terça-feira, setembro 26, 2006

O Pilar do Golfinho

O Pilar do Golfinho

(Nota: Continuando na recuperação de textos já escritos anteriormente e aparecidos em alguma página ou forum da web, aqui fica mais um breve relato)

Por vezes, em momentos em que o pensamento se perde na labiríntica e infinita distância do olhar, há vivências que julgávamos únicas e que inesperadamente quase integramente e surpreendentemente se voltam a repetir.

Nunca fui crente em que tudo o que nos acontece na vida tivesse um motivo definido, ou uma razão de ser explicável, ou movido por algo oculto ou tampouco divino, em astros ou destinos…simplesmente acredito na casualidade dos momentos, no constante ritmo “vivo” de transformação do nosso planeta, nas voltas e giros que a vida dá, movida pelos momentos, vivências, por um olhar inquieto, sensações, motivações e intermináveis ilusões.

Uma vez, recorrendo aceleradamente as prenunciadas curvas de uma sinuosa estrada numa quente noite de Verão de regresso de mais um fabuloso dia de escalada em Monserrat, Sergi, um amigo Catalão, dizia-me que nada na vida acontece por casualidade, todos os encontros e desencontros, acontecimentos, reacções e adivinhações tem uma razão de ser, simplesmente nós não temos o conhecimento suficiente para interpretar toda a dinâmica que a Natureza nos brinda.
Relutante e pragmático nas minhas opiniões, daquele dia não fui capaz de contestar aquelas afirmações.

À alguns meses atrás, o Paulo e eu abrimos numa refundida e solitária enseada, a via “O Terror da Baía”, escalada essa que nos proporcionou inigualáveis momentos e sensações.

Hoje, recordo com uma nostálgica emoção aquele dia e não consigo deixar de comparar as semelhanças (e demasiadas coincidências) daquela aventura com a nossa última abertura, ontem Domingo, no sempre mágico e surpreendente Cabo da Roca.

Como tantas vezes havíamos decidido ir escalar para este Cabo.
Tal como naquela vez, encontrávamo-nos na pastelaria da Malveira numa chuvosa manhã de Sábado.
Tal como naquela vez, o dia manteve-se escuro e a chuva não deu tréguas.
Tal como naquela vez, as nossas ânsias de escalada desvaneceram perante o cinzento cenário.
Tal como naquela vez, as nossas mentes sentiram-se perdidas e desorientadas.
Tal como naquela vez, apenas nos restou a conformação perante os factos e a esperança no dia de amanhã.
Tal como naquela vez, deambulamos pelos recantos dos nossos pensamentos e por estradas repletas de impacientes automobilistas e de abundante água.

E tal como naquele dia, o segundo dia, nascia sereno e azul.
Tal como naquele dia, apressadamente dirigimo-nos a uma perdida e pouco visitada enseada.
Tal como naquele dia, era uma baia de ambiente austero, resguardada por contrafortes de granito, batida pelas poderosas vagas do Atlântico.
Tal como naquele dia, o nosso objectivo era um remoto e inexplorado pilar rochoso de aspecto rude e grotesco, que o Paulo havia avistado numa visita prévia.
Tal como naquele dia, o nosso desejo era inaugurar uma via naquele pilar e o nosso olhar transpirava de desejos por aventuras verticais.
Tal como naquele dia, aproximávamos por íngremes ladeiras e arribas que descem ao mar por trilhos de pedra roliça e verdejantes “chorões”.
Tal como naquele dia, abrimos uma nova via de 3 lances de corda, em 100 metros de terreno de aventura onde por vezes a rocha não era a melhor (embora seja de maior qualidade do que o inicialmente esperado) mas o ambiente era único.

O primeiro largo, decorre por uma irregular fissura ao longo de 35 metros de um estético muro. O segundo, começa com um terreno algo descomposto, para depois entrar num bonito diedro sub- prumado de fissura fina, movimentos atléticos e ambiente extraordinário. O terceiro lance, percorre uma longa placa torneada pela erosão agreste destas paragens, entrecortada por pequenos tectos e serpenteantes fissuras e rugosidades.

Neste dia, num daqueles largos, parado numa reunião ou simplesmente suspenso de um qualquer pequeno micro-friend, por vezes deparava-me estático tentando relaxar da tensão ou simplesmente admirando a conjugação do brilho do sol, do céu azul, do revolto oceano com o luminoso granito e as verdejantes encostas, desfrutando de todo aquele majestoso cenário e olhava…dava por mim olhando para trás, onde ao fundo se podia timidamente ver a refundida «Baía do Terror» e pensava como tudo estava a ser tão semelhante com aquele dia.

Tal como naquele dia, chegávamos ao cimo da falésia, com um enorme sorriso nos lábios e a felicidade estampada nos salgados rostos.
Tal como naquele dia, subíamos cansados, esfomeados mas profundamente alegres os íngremes trilhos de regresso no final de mais um dia.
Tal como naquele dia, apesar da fadiga, das duas horas e meia ao volante de regresso casa, do avançado da hora ao início desta madrugada, da vontade de querer dormir pelo temor de ter de me levantar bastante cedo, por longos minutos não conseguia adormecer. De olhos fechados, apenas conseguia visualizar os momentos de escalada vividos, os momentos de aventura e de partilha com os amigos e sentir o áspero e purpúreo granito no suor das mãos.

Mas, mas neste momento…sentado diante deste computador, apercebo-me como afinal nem tudo foi tão semelhante.
Ontem, era outro dia, outro mês, outra estação, outro ano, outro local. Ontem éramos três: para além de mim e do Paulo estava também a Daniela. Ontem, se bem que semelhantes, os momentos eram outros, as gargalhadas eram outras, os medos e temores distintos, as sensações intensas, mas eram outras. Ontem…simplesmente era outro dia, igualmente entusiasmante e fenomenal, mas era outro dia. Era diferente porque ontem, tínhamos na nossa própria interioridade mais algumas experiências acumuladas. E o ontem foi diferente do hoje que será distinto do amanhã. Penso que cada momento é um momento e cada experiência a base da seguinte. Será?

Duma única coisa hoje estou certo, por casualidade ou não, o Cabo da Roca uma vez mais proporcionou-me momentos de escalada e vivência únicos, no esplendor natural destas ocidentais e imponentes falésias.

Miguel Grillo (11/04/2005)

«O Pilar do Golfinho» (100 mts, 6b+ (6a/A1)) – Enseada de Assentiz (Cabo da Roca), por Paulo Roxo, Daniela Teixeira e Miguel Grillo em 3 de Abril de 2005


Rui Rosado e Ana Silva fazendo a 2ª repetição do «Pilar do Golfinho»
Daniela Teixeira na 1ª reunião da via «Cabo da Roca Social Club»

2º lance do «Pilar...»

2º lance do «Pilar...»





quinta-feira, maio 25, 2006

"À pois é!", enceramos para obras por uns tempos (...laaaaargooos) mas estamos de volta (não sei se de vez...vamos ver!).

Breve breve haverá por aqui uns quantos croquis a mais, de viotes que se tem aberto nos fins-de-semana que nos servem de descanço.
Mais umas quantas vias na já conhecida (e surpreendentemente povoada) Falésia dos Pinheirinhos e outras tantas na Barragem de Stª Luzia.
Por falar em vias, deixamos aqui um alerta para os amantes do Cabo da Roca...caso um destes dias pensem em repetir "O Pilar do Golfinho"...CUIDADO!!!!

À uns dias atrás (...talvez mais de 30...), eu e o Paulo resolvemos ir matar saudades aos granitos do Cabo da Roca, mais precisamente, ao "Pilar do Golfinho". Como fomos picados pelo bicho da preguiça, deixamos o carro o mais perto possivel da saida da via para rapelarmos para a sua base.
Estava o Paulo a montar o rapel e eu a chegar perto, quando em 2 escassos segundos nos vimos envolvidos por uma nuvem de centenas de abelhas (não, não estou a exagerar quanto ao numero). Ficamos quietos...estáticos e encolhidos em silêncio cobrindo a cara com os bracitos até que após 1 ou 2 minutos, os listados bicharocos se afastaram para outras paragens...para um arbusto contiguo a outro onde tinhamos as mochilas (um problema a resolver mais tarde!).
Após o susto, lá nos "enfiamos" na corda a rapelar via abaixo e ao passar uma qualquer reunião, novamente o zumbido das abelhas nos captou a atenção...centenas (mas desta menos centenas :)).
Confesso que o meu entusiasmo para fazer a via esmoreceu...só um bocadinho...
A escalada em si, até correu bastante bem, mas a chegada à 2ª reunião foi um pouco assustadora. O Paulo permanecia em silêncio rodeado pelos referidos bicharocos (não, não são os da preguiça!)...zum, zum, zum...
Da minha parte, resolvi ficar a dar-lhe segurança para o largo seguinte, da plaquete que antecede a reunião, a uma distância de escassos 2 metros das abelhitas.
Feita a via...quem vai buscar as mochilas?
Sendo o Paulo um autentico "gentlemen", tocou-lhe a ele (ser mulher compensa!)! Lá foi sorrateiramente, deslizando em silêncio até ao arbusto onde se encontravam as nossas tralhas. No arbustinho logo ao lado, repousavam em cacho (um cachito com cerca de 40cm de altura e outros 30 de diâmetro) as milhentas abelhas que outrora voavam sobre as nossas cabeças (parecia que estavam a escolher local para fazer colmeia...e parecia que o tinham encontrado!).
Incrivelmente, safamo-nos sem uma unica picadela!
Ou seja...se quiserem repetir "O Pilar do Golfinho"...VÃO MAS NÃO NOS CONVIDEM!!!

Para quem lá for, tenham atenção por onde andam e no que tocam...elas andam aí...

Boas escaladas...
Daniela

quarta-feira, julho 20, 2011

O ULTIMO CROMO

O ULTIMO CROMO




Define o que queres dizer com PIOR via de escalada?”

Sim, o que define uma via como sendo a pior? Pior em que aspecto? No aspecto da qualidade da rocha? No aspecto da beleza da linha? No aspecto do tipo de escalada? Neste caso em particular, diria que pior... em todos os aspectos.

Está claro que esta é uma pretensão pessoal e intransmissível, porque as definições de melhor ou pior, numa arte tão abstracta como a escalada, entra em conflito directo com o próprio sentido existencialista da actividade. As valorizações qualitativas irão depender obrigatoriamente dos gostos de cada um.

Se o propósito tivesse sido passar um dia a deitar pedras ao mar, a evitar irritar blocos assassinos, a montar reuniões medíocres e a desfrutar de distâncias ridiculamente longas entre protecções, então o objectivo teria sido plenamente alcançado. Mas esse não era exactamente o propósito pensado para esse dia.


Pelo menos as vistas são soberbas. Em baixo, a Baía do Terremoto.


Vista de longe a parede parecia, digamos... decomposta. Contudo, o seu mau aspecto poderia revelar algumas surpresas positivas.

De alguma forma, a inspiração surgiu na retorcida esperança de uma repetição do fenómeno: “Pilar do golfinho”. A via “Pilar do Golfinho”, na baía de Assentiz, representa um claro exemplo do que “parece mas, não é”. De longe, ninguém dá um chavo por aquela falésia esquecida. Parece um aglomerado de blocos dispostos a sucidarem-se sob o poiso de uma qualquer gaivota juvenil. No entanto, uma analise mais cuidada (leia-se: um rapel estratégico de reconhecimento), revelou uma via de qualidade, com a rocha mais que aceitável.

Na baía do Terremoto, apesar do mau aspecto, surgia a esperança que o fenómeno se repetisse.


A Daniela observa a parede com um aspecto muito melhor mas, para a qual não iriamos.


A Daniela nutria a mesma esperança vaga.

“Já há algum tempo que as nossas mãos não se impregnavam de magnésio. Já há algum tempo que por forças de outras forças não tocávamos um pedaço de rocha. Já há esse mesmo tempo que as saudades cresciam e a vontade de escalar aumentava exponencialmente a cada dia que passava.

Seria Sábado?

Não!...mas foi Domingo!!!!

Como opções?

Cabo da Roca. Tirar a ferrugem no sector Cara Norte ou tentar uma nova via na Baía do Terremoto.

A escolha: a nova via na Baía do Terremoto.

Na dita baía existe um esporão que por alguma razão que me é desconhecida inspirou o Paulo. Como já tive algumas boas surpresas em esporões com aspecto duvidoso – refiro como exemplo o esporão da bonita via “O Pilar do Golfinho” – deixei-me levar”.


Uma perspectiva cimeira.


O sitio não se deixa aceder facilmente. Uns restos decrépitos de cordas e cordéis abandonados por pescadores denunciam a fraca assiduidade ao destrepe inclinado e exposto que permite pousar os pés nos seixos gigantes rolados pelo mar revolto.

Por precaução instalámos um rapel. Uma longa descida de 60 metros onde é deveras conveniente não molestar o mineral empilhado.

A vizinha “Solidão canina”, aberta em técnica de escalada em solitário pelo Fernando Pereira, observou-nos convidativa.

Atrás de nós, invisível desde o topo da parede, um diedro virgem, com uns 60 metros piscou o olho à Daniela.

“À beira do dito esporão cheirava a podre, uma tartaruga decomposta jazia ali há já alguns dias. Ainda pensei que a futura via se poderia chamar “o Pilar da Tartaruga”!

Olhei para o lado e vislumbrei numa outra parede uma bonita fissura. “Paulo, e se fossemos àquela?”, ao que a resposta foi negativa. “Porque?” perguntei. “Porque esta é MAIOR!!!”.

Mas...nem sempre quantidade é qualidade!”

A fantasia da linha mais longa, gritou mais alto. E foi assim que nos lançámos à aventura, num claro desdém pelo gnomo minúsculo que nos sussurra palavras de bom senso ao ouvido.

“De uma forma breve, foi aberto um bonito - bonito só para observação de longe!!! - esporão com 120m de rocha ABSOLUTAMENTE PODRE!

A via caracteriza-se por uma escalada nervosa, exposta, difícil de proteger e de movimentos bastante desinteressantes. Uma verdadeira m...!

A rocha caracteriza-se pela presença quase constante de blocos soltos de dimensões variadas, mas predominando os grandes! (Para quem vai como segundo de cordada, a pergunta que permanentemente assola o cérebro é “será que o meu colo vai aguentar o peso deste bloco que vou ter de agarrar? E se apanhar com este bloco na perna? Parte-se o bloco...perdão, parte-se a perna?”

O primeiro largo decorre encadeando uma série de blocos de rocha suspeitos, com muitas fissuras...fechadas! Ou seja, não vale a pena carregar muitos friends!”


A surgir no primeiro lance... magnifico...


A reflexão da Daniela suscita indagações.

Porquê submeter as nossas mentes e os nossos corpos a estes desconhecidos? Qual o sentido do risco? Para quê abraçar a incerteza?

As respostas para estas questões talvez estejam todas concentradas nos escassos segundos em que a ponta do pé pisa o primeiro troço de rocha e decide elevar o corpo, ao mesmo tempo que um arrepio de emoção percorre a espinha. Na verdade, esta é uma suposição. Uma reflexão posterior à acção. Honestamente, os metros volvidos, sem conseguir colocar nenhuma protecção (nem boa, nem má) não despoletou nenhuma questão existencialista. Despoletou sim o interruptor da concentração e da focagem absoluta nos locais mínimos onde colocar os pés. Tratava-se de não mover o terreno mais do que o necessário (suponho que as sensações foram o mais próximo que um tipo poderá sentir ao passear nas pontinhas dos pés sobre o lombo de um dragão adormecido, tentando não o despertar).

Fissuras estreitas a fissuras inexistentes foram a tónica geral, espaçadas por distâncias proibitivas.

Ao nível da insipidez dos números, a escala de graduação mantinha-se modesta mas, os metros intermédios entre entaladores obrigaram a ligar o “mode solo integral”, diversas vezes. Contudo, cada passo neste terreno precário estava calculado para ser infalível. “Não iria estragar a festa numa via de merda! Seria inglório.”

Uns 50 metros depois surgiu a reunião, montada numa fissura vertical amovível. Os friends bem apertados asseguravam que as pequenas lastras e pedras que ornamentavam o interior da fissura se mantinham no lugar, impávidas e serenas.


Reunião amovível!


A promessa de descer e desistir do projecto infame no qual estávamos metidos até ás orelhas foi quebrada muito longe da reunião, quase no final da corda disponível.

A Daniela, invisível no ponto onde estava, gritava-me algo incompreensível, ao ouvido mas não ao instinto. A corda deveria estar a terminar. Só não entendia se ainda me faltavam: “Dois meeetroos!” ou, “Dez meeetroos!”

Ainda longe do pinheiro onde já havia pintado um alvo com a mente (eu era a flecha – em forma de tartaruga, a julgar pela velocidade com que avançava), passou-me pela cabeça colocar à mão uma das duas plaquetes disponíveis e montar a reunião ali mesmo. Mas, mais uma vez ignorando o tal Gnomo, resolvi insistir e continuar.

Aproveitando o ultimo meio metro de corda, abracei o pinheiro com decisão e gratidão por ter sido ali colocado pela providência.


"Uf!"


Um berro libertador (que por sorte não deslocou nenhum bloco): “Reuniãããoo!” informou a Daniela que poderia reiniciar a escalada. Também ela chegaria até mim com as suas próprias impressões.

“O segundo largo, depois de um início por um troço de rocha que dificilmente aguentaria um “Peso pesado”, apresenta uns metros de caminhada subvertical em terra, para passar a uma placa fácil e desinteressante com cerca de 20m, sem hipótese de protecção! Termina numa árvore simpática onde se diz”UF”.


Dois momentos no bellliissimo segundo lance.


No terceiro largo, abandonada a árvore simpática, entra-se numa espécie de...nem sei o quê (diedro?) com cerca de 4 metros, constituído por rocha fracturada em blocos de dimensões medianas a grandes, com pouca capacidade de sustentação. A capacidade de sustentação mantém-se inalterada até ao final da via, que termina num pinheiro de ramos baixos que tentam vazar os olhos a quem ali passa!

Após terminada a via, o nome “Pilar da Tartaruga” passou à história, sendo substituído pelo mais adequado “O Último Cromo”.


"E então? Esta porcaria ainda não acabou?!"


É uma via totalmente desequipada que não pretendemos repetir e da qual não aconselhamos a repetição...a não ser a quem já tenha colado os cromos todos na caderneta chamada Cabo da Roca!”

No topo jurámos nunca mais voltar.

Nunca mais... no entanto... ali mais à direita... talvez...


Daniela Teixeira e Paulo Roxo