeira na "Variante dos enganados". Uma via variante mais dificil da "Zé do Desterro".



Há mais de 100 anos, não se concebia uma “visita” à Serra da Estrela sem a contratação de um guia de montanha (por vezes mais do que um). Geralmente, esses guias, eram pastores ou caçadores, conhecedores profundos de um território selvagem e desconhecido. Os seus “clientes” provinham quase sempre de um extrato social elevado, erudito e privilegiado. Muitos eram médicos, políticos ou pessoas de grande influência. Na verdade, naqueles tempos, só as pessoas abastadas possuíam a disponibilidade financeira (e tempo) para investir em “proezas” de logística morosa e complicada, como uma travessia na Serra da Estrela. No entanto, apesar de fazerem parte de uma certa burguesia, não deixavam de possuir um forte espírito de aventura e sacrifício, aceitando, sempre que necessário, as agruras de uma tempestade ou de um bivaque debaixo de um qualquer bloco de granito, como um qualquer pastor serrano.

Estas “expedições” envolviam sempre a contratação de cozinheiros, ajudantes, aluguer de cavalos e de equipamento para acampar. Inevitavelmente, a contratação de guias fazia sempre parte do orçamento imprescindível.


"Exploradores" de 1912. Foto retirada do livro "Aos Montes Hermínios" de Duarte Rodrigues.


Um desses guias foi José Paschoa (nome original), mais conhecido como “Zé do Desterro”.

Zé do Desterro foi um dos primeiros empregados da central de electricidade, inaugurada em Dezembro de 1909, na Sra do Desterro (São Romão) e daí proveio a sua alcunha. Zé do Desterro dividia o seu tempo como fiscal na “Fábrica Eléctrica” (como era referida a central nos primeiros anos do séc. XX) e em explorações de caça (mas, também lúdicas) no território bravio da Serra da Estrela, calcorreando a pé muitos quilómetros, durante as quatro estações do ano, incluindo a das neves.


O guia José Paschoa. Esta será quiçá, a única foto conhecida de Zé do Desterro.


Foi um dos guias de montanha contratados pelo célebre Dr. Sousa Martins, Emygdio Navarro e Carlos Tavares, durante a sua travessia na Serra da Estrela em 1883, celebrizada no livro “Quatro dias na Serra da Estrella”.

Zé do Desterro constituiu também, muito provavelmente, o corpo de guias contratados para a famosa Expedição Científica à Serra da Estrela de 1881.


Dr. Sousa Martins, Emygdio Navarro e Carlos Tavares, aquando da sua travessia da Serra da Estrela em 1883.


Existem também algumas referências a José Paschoa no pequeno livro de nome sugestivo: “Impressões de uma excursão, Serra da Estrella (Subsidios para o desenvolvimento do alpinismo)”. Esta foi uma actividade liderada por Evaristo Faure em Agosto de 1911, que contou com a presença de Zé do Desterro, como guia oficial da “expedição”. 

Os guias da Serra da Estrela existiram há muitas décadas e fizeram parte de um legado histórico, de certa forma, perdido no tempo. Eram pessoas que serviam como apoio imprescindível a todos quantos desejassem conhecer a serra de uma forma mais profunda e aventureira. A simbiose entre o guia montanheiro e o cliente erudito forjou o espírito precursor do montanhismo actual, contemporâneo da realidade vivida em outras montanhas europeias, onde o Alpinismo respirava a sua época de ouro.


Capa do livro "Aos Montes Hermínios" de 1912. Obra pioneira que celebra o "Alpinismo" na Serra da Estrela.


 ZÉ DO DESTERRO (245m, V/V+)


Em técnica de escalada em solitário, aquando da "rectificação" e finalização da via "Zé do Desterro".


A via de escalada aqui apresentada é mais uma singela homenagem a estes guias de montanha que, em tempos idos, cruzaram a Serra da Estrela, na companhia dos seus clientes “da cidade” de espírito aventureiro, encantados com as terras altas de granito e neves sazonais.

É uma via relativamente longa e de dificuldade “moderada”.

Sob o ponto de vista da escalada pura, esta pode decepcionar um pouco quem procura a verticalidade e a continuidade, no entanto, a via apresentada pode constituir uma escalada adequada para os iniciantes nas técnicas de escalada tradicional, dita “clássica” ou, para quem deseje passar umas horas bem-dispostas de aventura amena, em equilíbrio com a natureza.

 

Durante a abertura da "Variante dos enganados". Variante mais dificil da "Zé do Desterro".


COMBINADO DOS GUIAS

 

Os escaladores mais famintos podem combinar a “Zé do Desterro” com a via “Guia Lau” (http://rppd.blogspot.com/2020/09/guia-lau.html), no mesmo sector e de características semelhantes. Para esta proposta sugere-se a seguinte estratégia:

- Escalar a “Guia Lau”, deixando as mochilas ou excedente na plataforma da segunda reunião.

- Descer em rapel pela própria via até à plataforma da segunda reunião. Atravessar as plataformas até alcançar a base da “Zé do Desterro”.

- Escalar a “Zé do Desterro” até ao cimo, saindo pela estrada.


O Guia Lau em 1934. 


Realizar o encadeamento baptizado como “Combinado dos Guias” pode traduzir-se numa boa proposta para um dia de aventura “alpina” e, ao mesmo tempo, constituir uma excelente homenagem às personagens que ajudaram a enobrecer a história do montanhismo e da escalada na Serra da Estrela e no nosso país.

 

Paulo Roxo


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