segunda-feira, novembro 03, 2008

EDELWEISS



Nos meus princípios na escalada, a palavra “Meadinha” suscitava imagens tenebrosas de longas distâncias entre pitons, chaminés horríveis impossíveis de proteger e placas infinitas em tamanho e exposição.

Há uns vinte anos a Meadinha era ainda uma parede remota, encaixada num vale perdido da Peneda, apenas acessível por um velho estradão de terra que conduzia a uma pequena aldeia nascida em redor de um magnifico templo de granito, destinado a adorar um qualquer Deus, desde tempos imemoriais.



Era uma parede envolta por uma aura de mistério impenetrável. A mera invocação do seu nome produzia suores frios e das palmas das mãos brotavam imediatamente goticulas de húmidade.

O “Escalador da Meadinha” entrava para um panteão de heróis venerados, detentores dos maiores pares de tomates da época.

Os mestres da Meadinha eram os Galegos.

Os irmãos Novás, José Carlos Iglesias (guia de montanha, ex-monitor da escola de Benasque) entre outros, abriram vias nesta parede, seguindo um estilo muito puro, ainda hoje impressionante.

Calçando os “transatlânticos” disponíveis no mercado nos anos 80, estes tipos escalavam com mestria as temíveis placas entre fissuras, colocando muito raramente algum que outro buril à mão (as máquinas não existiam!), equilibrados em precários cristais.

Do lado de cá da fronteira surge um nome incontornável da escalada nortenha: o Pedro Pacheco. Este especialista no granito e membro da velha guarda numa altura em que –e cito- “o sexo era seguro e a escalada perigosa”, abriu algumas linhas na Meadinha, adoptando o mesmo grau de compromisso que os colegas espanhóis.

Infelizmente, a “Outsiders”, uma das suas obras, foi hoje em dia conspurcada com algumas inúteis plaquetes... mas, já lá vamos ao assunto dos equipamentos actuais.



Daniela na via "Meadinha".


A característica mais particular da Meadinha talvez sejam os cristais que afloram do granito. Estes pedacinhos de mineral reluzente, variam de formas e tamanhos e aqui, mais que em qualquer outro ponto do país, possibilitam a realização destas incriveis vias ou, por outro lado, á constatação perturbante de que, em caso de queda, é muito possível que sejamos premiados com um esfoliante... de corpo inteiro.

Quando finalmente amadureci o suficiente as minhas experiências no mundo vertical, resolvi aventurar-me na parede das paredes.


Daniela no artifo de saída da via "Medinha"


Vêem-me à memória os redundantes fracassos iniciais. Primeiros lances de perna a tremer, à beira de uma morte certa e dolorosa.

Após sobreviver sem saber como, aos épicos auto-infligidos, nos quarto-graus mais duros do mundo, recordo-me descer de uma qualquer reunião manhosa, a jurar nunca mais voltar.

Convêm referir que foi esta a parede que –há bastantes anos e, após muitas horas sobre placas atemorizantes- fez o Paulo Gorjão fugir a sete pés deste lugar e, desistir pura e simplesmente de escalar. Felizmente, as reconfortantes falésias aquecidas pelo sol do Atlântico, reduziram-lhe o nível de trauma e, passado algum tempo, voltou a calçar as suas “EB`s”.


"Larau" na "Come-cocos"


Uma das historias (quase lenda) mais caricatas que me vem à cabeça é a de um ilustre conhecido da nossa “família” ter ido escalar a via “Come-cocos” com outros dois companheiros (também ilustres viventes escaladores) e, após ter chegado à primeira reunião, agarrar-se a um piton, debruçar-se sobre o abismo e... despencar de cabeça para baixo, desamparado para o precipício, ainda a gritar: “REUNIÃÃÃÃOOO!!...”

Conta a historia que o pobre saiu ileso, salvo as múltiplas escoriações e a despesa no guarda-roupa.

Não posso jurar que a historia anterior se tenha passado exactamente da forma descrita mas, pelo menos foi assim que ma contaram. No entanto, a veracidade total e exacta pouco importa. O que de facto interessa é que estas eram historias de uma altura em que a Meadinha era considerada um local de culto, não só para os peregrinos que acorriam ao santuário em busca da salvação do espirito, como para os escaladores que, em paralelo, buscavam o seu momento Zen.


"Larau na "Come-cocos"


Eu, no primeiro lance da via "Meadinha"


Relativamente ignorada pelos Portugueses, esquecida pelos Espanhóis eis que de repente (nos últimos três ou quatro anos) uma nova vaga invadiu a Meadinha. Novas vias foram abertas e as antigas super-clássicas reequipadas e limpas por entusiastas de Vigo.


Daniela na "Come-cocos"


Embora o seu trabalho titânico seja memorável, não deixa de haver algum exagero. Os maus exemplos embora reduzidos, são um bocado assinaláveis, como o incompreensível equipamento de algumas fissuras clássicas, as excessivas escovadas e os aberrantes picados com os nomes das vias gravados no granito, na base das mesmas.



Picados!!!!


Os aspectos positivos passam pelo levantamento de todas as vias existentes, a divulgação dos topos e a consequente facilidade actual de acesso a todos os que desejem desfrutar deste lugar único.

A publicação dos croquis revelou as vias existentes e também... o terreno ainda por explorar.

Sempre tive o fetiche de abrir uma via de escalada na Meadinha. No entanto, a falta de informação anterior desmotivava uma visita para o efeito. Depois, com a “nova vaga” começaram a surgir plaquetes por todos os recantos da parede. De tal forma que dava a impressão que as vias se empacotavam.

Desistimos da ideia de abrir algo novo.


Daniela numa das melhores fissuras da Meadinha. A "Tia Mucha"


A fotografia publicada na net, com as linha marcadas, revelaram um estético esporão onde, aparentemente não existia qualquer itinerário.

A luzinha exploradora reacendeu-se!

A perspectiva de abrir uma via independente e lógica, sem cruzar com nenhuma outra, na emblemática Meadinha era demasiado apelativa.

A Daniela e eu resolvemos tentar a nossa sorte e, munidos de uma máquina para acelerar o processo (batota!), escovas, friends e entalecos, lançámo-nos à empreitada.

Desde baixo, abrimos a “Edelweiss”, colocando um mínimo, muito mínimo de plaquetes.


Primeiro lance de fissura da "Edelweiss"

Ainda no primeiro lance


Trata-se de uma via de quatro lances, com um grau mediano, uma placa “à la Peneda” equipada (três pernes) por realizar em livre e um certo grau de exposição e compromisso. As reuniões encontram-se equipadas para o rapel (terceira reunião com um perno –pode-se complementar com um troço de cordeleta num grande arbusto à esquerda).


Inicio do segundo lance da "Edelweiss". Só precisa de uma escovadita!


Na saída do segundo largo. Chaminé fácil

Protecção "à bomba!"... num cristal!

Placa de saída do terceiro largo da "Edelweiss"


Quem desejar repetir esta via e quiser sair por cima pode evitar o ultimo lance (últimos metros florestais!), enlaçar com a via “Aplaudeme nena” a partir da terceira reunião e colocar-se no topo da magnifica Meadinha.

A Edelweiss pode não ser a via mais chamativa da parede. Até porque lhe falta uma valente limpeza de musgo (apesar de ser perfeitamente realizável tal como está). No entanto, trata-se de mais uma adição óbvia ao conjunto de vias.







Na Meadinha as escaladas mais lógicas há muito foram abertas. A “Escaleras al cielo”, “Come-cocos”, via “S”, “Autopista”, “Outsiders”, entre outros, são verdadeiros ex-libris intuitivos. Excelentes representantes de inquestionável qualidade, na nossa terra e... em qualquer ponto do universo!


Aurora boreal na Peneda!


Paulo Roxo


segunda-feira, outubro 27, 2008

Nova via na Meadinha!

Em breve a historia e o croquis.

quarta-feira, outubro 08, 2008

Um Sábado diferente


Enquanto uns tentavam escalar (sim, porque pelo que ouvimos dizer as falésias encheram-se de escaladorAs), outros enchiam os olhos com material novinho em folha que breve breve estará à venda “numa loja perto de si”.

Eu e o Paulo éramos os que enchiam os olhos...mas só porque não podíamos estar em dois lugares ao mesmo tempo!

Este Sábado coexistiram para nós, 2 eventos: a inauguração do showroom da D’Maker em Gondomar, nosso actual patrocinador em material de escalada e alpinismo, e o “Girls Rock Trip” na Serra da Azóia.

Queríamos estar nos dois eventos, o que apesar de ser difícil, foi conseguido!

Assim optamos por, durante o dia, ir conhecer a colecção de verão da VAUDE para 2009 (eu adoptei a postura típica de menina mimada “quero”, “é muito bom, quero”, “é muito giro, também quero”)



...deliciar os olhinhos com as cordas da EDELWEISS e o material de escalada da FADERS



...ir buscar um par de frontais da PRINCTON TEC, conhecer as fantásticas cozinhas da OPTIMUS (para quem gosta de minimalismos na montanha), entre outras marcas e materiais.



Ou seja, fomos a Gondomar para ver se estávamos bem servidos com as marcas do nosso patrocinador...e estamos!!!

Pelo fim da tarde saímos a toda a velocidade em direcção ao “Girls...”. Tendo em conta o avançado das horas, fomos directos ao restaurante, mas mesmo chegando atrasados em relação à hora prevista...FOMOS OS PRIMEIROS A CHEGAR! Primeiro pensamos “Enganámo-nos no restaurante?”, mas ao espreitar pela janela e ver a quantidade de mesas preparadas verificamos que era ali. De seguida pensamos em fugir, para que ninguém percebesse que tínhamos sido os primeiros a chegar! Mas como decidimos tomar um Martini antes, fomos apanhados à porta do restaurante!

Que dizer?

Pelos comentários e fotos que vimos, o encontro foi um sucesso, paletes de escaladoras e “chicos gri” (que também são necessários!). Um mega encontro que reuniu escalarores de norte a sul do país.

E depois da janta, veio a festa.


A festa?

Sim, a festa!!!! Folia, bom som, “lecas”, e comidinha para renovar as energias e continuar a bombar.



E...e...quem foi escalar no dia seguinte???

Hummmm.....

terça-feira, setembro 30, 2008

TO ROPE OR NOT TO BE

Nos finais de Julho, durante uma derradeira tentativa de ascensão ao Gasherbrum II, quase fui desta para melhor quando uma corda fixa se partiu sob o meu peso provocando-me uma queda com cerca de 30 metros.

Estávamos aos 7400 metros, a Daniela e eu, muito perto do campo 4 da via normal da montanha. Preparava-me para "rapelar" uma secção vertical de gelo quando a corda se partiu. Felizmente, no meu alinhamento de queda encontravam-se instaladas outras velhas cordas ás quais me agarrei de uma forma instintiva. Saí ileso e o acontecimento não passou de um grande susto.

Mas, este mail não é sobre mim ou sobre este "quase-acidente". Este texto é uma reflexão geral acerca do uso exagerado das cordas fixas em montanhas consideradas comerciais.

E esta corda que está aqui ao lado? Será mesmo necessária?

Em montanhas populares as cordas fixas são uma constante. São colocadas para assegurar passagens mais verticais mas, muitas vezes servem sobretudo para assegurar a continuidade de uma máquina comercial já instituída.

Hummm...esta aqui já deu um certo jeito!...mas lá se foi a dificuldade do passo.

A nossa experiência nas grandes cordilheiras do mundo ainda é limitada. Talvez por isso sejamos ingénuos. Talvez por isso nos custe aceitar de bom grado certos procedimentos aparentemente normais em montanhas como o Gasherbrum II.

Na passada época, no campo base dos G`s foram realizadas duas reuniões para as quais foram convocadas todas as equipas de expedição. Em diferentes dias, as duas empresas comerciais estacionadas no terreno convocaram toda a gente para combinar uma estratégia de acção com a finalidade de fixar cordas na via normal do GII. No fundo, pediam material, dinheiro e mão de obra para realizar o trabalho.

A grosso modo, a estratégia consistia no seguinte: todos fornecem parafusos e cordas, todos pagam, todos juntos abrem o trilho. Ou seja, organizar uma mega equipa de forma a garantir a submissão da montanha.

Algumas equipas nem se moveram acima do campo 1, esperando que os carregadores de altitude das expedições comerciais terminassem de fixar as cordas.

Um estilo de escalar montanhas que jamais pensámos utilizar. Será assim em todas as montanhas com mais de 8000 metros?


Paulo na via normal do GII durante a aclimatação, antes de serem colocadas cordas fixas.

As cordas foram fixas na via normal do GII até ao campo 4 (7400 mts!). Muitas das ancoragens eram medíocres e dos parafusos de gelo "doados" às expedições comerciais apenas vimos um colocado. As restantes fixações estavam constituídas por estacas de neve, ou pequenas pontes de gelo.

Todos quantos estavam na montanha utilizaram as cordas fixas, com excepção para Piotr Morawski e Peter Hamor , que as utilizaram apenas na descida.

Enquanto aclimatávamos na via normal (com o objectivo de tentar o esporão dos Franceses), também utilizámos as cordas fixas nos passos mais verticais ou expostos. No entanto, somos obrigados a reconhecer que sem as cordas, a dificuldade desta via subiria em flecha.


Paulo no GII, tentativa ao "Esporão dos Franceses", quase quase a chegar a uma...arejada aresta.

Daniela no GII, tentativa ao "Esporão dos Franceses".

Paulo na aerea aresta no "Esporão dos Franceses".

A existência das cordas nas montanhas reduz bastante a dificuldade de ascensão e garante o cume a muita gente que, de outro modo, não teria capacidades técnicas para a realizar.

Não se trata de uma visão elitista, até porque não nos consideramos especiais nem alpinistas acima da média. É apenas uma tentativa de análise de um tema de que pouco se fala e que, em nossa opinião choca com o espírito de aventura e descoberta associados ao alpinismo.

Quando iniciados, sempre pensámos que os Himalaias estavam reservados a escaladores muito experimentados. "Só os melhores conseguem subir montanhas acima dos 8000 metros". Uma afirmação, hoje em dia, muito longe da verdade.

No Gasherbrum, fomos testemunhas de erros técnicos e estratégias muito graves que poderiam facilmente ter conduzido a acidentes mortais. Notámos que esses erros são fruto da inexperiência.

As cordas colocadas previamente pelas expedições comerciais, em grande parte fruto do trabalho de carregadores de altitude, facilitam bastante o acesso ás grandes montanhas. Deste modo, nos dias de hoje, qualquer um com um mínimo de forma física pode escalar uma montanha de 8000 metros, mesmo o GII que, sem a existência das cordas fixas, jamais seria considerada uma montanha fácil.

Compreendemos a atracção pelo número mágico dos 8000. Nós próprios nos sentimos atraídos por esse marco. No entanto, existem muitas montanhas no mundo, acessíveis a todo o tipo de pessoas e para todos os níveis de experiência.

Acreditamos que deveríamos ter a humildade suficiente para aceitar o nosso nível e escolher objectivos em função da nossa experiência.

Muito se fala sobre o uso ou não do oxigénio mas, pouco se fala no uso das cordas fixas (instaladas por outros), que em muitas ocasiões servem como uma verdadeira bengala. Ao contar a história após voltar para casa deveríamos ser honestos e objectivos e contar as coisas como de facto aconteceram.

O que nos motivou a escrever este texto foram a série de aspectos negativos que presenciámos este ano: a utilização maciça de cordas fixas, as mentiras sobre supostas ascensões, o abandono de companheiros a meio do glaciar, a utilização de carregadores de altitude como objectos descartáveis. Tudo isto nos fez pensar que existem alguns que escalam apenas para alimentar o seu ego sedento de fama e não pelo verdadeiro espírito da montanha.



Paulo Roxo e Daniela Teixeira


"Esporão dos Franceses", até onde chegamos.




terça-feira, setembro 23, 2008

GIRLS ROCK TRIP 2008

Sem duvida O encontro rockeiro do ano!!!
Bora lá?
(Mais info em http://blogdabolinha.blogspot.com/)

sexta-feira, setembro 19, 2008

Serra da Estrela super duper!


Antes de começarem a ler esta aborrecida report, saibam que os topos apresentados não estão completos. Apenas se referem a algumas das vias aqui faladas.

Em algumas das vias de artificial forçadas em livre apenas se mostra o seu grau de escalada livre.


Serra da Estrela report



Ultimamente, muito se tem falado sobre a Serra da Estrela... humm... na verdade, para o que tem acontecido por lá, pouco se tem falado sobre a Serra da estrela!

Um grupo restrito da maltinha do músculo tem realizado algumas escaladas de destaque mas, parece que a divulgação não tem sido a melhor. Assim, aqui segue uma report com a intenção de colmatar essa grande falha mais ou menos crónica: a falta de informação.

Na Serra da Estrela, nas paredes do Cântaro Magro, nas ultimas dezenas de anos foram abertas várias vias. Tranquilamente (e com muita escovagem e trabalho), foram surgindo as novas linhas. As caras dos “aberturistas” eram quase sempre as mesmas e, salvo algumas excepções, as vias ficaram votadas ao abandono imediatamente após a inauguração.

Até determinado ponto a escalada livre seguia mais ou menos a norma mas, algumas vias ou passos foram abertos em artificial. Foram precisamente essas vias e esses passos que despertaram as atenções de uma nova vaga de entusiasmos disposta a tentar realizar os primeiros encadeamentos em livre de algumas pérolas esquecidas da Serra.

Por outro lado, hoje já não é estranho encontrar escaladores a enfrentar vias abertas há mais de trinta anos pelo Paulo Alves, na face oeste do Cântaro. Aparentemente, os friends e entaladores deixaram de estar reservados aos “maluquinhos da rocha degradada” e passaram a figurar no mapa da escalada em rocha de Portugal. Ainda por cima, parece que finalmente se descobriu que a dificuldade também existe neste tipo de escalada e que o famigerado grau (surprise, surprise!) também aqui pode subir a qualquer dos níveis existentes em escalada desportiva.

Para desmentir a lenda de que a escalada “clássica” são apenas vias fáceis, aqui fica o relatório de algumas realizações dos ultimos tempos.


No ano passado e, abrindo de certa forma as hostes, o Bruno Gaspar conseguiu realizar a ascensão em livre do primeiro lance da novissima “Corto Maltese”, situada na face nordeste do Cântaro Magro. Esta é uma via com três largos que foi aberta em solitário e em escalada artificial, cujo primeiro lance está constituído por um diedro de aspecto “funny” e uma placa técnica de saída. O Bruno esforçou-se na coisa e o grau proposto é o 7a+ (por confirmar... subir?!).

A “liberação” integral surgiu já este ano (2008) quando o Bruno encadeou a micro fissura do segundo lance (7a).

Ainda no ano passado, foi encadeada a “Lua Cheia”, imediatamente à direita da “Corto...”. O José Abreu foi o protagonista e conseguiu concretizar essa escalada, com os pontos previamente colocados. A parada subiu para o 7c.

Falta ainda a realização integral em livre e “clean” daquela via, também com três largos e as dificuldades concentradas nos dois primeiros.

Já neste Verão (2008), foram vários os assédios ao granito de qualidade internacional da Serra da Estrela.

O Leopoldo Faria (Leo) propõe um orgulhoso 7c+ com a primeira ascensão em livre do primeiro lance da “Shaktis ausentes” (também na face nordeste do Cântaro).

A escalada, bastante atlética cruza um extra-prumo acentuado e foi realizada de forma limpa, sem a colocação prévia de protecções e sem utilização das duas plaquetes (acrescentadas aquando da abertura da “Travessias para um mundo novo”, pouco tempo depois da abertura da “Shaktis...”). No entanto, a “Shaktis ausentes” espera ainda o total encadeamento em livre (quatro lances).




Na intimidante “Parede do Inferno” o destaque vai para o Nuno Pinheiro, com a sua ascensão “à vista” da ultra-técnica “Terror em Nova York” (7b). O mesmo consegue também o primeiro encadeamento do segundo largo da “Desequilíbrio perfeito”, no mesmo sector. Desta vez as protecções foram previamente colocadas na via.

A “Placa verde”, situada a uma cota inferior à “Parede do Inferno”, passara algo despercebida a esta maltinha fanática até à “descoberta” da via “Quarto crescente”. Aberta há já alguns anos esta via encontrava-se por forçar em livre.



A Quarto crescente


O Nuno consegue o encadeamento deste diedro desequilibrante e de fissura fina.

Alguns fins de semana mais tarde o Nuno Pinheiro retornou ao musgo da Estrela. O objectivo: “Apocalipse crack”. Após uma anterior tentativa, conseguiu manter-se agarrado ao segundo lance desta bela fissura, frequentemente urinada pela colónia de morcegos que por ali habitam. A ascensão foi realizada depois da prévia colocação dos friends e a cotação proposta é o 7b.



Apocalipse Crack


Entretanto, o Nuno Soares (Larau), celebrando a sua “reentré” no mundo da escalada serrana, envolveu-se na abertura de uma nova linha no sector superior da face oeste do Cântaro Magro, à esquerda da “Via dos bons”. Após uma cuidada limpeza desde o cimo, recrutou o Helder Massano e juntos inauguraram a “Grito do Ipiranga”. Esta espectacular via de 6b+ segue um evidente diedro, cortado perto do final por um tecto e com uma saída por fissura larga delicada.

Ainda no rescaldo das montanhas altas, com uma forma física detestável, resolvi atacar o Cântaro Magro em solitário. A ideia era investigar uma fissura vertical que o Helder descobriu aquando da abertura da “...Ipiranga”.

Um improvável esporão de V+ terminou após uns 50 metros numa grande e cómoda plataforma de ervas, que constitui a base da “Grito do Ipiranga”. Desde aqui, entre gemidos e grunhidos, continuei a escalar um segundo lance seguindo mais ou menos uma linha de aresta algo exposta, imediatamente à esquerda da “Via dos bons”, até encontrar o diedro da “...Ipiranga”, pelo qual segui até ao topo da parede... a duras penas!

Ao rapelar, equipei (à mão) uma aresta de aspecto, digamos... “duro como um corno”. Aproveitei também para limpar a tal fissura misteriosa.

Enquanto me coçava violentamente por causa da transferência do musgo da parede para o interior das minhas cuecas, pensei: “Um dia destes, venho cá e abro esta via.”



O “...dia destes...”, veio logo no dia seguinte, pois o Bruno Gaspar acorreu à serra como um possesso, desejando um dia de escalada pejado de fortes encadeamentos “clássicos”.

Como via de aquecimento, abriu imediatamente a fissura recém-escovada. Esta linha (invisível desde baixo, devido à orientação da fenda), termina na placa técnica (muito técnica!) e “mitrada” que eu tinha equipado no dia anterior.

Recorrendo ao seu repertório de pés e unhas (literalmente), O Bruno conseguiu uma brilhante realização à vista da “Queres cometa, ó estrela?”. Talvez “7a, ou 7 a+” – dizia, quando questionado acerca do possível grau. Pois... talvez!



Bruno na abertura da "Queres cometa, ó estrela?". A fissura não se vê... mas está lá!


Entretanto lá fui eu abrir ou melhor, rectificar, a via aberta no dia anterior em solitário. Assim nasceu uma linha bem mais estética que ultrapassa uma fissura larga, uns estreitos diedros lógicos e cruza ao nível da primeira plaquete da “Queres cometa...” para o diedro perfeito da “Grito da Ipiranga”. De novo, 6b, baptizado de “Gemido do Ipiranga”.


Eu, a rectificar a "Gemido do Ipiranga".


Depois destas aberturas e devaneios dirigimo-nos à infame “Parede do inferno”, onde o Bruno desejava repetir uma via de escalada desportiva (mas pouco desportiva!) chamada, “O Visionário”, nunca encadeada nem tão pouco repetida.

O primeiro lance originalmente cotado de 6b+, quase mandou o Bruno aos papéis. Saiu-lhe a ferros e o largo terminou com um: “6b+, uma ova!!”.



"6 b+? Chiça! Fo... 6b+, uma ova!!"


A mim tocou-me o segundo lance. Um 6a+ com quase 40 metros, onde há uns quantos anos eu incitava o “Pisco” a subir, gritando desde o solo: “Vai lá Pisco, vai lá! Só caes daí se desmaiares!”. Inteligentemente o Pisco ignorou os meus conselhos e desistiu, não sem antes chamar todos os nomes do repertório de blasfémias aos equipadores da via (eu e o João “Animado”). É que, a partir de metade do referido largo as plaquetes não estão muito distantes... estão é atrozmente distantes!

Na realidade, os passos em regletes perfeitas, não passam do quinto grau mas, as distâncias entre protecções são enormes e existe uma secção particularmente exposta, onde uma queda termina numa bonita plataforma.

Com o acordo do João, conto retornar para acrescentar uma ou duas protecções, de forma a reduzir a exposição.


Bruno, no final do segundo lance da "O visionário". Run-out sem dó nem piedade!


Para já, aos futuros pretendentes fica o aviso: as regletes são tão boas que o risco de queda é muito reduzido, no entanto, convêm saber que a partir de determinado ponto da parede entram no reino da escalada em solo!

O terceiro lance foi então assediado pelo Bruno.



Brunex a iniciar o terceiro lance da "O visionário".


E aqui no inicio das dificuldades... dificeis.


Todos os movimentos são técnicos e desequilibrantes mas, lá foram sendo decifrados.

Após esta tentativa, ficou no ar a impressão de que a segunda incursão seria para o Bruno um encadeamento. O grau proposto para já, deverá rondar o 7b+.



Desequilibrio total.


O Visionário


Passada uma semana o Bruno retornou à serra para tentar um ou dois projectos em suspenso. A sua primeira concretização foi uma placa de aspecto impossível situada na “Parede dos mercadores”, logo abaixo do sector desportivo do “Corredor dos mercadores”, junto à curva do Cântaro.

A “Parede dos mercadores” alberga algumas fantásticas vias de dificuldade, semi-equipadas e de fissura.

Após duas anteriores tentativas o Bruno conseguiu destilar todos os movimentos ultra-técnicos e realizou a primeira ascensão e encadeamento da “Crocodilo neguinho”, um 7b+ de placa com uns 15 metros, que une à linha de fissura aberta há dois anos, com o sugestivo nome “O inseminador implacável” (7a).




Para terminar, fica também o apontamento do encadeamento em 7b+ do primeiro lance da “Desequilíbrio perfeito”, na “Parede do inferno”. Mais uma placa inumana com um passo de bloco em tecto, antes de um diedro final mais dificil que o esperado. Realizado, claro está, pelo Bruno Gaspar que, sem dúvida, se encontra em maré de muito boa forma física e mental.


Paulo Roxo