terça-feira, abril 12, 2016

Inverno 2016

INVERNO 2016!



O Inverno parecia não querer chegar. Seria mais um daqueles anos sem neve na Serra da Estrela?
A partir de meados de Fevereiro, finalmente, uma massa de ar frio surgiu, empurrada pelos ventos Siberianos. Pouco a pouco a neve começou a cair e o gelo a formar-se e - para nós, mais interessante - as paredes começaram a apresentar boas condições para a mais masoquista e (paradoxalmente) fascinante actividade de montanha: a escalada mista.


Sector PowerMix e Placas Superiores em excelentes condições mistas.


Seria a minha primeira experiência de escalada mista pós-acidente, por isso não sabia muito bem como se iria comportar o meu corpo. No entanto, o entusiasmo reinava.
Convinha aquecer os motores. O clássico sector “Couves” serviu perfeitamente o propósito e rapidamente escalámos todas as cascatas de gelo disponíveis. Após tanto tempo, sabia-nos bem retornar aos piolets.


A "aquecer os motores" no sector das Couves.


Desde o estacionamento da Curva do Cântaro, avistámos o sector das “Placas superiores”. Ali estava uma linha lógica à espera da primeira investida. Após breve observação chegámos à conclusão que o suposto segundo lance possuía potencial para uma dura luta. Uma fissura extra-prumada cortava a parede em diagonal. O cenário intimidava um pouco e não convinha iniciar a época com algo demasiado duro.
Desviamo-nos um pouco para a direita da parede e descobrimos um bonito fio de gelo que se erguia em direcção a uma grande chaminé desconhecida. Parecia uma via mais fácil e adequada a uma “primeira”.
Trinta metros moderados de escalada em gelo e mista colocaram-nos na base da grande chaminé. A lúgubre fissura encontrava-se desprovida de neve ou gelo. Seria uma ascensão em rocha pura. No entanto, as grandes lastras entaladas pareciam possibilitar uma escalada fácil.


Primeiro lance da "Mini-micro".


Antes de saltar para o topo da nova via a Daniela ainda se “divertiu” com um último grande bloco de granito que balançava com o seu peso. Era um bloco do tipo: “sempre-em-pé”.
A “Mini-Micro”, possui 45 metros e dois lances com as dificuldades concentradas na “Goulotte” do primeiro lance. M5 no primeiro largo e M4+ no segundo.


Na saída da "Mini-micro".


Desde o topo da primeira via mista da temporada, dirigimo-nos ao sector “PowerMix” para ver se ainda dava para escalar qualquer outra coisa.
Boquiabertos observámos a impressionante parede vertical do “PowerMix”. “Uau! Isto está com um aspecto perfeito!” Toda a parede encontrava-se branca, coberta com a devida “colagem” de gelo e neve. Uma vez mais confirmámos o potencial deste local para aventuras mistas mais exigentes e atléticas. “Onde anda a nova geração? Isto é mesmo a parede do futuro!”


A Daniela espreita o futuro!


Com o dia a terminar – pelo menos o “nosso” dia, pois decidimos adoptar uma postura mais tranquila de “deitar cedo e tarde erguer!” – resolvemos deixar para a jornada seguinte uma tentativa mais afoita no “PowerMix”. No entanto, realizámos ainda uma modesta primeira ascensão a uma pequena linha de “goulotte”, situada na saída do sector.


Uma via divertida.


A “Piqueroxinha” segue uma estreita linha vertical atractiva que encontrámos preenchida por gelo de excelente qualidade. Dois friends em fissura lateral resolveram o assunto, culminando 15 divertidos metros de via mista.



A terminar a "Piqueroxinha".


Na manhã seguinte, tal como planeado, retornámos ao “PowerMix” e inspirados pela visão do dia anterior, encordámo-nos na base de uma via prestes a tornar-se em uma das mais bonitas que tivemos a sorte de escalar nesta temporada.
Há uns bons anos, abrimos uma via no sector “PowerMix” que chamámos “A anatomia da tracção”. Agora, o entusiasmo pela exploração levou-nos a uma linha estética e rectilínea situada à direita da “Anatomia…”. Desfrutámos de um primeiro lance de escalada mista, com tufos de erva devidamente congelados, o que permitiu uma “sensação” de tracção semelhante ao gelo puro. As possibilidades para proteger abundavam e, pouco depois, juntámo-nos numa reunião aérea, composta por duas peças “à bomba!”, colocadas numa generosa fissura fina. 



Após um primeiro lance divertido a festa continua!


Os tufos congelados, tal qual o gelo!


O busílis da questão estava no segundo lance. Com algum esforço e recorrendo a bons gancheios, lá se ultrapassou com dignidade uma secção vertical de escalada e um pequeno tecto que obrigou a um entalamento a meio corpo, digno dos melhores “off-widhts” da serra. Após mais alguns metros sofridos, seguiu-se uma “goulotte” mais fácil e relaxante. De braços cansados mas muito satisfeitos, ambos concordámos que a via era excelente!
Sentimos que “Anatomia do antebraço” seria um nome adequado para esta linha com cerca de 50 metros divididos por dois lances, e dificuldades que atingem M6+ no segundo lance.



Dois momentos no segundo lance duro da "Anatomia do antebraço".


Nove dias depois bramíamos de novo os piolets em gelo vertical e técnico. Mas por pouco tempo, pois os poucos metros de escalada em gelo conduziam a uma chaminé larga que obrigava a trocar os movimentos de “martelo” por gancheios mais delicados em fissuras mais ou menos óbvias. O número de boas protecções mantinha-se bastante razoável e isso permitia à mente aventurar-se um pouco mais nos gestos atléticos da escalada. O que saiu nesse dia foi uma fantástica via inaugurada na face oeste do Cântaro Magro, mesmo à esquerda da belíssima “Pepi te quiero”. O primeiro lance da nova “Tentativa e erro” inicia por uma cascata muito evidente que se forma numa chaminé larga (WI5), continuando em escalada mista até terminar com alguns passos de “dry-tooling” bem verticais (M6+). 


A entrada da via em gelo vertical! Excelente!


A terminar o crux duro da via.


A Daniela metida no crux da via.


O segundo lance transpõe uma fissura fina que corta uma placa vertical. A fissura, que se prolonga pelos 10 metros iniciais, permite bons gancheios e um saborear da escalada mista na sua essência (M5+). Após este segundo lance muito longo (quase 60 metros) pode-se unir esta via com a “Scottish Way” ou, em caso de saciedade (foi o nosso caso), é possível “escapar” para a direita, para a Curva do Cântaro em direcção a um merecido petisco de comemoração.


Um segundo lance técnico, com bons gancheios e protecções.


O primeiro dia de Março viu-nos metidos numa profunda chaminé congelada do sector PowerMix. Trata-se de uma das linhas mais óbvias da parede… e também uma das mais impressionantes. Como nos sentíamos inspirados e confiantes devido aos sucessos do fim-de-semana anterior, não hesitámos em tentar a sorte. O que se seguiu foi uma pequena batalha que envolveu gancheios aleatórios, felizmente bem protegidos (acreditava) e vários apertos de corpo inteiro, alguns penosos, outros mais confortáveis, que se revelaram os piores, porque faziam tardar a decisão de comprometimento com as difíceis passagens seguintes. O pouco gelo existente estava constituído por placas muito finas a revestirem as paredes da chaminé mas, felizmente, serviam bem o seu propósito de permitir uma escassa ajuda de pés (crampons!).


Um festival de gancheios aleatórios e protecções comestíveis. Todo um desfrute!


E claro... metido na chaminé profunda!


Algumas horas depois festejámos a nova “conquista” no topo do sector. A “Chaminix” (M6+) possui “apenas” trinta metros que bastaram para preencher o espirito com uma doce sensação de satisfação. De novo, sentíamos o corpo agradavelmente dorido. “O dia está feito!” Exclamámos em uníssono.



Dois momentos da Daniela a escalar a "Chaminix".



"Yuuupiiee! Que belo dia!"


Entretanto, vários dias de temperaturas muito estáveis a oscilarem ligeiramente, sem se desviarem muito do zero, criaram as condições ideais para a formação de gelo de qualidade. Quase todas as cascatas habituais deram o ar de sua graça. Uma voltinha de reconhecimento e… “Uau!” Ali estava, como um fantasma materializado, a sempre magnífica e desejada “Cascata do Inferno”. Mas, uma vez na sua base, uma observação primária parecia antever uma camada de gelo demasiado fina para permitir a adequada protecção utilizando parafusos de gelo. No entanto, a vizinha “Grândola Vila Morena” parecia “gorda” e convidativa. “Vamos!” O que se seguiu foi uma repetição de uma via esplêndida, sem dúvida uma das melhores (senão A melhor!) da Serra da Estrela. 


"Será que isto vai sair em livre?!"...


A "Grândola..." é um velho projecto de meados doas anos 90 mas, só foi aberta em 2013. Essa escalada obrigou à colocação de vários expansivos para vencer uma placa lisa e um tecto desafiante. Desta vez encontrámos a placa coberta de gelo de qualidade e a maioria das plaquetes encontravam-se inacessíveis. O problema foi resolvido utilizando alguns parafusos curtos e a exigente secção até ao tecto foi realizada em escalada livre. “Espectacular!” Eu alucinava com a perspectiva de resolver aquele “problema” sem recorrer à escalada artificial. 


... "Será que isto vai sair em livre?!"...



... "Será que isto vai sair em livre?!"


No entanto, a passagem em travessia por baixo do grande tecto, que permite alcançar a coluna de gelo suspenso, cortou o meu entusiasmo. Sem capacidade física para resolver aquilo, não teria mais remédio que agarrar-me às últimas plaquetes, recorrendo ao A0. A passagem atlética para cavalgar a coluna de gelo não foi tão difícil como a tinha imaginado. Na verdade, até se fez sem dificuldades de maior. 


A coluna, muito mais fácil que o previsto.



Pouco depois, gritava de jubilo, já suspenso na reunião equipada com dois pernes. Uma hora depois, a Daniela juntou-se a mim na reunião e, seguiram-se outros trinta e cinco metros de puro desfrute a escalar uma das melhores cascatas isoladas da Serra da Estrela. Reconfirmámos a qualidade do itinerário. Quanto a mim, sonho já com uma repetição das condições para o próximo ano por forma a poder realizar uma nova tentativa de escalar o primeiro lance da “Grândola Vila Morena” em livre integral.


A primeira reunião da "Grândola Vila Morena".


A Daniela a emergir do abismo, depois do tecto da "Grâmdola Vila Morena".



A bela cascata do segundo lance.


Confirmadas as condições perfeitas do gelo na “Grândola…”, não hesitámos em planear a escalada da “Cascata do Inferno” para o dia seguinte.
A “Cascata do Inferno” é um verdadeiro ícone da Serra da Estrela e a sua repetição será sempre objecto de desejo. Esta estética linha corresponde já a um ritual de passagem (ou de sonho) para qualquer escalador de gelo Lusitano. Encontrar esta via em boas condições é uma dádiva que não deve ser desperdiçada. Após dois lances de perfeição, tanto ao nível da escalada como ao nível das protecções, voltámos a abraçar-nos no topo desta beleza efémera com 70 metros de água congelada. Uma vez mais, sentíamos o espírito tranquilo e saciado… por alguns dias!




Momentos durante a escalada da "Cascata do Inferno - Directa"



Os Wallyes metidos na "Cascata do Inferno - Directa". A foto é de Nuno Paiva. 


Entrada a Primavera, julgámos que a época tinha terminado. A custo – porque a escalada mista é aditiva – esvaziámos as mochilas e voltámos a pendurar os piolets, crampons e parafusos de gelo, em jeito de despedida até à época seguinte.
A natureza resolveu pregar-nos uma partida e eis que surgiram alguns dias de temperaturas baixas e previsão de neve nos pontos mais altos da serra. Ou isso julgámos!
No dia 2 de Abril, voltámos a calçar as botas de montanha e a equipar as mochilas com as ferramentas do costume. Alimentávamos a esperança de realizar uma última abertura “Invernal”.
Pela primeira vez este ano, estacionámos a carrinha (Berlingota, com carinho) no eternamente horrível e transitado cume da Serra da Estrela e dirigimo-nos ao Covão do Ferro com o intuito de nos metermos em mais um festival de gancheios e aventuras mistas (quiçá místicas!).


Com um ar meio idiota de felicidade depois de algumas excelentes escaladas invernais.


As previsões apontavam para uma temperatura positiva mas, a rondar o zero. O que realmente encontrámos foi uma temperatura demasiado afastada do zero, no sentido do calor! Ou seja… tentar cravar os piolets nos tufos habituais revelou-se uma manobra de pouca utilidade. Sem apresentarem o tão desejado grau de congelação, os piolets apenas serviam para rasgar a erva. Quanto ao pouco gelo existente, estava fora de questão porque ao mais ligeiro toque de piolet ou crampon desfazia-se em milhares de pedaços, como peças de cristal. Recorrendo unicamente aos gancheios em fissuras rochosas e a um repertório de técnicas com a capacidade para redefinir todo o conceito de “pontos de apoio” normalmente associados à escalada, lá fomos subindo através de uma linha bem exigente e difícil. Nas devidas condições de frio esta era uma via possuía um excelente potencial para se tornar numa excelente proposta de escalada mista. Nas lamentáveis condições encontradas, terminar a escalada sem sucumbir ao medo, à voz da razão e ao bom senso, revelou-se um verdadeiro exercício de vontade e teimosia. No entanto, a linha em si é boa e merece uma repetição, sobretudo para tentar encadear todos os movimentos que foram realizados em estilo “trapalhão”... e A0!


O primeiro lance do dia.


As penúrias de justificação duvidosa inspiraram ao nome. “A conquista dos inúteis” possui cerca de 125 metros distribuídos por quatro lances. As maiores dificuldades estão situadas nos dois primeiros lances. O primeiro largo (M6) foi encadeado com muito custo, sobretudo na passagem de uma chaminé absolutamente desagradável, impossível de atravessar com uma mochila nas costas. O segundo lance exige muito esforço e capacidade de proteger convenientemente ao mesmo tempo que se realizam potentes bloqueios de braço em gancheios “mais ou menos” bons (para mim foi mais “penduranço” ao bom estilo… estilo?!). No entanto, os passos foram ensaiados e a proposta de dificuldade para este largo pode bem estar no M7+, com a interrogante na questão fundamental: “E se as condições estivessem boas?”


As fissuras são boas para proteger e ganchear mas... a pilha faltou!


Um mega lance sem história (M3) com 65 metros (ensamble) permitiu aceder ao último largo divertido, constituído por uma fissura larga diagonal para a direita (M4+), que obrigou a um “elegante” reptanço inicial.


Em escalada mista vale (quase) tudo, passos de joelho incluídos. 


Tufo-tracção!


Feitas as contas e em jeito de conclusão final, para nós, apesar de curta, a época invernal na Serra da Estrela acabou por ser bastante proveitosa.

Venha lá então esse Verão!


 The End


Paulo Roxo


Os croquis por ordem cronológica:


1. Mini-Micro. 45m, M5, M4+
2. Piqueroxinha. 15m, WI2+
3. Anatomia do antebraço. 50m, M5+, M6+
4. Tentativa e erro. 85m, WI5/M6+, M5+
5. Chaminix. 30m, M6+
6. A conquista dos inúteis. 125m, M6, M7+(?), M3, M4+
















quarta-feira, fevereiro 10, 2016

Pinheirinhos selvagens

PINHEIRINHOS SELVAGENS


A chuva no nosso caminho.


“Caramba! A chuva é toda para mim!” – gritei à terceira molha, já no ultimo largo.
Sabíamos que o dia não ia estar solarengo, mas a fome daquele calcário era tanta, que decidimos ainda assim tentar escalar na baía dos Pinheirinhos.
Passou-se mais de ano e meio sem uma única visita, resultado da recuperação do acidente do Paulo. Este local de beleza indescritível, indiscutível, que carinhosamente chamamos do “nosso quintal”, não nos via desde... nem me recordo de quando! Foi como se estivéssemos estado ali ontem mesmo, a mesma grandeza, a mesma água límpida azul-turquesa, onde os cardumes de peixes se avistam desde uma altura de noventa metros. Noventa metros acima do mar, enquanto preparávamos o rapel para a base do “Esporão do pé descalço”, víamos os cardumes de peixes lá em baixo, umas quantas medusas que dançavam ao sabor da corrente, as gaivotas e os corvos marinhos, a fauna residente da baía à qual naquele Domingo nos juntámos. Sentíamos que fazíamos parte de tudo aquilo, creio mesmo que aquele pedaço de terra sentiu a nossa falta, por isso acolheu-nos num dia que... dificilmente se imaginaria que seria um bom dia para escalar uma nova via.
Arriscámos rapelar até á base da parede e, recuperadas as cordas, caíram os primeiros pingos.
“Podia ter começado a chover à meia hora! Escusávamos de descer!”. O comentário do Paulo era mais do que justificado. Já não havia escape. Entre nós e as mochilas havia uma centena de metros para escalar, ou seja, a perspectiva de o fazer com rocha molhada não era algo que nos agradasse, mas... naquele momento não tínhamos outra opção senão conformarmo-nos com a situação e desfrutar o que de bom ou mau os Pinheirinhos tinham reservado para nós naquele dia.
A chuva parou e a rocha que ainda não estava encharcada secou. Secou o suficiente para o Paulo escalar o primeiro largo de travessia tranquilo. Aquele primeiro largo foi uma espécie de aproximação à via. Olhando para o Cabo Espichel viam-se nuvens grossas e chuva, muita chuva que ainda não tinha chegado até nós.


Lá ao fundo, vêm mais nuvens e... chuva! Entretanto ainda nos maravilhamos com a parede principal dos Pinheirinhos.


“Podes viiiiiir!”. Conheço bem este grito e quando o escutei já tinha os pés de gato calçados, pronta para me fazer à rocha. De repente, o branco do calcário sarapinta-se, sarapinta-se de gotas grossas, o calcário e o meu impermeável que por sorte - ou não - já ia vestido. A primeira molha já ninguém me tirava.
Chego à reunião, confortável por debaixo de um pequeno tecto. Nessa altura a chuva já tinha parado e o calcário secava com rapidez, afagado por um sol forte que dava ao dia um sabor de contrastes. As nuvens, essas seguiam espessas no horizonte escondendo por vezes a luz do astro rei.
Com rapidez o Paulo inicia o segundo largo, este já com menos sabor a travessia. Eu, na reunião avaliava a direcção do vento...das nuvens...


A escalar o primeiro lance... à chuva!


“Reuniãããããooooo! Podes viiiiiir!”. Segundo largo. Inicio novamente de impermeável bem fechado. “Já pinga... já chove!”. Gotas gordas teimam em estragar-me o gozo da escalada. Mãos enlameadas, pés a patinar, tento progredir com rapidez e para isso o preconceito deixa de existir. Um friend significa apenas dois metros conquistados com mais rapidez. Chego à segunda reunião algo encharcada. A chuva pára. Curiosamente parece respeitar o primeiro de cordada... é justo! Quem vai à frente safa-se com rocha seca, as forças da natureza conspiram a favor do Paulo e lá vai ele apressado no terceiro largo, a meu ver, o mais bonito da via. Vejo-o ultrapassar uma sequencia de fissuras ligeiramente extra-prumadas de presa boa. Venho depois a confirmar a excelência da rocha, que até ao momento se revelou de muito melhor qualidade do que esperávamos.
Desta tenho sorte, desfruto de um belíssimo largo, rocha boa, fissuras atléticas de presa grande, um largo de deixar qualquer um sorridente. Chamam os espanhóis a este tipo de escalada “desfrutona”, confirma-se! E pela primeira vez no dia, escalo um largo seco. “YEAHHHH!” Desta safei-me, chego à terceira reunião sem chuva. O Paulo segue outra vez... tudo seco, sorte. Eu aproveito para apreciar aquela paisagem da qual tive tantas saudades.


Uma breve trégua de céu azul, permite desfrutar do largo mais bonito da via.


O dia vai agora longo e falta apenas um largo para atingir o topo da falésia. Três a quatro metros acima e... ”AHHHHHH!!!”. Conheço bem aquele grito de pânico, é uma verbalização de medo que me deixa de imediato tensa, na verdade, assustada. No segundo que durou o drama, olho para cima à espera da queda do escalador e vejo sair um falcão, disparado em voo rasante à cabeça do Paulo. O susto cedeu o lugar a um enorme sorriso e a umas quantas gargalhadas.
- Está aqui um ninho!
- E tem ovos?
- Não, não tem nada.
- O bicho deve ter apanhado um susto ainda maior que o teu!


O Sol deixa-se cair no horizonte. Ambiente "National Geographic!"


Já comentávamos que o dia parecia saído de um qualquer programa de “National Geographic”. Uns minutos depois, é a minha vez de gritar:
- Golfiiiinhoooooos!!! Golfiiiiiiiinhos! Paaaauuuuulo, olha para a base do esporããããooo! Montes de golfiiiinhos!
- Espectáááááculo!!!! São buéééés!
Nada como um bando de golfinhos a saltitar, rebolar, cambalhotar na água para tornar dois seres humanos ainda mais felizes. Naquele regresso aos Pinheirinhos, a falésia recebeu-nos como se fossemos da casa. Aproveito para continuar a apreciar aquela paisagem da qual tive tantas saudades. Algumas gaivotas, certamente agradecidas pela abundância de peixe naquele dia, alimentam-se, mergulham com elegância para aparecerem segundos mais tarde à superfície. Delicio-me com o sabor da natureza selvagem do lugar, mas o azul do céu volta a desaparecer e percebo que vou levar a terceira molha... a terceira bátega de água. O Paulo, escala todo o largo com rocha seca.
Após o novo grito de reunião apresso-me. A escalada não é difícil, ainda assim as mãos e pés-de-gato molhados tornam o largo menos prazenteiro.
Algures pelas cinco da tarde estávamos os dois no topo da “PINHEIRINHOS SELVAGENS”, húmidos e felizes com a forma com que os Pinheirinhos nos acolheram neste regresso.
Mas o dia ainda não estava terminado! Sim, faltava ainda o regresso ao carro, ao cair da noite, e claro, com uma grande bátega de água para concluir em beleza! Desta, levámos os 2!
Daniela – 4 molhas!
Paulo – 1 molha!

Nota final: Entretanto retornámos ao sector para inaugurar uma nova via. Escalámos a “DESENGANA-TE” durante um belo dia de aventura em que sentimos a falta dos Golfinhos e… da chuva!

Daniela Teixeira



 A escalar o terceiro lance da "Desengana-te". Desta, a chuva não nos atormentou.


 A chegar ao final de mais uma nova via na "mais bela" grande falésia da Arrábida.


 Foto-cume!


Claro, os topos:





sexta-feira, janeiro 15, 2016

Todos os caminhos vão dar a...

TODOS OS CAMINHOS VÃO DAR A...
EL CHORRO!




Rumámos para leste com a cabeça cheia de possibilidades.
Apesar de já ter passado um ano desde o meu acidente de escalada, ainda me encontro em fase de recuperação. Esta actividade iria funcionar como teste: “O teste!”
Quanto ao clima, nas semanas anteriores à nossa partida tinha-se portado de uma forma demasiado benevolente. O que era um mau presságio para as seguintes semanas, justamente as “nossas” semanas.
Tendo em conta as minhas limitações e a imprevisibilidade climática, a Daniela e eu carregámos a Berlingo com… tudo! Piolets, botas de montanha, pés-de-gato, múltiplas cordas: simples, duplas de gelo, duplas de rocha e toda a parafernália e quinquilharia necessária.
Com o olho piscado às montanhas de neve e gelo, iríamos, no entanto, preparados para qualquer outra coisa.
Tal como esperado, mal saímos de Portugal, as previsões começaram a apontar para uma degradação do tempo em montanha.
Uma fugaz passagem pelos - sempre fantásticos - Mallos de Riglos e, aproveitando uma “aberta” de dois dias, preparámos tudo para tentar uma nova via na face noroeste dos Gabietos (3035m), nos Pirinéus. Aquela montanha já não nos é uma estranha. Em 2013 eu e a Daniela abrimos ali uma nova via, a “Variante Pops” e no ano anterior eu tinha já aberto uma outra via, a “Perro Marrón”, encordado ao Tiago Faneca.


A face Noroeste do Gabietos. 500 metros de parede e gloriosa. Desta vez... não se deixou dominar!


A Face noroeste do Gabietos é uma parede impressionante, com cerca de 500 metros, raiada por numerosos corredores, estrias geladas e esporões de rocha friável. Este aspecto ostenta uma verdadeira parede com ambiente de alta montanha.
Passámos a noite num pequeno refugio degradado e, na madrugada seguinte, lá fomos a caminho da parede. No entanto, à medida que nos aproximávamos, a neve que julgámos perfeitamente transformada e dura, deixou muito a desejar. Ao chegar à base da via escolhida, confirmámos aquilo que suspeitávamos durante a hora e meia de aproximação: neve inconsistente e inexistência absoluta de gelo. Hesitamos na decisão durante alguns minutos e, finalmente, metemo-nos vale abaixo.
Cheguei ao estacionamento a coxear como um deficiente. Apesar do fracasso, tinha sido um bom teste para os meus tornozelos. “Hora de meter mais um “Voltaren”!”


"Eu levo mais peso para te poupar os pézinhos!" - Não era uma novidade. Na cordada, geralmente, a Daniela leva sempre o mesmo peso (ou mais!) que o seu par!


Nos dias seguintes, as previsões apontavam para tempo mau e temperaturas altas nos Pirinéus. Mau para alpinismo, mau para escalada em rocha. “Que fazer?”
“E se fossemos a Culla?” – sugeri.
Culla é um pequeno povoado bonito, localizado a norte da província de Valência. Marginando a povoação existem numerosas paredes selvagens e isoladas, terreno ideal para colmatar o nosso espírito de exploração e novas aventuras.


As fantásticas e selvagens paredes de Culla. Um bom lugar para escutar o silêncio absoluto.


Há doze anos, vagueei por ali e tive a sorte de abrir cinco vias de aventura, com alturas até aos 260 metros. Três delas foram abertas em solitário, uma encordado com o Miguel Grillo - em três dias de "fun" - e a última com a Yolanda Traver. 
Já passou muito tempo e a minha memória apagou muitos “detalhes”, como o tempo de aproximação, o acesso exacto, etc. O cérebro deve ter feito uma selecção das memórias mais importantes, conservando as de maior impacto. Naquela altura, o “maior impacto” não estaria com certeza na mera aproximação. Essa era secundária. Hoje porém, não é bem assim. Para já, com as minhas mais recentes limitações físicas, as aproximações e retiradas têm um papel crucial e decisivo.


"Será por aqui?"


Escalámos quatro lances de uma nova via mas o céu resolveu brindar-nos com alguma chuva. A chuva suficiente para nos obrigar a “rapelar”. Quando tocámos o solo, a chuva entretanto, parou. “Típico!” Tarde demais para retomar a escalada, resolvemos retirar com a promessa de voltar para terminar o assunto. Nessa noite instalámo-nos num simpático apartamento barato em Culla. Urgia um duche quente.


O terceiro lance da nova via em Culla. Pouco depois descíamos. Ficaria o projecto para voltar um dia.


O despertador tocou à hora imprópria das quatro da manhã. Atirámos as mochilas para o interior da carrinha decididos a atacar a parede interrompida e… madrugada escura como breu, o vento gelado uivava… rodei a chave e o motor começou a ronronar. “Vamos?”… adivinhava-se um dia frio, desagradável e sem garantias que a chuva não iria cair, portanto, sem garantias de sucesso… hesitação. “E se fossemos para o El Chorro?”
Por volta das duas da tarde tínhamos as grandes paredes frontais, imagem de marca do El Chorro, mesmo à nossa frente.


A imagem de marca de El Chorro. As paredes frontais!


A decisão de retornar a El Chorro foi tomada rapidamente mas, com alguma apreensão. Basicamente, tínhamos receio de nos sentirmos desiludidos. A razão tem que ver com a nova “reabilitação” do histórico “Caminito del Rey”, que se prolonga pelo interior das gargantas naturais do lugar. Essa restauração consistiu na construção de um passadiço enorme que permitiu a entrada de centenas de pessoas em massa. A consequência foi a proibição da escalada nos sectores por onde passa o caminho.
Em El Chorro, a escalada possui uma tradição muito grande e uma história consistente. De um dia para o outro, por razões puramente económicas, foram impostas duras restrições a uma actividade de natureza e aventura e promovida uma actividade de “multidão”. Como é evidente, a curto prazo e economicamente a região terá a ganhar, tal qual qualquer outro lugar turístico muito famoso. A longo prazo e relativamente ao ambiente de tranquilidade que sempre imaginamos existir num local natural, isso já é outro falar.
Surpreendentemente, com grande excepção para o “Caminito del Rey” e imediações directas, tudo nos pareceu semelhante às anteriores visitas. Nem nos esforçámos para tentar entrar no vale entre as gargantas, apenas para não desfazer a ilusão de serenidade.


"Serenidade"


Imediatamente, imaginámos linhas em secções de paredes onde ainda existem possibilidades para albergar novas vias. As linhas que escolhemos seguiam itinerários lógicos e intuitivos. “Será que aquilo ainda não foi escalado?” Depois dos “baldes de água fria”, nos Pirinéus e Culla, desejávamos ardentemente realizar (completar) alguma escalada.
No dia 6 de Janeiro, o nascer do Sol viu-nos a encordar na base do sector “Austria”, mesmo à direita de uma via equipada, muito repetida, chamada “Valentinis day”. O vento fazia sentir a sua presença e insinuava-se para todo o dia. Apesar do incómodo, desta feita estávamos decididos a não baixar os braços.


A iniciar o fantástico segundo lance da nova via.


A Daniela a emergir do primeiro largo. O vento obrigava a escalar com o blusão de penas posto.


Nos últimos anos temos visitado o El Chorro porque, paradoxalmente, este é maioritariamente conhecido para a escalada desportiva. O facto de quase toda a gente visitar estas paredes para desfrutar das vias desportivas, faz com que a escalada tradicional esteja relegada para segundo plano. Curiosamente, estas paredes possuem excelentes condições para a escalada de aventura. A rocha é generosa em possibilidades para protecções volantes e existem linhas capazes de satisfazer os apetites por vias longas mais vorazes – como os nossos!
A escalada desenrolou-se por diedros e placas cinzentas muito evidentes e de dificuldade moderada. Apesar de termos escolhido uma secção de parede sem qualquer via desportiva por baixo, íamos com cuidado para evitar deslocar alguma pedra. Aqui, a limpeza “a fundo”, é de todo desaconselhada.
Quatro longos lances depois, alcançamos o “jardim” de rampas que precede a parede final, vertical e pejada de fissuras que tornam difícil a decisão de por qual subir.


A entrar no terceiro lance da via.


A desfrutar dos últimos diedros fáceis da primeira parte da escalada. 


Um pontinho avermelhado avista-se no alto do quarto lance. fantástica rocha cinzenta e aderente.


A Daniela avistou a linha mais apelativa e lógica. Uma fissura diagonal para a esquerda que logo terminava numa secção mais difusa e difícil de analisar desde baixo.
Um mega-lance com quase 55 metros revelou-se o mais difícil e demorado. A fissura inicial deixou-se conquistar sem grandes histórias mas, uma pequena chaminé central teimava em querer empurrar para fora o corpo do escalador. Foi um pequeno osso duro de roer, que se complicou ainda mais um pouco mais acima. A rocha deteriorou-se e uma passagem obrigatória em terreno extra-prumado e decomposto travou o meu progresso. Após longos minutos de luta e indecisão, resolvi finalmente colocar um perne de 8mm, suspenso num piton de rocha muito duvidoso. “Desde que não respire com muita intensidade…” Agarrando sem pudor a expresse colocada na novíssima plaquete, alcancei uma boa fenda e coloquei um sólido camalot 0,75. “Já está!”



Dois momentos no difícil quinto lance, o "crux" de toda a via.


Um último largo colocou-nos no cimo da parede. O Sol já tinha desaparecido e o lusco-fusco adivinhava apenas uma restante meia hora de luz. À pressa, realizámos a habitual “foto-cume” e “corremos” para a árvore mais próxima com a intenção de abandonar uma cordeleta para rapelar por um canal evidente. Aqui não existiam reuniões equipadas e a nossa ideia era descer em dois rapeis até às rampas para depois alcançar as reuniões da “Valentinis day”. Tínhamos que ser rápidos pois os frontais estavam no final das rampas, no interior das pequenas mochilas abandonadas no sopé dos dois últimos lances.
Quando acendemos os frontais, abaixo de nós, perto do topo da “Valentinis”, uma série de pequenos olhitos reflectiam as luzes das lanternas. Eram as cabras selvagens de El Chorro, que seguramente estariam curiosas com as nossas estranhas movimentações nocturnas. Restava-nos utilizar as reuniões perfeitamente equipadas, descendo em direcção a um bom jantar no bar “El Kiosko”. Terminámos em beleza um longo dia com doze horas de acção.
Como não encontrámos quaisquer vestígios de anteriores passagens, supomos que os seis lances de escalada que perfizeram uns 260 metros de escalada correspondam a uma nova via. Com a “Clássica do vento” expurgámos a impressão de não conseguir concluir uma ascensão, durante esta viagem.

No dia seguinte acordámos meio emperrados. Os dedos estavam inchados e o corpo um pouco amassado. Os meus tornozelos, curiosamente, não se queixavam muito.
Animados pelas previsões de subida da temperatura, resolvemos tentar outra linha que tínhamos avistado dois dias antes. Estacionamos a carrinha a poucos minutos da base da via em questão. Em contraste com outras paredes, por aqui as aproximações são praticamente inexistentes. Genial!
O objectivo desenhava-se ao longo de um esporão com uma lógica impressionante. Mais uma vez nos interrogámos se a linha teria sido escalada. Naquele preciso momento pouco importava. A decisão estava tomada.
A temperatura estava ligeiramente mais alta que no dia anterior mas, uma capa de nuvens cobria o céu, mesmo por cima da serrania do Chorro. O tempo teimava em não nos deixar despir qualquer forro. Seria mais um dia de escalada invernal.
Logo no início do segundo lance, um passo exposto travou o progresso da escalada. “Lá se foi a ideia de subir rapidamente e sem muitas paragens.” Tardei bastante em resolver aquela passagem, ao ponto de considerarmos o abandono da via naquele dia. No entanto, tal como no dia anterior, lá topei uma pequena fissura que albergou um piton muito precário, inaceitável para arriscar a progressão, mas suficiente para descarregar o meu peso e poder libertar as mãos para martelar um expansivo de 8mm. Alguns minutos depois, restaurada a confiança (e realizada a passagem) a decisão de continuar retornou aos nossos espíritos.



Logo no segundo lance, surgiu um osso duro de roer. As dificuldades obrigaram à colocação de um expansivo. O único de toda a via.


Ultrapassámos o terceiro lance longo (50 metros) através de um diedro muito lógico, com alguns blocos encaixados que requereram atenção especial, desembocando numa curta fissura diagonal que constituiu o “crux” da tirada.



Dois momentos da Daniela a escalar o aéreo terceiro largo da via.


A emergir no esporão do penúltimo lance.


Uma trepada fácil colocou-nos no pequeno colo entre a parede principal e a torre destacada onde termina a via “Navegador”. Neste ponto, dado o cansaço acumulado do dia anterior ainda considerámos terminar por ali a nova via e descer em rapel através da “Navegador”. Contudo, escalávamos uma linha muito natural e óbvia que pedia para continuar até ao cimo de toda a parede.
Por vezes, ao longo da nossa vida, escalamos vias que valem pela sua beleza de movimentos, ou pela suprema qualidade da rocha, mesmo que sigam itinerários não tão óbvios e quiçá algo forçados. Outras vezes, é a própria rocha que nos indica qual o caminho a seguir. Nesses momentos, quando é a parede a decidir, a escalada torna-se numa actividade perfeita.
Três lances depois, incluindo uma aresta fácil mas muito estética, alcançámos o topo da parede.


A aresta final, fácil mas estética.


Cume!

E a obrigatória... foto-cume!


Mais uma vez, ao longo de seis largos, não descobrimos nada de nada no tocante a artefactos de escalada abandonados, o que nos faz supor que também esta se trata de uma nova via. Devido às características particulares do itinerário, resolvemos baptizar a linha com o nome de “El Chorro Alpino”.
Em contraposição com o dia anterior, desta vez iriamos descer a pé, utilizando um cómodo trilho tranquilo e sem história, com tempo ainda para saborear duas belas “bocatas” bem recheadas, com vista diurna para as paredes preciosas de “El Chorro”.


Paulo Roxo


Os topos:








segunda-feira, outubro 05, 2015

A lição

A LIÇÃO... 



Shivling com aspecto Invernal.


Passaram nove meses desde o acidente.
Um pequenino pedaço de rocha sedimentar, formado há muitos milhares de anos, esperava pacientemente, imóvel, até que, no dia 21 de Dezembro, a minha mão esquerda resolveu agarrá-lo. Um simples acto, um simples gesto e… todos os planos mais próximos alteraram-se radicalmente, violentamente.
As pedras não pensam, simplesmente… estão lá. Volvidos estes meses, dou por mim a pensar se aquele insignificante pedacinho deste planeta não estaria destinado a ser arrancado da sua posição, naquele dia, durante um segundo de desatenção. Um pedacinho que sobreviveu milénios, até finalmente sair disparado e, com ele, levar-me também no seu inevitável trajecto, até ao solo. As pedras não pensam, nem sentem, nem sofrem, nem gritam, portanto, para aquele pedacinho de calcário, cair no chão, num baque seco, não significou nada. Para a pedra, todo o processo não passou de uma transição entre estados de equilíbrio, mas para mim…
A queda foi curta, pouco mais de dois metros, mas foi inesperada. A pancada foi dura. Senti-a com violência e imediatamente me apercebi que era grave. Gritei, gemi como uma criança. Chorei. Senti-me desfalecer. Teria chegado a hora? A HORA? A ansiedade deixou-me tonto e, de repente, a falta de ar…
O equipamento continuava perfeitamente organizado no meu arnês. Nem tinha tido tempo de colocar uma única protecção entre mim e o chão. Um metro mais acima e, provavelmente, nada tinha ocorrido. Foi uma queda de escalada ridícula, curta e sem glória.
O João Gaspar abraçava-me, fazendo tudo por tudo para me confortar e acalmar. O Fernando Pereira já tinha agarrado o telefone para ligar para o 112. Entre choro e pânico, enfureci-me comigo próprio. O pensamento viajava entre várias imagens, nenhuma agradável: “Como foste deixar acontecer isto? Outra vez…”, “112, Bombeiros, Hospital…”. Pensei na Daniela, no susto que lhe iria dar… outra vez. Pensei na minha mãe, na tristeza que lhe iria provocar… outra vez. Pensei, repensei e, ofegante, tentava recompor-me. Ainda nos braços do João, ouvia-o dizer repetidamente: “Não durmas, não durmas!” - Agradeci ter ali um amigo, tão perto - Mas eu não dormia. De olhos fechados, lembrei-me de respirar, profundamente, ritmadamente. Passados longos minutos, o pânico deu lugar a inspirações profundas, cadenciadas. Por vezes a ansiedade ganhava terreno e o irracional tomava as rédeas e aí, de novo, sentia-me desfalecer. Mas pouco a pouco, voltava a mim.
Ouvi a voz da Daniela. Já tinha chorado, eu sabia-o. Abraçou-me e beijou-me e disse-me algumas palavras para me acalmar. Nessa altura já tinha feito o “check-up” a mim próprio: mover os dedos dos pés, sentir as pernas. “Não estão dormentes!”, “Bom sinal, bom sinal!”
Horas no hospital. T.A.C. para verificar as fracturas. O prognóstico não era totalmente mau. Fracturas em duas vertebras lombares, sem atingir a medula, uma micro-fractura na bacia e uma (“desdenhável”) fractura do metatarso do dedo mindinho do pé esquerdo, que mereceu gesso até ao joelho. A mazela menos grave tornou-se na mais impressionante visualmente. Previsão: três semanas deitado numa cama, depois, levantamento para cadeira de rodas, depois, transição para muletas, depois, transição para uma única muleta, depois, reaprender a andar, depois…
Os pais da Daniela, a Maria da Luz e o António Teixeira, a quem estarei eternamente grato, cederam o seu quarto e a sua cama e, durante dois meses, transformei-me no hóspede principal.
A Teresa Leal e o João Gaspar tornaram-se nos amigos incansáveis que ajudavam em tudo ao seu alcance. Temo que nunca irei poder pagar esta dívida de sangue.
A Daniela transformou-se, de um dia para o outro, numa profissional de enfermagem dedicada e atenciosa. As suas valências implicavam todo o tipo de assistência. Os médicos coincidiam na opinião de que devia manter-me deitado e mover-me o menos possível. O mais dramático de se estar acamado eram as “não-idas” à casa de banho. Sentia-me a personagem principal de uma comédia trágica. O problema era que a peça teatral envolvia o ritmo de vida de toda a gente que me rodeava. E a Daniela, ali estava, sempre comigo, sempre a acarinhar, sempre presente. Os dias foram passando, longos e intermináveis. Transformaram-se em semanas.

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A primeira volta de cadeira de rodas foi celebrada na esplanada do café da esquina. Enquanto a Daniela foi buscar os cafés, eu apreciava as nuvens que atravessavam o céu. Sempre gostei das nuvens. Apesar de me encontrar em ambiente urbano, aquele bocadinho de natureza trazia algum alento. As nuvens constituem excelentes metáforas de liberdade. Formam-se onde quer que seja, não obedecem a amarras e viajam para onde querem, ao sabor do vento. Voam livres, sobre todos os países, sobre todos os povos. Aquela primeira saída à rua, depois do acidente, transportou-me para um desses momentos fugazes de liberdade. Não deixa de ser irónico serem por vezes as más experiências da vida que despertam para os pequenos detalhes, aqueles que realmente importam. Num breve instante, tinha-me juntado àquela nuvem, a caminho do horizonte incerto.


A primeira voltinha.


As sessões de fisioterapia acompanharam as pequenas caminhadas e saltitar agarrado a umas titubeantes muletas tornou-se parte da minha rotina. Os meses iam passando.
Este não foi o meu primeiro acidente de escalada. O primeiro ocorreu há quase 25 anos. Desse acidente, possuo memórias físicas, mas poucos traumas psicológicos. Já foi há muito tempo. O tempo possui um mágico condão de relativizar tudo. Uma dor imensa, transforma-se numa recordação longínqua, presente, mas digerível. O tempo ensina a conviver com os próprios demónios e fantasmas.
Daquele acidente, em Fevereiro de 1992, já não me recordo das dores, essas desvaneceram-se com o correr dos anos. O que retenho é uma lição e uma decisão. Era jovem e os sonhos fluíam a um ritmo frenético. As dúvidas existencialistas também. Naquela altura, as duas pernas partidas num voo de escalada em gelo, nos Pirinéus, obrigaram-me a reflectir sobre as consequências de perseguir uma quimera. Valeria a pena escalar montanhas?
Segundo o médico-cirurgião - que me operou e atarraxou alguns dos parafusos que ainda hoje possuo nos tornozelos - eu “jamais iria voltar às escaladas”. Hoje em dia, estranhamente, esqueci quase por completo as dores físicas do pós-operatório. O que recordo com clareza, são as lágrimas vertidas naquela cama de hospital, na noite seguinte à “certeza absoluta” vaticinada pelo médico.
Uma velha crença dos alpinistas dita que os anos de afirmação são os primeiros cinco anos de actividade. Ou seja, durante esses primeiros anos, um tipo anda constantemente a questionar se o esforço, os sacrifícios e, sobretudo, o risco, valerão mesmo a pena. “É isto que eu quero?” Segundo a crença, após os cinco anos, ou desistes e partes para outra, ou o alpinismo entra-te na corrente sanguínea, como uma doença crónica da qual já não podes escapar.
Em 1992, eu fazia pouco mais de cinco anos de actividade. Encontrava-me no limiar da decisão suprema. “Continuar ou não?” Amargava-me a ironia de me ter oferecido uma queda meteórica e aparatosa, em pleno inverno, no célebre corredor de Gaube, para colocar em causa a minha capacidade de compromisso com o alpinismo. Contudo, ali estava, deitado, engessado, com muito tempo para pensar na vida.
Só larguei baba e ranho durante uma noite e a decisão estava tomada. O médico bem podia ir bugiar e levar com ele as suas opiniões de mau agouro!

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Agora, via-me confrontado com uma repetição do dilema. Dispensaria de bom grado esta nova lição. Lição?
Em 1992, aprendi várias lições e tomei decisões cruciais que decerto mudaram o rumo da minha vida. Mas agora, volvidas mais de duas décadas, honestamente, custa-me descobrir qual é a lição a aprender. Tenho muito mais experiência que naqueles anos, já experimentei todos os tipos de terrenos imagináveis, sinto-me muito mais cauteloso e a minha capacidade de análise do risco nas montanhas é infinitamente superior. No entanto, o peso de toda uma “escola” não evitou o acidente. A queda deu-se logo no início da escalada e podia ter acontecido em qualquer sector de escalada desportiva, imediatamente antes de alcançar a primeira protecção.
Desta vez não identifiquei qualquer erro, não protegi de forma deficiente (nem tive tempo), não estava distraído (creio), não escalava em terreno que não dominava… e aconteceu!
Em jeito de conclusão sou obrigado a citar uma verdade de “la palice”, bem retratada na terminologia popular, que diz: “Tantas vezes vai o cântaro à fonte, que acaba por se partir”. Talvez seja isso. Talvez os grandes desígnios do destino, que sempre buscamos quando acontecem coisas graves, se resumam a um simples facto, tão insípido, quanto realista. A verdade, retratada num prosaico ditado popular.


A Daniela Teixeira na face sul do Kapura, em plena abertura da "Sonhos intermináveis". Ao fundo, um mar de montanhas dos Himalaias, tudo por explorar.


Às páginas tantas, a verdade pode muito bem passar por uma gigantesca roleta universal que vai rodopiando até parar aleatoriamente, num nome qualquer, sem olhar a experiências, vivências ou credos.  
“Escalar é arriscado”. “Escalar é perigoso”. “Ao escalar podes morrer”. Então porquê continuar? Para quê dedicar-te a uma actividade que te pode matar?
A verdade é que não tenho uma resposta convincente.
“Convincente?!” Pensando bem, quem quero eu convencer, senão a mim próprio?
Este novo acidente que me podia ter morto ou (pior) colocado numa cadeira de rodas para sempre, fez-me reflectir bastante acerca das consequências de algumas das nossas escolhas e rumos. Por mais que afirmemos que são as NOSSAS escolhas, que é o NOSSO rumo, a verdade é que as decisões irão implicar aqueles que nos são mais próximos. Na verdade, quando penso nisso (como agora a escrever), sinto alguma confusão. Uma espécie de conflito interno, um digladiar de posições. Neste alvoroço mental, uma coisa parece certa: tentar justificar as minhas escolhas com argumentos da lógica e da razão, parece-me uma tarefa impossível. Com o tempo aprendi que é inútil tentar procurar razões para que pessoas que não se identificam o mais mínimo com estas actividades, compreendam porque andamos a trepar pedras e montanhas. Na eventualidade extrema de um acidente, tentar oferecer uma explicação baseada na lógica chega a atingir contornos ridículos. Tudo o que se consegue balbuciar soa a desculpa esfarrapada e ficamos sempre com a sensação que o interlocutor vira a esquina mais próxima a murmurar: “Este tipo é doido!”
Talvez escolha continuar porque, para mim, a escalada e o alpinismo são os componentes de uma forma de arte. Uma combinação poderosa entre as maravilhas da natureza, a aventura e a filosofia. Um emaranhado de conceitos muito difíceis de traduzir. Algo a que me agarro com unhas e dentes, para apaziguar um certo sentimento de culpa latente, por arrastar outros, sobretudo os que me são próximos, a viver as consequências das minhas acções. A aflição na cara da Daniela, quando me encarou prostrado no chão, naquela tarde de Dezembro, rebota no meu cérebro e acaba por escorregar até ao estomago, onde se acumulam sempre todas as apreensões. Que fazer então? É um dilema sem resposta. As palavras não bastam.

Penachos de neve saem das arestas das montanhas, projectadas pelo vento dos Himalaias. A silhueta imponente do Shivling domina a paisagem. Ao fundo, ergue-se o pico Meru. Por detrás do meu ombro esquerdo, não muito longe, ali está, a mole de aspecto intransponível dos Bhagirathi. O planalto do campo base encontra-se coberto por um manto de neve recém-caída. A Daniela encontra-se sentada, em posição de lotus e de costas para mim, em meditação, voltada para a montanha. O silêncio envolve tudo, quebrado apenas por uma suave brisa que levanta milhares de cristais de neve, que cintilam ao serem trespassados pela luz de um sol intenso. Aqui, realmente, é possível cheirar a paz. A mente esvazia-se. A montanha… fazemos parte dela. Fazemos parte de algo grandioso. Somos mera poeira das estrelas mas, tal como as montanhas, transformamo-nos no elemento mais importante de todos. Nós e o mundo. Somos as montanhas! Impossível explicar estas emoções simples e simultaneamente complexas com palavras. Um novo olhar para os cumes gelados… uma pequena gralha negra corta o meu campo de visão, flutua graciosa ao sabor do vento e, de súbito, sem sequer tomar a consciência, acabo por descobrir aquilo que busco. Em breves instantes, consigo avistar a razão… a minha razão.


Paz!



Após meses sem escalar uma pedra, a Daniela e eu, retornámos à nossa querida Serra da Estrela. A pouco e pouco, vai-se retomando o equilíbrio e o ritmo da vida.
Ainda não me encontro a cem por cento e, honestamente, não creio que lá consiga chegar. Contentar-me-ei com uns bons noventa por cento. Já me sentirei nas sete quintas se puder retornar ao mundo das altas montanhas, com mais ou menos dores.
Entretanto, voltámos à escalada de exploração e já abrimos algumas vias. Curiosamente, na parede, sinto-me muito estável e tranquilo. Aparentemente o acidente não criou nenhum impacto na confiança. É possível que o treino mental a que me obriguei durante a recuperação (“Não ficarás com trauma! Não ficarás com trauma!”) tenha ajudado a alcançar este estado de espírito.
Suspeito porém, que a razão fundamental para a aparente tranquilidade em actividade, seja a aceitação simples de que “isto” é o que me define. “Aceita e vive bem com a tua decisão!”

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A nuvem desapareceu de vista, escondeu-se por detrás de um prédio cinzento. A nuvem é livre, não liga a fronteiras, faz parte de um todo muito mais importante, faz parte do planeta, da natureza e das maravilhas. Talvez aquela nuvem alcance as montanhas, ou talvez não. A nuvem é livre… a Daniela chegou com os cafés. Olho para ela e intimamente agradeço conhecer o amor. Pouco depois, sou de novo empurrado para casa na cadeira de rodas. Sinto-me tranquilo…
…vi a nuvem.


Paulo Roxo



A lua cheia ilumina o campo base do Shivling. Por detrás, os imponentes Bhagirathi. E as nuvens... essas vão.

quinta-feira, agosto 06, 2015

Livro

SERRA DA ESTRELA, MONTANHISMO E ESCALADA INVERNAL. 
O LIVRO





O livro “Serra da Estrela, Montanhismo e Escalada Invernal”, é o primeiro guia que documenta em detalhe todos os Corredores de neve, Cascatas de gelo e vias de Escalada Mista existentes na Serra da Estrela.
Este é um trabalho único que abrange todo o espectro das dificuldades técnicas, desde simples ascensões de montanhismo para desfrutar de um belo dia em terreno nevado, passando pelas singulares e verticais escaladas em gelo, até às mais difíceis vias que combinam a neve, o gelo e a rocha.
Distribuídas por mais de 180 páginas, encontram-se as descrições dos itinerários com croquis desenhados sobre fotografias, descrições dos acessos, informações acerca do equipamento necessário e muitos outros conselhos úteis.
Várias fotografias de “acção” ilustram bem todo o contexto.
Para além dos aspectos técnicos para consulta e utilização no terreno, o livro inclui vários textos sobre escaladas Invernais vividas pelo autor e outros protagonistas, assim como histórias de acontecimentos caricatos, lendas fantásticas e curiosidades do imaginário de gerações de pastores e aventureiros.





FORMA DE APOIAR


Neste momento o guia “Serra da Estrela, Montanhismo e Escalada Invernal” está terminado e pronto para imprimir.
Falta no entanto o financiamento necessário para a sua publicação. Foi criada uma campanha para esse fim.
Para apoiar este projecto compre antecipadamente o livro (com uma dedicatória personalizada do autor) – 25 euros (incluí portes).
A aquisição do guia deverá ser realizada por transferência bancária para o NIB 003 508 480 000 666 316 102, e o comprovativo deverá ser enviado para o email: paulo.alpinismo@gmail.com, indicando o nome  e a morada. Confirmação da recepção garantida pelo autor.
O objectivo é publicar o livro até ao dia 30 de Outubro, para poder ser desfrutado e utilizado já no próximo Inverno. O dia exacto da publicação dependerá do montante conseguido durante a campanha de angariação de fundos. Estando reunidas as condições financeiras necessárias, a edição será efectuada antes da data mencionada.



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Publicite a sua marca ou empresa nas páginas do livro destinadas para tal. Para preçário e mais informações contactar directamente o autor através do email: paulo.alpinismo@gmail.com





MEMÓRIA HISTÓRICA


A Serra da Estrela é a única que possui condições para o Montanhismo e Escalada Invernal no território Português. Trata-se de um diamante raro que merece ser considerado e respeitado.
Existem relatos escritos de actividades de montanhismo na Serra da Estrela desde finais do século XIX. Ao longo das décadas e atravessando vários estágios políticos e sociais, o montanhismo nos “Montes Hermínios” foi criando as suas raízes e a sua própria biografia. As gentes locais, as lendas, o montanhismo, a escalada e a Natureza, interligam-se de uma forma notável, criando uma narrativa única que associa em muitos aspectos o mundo real com o imaginário.
Este guia constitui uma singela homenagem aos que, ao longo dos tempos, se dedicaram a explorar as paisagens agrestes e selvagens desta montanha, ficando como um testemunho do que existiu e existe na “nossa” Serra da Estrela.
Quem adquirir este livro estará também a contribuir para o resgate e conservação da memória histórica de uma actividade profundamente enriquecedora.


Paulo Roxo