terça-feira, novembro 20, 2007

Encontro dos Entalados. O Rescaldo!
Lá fora chove. Um convite à melancolia. Ver a água a escorrer nos vidros da janela. Observar as folhas das árvores que se dobram e crepitam sob o peso das gotas. As pessoas que andam dobradas na vã tentativa de se protegerem da chuva... mas... que importam estas lamechices?
Ainda no Domingo o tempo estava perfeito. Frio, mas perfeito.
A aderência do melhor e a malta satisfeita, a subir às pedras.
No Domingo decorria o segundo dia do “Encontro dos Entalados” na barragem de Santa Luzia.

No Sábado, às oito da manhã, o termómetro marcava os zero graus.
No paredão da barragem uma ligeira brisa acentuava um pouco mais a sensação de frio. No entanto, apesar das condições adversas, o pessoal lá foi aparecendo para realizar as inscrições no auto-intitulado “melhor encontro de escalada do fim-de-semana” (era o único!).
Foi curioso observar a variedade de “vário-pintas” que, vindos de diversos locais do País, foram chegando à mesa de inscrições (genialmente organizada pela Natália e Daniela). A maioria, afundados nos gorros e nos casacos de penas, ostentando os friends e entaladores e com as cordas ao ombro. Dava a impressão que o que estava afinal a ser organizado era um encontro Invernal na Escócia.
Contudo, o frio não foi suficiente para demover os corajosos escaladores, que após degustarem um troço de bolo (patrocínio da Natália e da minha mãezinha) ou um troço de salame (patrocínio da mãezinha do Miguel), se dirigiram às paredes para degustarem algo mais duro, como as fissuras de Stª Luzia.
Ao longo do dia eram muitas as cordadas espalhadas pelos cinco sectores. O paredão da barragem oferecia o “spot” perfeito para observar a acção desenvolvida. Desde esse ponto o Miguel dedicou-se a realizar a reportagem fotográfica do evento.
Montes de “clássicos sem futuro” disseminados pelas vias “mais, mais” da Luzia.
A super clássica “Canto do Cuco” foi uma das vias preferidas tendo sido assediada várias vezes pelos friends e entaladores dos participantes.
Uma das mais duras vias abertas até à data, a “Fissura dos Mclouds”, também foi frequentemente visitada, tendo sido encadeada e inclusivamente realizada “à vista” pela primeira vez. Consta que também foi imediatamente decotada (adivinhem lá por quem)!
Na parede do Manómetro, as ascensões realizadas surpreenderam. Afoitos escaladores atreveram-se a enfrentar a sombria parede, repetindo linhas como a “Blood Runner”, a “Bela flor cimentada” e a “Manómetro 08-006, S3”.
Claro que, numa actividade em terreno de aventura que se preze não poderá faltar o incidente de taquicardia da praxe. No caso do encontro em questão, o incidente eleito ao primeiro prémio, ocorreu na intimidante parede do Falcão e foi protagonizado por um dos ilustres participantes quando escalava o segundo largo da via “Falco”. Este, escalando em segundo de cordada, inadvertidamente provocou um desprendimento de pedras que o lançou numa mega queda em pêndulo, com o fino cordel de 8,5 mm ao qual estava atado, a roçar em todas rochas e mais algumas. Felizmente, o único acidentado foi o relógio do escalador, no qual ficou para sempre registada a hora do crime.
O Sol escondeu-se atrás do horizonte e o frio da noite obrigou a recolher às box`s, excepto alguns resistentes (cinco cordadas!) que resolveram enfrentar os últimos lances das respectivas vias envoltos na escuridão e... sem frontal! Tudo correu pelo melhor e, algum tempo depois já todos desfrutavam do calor aconchegante do restaurante da aldeia de Casal da Lapa.
Três representantes da Câmara Municipal de Pampilhosa da Serra deram o ar de sua graça e em breve todos os presentes mastigavam o excelente jantar providenciado pela cozinha do Café das Beiras.
Após a sobremesa e cafés, o João (Irmandade da Topalhada) foi raptado para realizar o inevitável discurso de agradecimentos, uma vez que a organização do evento estava demasiado ocupada (leia-se envergonhada) para falar aos presentes.
Não fugindo à tradição e com o já habitual apoio da loja Espaços Naturais, foi sorteada uma corda de escalada novinha em folha (e ainda sem pêlos levantados ou mazelas várias, fruto de “coquinadas” de pedras rolantes) pelos aventureiros, agora transformados em Jantaristas. Para grande inveja de muitos, a contemplada foi a jovem Romana, que ainda por cima se estreava nestas lides da escalada de auto-protecção. Uma feliz coincidência que (creio eu) acabou por deixar todos satisfeitos.
A noite terminou com um fado verdadeiramente genial, escrito e cantado pelo João, num acto de inspiração e improviso, empurrados pelo vinho da casa. Por falar no vinho, este foi para muitos, o catalizador do sono que enviou cada um para o seu canto (uns para as tendas, outros para as carrinhas modificadas) a fim de passar uma noite descansada sob o céu fantasticamente estrelado.
Os zero graus do termómetro despertaram os resistentes que, após o pequeno-almoço, se lançaram de novo às paredes.
O inconfundível tilintar dos friends e demais quinquilharia fez-se ouvir uma vez mais e, embora em menor numero que no dia anterior, vários escaladores coloriram as vias da barragem.
Podemos afirmar com segurança que, graças ao entusiasmo e boa disposição dos participantes, o “Encontro dos Entalados” foi um sucesso.
Assim, talvez a “Clássica” tenha afinal algum futuro!

A organização gostaria de agradecer ás seguinte entidades e pessoas:

À Câmara Municipal de Pampilhosa da Serra por ter autorizado o encontro, limpo alguns dos acessos a vias de escalada e toda a disponibilidade prestada.


Aos Abismados, nas pessoas de Natália e Sergio que, gentilmente trataram da edição dos croquis, ajudaram na organização e patrocinaram um bolo em forma de coração que rapidamente foi despedaçado!

À Loja Espaços Naturais, por ter oferecido as cordeletas (que decerto irão tirar alguém de algum apuro, no futuro!), os pequenos mosquetões e a valiosa corda de escalada sorteada no jantar.

À Irmandade da Topalhada, mais concretamente na pessoa do Bruno Gaspar que ajudou bastante na organização e ao João por ter realizado o discurso da ordem e ter cantado o genial “Faduncho Classiqueiro”.

A todos vocês que estiveram presentes e que deram o real sentido ao encontro.

Obrigado

Paulo Roxo
Daniela Teixeira
Miguel Grillo











































































































































































































quinta-feira, novembro 15, 2007

Encontro dos Entalados

Vimos informar que até ao momento contamos já com 30 entalados para o encontro e jantar e 35 só para escalar!
Ainda assim, garantimos fissuras para os "amigos" de todos.
Sendo que surgiram pessoas a inscrever-se apenas para Domingo, informamos que os croquis para esses ficarão pela módica quantia de 2,5 eurico.
Atenção aos que pretendem jantar, as inscrições encerram hoje pelas 19:30, hora após a qual iremos contactar o restaurante (chiça...tanta organização só pode dar buraco!!!).
Até Sábado...

quarta-feira, novembro 14, 2007

Encontro dos Entalados

Para aqueles que já verbalmente manifestaram vontade de enfiar qualquer coisinha nas multiplas fissuras de Stª Luzia, relembramos que deverão confirmar a vossa presença, enviando um trabalhoso e-mail até amanhã ao final da tarde, para entalados@gmail.com.
A importância deste acto, é directamente proporcional à vossa vontade de jantar à mesa do unico restaurante que existe no local
e claro, de partilhar as sensações que as ditas fissuras vos proporcionaram.
(Não nos responsabilizamos por entalados de fome resultante de falta de informação. Seguindo os procedimentos do Estado português, o desconhecimento não serve de justificação para o não cumprimento da lei!)

Saudações Quartziticas


segunda-feira, novembro 12, 2007

ENCONTRO DOS ENTALADOS

Entalados de todo o país, chegou o momento de revelar alguns detalhes acerca do encontro mais desorganizado do planeta (vamos lá ver se não nos esquecemos de nada...)
Começemos pelo mais desagradável...

PREÇO - 12,5 Eurões
(a esta hora já nos estão a chamar nomes, mas 10 são para a janta! O restante, rezamos que dê para cobrir os croquis e o material que gastamos este ultimo fim-de-semana a equipar rapeis e algumas reuniões. Os restantes gastos...ficam mesmo por conta dos nossos escassos bolsinhos. Assim sendo, todas as contribuições acima do valor referido, terão o tão banal e já conhecido destino: plaquetes)

Os croquis serão entregues no acto da inscrição, que irá decorrer no Sábado entre as 9:00 e as 11:30 no paredão da barragem e entre as 18:41 e as 19:33 no Café as Beiras onde se realizará o jantar.

A confirmação de presença dos entalados, deverá ser feita até quinta-feira ao fim da tarde (a nossa termina lá para as 17:34), através do envio do nome para a caixinha
entalados@gmail.com.
Desculpem lá este cheirinho de organização, mas não queremos ver ninguém com a pança entalada por não poder jantar no Sábado (temos de confirmar numero de pessoas para janta no restaurante na quinta ao fim do dia)!

Quanto a restantes refeições, aconselhamos vivamente a que levem...TUDO!
Existem dois cafézitos ali, mas nada de supermercados e padarias. Mesmo nos cafés, não existe um unico bolinho e por vezes, nem pão (ao jantar garantimos a presença deste alimento).
Em caso de necessidade, existe um pequenissimo mercadinho na povoação de Dornelas do Zezere (a 10/15min. da barragem).

Pelo que sentimos na pele este fim-de-semana, achamos por bem aconselhar que, para além do garrafão de vinho, levem o penas! Pela noite o frio aperta (entre os 4 e os 7º).

No que toca a dormidas, existem diversos e evidentes lugares para acampar junto às margens da albufeira de barragem (quem entra em Casal da Lapa, na primeira rotunda virar à esquerda como quem vai para o paredão da barragem e depois, logo na 1ª à direita. Um pouco mais abaixo topam-se logo os cantos para as tendas).
Para os mais endinheirados, existem alguns quartos disponiveis no Café as Beiras (235513163)

Como os dias são curtos e as vias são longas, aconselhamos a que madrugem no Sábado, ou preferencialmente vão na sexta à noite.
(Desde Lisboa, contem com 3,5h de viagem e desde o Porto 3h.)



Como não nos lembramos de mais nada e achamos possivel termo-nos esquecido de algum pormenor...duvidas e comentários para o mail referido atrás ou nos comments deste post.
Até breve

quinta-feira, novembro 08, 2007

Muita e muita gente nos pergunta muitas e muitas vezes: “Porque é que não organizam um encontro de entalados em Santa Luzia?”
Finalmente resolvemos aceder aos variados pedidos (entenda-se...exigências!) de toda uma população faminta por visitar e realizar as escaladas de antologia na barragem de Santa Luzia.
Hummmm...talvez não tenha sido bem assim...tanta gente a pedir. Na verdade...ninguém pediu absolutamente nada!
Há alguns dias lembramo-nos: “Porque não?”

POR ISSO, SE TE SENTES ENTALADO POR QUALQUER MOTIVO, APARECE NO ENCONTRO MAIS DESORGANIZADO DO PLANETA, OU MESMO DO SISTEMA SOLAR...”QUIÇA” DO UNIVERSO!

Que se tranquilizem os mais ávidos porque temos três grandes prémios para oferecer:

1º PRÉMIO: Visitar e escalar num local espectacular e único.
2º PRÉMIO: Desfrutar de boa companhia com excelente disposição.
3º PRÉMIO: Levar para casa as sensações proporcionadas pelos dois prémios anteriores.

(Preço e referências de acesso muito brevemente...para o inicio da próxima semana...num blog perto de si)

quinta-feira, outubro 25, 2007

Barragem de Santa Luzia.
Pequena apresentação e nova via.




Miguel Grillo na "Um mundo de cunhas" (6c).

Um enorme manto de silvas impede o acesso à via.

“Outra vez?” - exclamações - “será que não nos livramos dos épicos?”

Já não visitamos a Barragem de Santa Luzia há quanto tempo? Meses? Um ano?

Bem, nesse período de tempo esquecido, parece que a vegetação cresceu bastante. Especialmente as malditas silvas.

Não é que a coisa fosse impossível de atravessar mas, como iríamos descer pelo mesmo caminho (após os “rapeis”), optámos por contornar o desagradável obstáculo.


O espirituoso acesso ás paredes!

Acedemos ao topo da parede do Falcão. Os três “rapeis” equipados, colocaram-nos na base da via pretendida e, estrategicamente, acima das silvas “não pretendidas”.

Cerca de 145 metros, quatro lances e umas horas depois, voltámos a emergir no topo do magnifico muro de quartzito.

No passado dia 20, nasceu assim mais uma via, com o sugestivo nome: “A psicologia da penugem”, aberta unicamente com friends e entaladores. Nenhum material fixo.




A Daniela Teixeira no primeiro largo da "A psicologia da penugem" .


A escalada na Barragem de Santa Luzia não se caracteriza pela abundância de plaquetes. De facto, estas existem apenas em duas ou três reuniões e em instalações para rapel. Como seria de esperar existem excepções à regra, como a “Via Pimentel”, na Parede da “Flexura”, cujos dois últimos lances se encontram integralmente equipados. Diria até, sobre-equipados. Não interpretem mal as minhas palavras. A via é excelente. Sobretudo o belíssimo diedro do segundo lance. Outra via com algumas chapas intermédias é a “Fissura dos Mclouds”, no mesmo sector. De qualquer modo, são linhas de dificuldade elevada, que cruzam placas bastante verticais ou ligeiramente extra-prumadas.


Bruno Gaspar a encadear a super "Fissura dos Mclouds" (7b).


Quanto ao resto das vias, disseminadas por cinco sectores, a norma geral consiste na utilização de friends e entaladores, inclusive em reuniões.

As fissuras são francas e abundantes, permitindo a protecção segura e constante com material móvel.

A Daniela e eu na abertura da excelente "O canto do Cuco" (6a+). Fissuras "a la carte"!

Em principio, os pitons não são necessários. De qualquer modo podem dar um jeitinho, para reduzir algum nível de taquicardia. O problema é que o uso de pitons está sempre associado ao uso do martelo… e este pesa que nem um corno!

Salvo poucas vias cujas entradas já necessitam de uma limpeza (estilo Indiana Jones, com catana!), sobretudo na parede do Falcão, a grande maioria encontra-se perfeitamente comestível.

Seguindo um lugar comum, convêm referir que este é um terreno de aventura. Por isso, existem alguns cuidados evidentes, como testar os blocos mais suspeitos e o uso do eternamente aconselhado, capacete.

Outro factor a ter em conta é a época de nidificação, sobretudo do Falcão Peregrino. A partir de Janeiro e até Agosto é conveniente evitar escalar na parede do Falcão, para que os passarinhos possam estar tranquilos.

Até ao momento existem 26 vias abertas e alguns projectos.

No futuro… bem, esse ainda está para vir.

Mas, em breve mais novidades ...

Paulo Roxo


Mais fotos:

Miguel na "Canto do Cuco".



O Bruno no segundo lance da "O pilar da comunidade" (6c+).




Daniela a inaugurar a "Blood runner" (6a+).



O Miguel (de primeiro), o Ricardo Rodrigues "Pisco" e o Paulo Gorjão...


... a disfrutar, na "A profecia do lagarto" (6b+).


A Daniela a abrir a "Puzzle de pedras" (6a).




Moi meme na "Aventuras hidroelectricas" (6b+).



Onde estão os Walli`s? ...



... ali estão! A "Dura conjuntura". Um sétimo (muitos) onde entalar as mãos é regra!



O ambiente "arqueológico-industrial" de Santa Luzia.



Daniela na "Diedro da Flexura" (6a).



A Daniela na mesma via e no mesmo dia.



Eu na incansável "Canto do Cuco".

sexta-feira, outubro 12, 2007

Piu?!

Um par de botas e um de pés de gato!

A via

Antes de passar ao texto da Daniela gostaria de referir que a visita ao Douro nesta altura particular do ano foi absolutamente intencional. É que este é o período em que os passarinhos se desinteressam pela procriação, estando muito mais preocupados em empaturrar-se com o que podem apanhar.

Bem, a questão é que estamos bem conscientes da importância de respeitar as épocas de nidificação e tentámos reduzir ao máximo o impacto produzido pela nossa fugaz presença, ao contrário dos caçadores que, com os seus estampidos, se fizeram notar com pompa e circunstância.

De todos modos, a via de escalada inaugurada é uma via de aventura (muita aventura!), com um grau de compromisso razoável e uma desdenhável quantidade de equipamento fixo (algumas plaquetes que mal se vêem!). Por este motivo estamos convencidos que esta jamais será uma via concorrida.

Paulo Roxo

Brumas matinais no Douro


"O Solitário" é o bloco em equilibrio que domina o segundo pilar.

Desde há algum tempo que os nossos olhares tinham descoberto a linha a escalar naquele enorme esporão que se avistava do lado de lá da fronteira, do lado de lá das águas do Douro. Um esporão repartido por três elegantes pilares.

A combinação entre a época de nidificação da passarada local, os quilómetros de distância à zona centro do país e os muitos metros de parede, atrasaram o primeiro assédio a mais uma fabulosa parede perdida em terras lusas.

Contávamos com três dias para tentar abrir uma via com um desnível aproximado de 380m.

Para a dita ascensão, optamos pelo método “semi-big-walleiro”, isto é, sem dormidas na parede (estimámos cerca de 1h30min para a aproximação), mas não dispensando um petate que arrastamos rocha acima com o material necessário para acelerar a trepada e torná-la relativamente confortável, furadeira, roupa extra, água, comida...É preciso não esquecer a tentação que representa a posta à mirandesa no final de um dia de escalada...valeu-nos o desgaste de uns belos centímetros de sola de sapato!

Guiados pelos “riscos topográficos do exército”...ok, e um pouco pela imaginação, iniciamos a caminhada de aproximação na sexta-feira (5/10) quando a manhã estava ainda a bocejar, prevendo começar a escalada por volta das 11...11:30. Nada mais longe da realidade. Entre o topo da falésia e o acesso que conseguimos descobrir para nos enfiarmos no esporão, derretemos incontáveis parcelas de tempo precioso. Por entre “Aus!” e “Uis!”, picados pelas silvas e outras plantas férteis em duras agulhas, andámos por ali às voltas e apenas à uma da tarde conseguimos acedemos a um ponto da parede. Estávamos entre o 2º e o 3º pilar, sensivelmente a 2/3 da altura do dito esporão, pelo que nos faltava ainda rapelar até à base...também rapeis exploratórios! Como já seria impossível chegar à base e escalar até aquele mesmo ponto antes de anoitecer, tivemos de nos resignar, deixar o material por ali e patear tuuuuuuudo para trás para voltar no dia seguinte.

"mmm... por onde seguir?"

Uma brecha natural entre blocos.

Tendo em conta as 2h para aceder à parede e os rapeis que ainda teríamos de realizar, achamos por bem no Sábado, abrir os olhinhos às 6 da manhã. Tal como previsto, os rapeis levaram o seu tempo e só pelas 13h iniciámos a escalada...pelo sítio errado!

Rapel exploratório!

O Paulo lançou-se com avidez à linha que inicialmente tínhamos estudado nas fotografias. Este pequeníssimo detalhe, consumiu-nos uma horita mais.

A falta de visibilidade dos lances (que com uma ou outra surpresa inesperada poderiam fazer o dia terminar em noite) e o avançar repentino das horas, levaram-nos a optar por outra linha. Uma que não fazia supor muitos problemas (novamente, nada mais longe da realidade!). Nessa altura ainda tínhamos em mente, que o 1º, seria o pilar mais complicado, mais vertical (pelo menos assim o parecia nas fotos! Mais um engano!).

Enquanto eu observava deliciada os peixes que saltavam da água abocanhando moscas desprevenidas e as dezenas de abutres que dançavam alguns metros acima de nós, o Paulo progredia como podia numa daquelas chaminés (des)elegantes. A certa altura, uns bons 6m acima da última protecção, decide-se a colocar um perninho para não prolongar o run-out (registe-se este momento, como o ponto de partida de uma verdadeira sequência de problemas).

O primeiro e eterno lance.

Máquina no cordino prontinha para ser içada e upa upa, lá vai ela, até que...fica presa num pequeno tecto! Naquela altura, nem a fúria do Paulo conseguiu fazer com que a máquina chegasse ao seu destino...bom...nem ao seu destino nem ao meu! É que nem para cima, nem para baixo! Ou seja, Paulo irritado, com um run-out considerável (uma árvore esperava-o lá em baixo, de ramos abertos), sem lugar para proteger e sem máquina. Dupla de trepadores sem cordino, para içar o petate que esperava cá em baixo!

Ok, a coisa assim ainda é passível de se resolver. Deixei uma das cordas duplas para o petate, encordando-me apenas na outra. O Paulo, lá se resignou e continuou mais uns metros sem proteger, entalado em formato “daqui eu não caio, daqui ninguém me tira”.

Quando o largo parecia terminado, os escassos 2m de corda que ainda estavam por passar no meu reverso, revelaram-se insuficientes para os 5 que faltavam até à reunião. “Daniela, tens de subir um bocaaaaadooo”. Mas...se bem se lembram, comigo tinha o petate já à espera de ser içado numa das cordas. “Paulo, consegues içar um pouco o petate de onde estás? Tem de ser içado do chão antes de eu começar a subir, para que não se prenda em naaaaaada”. E assim foi, Paulo numa posição precária a içar petate (num micro-friend bastante duvidoso), para depois subirmos uns metros “en samble”. Escusado será dizer, que com a sorte que nos bafejava, tanto o petate como a máquina se prenderam em todos os sítios possíveis, tornando assim, a minha chegada à primeira reunião, lenta e extenuante.

BigWall à séria no lado Espanhol. A "Terra de ninguém"anda por aí!

O dia já ia avançado e nós ali, ainda na primeira reunião. Mas a esperança estava viva “Vamos sair no fim do 1º pilar e amanhã voltamos”. Pois sim! Depois dos restantes dois largos, mais duritos do que aparentavam ser pelas fotos, pelas 17:20 aterrávamos no topo do 1º pilar, apenas para constatar que...por ali não sairíamos de certeza! A floresta que se observava na inclinada vertente adjacente era absolutamente intransponível.

Solução? Escalar o 2º pilar, tão longo como o primeiro. Havia a crença de que este pilar seria tecnicamente mais fácil que o anterior, já que a inclinação parecia menos acentuada...mais uma ilusão!

Entre as 17:30 e as 19:30 (talvez com um ligeiro sopro de sorte dentro de tanto azar?!), conseguimos transpor cerca de 120 m, repartidos por 3 trabalhosos largos. Em jeito de pequeno resumo, posso dizer que o Paulo, parecia o Dean Poter a correr pelo El Capitan acima, para além de estar preparado para trepar com um reduzido número de protecções (Eu vi! Eu vi! Fez mais de 10m em placas de pelo menos 6a, sem meter nada! Sim, daquelas em que não há mãos e em que os pés têm de ser muuuuuuitooooo bem aplicadinhos). “He’s got the balls baby”! Eu, fiquei perita em “comer” metros subindo por uma das cordas que se fixava! Os “meus” largos decorreram entre este novíssimo estilo, escalar os poucos passos em que não dava para agarrar nada, e desbloquear o petate que teimava em prender-se a tudo, a cada meia dúzia de metros à medida que subia.

Quando a noite me deu a primeira dentada nos calcanhares, pisei o topo do 2º pilar. Uf! Tínhamos conseguido chegar ao único escape da via num tempo...absolutamente record! Faltava-nos apenas arrumar tudo (sim, porque já não havia ânimo para voltar no Domingo!) e rumar ao carro carregados que nem burros. 2 horas de desgaste de botinha, com um início bastante desagradável para fazer à noite “Au...Ui...acabei de engolir uma borboleta nocturna...”! O dia terminou às 21:30 (longo, não?). Estávamos decididos, o terceiro pilar ficaria para outra ocasião. Debatíamos no jantar se a via terminaria ali, ou se um dia haveríamos de voltar para abrir o ultimo pilar. Ainda a pensar nisso adormecemos, cansados mas felizes por esta nova abertura.

Reservamos o Domingo para a Serra da Estrela, mas durante o pequeno-almoço (lá pelas 8:30) acabamos por decidir tentar a nossa sorte...no 3º pilar “...já que aqui estamos!”.

Os abutres, curiosos.

Novamente, carregados que nem burros, com o material que resolvemos rebocar até ao carro na noite anterior, fizemos toda a caminhada de acesso até à base do terceiro pilar (nesta fase já as meias teimavam em mostrar o seu padrão, através das translúcidas solas das botas).

A diferença crucial para o dia anterior, foi planearmos a coisa de forma a não haver desta vez petate para arrastar (valioso rasgo de inteligência!).

O largo de acesso ao terceiro pilar. O "solitário" espreita à direita.

Assim, no terceiro dia de aventura, pelas 11:30 estávamos novamente metidos no esporão. Desta vez, esperava-nos o pilar supostamente menos inclinado, mas a parede não deixava de nos surpreender. Dos quatro largos que escalamos com (finalmente) tranquilidade, os dois do meio foram os mais complicados da via!

No inicio do lance mais dificil. "Aqui ainda é fácil".

Pelas 14:30 estávamos no topo da falésia com um sorriso do tamanho da linha. 400 longos metros conquistados com esforço, não só físico como muito mental!

Faltava-nos apenas...mais 1h de caminhada, cansados e carregados até ao “bólide”. Uma hora de conversa sobre este e aquele e mais aquele percalço. Uma hora em que o sol nos acompanhou, assim como os comentários sobre a vontade de voltar aquele lugar onde as sensações intensas estão sempre garantidas.

Voltamos felizes deixando para trás a dança com que os abutres nos brindaram durante três longos, intensos e deliciosos dias.

Piu?!

Daniela Teixeira

Mapa de acesso

Topo


Primeiro pilar.


Segundo pilar.

Terceiro pilar.