segunda-feira, agosto 21, 2006

Tozal del Mallo (Parte IV de IV)
O que se poderá dizer sobre o vale de Ordesa?!?! Idílico, único, belo, estonteante, agradável! Um vale de uma beleza natural realmente aprazível. Imponentes florestas, entremeadas de verdejantes prados, percorrido por frescos regatos, protegido por característicos contrafortes rochosos às portas dos altos Pirinéus.

E a sua escalada? Dura, característica, técnica, atlética, difícil, verdadeiramente única! Escalar nestas paredes de Ordesa, requer uma habituação apurada ás geométricas e anguladas formas e ao reinante vazio. Percorrer algumas das mais clássicas vias, é percorrer trilhos da história da escalada em rocha nos Pirinéus.

O Tozal del Mallo ergue-se de forma isolada e altaneira sobre o vale, de forma de eterno vigilante. Pode não ser a mais impressionante de todas as paredes, mas é sem duvida a mais chamativa e estética de todas elas. Nas suas faces, nomes como os irmãos Ravier, Rabadá e Navarro, Bellefom ou Anglada traçaram as primeiras vias de todo o vale com toda a audácia e destreza da época.

Supostamente no dia seguinte à nossa chegada a Torla, iríamos escalar uma das muitas vias, mas ao tocar o despertador de manhã cedo, a ressaca da forte insolação sofrida dois dias antes em Terradets cobrou a sua factura e apenas umas horas mais tarde nos conseguimos levantar. Devido ao avançar da hora e ao nosso lastimável estado de desidratação resolvemos então ir dar uma pequena volta pelo vale. Uma volta, que com o entusiasmo nos levou a subir ao Circo de Carriata, percorrer toda a Faja das Flores e descer pelas Clavijas de Cotatuero. Seis horas de caminhada (com bastantes paragem para comer as grandes baguetes de pão que levávamos e para tirar muitas fotos) desfrutando desta magnifica paisagem.

No dia seguinte escalámos a via «Brujas-FrancoEspañola» (435 mts, 6b+) na face Sul do Tozal del Mallo.

Miguel Grillo e Bruno Gaspar

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sexta-feira, agosto 18, 2006

Roca Regina (Parte III de IV)
Ao passarmos na estrada, se não prestarmos alguma atenção, esta enorme parede passa-nos despercebida. De facto, a sua encaixada posição não lhe proporciona toda a magnitude devida. Roca Regina, apesar de discretamente posicionada por detrás da grande e vistosa parede das Begasses, é sem duvida a mais vertiginosa e grandiosa parede do famoso Congost de Terradets.

Em pleno coração da Serra del Montsec, esta à semelhança de Vila Nova de Meia, é uma das mais conhecidas, visitadas, grandes e completas zonas de escalada de toda a Catalunha. Desde famosos sectores desportivos como Les Bruixes, até à exigente Roca Regina passando por Begasses, Peladet e tantas outras paredes, podemos escalar de quase tudo a qualquer nível: de 5 a 500 metros, de IV a 8c+, de A1 a A4+. Um inesgotável surtido à escolha!

Terradets mais do que uma zona de modas, foi crucial na revolução da escalada livre no início dos anos 80 e principalmente Roca Regina um marco no desenvolvimento da escalada de BigWall a partir dos finais dessa mesma década. Até ao aparecimento generalizado de Montrebei, Roca Regina junto da Paret d’ Aeri em Monserrat era sem duvida a mais conceituada e desafiante grande parede de toda a região, comparada por muitos ao majestoso Naranjo de Bulnes (Picos da Europa).

Actualmente, os recorridos mais acessíveis tornaram-se em grandes clássicas, sendo escaladas por inúmeras cordadas regularmente, mas sempre tendo em conta a sua enorme extensão e exigindo quase sempre uma escalada combinada livre-artificial que convém dominar. Sem duvida, uma das melhores paredes para testar a nossa destreza e reportório técnico.

Nesta visita podemos desfrutar da via «Pere-Camins» (450 mts, 6c/A1), apesar do abrasador calor que ao longo dos 15 lances de corda da via nos foi massacrando, aliado à desidratação alcançada no dia anterior em Vila Nova de Meia, resultou a dois largos do final numa acentuada indisposição de ambos devido a uma forte insolação. Apesar do contratempo lá concluímos esta escalada e a sua interminável descida por um alucinante canal encosta abaixo e que embora já fosse conhecido de visitas anteriores não desperdiçamos a oportunidade de nos perder um par de vezes, embrenhados em cerrado matagal.


Miguel Grillo e Bruno Gaspar















quinta-feira, agosto 17, 2006

Roca dels Arcs (Parte II de IV)

Esta é sem duvida uma das mais completas zonas de escalada de toda a Catalunha e porque não de toda a geografia Espanhola. Desde acessíveis vias de IVº até aos mais duros oitavos, de um a uma dezena de largos, escalada desportiva, clássica e destemidos recorridos de escalada artificial. Tudo isto em vários sectores, onde convivem pacificamente todos os estilos de escalada de forma respeitosa e acima de tudo para deleito de todos aqueles que visitam este magnifico local. O único senão é mesmo a elevada quantidade de gente que sempre (ou quase sempre) se encontra suspensa nas mais concorridas de entre as centenas de vias existentes.

Apesar do intenso calor, podemos desentorpecer as ganas de escalar após tanto tempo de espera sob a incessante chuva dos Alpes.

Escalámos duas vias em Roca dels Arcs (a principal e dominante parede de toda a zona): Necronomicon (140 mts, 6a) e Wild Planet (270 mts, V+/A1). A primeira, escalámos no próprio dia em que chegámos aproveitando a sombra do final de tarde. Via fácil e curta com uma rocha de invejável qualidade. Um recorrido para desfrutar tranquilamente.
A segunda, foi uma das primeiras vias abertas nesta bela parede. Via de corte clássico, onde a auto-protecção impera e o grau em livre (“quintos” dos antigos!!!) nos fazem transpirar nalguma saída de estribos protegido por ferrugentos e danificados buriles com mais de 25 anos. Uma das mais selvagens vias de toda a zona.
Miguel Grillo e Bruno Gaspar















FUGINDO DA INTEMPÉRIE... EM BUSCA DE UM LUGAR AO SOL!!! (Parte I de IV)
À chegada, esta foi uma viagem, uma aventura que em nada teve a ver com o programado no dia em que saímos e tampouco com o projectado uns meses antes. A ideia inicial, muito antes do Verão chegar, seria partir para longínquas paragens, perdidas montanhas além-mar, uma viagem a outro continente, cruzando milhares de quilómetros com a ilusão de escalar uma grande parede de purpúreo granito, rodeada de altos e brilhantes cumes nevados. Mas, uma vez mais os apoios financeiros não foram suficientes para cobrir o mínimo necessário (1/10 do custo de uma ascensão a um grande 8 mil) á concretização desta viagem. Nas tantas mentes tacanhas, estas são actividades demasiado marginais sem qualquer valor para shows mediáticos, “fantasmadas” e demais estonteantes ovações de um publico rendido à dramática emoção das conquistas dos pseudo-heróis modernos. Apenas (!!!) tínhamos o sonho de escalar este majestoso big-wall de 800 metros em estilo alpino a mais de 5000 metros sobre o nível do mar. Enfim… as banalidades são como são!

Com a entrada do Verão, movidos por um entusiasmado conformismo programamos rumar uma vez mais a terras alpinas. Um baú de duras aventuras, apenas a 2000 quilómetros de casa, sem necessidade de recorrer à ignorância dos senhores dos €€€'s. Levávamos alguma das grandes e míticas faces Norte em mente (Cima Grande de Lavaredo, Piz Badile, Grandes Jorasses) e a ilusão pendente de percorrer as pegadas de Comici, Cassin ou Bonatti (no Gran Capucin).

Mas... mas uma semana de intempérie com fortes chuvadas e abundante neve fez-nos desesperadamente vagabundear (e queimar mais 900 km) de lés-a-lés por esta cordilheira. De Chamonix (França) a Engadin (Suiça), das Dolomites (Itália) de novo a Chamonix. Lentamente desesperávamos…

Cansados de tanta espera, partimos em busca do sol. E que sol!!! Dizem que quando se fecha uma porta, abre-se uma janela. De facto, analisando tudo o atrás descrito (desde o inicio!), fechou-se um grande portão, mas pelo menos abriu-se uma pequena escotilha. Pequena, mas que foi a entrada de escaladas a recordar. Partindo para os Pirinéus, podemos escalar algumas das grandes paredes da Catalunha e do idílico vale de Ordesa.

Roca dels Arcs (Vila Nova de Méia), Roca Regina (Terradets) e Tozal del Mallo (Ordesa) foram as nossas paredes de eleição. Gostaríamos muito de ter ido à actual Meca catalã de grandes paredes – Montrebei – mas o abrasador calor não permitiu. Enfim, estas eram vias pendentes de visitas de outrora, marcadas pelo cunho de Rabadá, Navarro, Anglada, Picazo e Masip...
Vila Nova de Mèia

Terradets

Ordesa

Não poderemos deixar de agradecer às entidades que já haviam garantido o seu apoio para o projecto inicial e que apesar da "pobrezinha" versão final mantiveram a sua posição:

  • Clube de Montanha da Figueira da Foz
  • IPJ
  • Câmara Municipal da Figueira da Foz
  • Junta de Freguesia de Tavarede
  • Loja ESPAÇOS NATURAIS

Miguel Grillo e Bruno Gaspar

SERRA DA ESTRELA UP-DATED

Na semana passada aproveitei dois dias de inspiração para abrir a “Corto Maltese”, na face Nordeste do Cântaro Magro. Foi uma bela aventura solitária de três largos e 125 metros. Mais pormenores a seguir...

No dia 28 de Julho a Daniela Teixeira, o Paulo Alves (sr.Serra da Estrela) e eu, inaugurámos duas vias fantásticas.
A “Homem Fantasma” está situada na face norte do Cântaro, sector Inferior. Esta é uma linha de dois lances (6a+, 6b, 60 mts) que inicia imediatamente à direita da “Diedro Barbarella (diedro bastante escovado e fácil de identificar)”, abaixo da grande chaminé da Luso-Galaica e contornando uma esquina evidente.
As reuniões estão equipadas e preparadas para rapel.
No entanto, preferimos não descer e continuámos Cântaro acima até esbarrar com o sector Superior, face Norte.
Aqui escalámos uma outra nova via, também com uns 60 metros mas, desta vez totalmente desequipada.
Alguns incidentes assombraram um pouco este novo itinerário (“Alta tensão”). O primeiro (e mais sério) foi o esmagamento da camara digital do Paulo Alves durante a realização de um passo grotesco que consistia em subir de barriga para cima de um bloco... subtil!
O segundo incidente foi uma belissima queda sofrida por mim na saída do segundo lance. Como efectivamente os friends aguentam, a coisa ficou-se por um golpe de adrenalina para mais tarde recordar.
O terceiro acontecimento foi anunciado sobre a forma de um pequenino mexilhão... sim, mexilhão. A meio da nossa actividade resolvemos fazer um pequeno lanche. Uma lata de mexilhões foi aberta e devorada. Acontece que um dos bicharocos estava estragado e eu fui o feliz contemplado. Ainda deu tempo de completar a seguinte via antes de me desfazer em diarreia. Foram vários dias a sopinha de nabo, cenourinha e abóbora, e arroz branco.
Maus cheiros aparte, fica a proposta de fazer o encadeamento “Homem fantasma” e “Alta tensão”. Garantido um dia interessante de escalada, culminando no cimo do Cantaro Magro.

Voltando à via da semana passada: a “Corto Maltese” está situada imediatamente à esquerda da “Lua Cheia” e foi aberta num combinado de artificial e livre. Poderá ser integralmente realizada em livre. É que, quando um tipo está em solitário o seu espirito afoito passa para um nível um pouco mais reduzido (para não dizer: muito mais reduzido!)
Em realidade, o seu nome era para ser “Asas ao vento”. Este era um nome um pouco lamechas. Só um verdadeiro romântico se lembraria de tal coisa. E românticos inveterados existem muito poucos. Um dos maiores que conheço é precisamente o marinheiro aventureiro, personagem de banda desenhada, Corto Maltese.
Portanto, seguindo uma lógica inquestionável e indiscutivel: “Asas ao vento” = “Corto Maltese”.

Paulo Roxo

Aqui ficam os croquis destas novas vias e algumas imagens ilustrativas




Daniela na "Homem Fantásma"
Paulo Roxo na "Alta Tensão"
Paulo Alves na "Homem Fantásma"
Bela fissura na Corto Maltese